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Full text of "O Arqueólogo português"

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ARCHEOLOGO 

PORTUGUÈS 



ARCHEOLOGO 



COLLECfiO ILLOSTRADi DE UTERIAE8 E NOtìCUS 



PUBUCADA PELO 



MUSEU ETHNOLOGICO PORTUGUES 



BEDICTOR — J. Leite K ViscmmiM 



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yeterum vclvens monumenta virorum 



LISBOA 

IMPBEXSA NÀCIONAL 

1898 -^ 



T';~ ;.' ■.; YORK 
PUBLIC Lir'.ARY 

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A8T()R, Lf-r'^JX ANfD 

'WLUfc.N KOUNDATIONS 

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) 



COLLABOEADOEES D'ESTE VOLUME 



A. F. Barata: 262. 

A. J. MIrques da Costa: 344. 

A. Mesquita de Figueiredo: 53, 238. 

A. DOS Santos Rocha: 81 ^ 

Albino Pereira Lopo: 47, 76, 87, 312, 340. 

Antonio de Vasconcellós : 226. 

Cesar Pires: 79. 

D. José Pessanha: 64, 161. 

F. Alves Pereira: 88, 231, 241, 289. 

Gabriel Pereira: 46. 

GuiLHERME J. C. Henriques: 257. 

Henriqub Botelho: 180. 

J. Leite de Vasconcellós: 58, 65, 84, 95, 96, 97, 98, 103, 153, 

154, 156, 222, 223, 239, 241, 264, 266, 270, 280, 283, 304, 

329, 338, 340. 
J. M. Pereira Boto: 158. 
JoAQUiM Henriques: 288. 
JoAQuiM DE Vasconcellós: 1, 337. 
Manoel F. de Vargas: 63, 78, 178, 225. 
Manoel Joaquim de Campos: 273. 
Paul Choffat: 62. 

Fedro A. de Azevedo: 18, 100, 135, 193, 245, 277, 288, 308, 315. 
lPjè)RO Bklcuior da Cruz: 253, 267, 274. 
SousA Viterbo: 49. 



VOL. IV -^ JANEIRO A JUNHO DE 1898 N." 1 A 6 



ARCHEOLOGO 




COLLECfiO ULUSTRADA DE HATERIAES E NOTICIAS 



PUBLICADA PELO 



MUSEU ETHNOLOGICO PORTUGUÉS 




Ìl,)l 



So 

I 




Veterum volvens monumenta virorum 
LISBOA 

IMPBENSA KACIONAL 

1898 



Damiao de Goes. 

ESTUDOS SOBRE TROIA DE SeTUBAL. 

MUSEU DE SÈVRES. 

NOTICIAS ANTIGAS DE CeUTA E TANGER. 

Castro de Sacoias (Bragan9a). 

estudos numismaticos. 

contribui9oes para a rastoria da pesca, em portugal, na ep0cha 

luso-romana. 
Circolar do Rev.^^^ Bispo de Bragan9a sobre Archeologia. 
MuDANgA do nivel do Oceano. 
Cruzado de D. JoXo III. 
NoTAS de archeologia artistica. 
Coup d'(eil sur la Numismatique en Portugal. 
Atalaia da Candaira, em Bragan^a. 
Meio-tostXo de D. SebastiIo. 
Moedas romanas achadas NA Idanha. 

O CEMITERIO DA IgREJA VeLHA (AlVAIAZERE). 

Officio-circular da ASSOCIA9AO DOS Architectos e Archeologos. 
As fortifica9(5e8 de Rabal (Bragan9a). 
dois hachados de bronze. 
Sociedade Archeologica da Figueira. 

PROTEC92O dada PELOS GoVERNOS, CORPORA9OES OFFICIAES E InSTI- 

tutos scientificos a Archeologia. 
Vaso romano de Lagos. 

ESTA9AO PREHISTORICA DE AlCALAR. 
ObJECTOS DE ARTE. 

Archeologia do seculo passado. 

excursao archeologica ao sul de portugal. 

EXTRACTOS ARCHEOLOGICOS DAS ìMeMORIAS PAROCHIAES DE 1758». 

museu municipal de bragan9a. 
Bibliographia. 
Notìcias vàrias. 

ichnoqraphia parcial das construc9oes luso-romanas de mllreu 
(EsToi, — Algarve). 



Este fasciculo vae illustrado com 27 estampas. 



ARCHEOLOGO P0RTUGUÉ8 



COLLSCgiO ILLUSTRADA D£ MATERIAES E HOTICIAS 

PUBLICADA PSLO 

MUSEU ETHNOLOGICO PORTUGUÈS 



VOL. IV JANEIRO A JUNHO DE 1898 N.«' 1 A 6 



Damifto de Goes 

(NoTisslma serie) 

1. Saa sepoltura e brasfto^ 

O livro publicado recentemente pelo Sr. G. Henriqiies * contém, a 
par de noticias valiosas, bastantes erros graves, que é necessario cor- 
rigir quanto antes, para que nSo passem a outras obras. O descuido 
da maioria do^ nossos escriptores em nSo verificarem cita93e8 e dese- 
nhos, principalmente quando se referem a monumentos epigraphicos 



^ Transerevendo a seguinte passagem do jornal mais lido de Alemquer, 
fazemo-lo com o intuito de juetificar urna iniciativa na qual noB encontràmos 
isoladoa durante longoa annos : 

ttDìzer quem foi Damiào de Goes e qnaes os 8ervi908 preatados por elle à 
patria e àa letras, seria repetir o que ha um anno dissemos neste lugar e o que 
a Bea respeito multo tem escripto o distincto e profondo hìstoriador o sr. Joaquim 
de VasconcelloB. 

«Principiando com o presente numero o segundo anno d'este jornal, nao que- 
remoB perder a occasifto de dizer que so temos de nos orgulhar por ter side elle o 
que fez renascer no espirito dos habitantes de Alemquer o nome do homem a 
quem a ingrata indifferen9a de muitos deixou no eaquecimento por tantoB annos». 
(0 Damiào de Gots, de 2 de Janeiro de 1887, n.« 53). 

2 Jneditos Goesianoe^ colligidos'e annotados por Guilherme J. C. Henriques, 
voi. I, Documentos^ Lisboa 1896, 8.<*, xxx-212, 1 Tabua genealogica e algumas 
gravuras no tezto. A declara^^o voi. i parece indicar continuatalo. Que venha, 
mas com um graosinho mais de diEcernimento no que fór critica da historia e 
exegese dos textos copiados, que Ihe dào ou que Ibe corrigem certos curiosos. 
Ha poucas semanas (Damiào de Goes : Novos esfudos^ Porto 1897) classificimos os 
merìtos e defeitos da obra do Sr. Henriques (Introduc^ào, p. xiv), affirmando que 
«OS erros em alguns capitulos, andam aos enxames». Ahi vae a demonstra^ao que, 
naturalmente, continuarà em variadas series. 



O Archeologo Poutugués 



ou a docuraeutos heraldicos, que estSo fixos em lugar determinado. 
mas longe de olhares curiosos — obriga-nos a recommendar toda a 
cautella e precaugalo. 

E sabido que o illustre chronista jaz sepultado na igreja de Nossa 
Senhora da Varzea do Alemquer, que se desfaz em ruinas. Debalde 
estamos chamando desde 1879*, em escriptos nosBOs, contra um aban- 
dono, que nos parece criminoso ! 

O Sr. Henriques insere os seguintes escudos de armas relativos a 
Damiao de Goes: 

A« — A p. 151 : escudo que Ihe concedeu o Imperador Carlos V 
em 1544, após a sua brilhante conducta na defesa de Lovania (1541). 
Foi copiado fielmente do opusculo do Dr. Hartmann* (p. 20). 

B. — A p. 152: outro escudo encontrado em um Nobiliario que 
Faria e Scusa achou numa loja de livreiro na Calle de Toledo, em 
Madrid, no fim do seculo xvii. A copia do Sr. Henriques é fiel, mas 
deveria dizer que o Dr. Hartmann cita (p. 8) comò fonte, o apo- 
grapho de Madrid, e que é sob a fé do escriptor austriaco que se 
declara que o debuxo de Madrid é igual ao desenho do Livro da 
Nobreza, mandado fazer por D. Manoel, existente na Torre do Tombo. 
Dr. Hartmann concluia isto unicamente por informa9oes enviadas 
de Lisboa. 

Nas palavras do Sr, Henriques nào ha a necessaria clareza neste 
ponto, porque nSo entendeu a linguagem allemX do folheto. 

E sabido que as declaragoes do fabulista Faria e Sousa devein 
ser recebidas com toda a cautella. 



i Fai eu que movi o Sr. Joaquim Possidonio da Silva a ir a Alemquer corno 
Presidente da Associa^ao dos Architcctos e Archeologos, repór a cabe^a escul- 
pida de Damiao de Goes, sobre a lapide latina. O Segretario da Commissào dos 
Monumentos Nacionaes, no seu ultimo Rtlaiorio (Lisboa 1893, p. 24), esqueceu o 
que escrevi na Actualidade (1879) em dois extensos folhetins, sobre o estado da 
igreja de Nossa Senhora da Varzea. 

Esqueceu ou nio sabe tambem que tenho a corrcspondencia com o Sr. Presi- 
dente em meu poder. Està à disposi^So dos collegas. Ninguem (porque duvida- 
mos que o Sr. Henriques visse andar a escuiptura aoeponta-pés pela igroja) sabia 
da cabe9a em Alemquer : eu achei-a sepultada no entulho. E se o Sr. Henriques 
vìu tal cousa, corno affirma, e nào providenciou immediatamente, ba de permittir 
que Ihe diga que nào cumpriu o seu dever, e que o seu deeantado amor pela mem^^ 
ria de Damiao de Goes nào vae longe. 

2 GeschidUe der Grafen Goea, (1100-1873), Wien 1873. 8.» de GOpagiuas ceni j 
5 gravuras e 3 Tabuas geuealogìcas. 



O Archeologo Portugués 



C. — A p. 153: terceiro escudo qiie o Sr. Henriques afBrma ser 
da Varzea. É urna mistificagao, corno vamos provar. NSo é mais 
que urna copia de Hartmann (p. 22), o qual nunca viu desenho algum 
dos emblemas heraldicos que estSo naquella ìgreja, nem a elles fez 
a menor aliusSo. 

!>• — A p. 133: retabulo com os escudos alHados de DamiSo e 
de sua esposa D, Joanna, na igreja da Varzea, lado do Evangelho. 
O d'elle é uma completa mistificajSo; o brazSo da consorte està 
errado nos emblemas e adulterado em tres das cinco inscripySes que 
exornam. 

E. — A p. 132, eni face de p. 133: insere-se a inscripjSo bio- 
graphica do chronista, que o Sr. Henriques reproduz com erros 
grosseiros *. 

Vamos por partes : comecemos por 
!>• — que discutiremos conjunctamente com E. 
O desenho publicado pelo Sr. Henriques abrange duas pagìnas, 
corno fica dito. engano comeya pelo fundo do seu desenho : 

I. fundo da parede em que o retabulo assenta nSo é silhària 
regular, mas sim azulejo historiado de 1714 (data inedita). 

II. re tabulo està trajado num desenho vago e absolutamente 
incorrecto, quando o originai se apresenta claro, correcto e evidenter 
mente da ordem ionica. anjo coUocado na cartouche que o remata 
é ridiculo ; em vez de um busto, representa urna linda cabe9a de 
eherubim alado, que adormece sorrindo. 

III. escudo de DamiSo ó uma completa mascarada; os emble- 
mas postos no campo do escudo sILo inintelligiveis ; o elmo, uma mons- 
truosidade; o timbro parece um anjo alado com corond (!!j em vez 
de um leRo crescente e rompente ; nas azas faltam-lhe todas as cinco 



^ P. 132: Varta8 casus; pulverum hunc, etc. Nova IÌ930 errada, de outras 
liyoes jà erradas em 1873. Leia-se : varios, pulverem, 

leitor perguntarà : aonde estarSo sepultados os restos do chronista e de 
sua esposa? Provavelmente no chSo da capella-mór, em face do aitar. Suspeita- 
mos que estarSo debaixo de ama grande lapide melo encoberta pelo sobrado ; a 
parte descoberta contém differentes linhas mutiladas, que se referem à obra do 
pavimento da igreja, a qual foi incontestavelmente emprehendida por DamiSo em 
sua Vida, comò consta do Processo da Inquisi^ào. Sobre a nossa leitura conjectu- 
ral vid. adeante. 

E urgente le vant amento do sobrado e pavimento, para se completar a 
leitura e verificar as condieòes em que se acha cameiro. Sr. Henriques nada 
diz d'està inscrip^So. 



O Archeologo Portugués 



quadernas de luas do escudo ; enifim, o paquife està reduzido a umas 
garatnjas pueris^ quando no originai representa urna folhagem de la- 
vor archaico, finalmente estjlizada. 

Passando ao escudo de D. Joanna, temos nova mascarada. 

Vejamos primeiro as inscripfSes do originai. 

Na 2.* linha do 1/ quartel imprime o Sr. Henriques TERWHCR. 
em vez de TERWIICK. Leia-se completo: OOSTERWIJCK*. 

No 2." quartel imprime: OESTHVM; e deve ler-se: OESTRVM. 

Agora OS emblemas heraldicos : 

SSo illegiveìs, corno se fossem desenhados por uma crian9a. 

No 1.® quartel temos tres divisoes em vez de quatro: uma corca, 
um coelho(?) e tres arruellas! Puras inven9oes. 

No 2.® quartel um anjo alado, em vez de uma aguia. 

No 3.° quartel tres quadrados com um triangulo sobreposto, em 
vez dos tres cadeados, emblemas da familia Suiis. 

Finalmente: a carranca da qual pende o escudo, corno se fosse 
um rotule & moda fiamenga, apparece transformada na cabe^a do 
um anjo. 

Resumindo : compare-se tudo com a nossa estampa. 

Passemos a outro ponto : 

E.-— Na lapide que contém a inscrip9So tumular de Damilo df 
Qoos : a cartouche que ostenta no centro o busto do chronista està mai 
desenhada; o busto parece uma cabe5a com barre te de clerigo ; na 
parte superior falta o remate, que é a Cruz da Ordera de Christo. 

Na inscripfSo ha erros graves; por ex. : variaa casus — por varto$ 
casus ; piilverum, em vez de puherem, 

Toda a pontua9ao é arbitraria. 

Sr. Henriques fica-nos a dever a chave do enigma d*esta cele- 
bre inscripfSo, que intrigou os eruditos durante seculos. 

1.°) Nao diz motivo porquc, fallando nas quatorze primeiras li- 
nhas da lapide o proprio DamiSLo, na priraeira pessoa: eques lusiianus 



^ Sao 08 titulos do8 senhoriod e alliau^as de seu pae. Sobre as inscrip^ocs 
do brasSo de D. Joanna de Hargen, vid. o nosso ultimo trabalho : J. de Vascon- 
cellos, Damiào de Gote : Novos Eatndos. Porto 1897, cap. ii. A cabega de Damiao 
de GoeSj nova ed., pp. 35-49; e cap. vii, p. 136, onde vem todas as inscrip^oes 
lapidares, e todas as heraldicas do brasào feminino. 

Sr. Henriques fez com esses cinco nomes, quo nSo soube explicar, as mais 
singulares coinbina9oe8 e estropìou tudo em 1896, p. 131. Le elle : Hargen et Oesfer- 
wick Oesihumburg auia, e logo em seguida a p. 133, de outro modo! Vid. supra. 



N08SA SEN:* DA VARZ E A - ALEMQUER - V 



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O Aecheologo Portugués 



olim fui (peragravi, snbiuij etc), passa na decima quinta linha para 
a terceira pessoa: Obiit^, 

2.**) NSlo diz que na Autobiographia do chronista o epitaphio acaba 
precisamente no firn da decima quarta linha^; devendo concluir-se que 
as restantes tres linhas, a come^ar do Obiit^ sao obra de pessoa es- 



* InscripgSo : 

DEO. OPT. MAXIM. 
DAMIANVS. GOES. EQVBS. 

LVSITANVS. OLIM. FVI. 
EVBÒpAM. VNIVERSAM. REBVS. 
AGENDIS. PERAGRAVI. 
MARTI8. VARIOS. CASVS. 
LABORESQ. SVBIVl. 
MVSAE. PRINCIPE8. DOCTIQ. 
VIRI. MERITO. ME AMARVNT. 
MODO. ALANOKBRCAE. 
VBX. NATVS. SVM. HOC. 
SEPVLCHRO. CONDOR. 
DONEC. PVLVEREM HUNC. 
EXCITET. DÌES. ILLA. 
OBIIT. ANNO. SALVTIS. 
M. D. LX. 
H. M. H. N. S. 

2 Jà o affirmàmos em 1879 ; mas nào deram por isso ! treslado mais antìgo 
d'cfita ÌDBcrip^ào, que reproduzimos em 1879 do manuscripto do padre Cruz (firn 
do seculo xvi) acaba tambem na 14.* linha. codice Castello Rodrigo (1616) do 
niesmo modo. As tres ultimas linhas, e principalmente a data, que é simplesmente 
a da reforma da capella-mór pelo cbronista, sào pois interpolla^oes. 

Pomos aqui o Indice do volume Novos Estudos para informa9ao do leitor, 
porque a tiragem foi apenas de 100 exemplares. 

Ao leitor vu 

I Ensaio blographico (1879) 1-33 

li A eabe^a de Damlào de Goes (1879) 35-19 

IH A feitoria do Portugal em Flandres (1885) 51-63 

IV Iconograpbla go6siapa — Rio de Janeiro — Paris — CoIIecffto Vauconcelloa (Estudo ine- 
dito) 65-77 

V Oa autographoB de Damifto de Gocs : Ultimos traballios da Correspondencia latina — 

Ciceri — Quintiliano — Nobiliario (Estndo inedito) 79-91 

VI Docnmentos inedltot : 93-129 

1. Explicaf&o prèvia. Autobiographia. 
8. Balthazar Dlas de Goes. 

3. A Satyra de 1554. 

4. A QuestSo dos Athaides. 

5. Carta s portugnesas inedita». 

VII Doscendentes de Damiio de Goes em Flandres (até 1680), Allemanha e Austria 231-152 

Hargen — Harambergue — Hoom — Monfoort — Trooch a Goossen — GoSse — (Nova 
ed. do Estudo de 1887). 
Erratas e Addltamento • 153 

(As datas entro parenthcsis designam as primeiras edipee» dos differentes Eatudos). 



O Archeologo Poetugués 



tranha, incluindo a data errada M. D. LX., provada corno falsa desde 
principio deste seculo *: 

Tudo isto, e mais ainda, està dito e commentado desde 1879, pornós. 

Parecem-nos problemas bem mais importantes do que a questuo, 
iim tanto ingenua, de saber-se se foi S. S.* que primeiro deu (p. xxii 
pela «falta do ponto final» (sic) após o algarismo errado. Nao deu 
porém pela nossa demonstragSo, feita ha dezoito annòs. 

Passemos a: 

C — escudo de p. 153 que o Sr. Henriques dà conio exis- 
tente na igreja da Varzea' é urna nova mystificagSLo. Sentimos ter de 
repetir isto, mas urge esclarecer o pùblico e provalo, porque um 
escudo de familia é um documento historico de primeira ordem. 
Embora o auctor nSo de o seu escudo comò cousa importante, e irate 
estas questSes heraldicas com singular ligeireza, devemos adverti-lo 
que ha mais de vinte annos alguem se esforfa por assentar a biogra- 
phia de Damilo em bases solidas; e esse alguem nSo póde admittir 
mystificajSes, nem leviandades. 

Sr. Henriques copiou esse esondo de p. 153, pura e simples- 
mente, da obra do Dr. Hartmann (p. 22); e passou-o com artes de 
prestimano, para a igreja da Varzea. Porque ? Talvez para remediar 
descuido e a impericia de quem trayou o famoso desenho, que devia 
ser da Varzea, e jà analysàmos sub !>• 

Na capella-mór ha luz mais que sufficiente para se fazer um bom 
desenho, apesar do Sr. Henriques querer convencer o leitor do con- 
trario. Nem é so Umbre, o que està errado a p. 132; é tudo, corno 
vimos. seu desenhador foi leviano. 

Alguem enganou, mas nesso caso porque nSo supprimiu o engano, 
a dupla mystificajSo, anterior, de p. 133 (com os desenhos das lapides 
errados, do chronista e da esposa) e commetteu agora, a p. 153 ter- 
ceira mystifica95o, fazendo a emenda peor do que o soneto? 



1 Retratos e Elogios de Vardes e Donas que. iUuslraram a Na^So portugueza^ 
Lisboa, em fase. 1815-17. Eccellente biographia que tem side mal aproveitada ; 
a primeira que fallou claramente do Proceseo do chronista. 

* Suas palavras: «E este o escudo que està na igreja da Varzea, o qua! uào 
vem fielmente reproduzido na gravura da pedra que neste livro don, devido tal- 
vez à pouca luz que nslo permittiu que o desenhador visse bem o timbre. Fica re- 
ctificado na gravura seguinte» (p. 153). 

Ora a emenda é peor do que o soneto ! A gravura seguinte é copia do bra- 
sSo do Dr. Hartmann ; nada tem com o da igreja da Varzea !! 



RA 



NOSSA 8EN. DA VARZEA - ALEMQUE R 



DAMIAO DE Q0E8 




\ pòi.'-'- ^^ ' ■ 



\ 




r 



O Archeologo Portugués 



Vejamos. Neste escudo de p. 163 ha a fazer as seguintes emendas 
fiindamentaes : 

1.° Falta coronel do LeXo. 

2.® elmo nSo tem coroa, mas sómente o panno enrolado do pa- 
qiiife, formando rodete. 

3.® A asa esquerda tem cinco quadernas de luas (em vez de duas), 
em aspa, conforme o campo do escudo. 

4." O desenho do paquife é totalmente diflferente. 

5.** O escudo està posto perpendicularmento na igreja da Varzea 
e nao incliaado ; o elmo ao' melo d'elle, e nSo no canto esquerdo. 

6.° Emfim: a indicagSo convencional das cores (por meio de tra90s), 
no desenho do Sr. Henriques, revela que nSo foi feito perante a escul- 
ptura originai. Sabe-se que esses trayos convencionaes nunca sXo repre- 
sentados na pedra. Bastava està circumstancia para o leitor mediana- 
mente illustrado perceber logo que a figura do Sr. Henriques foi tirada 
de um desenho graphico e nao directamente do monumento esculptural. 

Resumindo: comimre-se tudo com a nossa estampa. 

Ha mais a seguinte contra-prova do que affirmamos : 

O Sr. Henriques, citando a p. 153 a Carta Regia de D. Sebastiito 
de 15 de agosto de 1567, que confirma o escudo de armas de Damilo, 
descreye-o conforme a dita Carta, mas nSo repara que a deBcrip9lL0 
discorda do desenho, inserto logo em seguida. 

Diz: «Escudo de campo azul com cinco cademas de crescentes 
de prata em aspa; elmo de prata aberto guarnecido de euro, paquife 
de prata e azul, e por timbro um meio leSlo de prata armado de euro, 
com um coronel do mesmo entro duas azas de azul, sobre as quaes 
estam as mésmas cademas das armas semeadas». 

a) Se ha um elmo de prata aberto, guarnecido de «euro» porque 
apparece, accrescentado com um coronel f 

b) Se ha por «timbro um meio le2Lo de prata armado de euro 
com: «um coronel do mesmo entro duas azas de azul», perguntamos : 
porque razSlo Ihe tìrou o coronel f 

e) Se nas azas : «estam as mesmas quadernas das azas semea- 
das» — porque é que apparecem so duas em vez de cinco? 

N5o sabe o Sr. Henriques confrontar o texto descriptivo de um 
brasSo com os emblemas consignados nesso mesmo brasSo? 

Nao é preciso grande saber em heraldica para se chegar a uma 
contra-prova segura no sentido refendo. 

Isto comò amostra, porque ha, infelizmente, outros erros graves 
no volume, no meio de documentos de valor, por cuja compila9So Ihe 
devemos sor gratos. 



O Aecheologo Portqgués 



Esses erros formigam, por exemplo, em todas as cita9oes sobre os 
Goes da Allemanha (Austria), tiradas da obra do Dr. Hartmann. NSo 
sabemos quem foi o traductor do Sr. Henriques. que podemos assc- 
gurar ao leitor é que de p. 180 a p. 186 os erros contam-se às duzias. 

Renunciamos ao trabalho inglorio de Ih'os enumerar, mesmo por- 
que unico remedio seria retraduzir-lhe quasi todos os factos aJlega- 
doB nas sete paginas. 

Porém que poucos poderSo fazer, é ir a Alemquer comparar os 
singulares desenhos do livro do Sr. Henriques com os originaes, on 
ter urna carteira antiga de desenhos, de tal modo recheada, que per- 
mitta reconhecer, à primeira vista, que as gravuras sSo obra multo 
leviana ; emparelham cum a do respectivo texto *. 

2* A campa do chronista 

Eis a inscripfSo que està no pavimento da capella-mór, descoberta 
no dia 6 de Setembro, após quatro horas de trabalho, levantando-se 
a pesada cantaria dos degraus do altar-mór. Assistiram apenas ao 
acto signatario, o sr. M. Carme e um operano. 

DEO • OPT • MAX • 
DAMIANO • GOI • EQVITI • LUSI- 
TANO • ET • IOANNAE • HARGO- 
NIAE • BATAVAE • CONIVGIB • POS- 
TERISQ • EORVM • COLLEGIVM • 
SACERDOTVM • HVIVSCE • TEM- 
PLI • VIRGINIS • DEIPARAE • EX • 0- 
LISIPONENSIS • PONTITICIS • 
CONSENSV • CELLAM • IN • GEN- 
TILICIAM • DEDIT • SEPVLTV- 
RAM • CATTO 2 • NE • CVI • ALII EX- 
TRA • EOR^TVI • FAMILIAM • IVS • ES- 
TO • IBI • SEPELIRI • QVOD • lì • PAVI- 
MENTVM • CELLAE • EIVS • VARIO 
AC • PERPOLITO • LAPIDE • OPE- 
RE • TESSELATO • STERNEN- 
DVM • SVA • PECVNIA • 

CVRAVERVNT 

M • D • L • X • 



* Advertimos que està Parte I do presente cstudo foi escripta em Juoho de 
1897, e entregue 4 redac9ao em meado de Agosto. Em Setembro fizeram-8C as 
"pcsquizas que deram origem à Parte IL . 

2 Leia-se, talvez, C AVTE, com mais exac^ao. 



Archeologo Portugués 9 

Està inscripjao, com as lacunas que a lapide offerece, por lesXo 
grave, ponteadas as palavras de duvidosa leitura*, foi publicada pri- 
meiramente no Diario de Noticias, de 8 de Setembro, com as seguintes 
explicayoes : 

cEsta campa estava occulta sob os degraus de pedra do altar-mór 
nada menos de 0",89, nSo podendo ler-se as primeiras nove linhas. 
As dimens3es da pedra sSo as seguintes: 

«Comprimento 2"',20, largura 1™,15. Temos pois a prova de que 
Goes e sua mulher foram sepultados debaixo d'aquella pedra que, 
na parte até hoje conhecida, apenas alludia à obra do pavimento do 
tempio, mandada fazer pelo chronista em 1560, data que tambem 
é a da lapide biographica, collocada do lado da Epistola. E pois uma 
descoberta importantissima. 

«As linhas ponteadas representam mutilasoes da inscripfSo, que 
depois de citar os nomes dos conjuges, refere o contraete celebrado 
com a Collegiada, e approvado pelo prelado lisbonense D. Fernando 
de Vasconcellos. Depois seguem algumas palavras mutiladas e apa- 
gadas, que alludem à renovafSo do pavimento de mosaico de mar- 
more de duas oóres (losangos vermelhos e brancos), que reveste ainda 
boje a capella-mór. 

cDeclara a obra feita à sua custa, comò é naturai, pois tendo de 
construir o carneiro, alterou o pavimento. Resta agora mandar abrir 
a sepultura com as devidas formalidades e cautellas que a sciencia 
aconselha. trabalho nSo levou menos de quatro horas a executar. 
A inscripySo é teda inedita». 

Depois da inserfEo no Diario de Noticias^ appareceu a narrativa da 
descoberta em diflferentes jornaes da capital e das provincias. 

Citaremos sómente: Jomal da Manhà de 8 de Setembro, Diario 
Ulustrado da mesma data, Reporter de 15, Jomal de Melgago de 23 
de Setembro, etc. 

O Damiào de Goes^ periodico de Alemquer, tentou uma integragSo 
e uma traduc^So que padecem de graves defeitos. Està, é manifesta- 
mente erronea, com erros de simples concordancia grammatica], omis- 
soes de phrases e interpola9Ses arbitrarias, iste é, invenjSes ; aquella 
contém erros de pontuajSo que deturpam o sentido {Damiào de Goes, 
n.° 611 de 12 de Setembro). 

No numero immediato (19 de Setembro) deu o jomal nova tra- 
ducjSo (mas sem transcrip^So, nem emenda do originai latino), que 



* No texto as palavras truncadas vao em lettras ponteadas. 



10 Archeologo Pobtugués 

pouco melhora; falta ainda a expressSo cavalleiro lusitano; batavae 
é adjectivo, corresponde a hoUandeza, e nEo deve tradusur-se de 
Batavia, etc. Adeante oflferecemos as duas traducjoes successìvas do 
Damiào de Goes, que, verdadeiramente, exigiam terceira edi^So, no 
interesse dos proprios alemquerenses. 

O traductor, ao qiial a redacjSo nEo pode ou nSo soube offerecer 
lima leitura latina acceitavel, embarajado com as ligaduras da lapide 
leu, corno ella, assim: 

CAVTO. NECVIALIL EX- 
TRAEORVM FAMILIAM. IVSES- 
TOIBI SEPELIRi. QVODIL PAVI- 
MENTVM CELLAE 

etcì 

Recorreu ao expediente de amplificar a leitura com urna paraphrase, 
que ladeia a difficuldade, mas destroe o caracter epigraphico, do 
monumento, a concisSo lapidar da redacfSo originai e até o sentido. 
Por ultimo, temos a advertir que nunca e em parte alguma do mondo 
se admitte a leitura conjectural de urna" inscripgSo, sem que a parte 
integrada fique marcada com os signaes convencionaes, consagrados 
pela sciencia. 



* Para que haja todo o escrupulo, copiamos fielmente a leitura, dada pelo 
jornal de Alemquer. Nein o alinhamento rcspeitaram. 

Confronte o lei ter com a nossa. Repare-se na pontua9lo, absolutamente in- 
admissivel ; 



DEO. OPT. MAX. 
DAMIANO GOI. EQVITI LVSI- 
TANO. ET lONNAE HARGO- 
NIAE. BATAVAE. CONIVGIB. POS- 
TERI8Q. EORVM. COLLEGI VM. 
SACEBDOTVM. HVIVSCE TEM- 
PLI. VIRGINI8 DEIPARAB. EX O- 
LISIPONBNSIS PONTIPICIS 
CONSENSV. CELLAM. IN GEN- 
TILICIAM DBDIT. SÉPVLPV- 
RAM-. CAVTO. NECVIALII. EX- 
TRAEORVM FAMILIAM. IVSES- 
TOIBI SEPELIRI. QVODII. PAVI- 
MENTVM CELLAE EIVS VARIO. 
AC.PERPOLITO LAPIDE. OPE- 
RE TESSELATO. STERNEN- 
DVM. SVA PECVNIA 
CVRAVERVNT 
M. D. L. X. 



O Archeologo Portugués 11 

Indo no dia 20 de Setembro com o sr. Presidente da Camara, 
H. CampeSo, proprietario e redactor principal do Damiào de Goes, 
k igreja da Varzea, expliquei-lhe em face da propria còpia, feita pela 
redac§So, que o manuscripto* continha ainda cinco ou seis erros de 
pontuagEo, liga55es confusas, etc. 

Certamente que é louvavel o zèlo de servir de prompto o publico, 
mas convem ser discreto nesso zelo. A leitura . de urna inscrip^ao, 
mórraente quando mutilada, demanda tempo, estudo e experiencia. 

Pomos aqui, em face, as duas versSes do Damiào de Ooes, A-B 
e a nossa C, feita conforme as regras, fielmente: 



* A pontua9So das palavras nSo està clara sobre a lapide maltratada; 6 for- 
90S0 abstrahir em algumas palavras das ligaduras, alias sentido nSo se le. Foi 
que fìzemos em a nossa leitura. 



12 



Abcheologo Pobtugués 




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O Archeologo Portugués 13 



Quando foi coberta a lapide sepulchral com os degraus de can- 
taria, que dSLo accesso ao altar-mór? 

De que epocha é o dito aitar? 

NSo era facil resppnder a estas perguntas, nem possivel sem um 
exame minucioso das condÌ95es interiores da ìgreja. O exame fora 
até hoje tSo insu£Giciente que nem a data do pulpito, nem a do azu- 
lejo da capella-mór se encontravam em obra alguma. A primeira 
descrip9ao moderna do interior da igreja, bras5es, in8crip93es e do 
seu aspecto decorativo foi a que publicàmos na Actualidade em 1879 
(reimpressa em Novos Estudosj p. 35 e seg.) 

Completamos hoje o exame, come9ando pelos brutaes degraus. 

Quando puseram esse affrontoso remendo? 

Podemos responder hoje com bastante seguran9a, desde o momento 
em que nos degraus figuram elementos decorativos, a que é possivel 
assignar uma data determinada. Como ninguem até hoje reparou 
nestes pormenores, é necessario dar mais ampia explica9ao : 

Os degraus e o patamar de cantaria em que os ajustaram estSo 
revestidos com fragmentos de azulejo historiado, arrancado evidente- 
mente das paredes da capella-mór, pois corresponde a omatos iden- 
ticos das ditas paredes, e a fragmentos de figuras que ainda là est&o. 

Nesse azulejo, que em 1879 classificàmos* comò sondo da segunda 
metade do seculo xvn, descobrimos em principios de Agosto a data 
1714 (inedita); està visivel dentro de um rotule pintado no proprio 
azulejo, na parte superior da unica janella gradeada da capella-mór*, 
lado da Epistola, que projecta luz sobre os brasoes dos conjuges, 
eoUocados no lado opposto. Um documento de 1668 parece indicar 
que a campa estava visivel, porque dà o sentido geral d'ella (G. Hen- 
riques, InedUos, p. 89). 



^ Foi um engano, na parte relativa à capella-mór, todavia desculpavel para 
aquelles que sabem que na ceramica decorativa portuguesa um lapso de 30 annos, 
no periodo em questSo (reinado de D. Fedro II, 1683-1706) pouco ìnflue para 
a aprecia9ao do azulejo historiado. 

2 É a mesma de que falla o chronista em 1572 : 

ttltem, puz na mesma capella-mór uma vidra9a grande, com sua grade de 
ferro, e rede e bocaes de pedra lioz, e marmoree, tudo polido e duas lageas 
de marmore com has arvores e bum letreiro em latim, e huma campa de mmha 
sepultura com seu letreiro tambem em latim, bo que tudo me costou muito di 
nbeiro». (Processo de Damiào de Goes, apud Lopes de Mendon9a, p. 418). 



14 O Abcheologo Pobtugués 

Em 1714 e ainda bastantes annos depois, devia estar à vista, 
pois nXo é crivel que, coUocado o azulejo, logo o mntilassem, para 
enfeitar os degraus do altar-mór. A epocha em que a campa de Goes 
foi coberta deve calcular-se dentro do periodo que decorre entre a 
data 1714 e a epoca provavel da reconstrucfao do altar-mór. 

Era està a nossa opinilo até & descobetta da cifra 1714; hoje 
temos nio s6 esse ponto de apoio, mas podemos invocar outro. E o 
testemunho de um auctor digno de toda a fé que, escrevendo em 
1730, declara que os degraus encobriam jà a veneranda campa*. 

attentado foi commettido, pois, muito provavelmente, entre os 
annos de 1714 e 1730,- quando pretenderam augmentar a machina 
do altar-mór, à custa do espa90 reservado à capella e jazigo. 

A construcfSLo informe, que peja actualmente a capella-mór, pouco 
ou nenhum interesse desperta. 

Antes de procedermos à sua classificagSo consideremos, porém, o 
caracter e estylo da composi} So ceramica. Està arte industriai desem- 
penha no corpo da igreja uma funcfào decorativa muito importante. 

A decora9ao da nave é de factura anterior. As paredes estio 
revestidas em toda a altura com um grande padrao polychromico do 
segundo ter90 do seculo xvii, formando tapete; sSo floroes de tres 
còres (azul, amarello e branco) dentro de losangos brancos, cingidos 
de faixas e contra-faixas azul escuro. Um alizar corre pelas paredes, 
na altura de 1™,50, apresentando, em desenho seguido, o mesmo 
padrJo do centro dos losangos, orlado com um precioso arabesco. 
O effeito decorativo é bellissimo. 

Temos visto o padrSo e a orla em varios templos do paia; nSo 
deve ir alem de 1650-1670. 

Houve pois na igreja de Varzea obras por differentes vezes, desde 
a reconstruc95o da capella-mór pelo chronista. O pulpito apresenta 
a data 1554 (inedita) ; a pia està marcada 1561 ; uma capella, bSLo 
pequena, do lado do Evangelho com aboboda artezoada, cuja adito 
està vedado por um aitar de madeira, deve ter sido construida cérca de 
1550-1560. Na intersec92lo dos artezSes apresenta rotulos com a cruz 



1 «Sobre a sua sepultura se aclia tambem bum extenso Epitafio, mas procu- 
rando eu exti-ahil-o, o nào pude conseguir, porque depois se dilatarlo sobre a 
meama sepultura as escadas do altar-mór, occultando huma grande parte do 
Epitafio». (Padie Frei Manoel de S. Damaso. Verdade elvcidadu^ Lisboa 1730, 
p. 185). precioso extracto d'este douto socio da Academia Real da Historia 
vae reimpresso integralmente merecia ser ; veja-se a sua honrosa carreii-a littc- 
raria em Barbosa Machado, Bibliotheca Lusitana, iii, p. 242. 



O Archeologo Poetugués 15 

de Santo André. pulpito datado (1554), a melo da igreja; a capella 
lateral, consideravel para as dimensSes da igreja, que formava um 
dos bra90S de um cruzeiro, mas n&o chegou a completar-se com 
a saliencia do lado opposto ; a pia (1561), na extremidade da nave, 
a entrada do tempio — todos estes elementos, dispersos no mesmo 
lado do Evangelho, parecem indicar que as obras, feitas por Damifto, 
nSo se limitaram tlo sómente à capella- mór, comò reza a tradiySo. 
Na sacristia, tambem do mesmo lado, ha ainda uma fonte, cuja mol- 
dura quadrada apresenta um gracioso desenho do meado do seculo xvi; 
emfim, dispersos pela igreja, apparecem azulejos polychromicos, que 
pertencem evidentemente ao fim do seculo xvi, e nSo condizem nem 
com OS das paredes (1650-1670), nem com os da capella-mór (1714). 
Fizeram-se pertanto obras consideraveis * nos annos de 1554-1561; 
passado um seculo revestiram as paredes de azulejo polychromico ; em 
1714 forraram a capella-mór com o azulejo existente, e pouco antes 
de 1730 cobriram a campa de DamiSo com os degraus de cantaria, 
armando talvez ao mesmo tempo um,altar-mór apparatoso, dourado, 
entalhado, predecessor do actual, multo pobre. 

Ao revestimento ceramico devia corresponder uma guarnifio de 
talha adequada. A que reveste o arco triumphal e respectivos altares 
lateraes, é da segunda metade do seculo xvii ; concorda com o azu- 
lejo da nave. A bella talha da tribuna do orgSo pertence, comò o 
orgio mesmo, ao anno de 1725 e concorda com o azulejo da capella- 
mór, datado: 1714. O tecto, revestido de castanho, apresenta uma 
pintura de arabesco, cujo estylo rococò condiz com o lavor do orgao 
e da sua tribuna. Finalmente, a porta da entrada, principal, està 
tra9ada num desenho elegante que se harmonisa com as datas 1720- 
1730. Para sermos completos, accrescentaremos que um cruzeiro, 
muito maltratado, erguido no pequeno terreiro em frente da entrada 
lateral, ostenta a data 1662. 

Este ensaio de chronologia da igreja da Varzea é a primeira 
tentativa que se faz em PortugaP, e pode ser util nas vesperas de 
uma reconstrucjao. 

Voltemos agora ao assumpto principal. 



' Capella-mór em 1560 ; a campa no mesmo anno ; a lapide biographica, idem ; 
o pulpito em 1554; a pia baptismal em 1561 ; a sacristia, contìgua à capella-mór, 
tudo concorda na chrooologia e no estylo. 

2 O que o 8r. Guilberme Henriques sabia dizer, em fins de 1896, a respeito 
da Igreja de Nossa Senhora de Varzea, pode ler-se a p. 128 do seu ùltimo tra- 
balho : Ineditos Goeniaiios. Especialmente sobre o jazigo diz o seguiute : 



16 O Archeologo Poktugués 

Em 1714 coUocaram o azulejo historiado na capella-mór, o qiial 
representa scenas da vìda da Yirgem e da historìa de Santo Amaro, 
pintadas corno se fossem tape$ariaS; pendentes das paredes. 

O ter9o inferior do azulejo desenroUa idyllios campestres, traga- 
dos num desenho facil e airoso, em carUmchea de estylo baroque, 
caracteristicas e de boa e2:ecu9Ìo. Infelizmente, mutilaram a grande 
composÌ9So ceramica, tanto os paineis comò o alizar, sem o nienor 
respeito. 

Os dois ultimos grandes quadros de azulejo foram cortados bar- 
baramente, de ambos os lados: Evangelbo e Epistola, avanzando a 
mole de madeira do altar-mór até rente à parede, de modo a dimini^ir 
talvez tres metros de fundo, na capella-mór. 

Nao so as propor93es entro o comprimento e a largura d'està 
parte do tempio soffreram com a interyen9So da bruta machina, mas 



«A capella-mór, que escapou ao incendio, passados annos cahiu e foi reedì- 
fìcada por Damiào de Goes que, segando a inscrip9So que està cm urna campa, 
mandou fazer o rico solho tesselado que ainda tem». 

Da in8crìp9So, no rico solho (sic !!), nem ama palavra! 

Mas ha mais : 

«Na sacristia o lavatorio é antiquissimo, mas tosco». 

E do meado do secalo xyi, layor da Renascen9a, com um escudete das cinco 
chagas de Christo, no alto. 

A inda mais : 

«Proximo à sacristia està ama casa que, a julgar pela abobada, fazia parte 
da igreja primitiva». 

Pouco antes attribue a edi£ca9£to primitiva a epoca anterior a 1203. Ora a 
referida abobada é do meado do seculo xvi, corno os artezoes rectangulares e os 
escudetes redondos das intor8ec9oes o indicam. 

Ainda mais : nella (a tal casa) ha urna lage com a inscrip9ao : segue 

a de Pedre Annes, com differentes erros e omissoes e a data errada : xxx dias 
do mez de Junho de 1589; leia-se : xxv dis de Junho de 1539. 

Depois falla das lettras dos escudos de Goes e de sua esposa e acha nova> 
mente, comò em 1873 (Alemquer e o aeu concelho, p. 193) que parecem alemaes! 

Transcreve, logo em seguida, o lettreiro latino de Damiao e deixa-lhe dois 
cn-os graves {variae cagus por varios; pulverum em vez de pulverem) para o 
leitor juntar aos da obra de 1873. 

E assim por diante E este o eserupuloso trabalho do Sr. Henriques 

em 1896, amostra de urna so pagina (p. 128). 

Ainda a 19 de Setembro de 1897 (Commercio de Alemquer) recommenda 
o Sr. Henriques que se verifique a epocha em que a «vidra9a grande com sua 
grade de ferro e rede e bocaes de pedra lioz», que o illustre chronista diz ter 
mandado fazer, foi tapada com alvenaria. 

Onde terà o Sr. Henriques os olhos? 



O Archeologo Portugués 17 

o carpinteiro ou mestre de obras mal inspirado, lembrou-se de alterar 
o nivel e, para estabelecer o accesso ao altar-mór, construiu urna 
serie de pesados degraus de cantarla, que cobriram dois terfos da 
campa de DamiSo de Goes e de sua esposa. 

E nSo consta que houvesse protesto dos descendentes ! Agora 
urge reparar o mal. 

Nada obsta a que esse tosco, pesado e desconforme remendo seja 
apeado e substituìdo por um aitar simples e proporcionado às dìmen- 
sSes do recinto, deixando-se a descoberto os quadros de azulejo, 
depois de restaurados. 

O que alli vemos agora, é urna affronta ao bom senso. 

Informado assim o leitor, é facil responder às perguntas iniciaes 
d'este capitulo: 

Quando fai coherta a lapide sepulchral com a cantarla dos degraus 
do cUtar-mór? 

Entro OS annos de 1714 e 1730. 

E a segunda pergunta, correlativa: 

De que epocha é o dito aitar? 

Resposta: 1780-1810. 

Os degraus foram assentes para sustentar a pesada machina de 
madeira, alteando-a. 

Està jà nXo é, a nesso ver, a construc9So, levantada no intervallo 
de 1714-1730, a qual devia concordar com a talha do ovgKo e seu 
elegantissimo coreto, caprichosamente rendilhado e coberto de urna 
fina pintura polychromica, com realces de euro brunido e fosco. 

estylo da mole existente accusa o periodo que decorre do fim 
do seculo xvin aos principios do actual: 1780-1810. E uma tra^a 
banal, mas sufficientemente caracterizada na mio de obra e nas linhas 
geraes, constructivas, de modo a n3Lo admittir duvida, quando se 
conhece o estylo correspondente à epocha de D. Maria I e regencia 
de seu filho. 

Devemos, por ultimo, advertir o seguinte: Quando no dia 7 de 
Setembro foi levantada a pesada cantari». dos degraus, appareceram 
fragmentos de numerosos azulejos que serviam de calfo aos ditos 
degraus; a argamassa, que cobria a campa, ainda apresentava a 
impressàoj i. e., a tinta preta do epitaphio da campa, com bastante 
clareza, o que era indicio de cobertura nSo muito antiga. 

Porto, Outubro de 1897. 

JOAQUIM DE VaSCONCELLOS. 



18 O Archeologo Portugués 

Estudos sobre Troia de Setubal 

7. A Troia 

A por9lL0 alemtejana do distrìcto de Lisboa e grande parte do 
districto de Beja até & fronteira do Algarve constituiam o territorio 
principal da Ordem Militar de Santiago, sobre o qua! està tinba todos 
OS direitos soberanos. A capital d'este estado era a villa de Palmella ^, 
era que o Mestre da Ordem residia, tinha o seu assento o convento 
dos freires mais especialmente dedicados ao culto religioso, e onde se 
guardava o cartorio da Ordem, o qual posteriormente foi transferido 
em parte para o Archivo Naoional, ficando o restante, relativo espc- 
cialmente às propriedades ou commendas (tombos), na RepartiySo dos 
Proprios Nacionaes em Lisboa, d'onde por sua vez em data recente 
foi removido, ignoro se tudo, para o mencionado Archivo. 

A pouca distancia de Palmella, para o sul, levantou-se, talvez 
pouco depois da conquista, a principio comò aldeia de pescadores, a 
villa de Setubal a qual, gra9as à sua situa9Slo e excellencia do porto, 
se tomoli cidade importante, onde, ainda milito antes dos descobri- 
mentos portugueses, se reuniam marinheiros do norte da Europa com 
OS do Mediterraneo. Algum espa9o mais adeante desaguava na ria de 
Setubal o rio qìie vinha de Alcacer ou da antiga Salacia, a que poste- 
riormente se deu o nome de SàdSo ou Sade (Salado^). 

Em fronte de Setubal e da foz do Sade existe sem altera9ào sen- 
sivel, pelo menos desde os principios do seculo xvi, uma estreita faxa 
de areia que se prolonga bastante na direc9ao sul. Apesar da exigui- 
dade da sua superficie, ainda hoje se encontram ali bastos vestigios 
de uma povoa9ilo romana, da qual sé' perdeu o nome, suppondo-se com 
teda a probabilidade que se denominasse Caetobriga. D'este nome tem 
pretendido derivar-se os de Setubal e de Troia, que é a denomina9So 
vulgar das ruinas cobertas de areia, mas sem bases sufficientes, pois 
nos faltam as fórmas intermediasi. 



1 Palmella ó nome de mulher. Cf. Pori. Mon, HisL, Diplomata, pp. 110, 
177 e 503. Sobre a sua etymologia vide O Arch, Pori., ni, 38, nota. Cacem é tam- 
bem nome proprio masculino; a lenda j& o tiuha acbado ou conservado, corno 
86 póde ver em André de Eesende, De AntiquUatihus, etc, Romae 1598, p. 209 : 
«Loco dominabatur Cacem tyrannus Maurus etc.» Nos Pori. Mon. Hiat, apparece 
umas vezes Kacem, noutras Kazem ou Cacem : por exemplo, DipL et Chart, p. 14. 
Masaamà, nos arredores de Lisboa, é nome feminino arabe. 

2 Cf. Arch. Porty i, 84. 

3 Cf. Arch, Port, i, 59, e E. Hiibner, in Ephem. Epigr,, viii, 356. 



O Abcheologo Portdgués 19 

Às cartas de aforamentos e documentos similares provam que està 
regiflo, pelo menos de certa epoca em deante, n2o tem soffrido mo- 
difica98es importantes nas suas linhas geraes. O documento mais an- 
tigo, que descreve o terreno, tem a data de 1502, mencionando jà a 
lagoa existente prozimo das ruinas. É elle relativo à concessìo de 
uma sesmarìa situada perto da lagoa e do canal qua a liga à vasta 
bahia de Setubal, ficando distante um tiro de bésta das casas de Santa 
Maria, conhecida hoje com a denomina9ao mais terna de Nossa Se- 
nhora dos Prazeres. A sesmarìa comprehendia dentro dos seus limites 
uma fonte que tinha servido até entSLo, e, comò ficava expressamente 
notado na carta, continuarìa a servir sem impedimento às referìdas 
casas e aos passageiros viandantes. Ficava ainda mais permittido aos 
liabitantes de Setubal a continuasse do logramento da sesmarìa na 
parte que nSo tocava com a vinha, silhos de colmeias, casas e outras 
cousas que os primeiros occupadores do terreno pensavam estabele- 
cer. TSo pouco era permittido aos sesmeiros o monopolio da pedra 
que se encontrava na Troia e de que elles tinham de se servir para 
effeito da construcsSlo das casas e dos moinhos, que na mesma carta 
se concedia que fossem levantados num esteiro da lagoa ^ Està pedra 
tSU) desdenhosamente mencionada corno do dominio publico era eviden- 
temente a dos edificios da romana Cetobriga ! O primeiro proprietario 
d'este terreno chamava-se Jo&o Gonjalves, e sua molher a Allemoa, 
provaTefanente algnma allemfl ou descendente de allemSes que vieram 
eatabelecer-se em Setubal. Na VisitasSo de Troia de 1510* apparece- 
nos um JoSlo Martins, allemBlo, offerecendo a Nossa Senhora da Troia 
uma vestimenta. 

Em data que ignoramos vendeu a Allemoa, jà viuva, os moinhos, 
sendo provavelmente comprador Tristfto Delgado, cavalleiro da casa 
do Duque de Aveiro e Mestre de Santiago, que em 1541 obteve li- 
cen9a para reparar as vallas dos moinhos com a terra extrahida de 
determinado sitio. Estes moinhos passaram depois para as mSos de 
Manuel de Aguiar e Inés Delgada, que no dizer de sua filha e genro, e 
herdeiros naturaes, Luisa Delgada de Aguiar e Miguel SerrSLo os ti- 
nham comprado à Allemoa quando viuva. Como a assersSo é de 1^1, 
toraa-se provavel ha ver aqui um equivoco plausivel, pois Trist&o Del- 



^ Foi provavelmente neste documento^ unico que nos dà conta do facto, que 
se baseou Almeida Carvalho para affirmar o desbaste que tem 8o£Prido as ruinas 
desde o comedo do sec. xvi. 

2 Areh, Pori., iii, 260. 



20 O Archeologo Poetugués 

gado, se os appellidos nos nSlo enganam, era pae ou parente de loes 
Delgada. 

Em 1522 e 1527 fez doajSo perpetua o Mestre D. Jorge a D. He- 
lena de Lencastre, sua filha*, dos terrenos que a mare cobria no 
esteiro que divide a peninsula baixa da Troia do continente e para 
onde corre^um rio sem denominajSo nos mappas, o qual primitiva- 
mente teve nome de Alpena e mais tarde o de Pera. Os terrenos 
concedidos confrontavam com as charnecas de Alcacer do Sai e Oran- 
dola. 

Quando no anno de 1611 se fez tombe das propriedades da Ordem 
em SetubaI e seu termo, foi chamado perante o Juiz que procedia ao 
arrolamento o jà mencionado Miguel SerrSo^ escriv&o da Alfandega 
d'aquella villa, para dar noticia da marinha e das enseadas da lagua 
de que era usufructuario com sua molher Luisa de Andrade de Aguiar 
que evidentemente ó a Luisa Delgada de Aguiar, que julgo deseen- 
dente, pelo lado de sua mSe Inés Delgada, de TristSo Delgado. Por 
està fórma eram em 1611 proprietarios da maior parte da Peninsula 
Miguel SerrSo e sua mulher. 

Era pelo sitio da Troia que os passageiros atravessavam a bahia 
para se dirigirem para o sul, convindo-lhes mais passarem em frente 
de SetubaI do que terem de vadear em locai menos abrìgado o rio 
Sade. O trafego ainda assim nao era muito importante, e as accom- 
modajSes insufficientes obrigavam os passageiros a aproveitarem-se 
às vezes da ermida ali existente comò estalagem. Em 1611 tinham os 
viandantes ao seu dispor uma estalagem de que era proprietario Bar- 
tliolomeu de Sequeira que as lierdara de seus maiores, agraciados coni 
essa concessSo pelo mostre D. Jorge de Lencastre, fallecido em 1550. 
Nào era grande o numero de individuos, no dizer dos interessados no 
batel da passagem, que se trasladavam de SetubaI à margem fronteira. 
rendimento da passagem estava cklculado, em 1543 e 1549, na quan- 
tia de quatro mil reaes; setenta annos depois (1611) subia à cifra de 
trinta mil reaes tendo septuplicado neste periodo de tempo. Em 1528 
fìzera-se inquirÌ9So das taxas da passagem confirmadas pelo uso, e, 
a p'edido do concessionario, tinham sido elevadas. Os passageiros di- 
vidiam-se em viandantes acompanhados das suas mercadorias e gados 
que se dirigiam às povoa93es situadas na costa, segundo creio, e era 



1 D. Helcna de Lencastre foi Commendadeira de Santos em eujo legar sue- 
ccdeu a sua avo patema D. Anna de Mendon^a, amante de D. JoTio II, pelos 
aunoB de IbbO.—Historia Genealogica , xi, 34. 



Archeologo Portuguès 21 

molheres que iam apanhar ameijoas e transportavam lenha. Pela festa 
de Nossa Senhora da Troia, que, por urna noticia do seculo xviii, sa- 
bemoB tinha a denomina9ào mais precisa de Kossa Senhora dos Fra- 
zeres, à qual se faziam dibas festas no mez de Agosto^ promovidas 
pelos horteloes e pelos maritimos, era a concorrencia da gente de Se- 
tubal grande. Seria por està occasiSo que algumas povoa93es envia- 
riam cirios à Senhora. 

Em 1522 o Licenciado Pero Lopes, physico e cavalleiro de San- 
tiago, recebia a renda do batel da passagem de Setubal a Troia, com 
a clausula de Ihe poder ser retirada e substituida por outra de igual 
quantia. E assìm aconteceu em 1525 em cujo anno foi entregue a 
Antonio de Lucena, tambem cavalleiro de Santiago, coìn clausula 
identica, o que permittiu outros tres annos depois estar em posse 
d'ella novamente o Licenciado Pero Lopes. Mas em 1543 Antonio de 
Lucena recebia a posse de ìKo movimentada renda da qual gozou tal- 
vez até 1549 em que Ihe succedeu Pero Lopes. Depois so em 1611 
encontro noticia da renda do batel ser direito real e tè-la deixado 
vaga Antonio Sages Pereira. 

O attractivo principal da Troia consistia na visita & ermida da 
Senhora milagrosa, que sabemos jà existia em 1482 *. Os nomes dos 
seus ermitSes sSo por ordem chronologica: Luis Eannes em 1502, 
Pero Gongalves em 1529 e 1533, Gaspar Alves em 1606, Manuel 
Fernandes em 1623, e finalmente o Padre Macario José Ferreira 
Nabo em 1748, que ainda era vivo em 1758. As consortes dos ermi- 
tàes tinham tambem o nome de ermitSls. Quando foi constraida a er- 
mida nUo sabemos, nem tSo pouco o sabiam os contemporaneos do 
auge do seu maior esplendor, comò diz expressamente a Visita9Ro de 
1552. E poBsivel que se ligue às origens piscatorias de Setubal. Parece 
ter sido edificada por uma collectividade ou pelo povo (de Setubal), 
por isso que a camara tinha direito de nomear o ermitSlo sob confir- 
ma9So da Ordem. Os deveres d'estes serventuarios estSo exarados 
nalguns diplomas de suas nomea95es. 

De vez em quando a Ordem mandava os seus visitadores inquiri- 
rem do estado do edificio e dos objectos do culto, alguns bastante pre- 
ciosos, quo a piedade dos fieis.de todas as classes sociaes ali tinham 
levado. ProcissSes ou romagens, comò ainda hoje as vemos percorrer 
dezenas de leguas a Extremadura, passavam o rio de Setubal para 
irem abastecer os caixSes da ermida com a cera necessaria ao culto. 



* O Arch, PorLj in, 258. 



22 O Abcheologo Portugués 

e onde 6sta se reunia a numerosos ex-votos de cera e de prata ; pagas 
realizadas de pedìdos satisfeitos, segando o nesso povo. Jà Ovidio 
dizia: 

Munera, crede mihi, capìunt hominesque deosque : 
Placatur donis Juppiter ipse datis. 

{Art mmandi, ni, 653-654.) 

A este proposito animava-se a desolada regiJio da Troia, e o vinho* 
correndo a jorros, corno ainda hoje succede nas romarias, devia en- 
thusiasmar os meridionaes ali recorrentes, fazendo-lhes celebrar ruido- 
samente as virtudes da Senhora. A Senhora entSo era assaz miiagrosa, 
e entro as pessoas notaveis que a honraram com offertas conta-se a 
rainha D. Leonor, esposa de D. Jofto II, e a nera d'este rei, a esposa 
de D. Jorge, Mestre da Ordem de Santiago. 

Pela Visitayfto de 1552 se ve que «enterram dentro (da ermida) e 
asy de fora da banda do sul algus mareantes que dam a costa». Por- 
tanto as ossadas que se encontrarem perto da ermida, quando um dia 
se fizerem exp]ora93es methodicas, tem està origem. Pela mencionada 
VisitajSo fica se sabendo haver urna confraria com 365 confrades. 

Todos OS documentos sSo concordes em afiirmar que a ermida de 
Nossa Senhora é de pedra e cai. A mais antiga Visita95o, jà impressa, 
a que me tenho referido, diz expressamente : co corpo da Igreija e 
as paredes della sS de pedra e caall, asy comò as da ousya». Urna 
noticia de caracter officiai de 1611 diz a respeito da ermida ta qual 
he hua casa teda de pedra e cai». Assente este facto e sabendo nós 
que desde tempo iramemorial (di-io um documento datado de 1502. 
transcripto no tombe de 1611) a regimo onde as ruinas existem tem 
side saqueadas atrozmente^, quer para servir a pedra d'ali extrahida 
para lastre aos navios, quer para a construcySo de noros edificios, nio 
repugna crer que os alicerces e paredes da ermida estejam replectas 



1 Doc. n.° XVI. 

2 «E a tanto chegou o vandalismo, que, pelo menos, desde o comedo do 
sec. SVI, a Ordem de Sant-Iago, antiga senhoria do terreno, impunha aos em- 
phyteutas ficar fora da sesmaria toda a pedra alH ezistente, para scr applicada 
à construc^Io de casas e moinhos, e ainda depois para obras cu reparos de mari- 
nhas ou salinas, nUo podcndo nunca o emphyteuta tolher a qualqaer pessoa o 
poder alti ir buscar a pedra que quisesse. D*alli, pois, d'essas minas teem sido 
tlrados muitos milhares de barcadas de pedra, tijolos, telhas, quebrados e desfei- 
tos-, antigos monumentos, que poderiam estar hoje formando e ornando em Por- 
tugal um dos melhores museus». J. C. de Almeida €aryalho, A Sodedade Archeo- 
logica Lttsitana. As antiguidadcs extrahidas das ruinas de Troia e onde é que se 

\ acfiam depositadas, 1896, p. 49. 



O Archeologo Poetugués 23 

de pedras gravadas que tSLo uteis seriam conpetentemente estadadas 
para o conhecimento do periodo romano. E devido a um caso seme- 
Ihante que o Sr. Leite de Vasconcellos encontrou no concelho do Alan- 
droal bastantes in8crip93es romanas. Decaindo gradualmente de impor- 
lancia a ermida pelo desappareeimento do poder material da Ordem de 
Santiago, e pelo descuramento da municipalidade de Setubal, veiu ella 
assim corno as ruinas romanas às m&os de um particular, o Sr. Fran- 
cisco Cabrai de Aquino Mascarenhas, que felizmente, do que silo prova 
as paginas d-0 Archeologo Portuguis, n^o p3e impedimento às inves- 
tiga95es intelligentes do terreno. No emtanto é preciso nSo esquecer 
que numa carta de sesmarìa de 1502 se dizia «que se nSio acheguase 
(o limite da sesmarià) has casas de Nosa Senhora Santa Maria da 
Troia com hii tiro de besta». 

I 

Carta adueniencie halite inter domimim Regem et ordinem d'Ocles super 
directie uententibue per focem d'Alcazar d'Setuual e d'Palmela 

Cono9uda cousa scia a quantos està Carta uirS, comò sobre con- 
teda ,que era entro nos don Àffonso pela gra§a de deus Rey de Por- 
tngal e do Algarue duhua parte e nos don Pàày Periz por essa 
méésma gra9a Maestre da Ordin da Caualaria de Santiago eno nome 
de nos e de nossa Ordin da outra parte, sobre raz8 do Byo que uen 
de Alca9ar àà foz de Palmela e de Setuual e sobrela foz dAlpena e 
do porto dAlmadàà. e sobrelas pescarias dAlmadàà e de Sesimbra* 
e de Palmela. e de Setuual. e dAlca9ar. Eu Rey don Affonso sobre- 
dito cu outorgamento de mha moler a Raya dSna Beatrix filla do no- 
bre Rey de Castola, e de Leon e de meus fiUos. e de mhas Alias, 
don Dinis. don Afonso. dona Bramca. e d3na Samcha. E nos don Paay 
Periz. Maestre sobredito cu outorgamento de nosso Cabidóó gééral 
fazemos tal preyto e tal auéénza de nossa boa uóóntade. por prol de 
nosso Reyno. e de nossa Ordin. e daqueles que de pos nos uerram. 
que de todas as Barcas que entrare pela foz do Ryo dAlca9ar, ìK ben 
ciì panos. come ciì ferro, come cu cobre. come cu Madeyra. come ciì 
Mcthaes. come cu Coyros. come c5 Cera, come co todalas cousas que 
per hy entrare que aia ende el Rey a dizima {sic), e desta dezima 
que ende el Rey ouuer que aia ende a Ordin a dezima. E outrosi de 
todalas cousas que sayre centra ho mar. pela foz do Ryo que uen 
dAlca9ar. que aia ende a Ordin seu dereyto 

Dada foy està Carta en Santaren tres dias andados de ffeuereyro. 



24 Archeologo Poetdgués 

eL Rey o mSdou per don JohS dAuoyn sen Mayordomo mayor. e per 
don Martin Affonso. e per don AfFonso Lupiz. e per don Diago Lu- 
piz. e per don Méén Rodriguiz. e per don Pedre Eanes. e per don 
Fedro Pongo, e per Laurenfo Soariz de Valadares. e per Roy Qaraia 
dPauia. e per Joha Soariz Coelho. e per frey Affonso Periz FarTa. e 
per Marti Anes de Vinai, e per Pedro Affonso de Camera, e per 
Martt Dade alcayde de Santarem. e per Maestre SteuSL archìdiagóò 
de Bragàà. e per ffrey Giraldo da Ordin dos préégadores e per 
FfernSt FernEdiz Cogomio. e per Domlgos lohanes seu clerigo. e pelos 
outros de seu Consello. JohS Periz notayro da corte a fez. ena Era de 
Mil e trezetos e duze anos^ 

II 

Em nome de Deos amen. Saibao os que està carta de sesmaria 
virera, que, no anno do nagimento de nesso Snnor Thu Cristo de mill 
e quinhemtos e dous annos, aos vimte e sete dias do mes de Julho da 
dita hera, em a villa de Setuuall, peramte Luis de Baros, escudeiro 
da casa do Snnor duque de Coimbra, noso Snnor e seu allmoxarife 
das Remdas e diireitos da ordem de Santiago em a dita villa e ses- 
meiro pelle dito Snnor em a dita villa a seu termo, peramte elle dito 
allmoxarife paregeo JoSo Gomgallues e Alemoa, sua molher, e loglio 
por elles foi dito ao dito allmoxarife que Ihe pediSo que Ihe desem de 
sesmaria bua tera e hu esteiro da lagoa da Troja pera em ella fazer 
vinhas e casas e silhos de eollmeas e outras cousas de que se da dita ' 
tera poder aproueitar, e nò esteiro fazer moinhos de moer pSo ; e, 
visto por ho dito allmoxarife seu Requerimento, fes pergunta ao dito 
snnor, que em ho dito tempo estava em a dita villa," se Ihe daua a 
dita sesmaria, e sua senhoria Ihe mandara que Iha dese, eomtamto 
que se nSo acheguase has casas de Nosa senhora Santa Maria da 
Troia com hu tiro de besta; e, visto por ho dito allmoxarife ho pra- 
zimento do dito sfior, foi comiguo escriuXo adiamte nomeado e test^- 
munhas adiamte escritas ver a dita sesmaria e esteiro, asima da la- 
goa no cabo della; e, visto todo por ho dito allmoxarife, comò he 
cousa de que uem proueito a dita ordem, por ho poder que Ihe he 
dado per a ordena9Xo dell Rei noso snnor feita sobre tali caso e pra- 
zimento do dito snnor duque, deu e outorgou a dita tera e esteiro de 
sesmaria ao dito JoSo Oomgallues e sua molher, deste dia em diante 
pera sempre, pera elles e todos seus herdeiros e sosesores que depois 



1 Liv. 1 de Doagdes de D. Affonso III, fl. 15G. 



O Archeologo Pobtugués 25 

delles vierem; a quali sesmaria parte agiiiam com ho mar do Rio da 
dita villa, e ao levante com Ima portella e caminho de Millides do 
quali paresem as casas de Nosa Senhora Santa Maria da Troia : que 
he hSa grande meia legoa das ditas casas da portella direitamente a 
costa do mar da bamda do soli vimdo pera os med&os dareia da dita 
costa ate ho cabo da llagoa domde se mete ho dito esteiro pera Riha, 
e ao poemte parte ha dita .sesmaria com hua figeira baforeira, que 
està hu tiro de besta das ditas casas de Nosa Senhora, e da dita fi- 
geira direitamente pera ho dito Rio da bamda do norte e isso mesmo 
da dita figeira direitamente pera ho medam dareia da dita allagoa da 
bamda do sull ; ficamdo ha dita sesmaria pera logramento do pouo da 
dita villa, segumdo sempre fi)i costume, semente o logramento daugoa 
da mare que por ella entra pera moemda dos moinhos que am de fa- 
zer em sima no cabo da dita alagoa no esteiro que vai asima della ; 
e, posto que nas ditas comfromtafSes està a fomte dagoa antigua 
domde se serue a casa de noèa senhora e todos os pasageiros que vSLo 
e vem, n&o llie he dada de sesmaria ha dita fomte : semente que se 
logrem dagoa della pera sua seruidào corno todos ; e que posao apa- 
nhar pedra pera fazere suas casas ou moinhos, nSio tolhemdo que Iha 
apanhe quem qulzer segundo sempre fizer?lo ; e Ihe deu ho dito allmo- 

xarife poder que eles posSlo tornar pose da dita sesmaria 

Testemunhas que a està presemte forao FernSo Gom^allues Freire 
e Duarte Teixoira, escudeiro dell Rei, e Pero do Porto, allfaiate e 
Gill Penedo e Gomjallo Vaz, criado do dito allmoxarife, e Luis 
Eanes, jrmitSo da dita casa de Nosa Senhora, todos moradores na 
dita villa e Eu Diego Peres, escriufto do dito Snnor duque, com ho 
dito allmoxarifado e sesmarias, que està carta tresladei da nota e a 
dei ao dito JoSLo Gomgallues e sua molher pera sua guarda asinada 
por mim Diego Pires. Pagou com hida e nota semto e simcoemta 
reaes *. . . 

Ili 

Sobre Nosa Senhora da Troya 

Item. achamos que a dita Jrmida tinha huuas grades de paao de 
castanho pera o arco da capella, e, por minguoa de goIlfSaos e fecha- 
dura, nam se punham, em tali modo que a Jemte emtrava na dita 
ousia e dormjam nella e faziara desonestidades, o que era pouco ser- 



* Junto ao Doc. xxi. 



26 O Abcheologo Poetugués 

UÌ90 de deus : pollo quali mamdamos qua demtro de huu mes os ditos 
goUfSlaos e fechadura se fa;^ e as ditas grades se ponhS. no difco arco. 
As quaees estaram sempre fechadas, saluo quamdo diserem miaa ou 
quamdo quiserem correger allgiiua cousa na dita Jgreja. E o dito 
Jrmitam e mordomo seram avisados, que cumprS asy està uosa detri- 
mJDa9S ^ 

IV 

Aforamento a Senhora Dona Jlena 

Dom Jorge, etc. a quamtos està lìosa carta daforamento e fatiosTm 
perpetum uirem, fazemos saber que dona Jlena dAlemcastrio minha 
filba nos dise que daquela parte de Nosa Senhora da Troia avia Lù 
csteiro que se chamaua da Foz de Pera que vay ter a Mouta e de 
hiia parte e doutra do dito oeteiro estauS muitas terras salgadas ode 
a mare e augoa salgada chegaua asy comò se comcfaua foz do Kio 
de Pera que entra no Rio desta uilla de Setuuall e daly uaja Mouta 
que seram bem tres legoas e uay daly da Mouta ate a Malhada de 
Cima donde etra hu paull grainde que sera de comprido mea legoa e 
pela bamda da Troia cS modaoos do mar e uay ter ao Castello da 
Guera e dy uay per cbarneca ate cima da dita Mouta omde come9oii, 
e da bamda dAlcajer parte pelas charnecas Jmdo ate omde se acaba 
a terra de gima e cS outras c3fromta95e8 c3 que de direito deuem 
partir e demtro destas ci5fromta9Ses Jazem muitos sapaes e Jumcaes 

salgados as quaes teras eram salgadas maninhas e agosas afo- 

ramos e damos de foro a dita dona Jlena minha filha c3 tali 

c3dÌ9X que eia as aproveite e terras de pSo e em quaesquer outras 

bemfeitorias etc. Dada S a nosa uilla de Setuuall a xx dias de 

setembro. Pero Aluez a fez dejb^ xxij anos (1522)^. 



Dora Jorge étc. a quamtos està nosa carta uir§, fazemos saber 
que auemdo nos Respeyto aos muitos seruÌ90s que o Licenciado Pero 
Lopez, noso fìysyco, caualeiro da ordem de Samtiaguo, t§ feytos a 
nos e a dita ordem e esperamos que ao dyamte fa9a e, querSdo Ihe 



* Cartono da Ordem de Santiago j liv. 148, fl. 53. Anno de 1510. 
2 Cartono da Ordem de SantiagOf liv. 42, fi. 145 v. 



O Archeologo Portugués 27 

fazer gra(a e merce^ temos por bem que de Sam Joam Bautysta^ que 
ora xiem de b^ e xxij (1622) em dyamte, elle tenha e aja coni o abyto 
da dita ordem a Remda do batell que pasa de Setuual pera a Troya, 
asy e tam Jmteyramente corno a dita ordem pertemge e mylhor se o 
elle c8 direito mylhor pode e deiie auer: e pere mamdamos ao noso 
comtador do noso mestrado de Santyaguo que uà meter S pose do 
dito batell e Renda delle ao dyto Licenciado Pero Lopez^ segundo 
forma de seu Rygymento, pera o elle aRemdar e aRecadar a dita 
Remda comò cousa sua e de que Ihe nos temos feyta merge, sem Ihe 
a elle ser posta outra duuyda ne ebarguo; por quamto nos por està 
o temoB prouydo della, A quali Remda Ihe damos c3 tali declara(3 
que nos Iha posamos tornar quldo nos aprouuer e dar por elle outra 
Remda quSto està que Ihe tomamos Remder ; e por sua guarda Ihe 
mandamos dar està nosa carta de padrS per nos asynada e asellada 
do noso sello pedente da dyta ordem da quali nSpagara dyzymo ao 
conuento de Palmella por nS ser de contya de que temos ordenado se 
pagar o dito dyzymo. Dada S a nosa uilla de Palmella aos bj dyas do 
mes de Junho. Pero Alueres a fez de j b^ xxij (1622) annos *. 

VI 
Amtonio de Lucena as RSdas do bateU que pasa pera a Troya 

Dom Jorge e te. a quamtos està nosa carta uire, fazemos saber 
que, auemdo nos Respeyto aos muitos seruiyos que Amtonio de Lu- 
cana^ caualeiro da ordem de Samtiago, tS feytos a nos e a dita ordem 
e esperamos que hao diamte faya e por Ihe fazermos gra$a e mer^e, 
temos por bem de Ihe dar e Ihe damos as Remdas do batell da pa- 
sajS da nosa uilla de Setuuall pera a Troya Jmteiramente comò a dita 
ordem pertem9e e asy e pela guisa que as deue teer ; as quaes Ihe asy 
damos c3 todolos foros. e direitos e pertenyas e trebutos comò a dita 
ordem os ha e mylhor e mays compridamente se os elle cS direito 
pode e deue auer. E, pere, mSdamos ao noso contador do dito mes- 
trado que uà Stregar as Remdas do dito batell c3 todallas cousas delle 
ao dito Amtonyo de Lucena, segundo forma de seu Rygimento, co 
todallas Rendas delle, por quamto nos temos prouydo dellas comò dito 
he; as quays Rendas do dito batell Ihe damos C(!l tali declara9S, que 
nos Iha posamos tomar quando nos aprouuer e dar por ellas outra 



* Cartono da Ordem de Santiago, liv. 12, fl. 78 v. 



28 Archeologo Portugués 

' Remda quamto està que Ihe tomamos Render, e por sua guarda Ikt 
mSdamoa dar està carta per noe asynada e sellada do dosso selk 
Dada e a cydade dEvora a xb do mes de feuereiro. Pero Aluarez a 
fez de j b*^ xxb (1525) annos *. 

VII 

Aforamento a senhora dona Ilenia 

Dom Jorge, etc. a quamtos està uosa carta daforamento e fatiosjm 
perpetu uirem, fazemos saber que dona Ilena dAlamcastrio, minha 
filha, nos disc que daquela parte de Nosa Senhora da Tfoia aula kù 
esteiro que se chàmaua da Foz da Pera, que vay ter a Mouta, e de 
bua parte e doutra do dito esteiro estauft muitas terras salgadas, omde 
a maree e augoa salgada cbegaua, as quaes terras sam de Juncaes e 
sapaes e- bregos e partem de bua parte cS chameca dAlca9er e de 
Gradella, e da outra parte o5 estrada que vay da casa onde està a 
dita Senhora para Melides, e c<5 outras cSfromtajoes c5 que de direik« 
deue partir, demtro nas quaes c5fromta95es Jazia os ditos salgados; 
as quaes teiTas era todas salgadas maninbas e agosas e estaua des 
aproueitadas, e que aproueitamdose nos e a ordem de Samtiago Rece- 
beriamos niso muito proueito, por que alem do foro que nos pagana, 
avia mais de pagar o dizimo das lavoiras ; pedindonos por merce que 
Ibe quisesemos aforar o dito esteiro, asy està nosa uilla de Setuuall 
Receberia grado proueito por ser terra omde nò ha estas lavoiras. E 
nos ugdo seu dizer e pedir quisemos tornar primeiro Sformaga dos 
ditos salgados e auido sobretudo comprida eformajao nos pareceo que 

era euidente proueito da dita orde aforarem etc. Dada § a nosa 

uilla de Setuuall a ix dias dagosto. Pero Aluez a fez de "j V xxbij 
anos {1527)^'. 

Vili 
Ao Licenciado Fisyco acreceiitamento da pasaje do laUll da Troia 

Nos ho mestre e duquc etc. A quamtos este noso aluara vireui, 
fazemos saber que ho Licenciado Pero Lopez, caualeiro da ordem de 
Santiago, noso fisico, nos disc comò elle tinha o batell da pasagem 
da Troia, e por ser de pouca pasajem e o premio que se dele leuaua 



1 Cartono da Ordem de Santiago, liv. 13, fl. 138 v. 

2 Cartono da Ordem de Santiago, liv. 42, fl. 141 v. 



O ARCHEOLOaO PORTUGUÉS 29 

ser tam pouco e as custas do batell e a opresSo da obryga9am qiie ho 
bateleiro tinha a estar prestes e hyr as ditas pasajes a quallquer ora 
erS tamanhas quo por yso n5 podia achar barqueyros que se ecarre- 
f^ase e quixese obrigar a dito pasajc e elle ha podia mail prouer, 
}>ydÌDdonos que hacrescemtasemos o premio della, por que os tempos 
era agora de mores despesas e as pasajees do Reyno polla maior 
j3;irte erS acrescemtadas, primcipallmente que oste acrecentamento fose 
dos estramgeiros e pesoas de fora que e todalas partes pagauFt mais 
quo OS vizinhos. E visto per nos seu dizer e pidir e 'a emforma9S 
que de todo ouuemos e o pouco proueìto que ora se te da dita pasa- 
ìem e corno n5 a quere aceytar os barqueyros e quft ne9e9aria he a 
bcm comu e darse forma comò seja sempre prouidà de batell e pesoa 
que nele ande e tenha bom cuydado e Respeitando tambem a outros 
semelhantes pasagees polo asj semtirmos porbem mSdamos aquy de- 
elarar ho custume do que se paga por pasaje do dito batell, do quali 
custume tomamos primeiramente 8forma93 por pesoas amtigas ajura- 
metadas que ho be sabiam e declararam nesta maneira. 

it. que cada pesoa ezcoteira paga sete reaes. 

it. por cada besta se paga dezoyto reaes. 

it. por cada carega sete reaes ; n5 sondo de costali liado. 

it. por caregos de costasys liados se pagS a sete reaes por costali 
.3. costaes de panos e de cortÌ9a e doutras trouxas e almofreixas. 

E con tali declara9^ que ha besta salua seu dono e maneira que 
ha pesoa que traz besta por sy e por ella n5 paga majs dos desoyto 
reaes. 

it. de gado meudo .s. cabras, cameyros, ovelhas dous reaes por 
cabe9a e dos porcos a quatro reaes por cabe9a. 

it. de gado vaquu se paga segundo seu dono se ave c5 ho bar- 
queiro por que ha sua avem9a de hiiu e doutro se paga por elle. 

it. as molheres que vS apanhar as ameigeas paga cada hiìa quatro 
reaes da Jda e da vida (sic) por ambas as vyages. E se trazem fei- 
xes de lenha ou outras cousas pagS huu Reali de cada feixe. E outro 
reali do saco das ameigeas. 

it. as molheres que vS apanhar as ameigeas paga cada bua qua- 
tro reaes da Jda e da vinda por ambas as viagens. 

quali custume mMamos que se guardo comò sempre sacustu- 
mou, c5 està teper2l9a pera que se milhor posa achar sempre bate- 
leiro que tenha cargo da dita pasajem e a ordem e elle nS perei .s. 
que as pesoas de fora que n3 forem moradores ou vizinhos desta vila 
de Setuuall e seus termos page mais tres reaes por cada pesoa e por 
cada besta co as declara95es sobreditas, por que nos vizinhos ou mo- 



30 Ò Abcheologo Poetugués 

radores desta villa e seu termo nS se faz JnnouajXo e pagarao ho 
acustumado corno sempre pagarft das pesoas e bestas e das outras 
cousas ne se faz Jnnoua9So aos de fora nas outras cousas mais por 
que delas pagarft corno os da vila e se guardara nyso ho dito cnstnme 
e todos. 

E por que o bateleiro e pesoa que tS cargo do dito batell lem 
pena se n5 estiuer prestes sempre e aparelhada a seruir a dita pa- 
saje e Beceberia muito danificamento se outros bateis ou barcos ou- 
uese tambem^de pasar e Ihe leuase proueyto : madamos que quallqner 
outro batell ou barca que por dinheiro pasar na dita pasaje page dous 
mill reaes a metade pera cujo for o dito batell de pasaje e a outra 
metade pera a fabrica de Si Giam da dita villa, da quali pena sera 
Juiz noso almoxarife e pore nS SLdando o batell da pasaje ordena- 
damcnte nella e prestes e comcertado comò dito he et& n3 ecorerS e 
pena os outros que nella pasare por que, quamdo o dito batell n5 serae 
a pasajS corno he obrìgado, he ne9e9ario para be comu, podere os 
outros andar nella. 

Porem noteficamos asy todo ao dito almoxarife e a nosos oficiais 
a que pertemcer e Ihes mSdamos c5 ho cumprà e guarde corno se 
neste cont§. Feito e a nosa vila de Setuual a biij de Junho. Pero 
Coelho fez de J b^ xxbiij*». (1528) *. 

IX 

Eegisto de ASu aluara dermitao de Nosa Senhora da Troya 
da vyla de Setuvall a Pero Gongalvez^ 

Nos mostre e duque etc. A quamtos este noso aluara vyreni, 
fazemos saber que Pero Qon9alvez, morador 5 a nosa vyla de Setu- 
vall, nos apresemtou huua carta da Camara da dita vylla asynàda pelo 
Juiz e pelos vereadores e procurador e aselada c6 ho selo do dito 



* Cartorio da Ordem de Santiago^ liv. 10, fl. 133. No liv. 14, fl. 113, està 
registado um alvarà elevando o prego das paasagens.Tcm a data de 27 de Maio 
de 1528. 

* No Liv. 12 da Ckancellaria ArUiga da Ordem de Santiago, fl. 205, vem 
urna carta do ermitSo de Nossa Senhora de Troya, annexa à igreja de S. Sebas- 
tiao de Setubal, passada a Manuel Fernandes. E datada de 9 de Novembro de 
1623. Por carta de 6 de Novembro de 1748, liv. 30 da mesma Ordem, fl. 185 u., 
recebeu identico encargo o Padre Macario José Ferreira Navo, o qua! «era cos- 
tumado a hir dizer missa e se utilizavSo disse os moradores dessas prayasv. 



Archeologo Portugués 31 

Concelho per que ho dam por JrmitSo de Nosa Senhora da Troya da- 
lem do Rio por tres annos e e3 certas comdÌ9oeeB e obrygajoees ao 
dito carego, segundo na dita carta mais compridamente era eom- 
theudo; a quali demostra ser feita por Qomez da Sera, escryva da 
camara, aos dez dias do mes de dezSbro do ano pasado de mjU e b^ 
xxbiij {1528) pedymdo nos por merce que ho ouvesemos asy por bem 
e Ihe desemos noso aluara daproua^ào e comfirmafSo do dito carego 

e vysta per nos a dita carta e pelo symtirmos por be 

Feito e Lixboa a bij dias de dezembro. Pero Coelho o fez de mjll 
e b*^ xxix (1529). E oste paso pela nosa chancellaria *. 



Visitagào de Nosa Senhora da Troya 

it. achamos que està Jrmida de Nosa Senhora estaa cSfrontada e 
madida no tombe atras dito na VisitagSo passada as trinta folhas c5 
as cassas que estSo Junto della e tudo estaa corno na dita VisitagSo 
sse c5tem e por jsso n5 o pomos aquì. 

it. achamos na dita Jrmida as coussas sseguintes que se fizerS e 
ouuerSo despois da dita Vissitagao e aquelles que achamos sere gas- 
tadas das que estauS postas na dita VÌBÌta9So Ihe ficSo llogo postas 
verbas e cada huua comò assy sSo gastadas. As quaees cousas que 
assy mais achamos ssUo estas : 

It. huu Retauollo novo pintado de euro e azuU que custou xxb 
Reaes. 

it. mais huu callez de prata branco que sse n3 pesou por n3 (ha- 
ver balanga) està asy e afora oste vimos o de prata dourado que està 
na dita Visita9&o. 

it. hflu frontali de pano da Jndia que deu Dyogo FrojSo. 

it. hiiua ssaya de Nossa Senhora de damasco branco. 

it. outra de 9etim prete debruada de velludo prete. 

it. outra velha de pano de Guynee. 

it. outra de tafetaa amarello e bordada de velludo amarello e pello 
cabe9So de prete. 

it. duas ssayas de llinho velhas. 

it. hSua coyfa Uaurada de fio douro que deu a filha de Gon- 
9alo dArouche. 



1 Cartorio da Ordem de Santiago, n.« 15, fl. 3. 



32 Archeologo Portogués 

it. huua beitiiha nova. 

it. huu voUante que deu FernS Dlnis. 

it. huuas thoalhas novas de Frandes. 

it. huua pedra darà. 

it. huua calldeira de cobre nova. 

Qera 

it. huu cirio novo de Villa Nova dAUuito. 

it. outro grande pascoall dAIIca9ere. 

it. outro pascoall dos mStes e outro pequeno. 

it. quatro girios desta villa. 

it. setenta girios de mào. 

it. teni agora a dita Irniida huu asento de pomar que Ihe Ileixou 
Gongalo Neto, filho de Martym Neto^ e Onena (?), termo de Pallmella, 
que Rende ij^ xbj Reaes ; pella quali propriedade e foro Ihe silo obri- 
gados dizer huua mjsa Rezada nas oytauas de pascoa; e nS tem ou 
tra nehuua Renda, ssoomente as esmollas e ofertas que te per carta 
do dito ssenhor, segundo na dita VissitagSU) sse c<]ltem, e assy se di- 
zer as mjssas corno nella estaa decUarado ; a quali fazeda fica e poder 
de Gomes da Frota, moordomo que ora he da dita Jrmida e cifraria, 
e assy o da visitagSo passada que alnda achàmos^ 

XI 

Regiato da carta de cojlrmagào de Pero Goììcalvez^ 
Jrmitào de Nosa Senhora da Troja 

Dom Jorge, etc, a quamtos està uosa carta de confirmagSo virem, 
fazemos saber que por parte de Pero Gongalvez, Jrmytào da Jrmyda 
de Nosa Senhora da Troia, edificada alem do Rio, termo da nosa vila 
de Setuval, nos foy apresStada huua carta, que os vereadores e ofe- 
cyaes da dita vila Ihe derSl da dita Jrmyda, de que ho trelado he o 
segy te : 

A todolos Juizes e Justigas e pesoas a que està carta de Jimy- 
tSo de Nosa Senhora da Troia for mostrada, Diogo Forjam e Johao 
Roiz e Nuno Alvarez, caualeiros e vereadores que ora somos e està 



1 Carter io da Qrdem de Santiago^ n.° 264, fl. 17, Vùitagào de Setubal^ em 
1533. 



O Archeologo Portuoués 33 

notavel vida de Setuval, e JohSo RoubS, escudeiro e procurador 
do comceiho em eia, fazemos saber que, estando nos oje xxiij dias 
do mes de novembre deste anno presemte de myl e b*^ xxxij (1532) 
annos em a camara da dita vila e Felipe Roiz, cavaleiro da orde e 
almoxarife em a dita vila da dita hordem de Samtiago, provemdo no 
que comprya da dita vila e moradores dela ; logo em a dita, camara 
por parte de Pero Gongalluez,. JrmitSo que he da Jrmyda de Nosa 
Senhora da Troia edifycada alem do Rio, termo desta dita vila, de 
que a camara desta vila e vereadores della sempre tiverXo a menis- 
trafSo da dita Jrmyda de Ihe poer JrmitS e tomar comta aos mordo- 
mos e poer mordomos e JscryvSo e tomar comta dos ornamentos e 
esmolas que aa dita casa de Nosa Senhora da Troia se oferece pelos 
fies christaos desmola que Ihe quere dar, por elle foi dito que a ca- 
mara Ihe dera a dita irmyda por tres anos e Ihe fez delo carta e c5- 
frymada pelo mestre, noso senhor. 

E que por quamto os ditos tres anos eram jà pasados e alguu 
tempo mais, que pedia que nos aprouvese Ihe comfirmarmos a dita 
Jrmyda por mais tempo ou aquylo que nos bem parejese ; e eie dito 
Pero Gon9alvez e sua molher o faziam bem em servirem a dita casa 
de Nosa Senhora em tudo o que nela se comprya fazer; e visto asy 
todo o que por parte do dito Pero Gon9alvez, ermytSo de Nosa Se- 
nhora, e de sua molher nos foy Requerydo ; e visto comò o tempo 
dos ditos. tres anos de que Ihe era feita carta da dita Jrmyda eram pa- 
sados : nos aprouve per nos e camara e asy se asemtou no dito dia 
per acordos de nos ditos vereadores que Ihe tornavamos a dar a dita 
casa de Nosa Senhora da Troia, e serem o dito Pero Gon9alvez e sua 
jnolher JrmitSes da dita casa em todas suas vidas, e em quamto o eles 
asy bem fezerem corno te quy fizerSo e fazem, por sabermos que eie 
serve bem a dita casa de Nosa Senhora de JrmitS, por sabermos que 
eie tem a dita casa limpa e bem armada e alampadas acesas cada 
noute, e asy em ter agoa e lenha comtinoa pera os que vem e Ro- 
marya a dita casa e pasageiros, e asy e ter as cousas que Nosa Se- 
nhora tem em a dita Jrmyda muy bem llympas e guardadas, e nSo 
comsemtyr fazerse em a dita casa deshonestidades e maas cousas 
que per alguuas pesoas o querem fazer em meter albardas, bestas que 
se hy posam em o alpemdere que alguuas pesoas comtra sua vomtade 
quere meter; em todo tem Respeito em o fazer bem, Ihe tomamos a 
dita irmyda e sua vida comò dito he. E por semtirmos que he auto e 
de boa comsyemcya e deva9ao ; que ho faz muito bem e a servÌ90 de 
Deus e de Nosa Senhora, e outro nenhuu nSo, por que este avemos 
per bem que o seja, o qual avera as esmolas que eie pedir e Ihe de- 



34 Archeologo Portugués 

rem pera sua mantem9a de pam, vinho e dinheiro e das cousas que 
sempre os Jrmitoes da dita casa ouverSl damtygamente e segundo em 
a carta que damtes pela camara tinha o deerara, e milhor se mylhor 
c5 RezS Ihe pertemce aver, iicamdo Resguardado pera a casa aver 
Nosa Senhora Joias douro e prata e euro e cera, que sam dadas pe- 
los fies christaos per suas deva93es, e asj comfrarjas e outras cou- 
sas que pellas pesoas sSL dadas decraradamente pera uso da dita casa 
e pera Nosa Senhora, e por que desta maneira o tomamos a comiry- 
mar por JrmitS e Ihe pasamos està nosa carta per nos asynada e ase- 
lada c5 ho sello deste comselho («te), pera que todalas Justl9a8 dos 
lugares destes Regnos de Portugal o deixem pedir e aver as esmolas 
que eie pedir e Ihe os fies christSos quizerem por suas deva^Ses dar, 
asy de pSo vinho azeite dinheiro e das outras cousas que pera suas 
m^ten9a8 am mister. E per està pedimos por merce ao mestre Noso 
Senhor que asy Iha queira confrymar ; e por verdade Iha posamos 
per nos asynada e aselada no dito dia mes e ano. Feita per mym 
Gomez da Serra, escryvSo da camara em a dita vila que per man- 
dado dos sobreditos o fiz e Iha dey. 

Pedimdonos o dito Pero Gon9aUvez que Ihe confrymasemos a dita 
carta, e, visto per nos seu dizer e pedir, pela boa emforma9ao que 
temos de sua vida e custumes, e que tem bom cuydado da dita casa 
de Nosa Senhora : temos por bem e per està Iha comfrymamos asy 
e da maneira que e eia he comteudo, e mandamos que se Ihe cumpra 
e guardo sem duuyda allgua. Francisco Coelho o fez em Evora a xxx 
dias de dezembro de myll e b^ e xxxiij {1533). E està pase per nosa 
chancellaria*. 

XII 

Dom Jorge, etc. a quamtos està nosa carta virem, iFazemos saber 
que TristSo Dellgado, cavaleyro da nosa casa, nos emviou a dizer que 
tem hus moinhos demtro na Uagoa da Troia, os quaes havia dous anos 
e meo que no moiam por terem as vallas aRombadas e se nao pode- 
rem coreger sem Ihe trazerem a terra de carreto, e osto acomte9era 
outras vezes, e a dita Troia hera aRea domde se na podia fiazer, e 
avìa tres ou quatro emseadas e Recamtos de moRacais que cobre a 
maRe que tem tera que haproveita pera as ditas vallas .s. tres da 
bamda da costa e faram que he ao ponemte da dita allagoa e hìiua da 
bamda do Ueuamte que he cStra o poso amtigo domde beuem, os quaes 



^ Cartorio da Ordem de Santiago^ liv. 15, fl. 245. 



O Archeologo Portugués 35 

moracaes (sic) e emseadas nS eram de pesoa allgua e erS no sallgado 
que pertemcia annoB (sic) e a ordem^ nos pedia que Ihe ffizesemos del- 
les merge para dahi Repairare e fazerem as vallas dos ditos moinhos 
agora 6 quamdo quer que Ihe nese9ario ffose ; e, visto per nos seu 
dizer e pedir por nos parecer bom se he corno elle dis, per està carta 
Ihe damos as ditas emseadas e Recamtos de moracais que hasy cobre 
a mare pera que dellas e quando quer que Ihe comprir e quizer e 
elle e as pesoas que hos ditos moinhos tiverS poderem tirrar a terra 
para ffazer e Repairar as vallas e muros dos ditos moinhos sem Ihe 
a iso ser posto duvida ne embargo 'allguu ; porem mSldamos ao noso 
almoxarife e Juizes e hofficiais desta villa e a todallas outras pesoas 
a que pertencer que Ihe cumpram e guardem està carta comò se nella 
contem, a quali Ihe mSdamos dar per nos asjnada e asellada do 
noso sello. Dada S Setuvall a nove de margo de myll e qujnhemtos 
e quorenta e hù. Francisco Rodrigues a fez e eu Pero Coelho a fiz 
espreuer e soespriuy *. 

XIII 

A eie mesmo Amtoìno de Lucena a pasacem do hatéll 
desta vUla de Setuuall para a Troja 

Dom Jorge, etc. A quS^tos està uosa carta vire, fazemos saber que 
avendo Respeito aos seruÌ90B que Amtonio de Lucena, cavaleiro da 
ordem de Samtyago, tem feytos a nos e a dita ordem e esperamos que 
bao diante fa9a e por Ihe fazermos merce, temos por bem de Ihe dar- 
mos batell da pasagem desta villa de Setuuall a Troja e toda a 
Remda que elle Remder pera a dita pasagem c8 ho abito de Samtyago, 
asy e comò a ordem pertemce e milhor se as eie c5 direito poder 
aRecadar. E porem mSdamos ao noso contador do noso mestrado de 
Samtyago que va emtregar o dito batell e Remdas delle ao dito An- 
tonio de Lucena, segundo forma de seu Regimento, o quali batell foy 
taixado e uosa fazenda e quatro mil reaes por anno, de que ha de pagar 
de dizimo ao convento de Samtyago quatrocemtos reaes, e por sua 
garda Ihe mSdamos dar està carta per nos asynada e aselada do noso 
selo. Dada em a uosa villa de Setuuall aos vymte e dous dias do mes de 
majo. Bartolomeu Velho a fez ano do nacimento de Noso Senhor Jhù 
X**. deyb*' Riij^ (1643) anos e està pasara pela uosa chanoellaria^. 



1 Cartono da Ordem de SaTUiago, liv. 234, fl. 11 da 1.* parte. 
' Cartorio da Ordem de Santiago, liv. 21, fl. 72 v. 



36 O Akcheologo Poetuguès 

XIV 
Carta do hatdl de pasajS da Troia a Pero Uopez ed ho abito de Sàtiago 

Dom Jorge, etc. a qaamtos està nosa carta virS, fazemos saber 
que avSdo noe Respeito aos muitos 8eruÌ908 que Pero Lopez, caua- 
leiro da dita Ordem de Sam Tiago, tem feito aa dita Ordem e a nos, 
e esperamos que ao dìamte fa9a, em Remunera9So dos ditos seruifos, 
e por Ihe fazermos merce : temos por bem de Ihe darmos o batoli da 
pasajem desta nosa vila de Setuual a Troia, e toda a Rem da que elle 
Remde polla dita pasajem, com o abito da dita ordem de Sam Tiago, 
asy comò a ordem pertence e milhor se a elle com direito poder aRe- 
cadar ; e mSdamos ao noso contador do mestrado de Santiago que vaa 
Stregar o dyto batoli e Remdas delle ao dito Pero Llopez, segundo 
forma de seu Regymento, o quali batoli foi taxado e nosa fazenda e 
quatro mill reaes por fcio, de que ha de pagar de dizimo ao convento 
de Sa Tiago quatrocStos reaes ; e por sua guarda Ihe màdamos dar 
està noBsa carta por nos asynada e asellada do noso sello pedete. Dada 
aos xbiij® dias do mes de dezembro. BartoUameu Veiho a fez, anno do 
naoimento de noso Senhor Jhu Xpo de mill e quinhemtos Rix (1649), 
E està pasarà pella nosa chamcellaria. quali batoli e RSda delle 
Reniiciou em nosas mSos Antonio de Llucena que ho tinha por nosa 
carta que foi Rota*. 

XV 

Nassa Senhora da Troya 

Aos 9Ìmquo dias do mes doctubro da dita era de 552 visitou o vi- 
sitador a casa e Jrmida e cifraria de Nossa Senhora, sytuada na 
Troja, anexa a Jgreja de Sancta Maria, na manejra segujnte: 

A qual Jrmjda de Nossa Senhora n&o ha memoria de quS ha edificou. 

it. Achou por Jrmit&aes da dita Jrmida a Luis Guomez e Caterina 
Roiz, sua molher, as quaes por nfto terS carta Iha mSdou passar e 
forma, e nome da ordem. 

it. Achou por mordomos da dita comfraria Andre BrJ90s e Bastia 
Martinz e por escrivam SymSo Diaz. 

it. Tem a dita Irmjda hu aitar dalvanarìa grande c3 hu Retavollo 
de moderno, pimtado a eleo, novo, c3 seu guarda poo douro e azul, e 



1 Cartorio da Ordem de Santiago, liy. 26, fi. 32. 



Archeologo Portugués 37 

o coroamento dourado ; e no meo delle bua Jmage de Nossa Senhora 
de vultO; de madeira, pymtada, metida nu EmcasamSto o8 sua charolla 
dourada. Da jnvoca9&o de Nossa Senhora da Troya. 

ìt. bua alampada que se alumja a custa das esmollas. 

ìt. bua campaa me2a. 

it. outros dous Retavollos de Framdes, peqnenos, preguados nas 
paredes, amtiguos. 

it. ha degrao gramde dalvanaria per omde sobem pera o aitar. 

ìt. ho RecebjmSto das grades pera demtro arguamassado. 

it. buas grades no mejo da capella de castanho, amtìguas, bem 
fechadas, com seus bjcos de ferro pera porS cirios e camdeas. 

it. he a parede dalvanaria quadrada tem bua fresta da parte do 
norte que daa claridade que basta, forrada de castanbo demguado 
(sic), bem tratado. 

it. tem outras grades no cruzeiro de castanbo dalto a baxo com 
suas portas e ferrolbo bem fechadas. 

it. bua arca em que dejtam as esmoUas fecbada c5 sua fechadura 
e chave. 

it. Outra arqueta com que pedem as esmollas pella vjlla. 

it. bua pia daguoa bemta. 

it. ho arco do cruzeyro Redomdo dalvanaria c3 bu crupfiyxo de 
vulto pequeno S gima delle. 

it. he a Igreja toda ladrilbada de tosquo, as paredes dalvanaria 
boas e fortes, e empenas. 

it. tem bua campata gride posta nus paaos a de demtro da Jr- 
mida, com que tamgem a mjssa. 

it. tem ha dita Jrmida quatro frestas, o mais dellas tapado, e o 
que fica da claridade que basta. 

it. he madejrada a dita Jrmida de castanbo dasnas c8 suas lynhas. 
do mesmo, telhada de valadio de duas aguoas. 

ìt. ho portado da dita Jrmjda de pedraria, Redomdo com suas por- 
tas de castanbo^ seu ferrolbo e fechadura bem fechadas. 

it. de fora bu alpemdere 9arrado cal9ado de seyxo de la9o, ma- 
dejrado de castanbo, telbado de valladio de duas aguoas. 

it. tres casas omde està o JrmitS e se Recolhem os Romejros e 
gemte passagejra, madejradas e telhadas de valladio comò se mostrara 
na pramta. 

it. nSo tem capellam^ n§ admjnistram os santos sacramStos na dita 
Jrmjda, emterram demtro e asy de fora da bamda do asul algus ma- 
reStes que dam a costa. 

it. Estam na capella da dita Jrmjda das grades pera dentro tres 



38 O Archeologo Poetugués 

9Ìrios de comfrarias .8. hu dAlcacere e os dous dos MStes pimtados 
de folha, novos e Jmteiros, poderS ter pouquo mais ou menos todos 
dous qujmtaes e meo de yéra — iij 9Ìrios grSdes. 

E tem vimte 9Ìrios da cSfraria de mais daRatel cada hu — xx {irioB 
pequenos. 

Omamentòa da dita Jrmjda 

it. duas pedras darà .s. hua pequena que està e poder dos mor- 
domos, e outra que està na Jrmjda de Nossa Senhora. 

it. hus corporaes com ssuas guardas. 

it. hua vestimSta de veludo azul adamascado c8 savastro de ve- 
ludo cramysjm, framjada de Retros amarello verde brSco e vermelho, 
de todo comprjda forrada de bocasjm amarello, antigua, sSa de todo, 
pera servir — j vestimenta. 

it. Outra vistimSta de seda da Jmdia se savastros ne frSja forrada 
de bocasim vermelho de todo comprjda, amtigua e boa pera servir — 
j vistimenta. 

it. hum fromtal de borcadylho da Jndia c5 tres baRas de veludo 
cramjsim ameadas, sua franJa de Retros amarello vermelho e verde, 
forrado de bocasyra amarello. Novo — j frStal, 

it. tres fromtaes velhos. .8. hum destopa pintado de fyguras^ e os 
dous de alguodam da Jndia pymtados — iij fr5taes. 

it. duas toalhas velhas da Jndia que servem das stamtes — ij toa- 
Ihas. 

it. dois mjssaes .s. hu de marca me^a de mea folha Romanos. No- 
vos. outro de jertos ofijios de hua corda, velho — j missal (sic). 

Sayas de Nossa Senhora 

it. hua saya de (atim branco falso, c8 hua baRa gramde por baxo 
de veludo proto ameada — j saya. 

it. Outra saya de yatim falso baRada de borcadylho da Jndia for- 
rada de catassol vermelho — j saya. 

it. Outra saya de damasco da Jndia com huus foguos de 9atim 
amarello — j saya. 

it. huas corredijas de pano da Jmdia pymtado — j corredÌ9as. 

Os quaes ornamentos estam metidos e hua arqua da comfraria 
demtro na Jrmjda, bem fechados. 

it. hua Cruz de pedraria de fromte da porta da dita Irmjda, com 
quatro degraos, bem laurada. 



Archeologo Pobtugués 39 



Praia 

ìt. hu calez de prata cS sua patana («ic), dourado, laurado de fo- 
Ihas de cirquozes (?) que pesou dous marcos e quatro omsas e duas 
octavas — ij marcos iiij Bjas ij octavas. 

it. Outro calez de prata bramquo c5 sua patana laurado o pee de 
Romano (erquado que pesou hu marco e cimquo om9a8 e mea — j 
marco b 89as e mea. 

Os quaes calezes per peso e feJ9Óes sam etregues ao mordomo 
Andre BrJ90s e as vestimetas, fromtaes, sajas de Nossa Senhorà sam 
etregues ao JrmitS pera as ter na dita Jrmida c5 hos mais omamStos 
e toalhas ; e por verdade assynou aquj o dito André BrÌ908 c5 ho dito 
visitador. Em Setuual a b doctubro de j b^ lij (1552), Gaspar Roiz 
escrivX da visita95o ho escrevy. NS assinou aquj Andre BrÌ90s, mor- 
domo por ser fora ao mar. 

Foy tomado c5ta aos ditos mordomos de dous Snos que come9arlL 
por dia de pascoa de b** P {550) e acabarS per outro tal dia b*^ lij 
(552)^ e vysta a Recepta achousse ter Re9ebydo tfs ditos Snos : xxiiij 
bj^ Ixxbij reaes (24:677 reaes). 

E vista a despesa achouse ter gastado em 9era e outras despesas 
que fez per seu liuro de Recepta e despesa: xxiiij ix** xxxbiij rs. 
(24:938 reaes). 

E asy fica devemdo o dito mordomo a dita confraria setecetos e 
quareta reaes, os quaes forS caReguados § Recepta sobre Andre Bri- 
90S, mordomo, pera delles dar comta este %no que sinou (?) que sera 
por pascoa de b^ Iiij (553) ; e por verdade assynou aquj a b doctubro 
de lij (52), Oaspar Roiz ho escrevy. E assy Recebeo mais de Anto- 
nio da Sylveira, mordomo que foy Sno que hacabou per pascoa de 
b*^ Rbiij® (548), quinhetos e trezè reaes, ho qual dinheiro Recebeo por 
elle SymS Diaz, escrivS da cofraria, e por verdade assynou aqui. = 
Symo diaz 

it. ha na dita cifraria iij*^ Ixb (365) c5frades*. 



XVI 

Dom SebastiSo etc. fa90 saber que José de Scusa, morador na 
vylla de Setuual; me enuyou dizer por sua pitÌ9So que vendendo eie 



* Cartorio da Ordem de Santiago, n.» 193, fl. 104 e sqq., Vmtagào de Setubal. 
Houve ainda outra Yisita^ào em 1564 : é o liv. n.<> 202. 



40 Archeologo Portuguès 

vynho pelo meudo, cSforme a ley, sendo necesaryo pera hua festa de 
Nosa Senhora da Troya algu vinho, eie por nS estar em medidas meu- 
das medìra pelo meio almude dous ou tres almudes pelo pre90 das 
medidas pequenas dera o dito vinho aos almudes ete. Dada em AJ- 
mejrym a ij dabrjl de j b® Ixxiiij® {1674) *. 

XVII 

Beconhecimento que fez Mjguel Serrào a Luiza dAndrade dAguiar 
das enceadaa todas de Troja 

Anno do Nacimento de Noso Senhor Jhu Cristo de mill e seis- 
centos e omze anos aos seis dias do mes de dezembro do dito ano 
nesta villa de Setuvel nas cazas da murada do Licenciado Antonio 
Machado da Silva, Juis do tombe da mesa mostrai da Ordem de 
Sam Tiaguo, perante elle juis pareceo Miguel SerrSto, escrivao dal- 
fandegua desta villa e nella morador, e por elle foi dito em seu nome 
e da sua molher Luiza dAndrade dAguiar que elles tinMo e pesoliiao 
ora novamente por titolo daforamento em perpeto os morasais e praias 
da ordem que esfJLo na emceada da lagoa da Troja, as quais tinMo 
por titolo daforamento que Ihe era feito pelo comendador do mes- 
trado por provizSo de Sua Magestade, de que pagana em cada hù ano 
a mesa mostrai de Santiaguo duzèntos reis de foro, segumdo constou 
pella carta daforamento escrita por EsteuSlo damRiadC; escriulo da 
comtadoria, aos vimte e quatro de novembre de mill e seiscemtos e 

omze 

e declarou partirem ora as ditas praias emceadas e morasaiq da parte 
do norte com Ryo que vem dAlcacere pera està dita villa pellos me- 
dos darea que a cerquUo ate boca da lagoa por omde o mar entra 
nella e ce navega, e ao sul com mojnhos delle Miguel SerrSo e cal- 
deira delles e as mais teRas ao dito moinho anexfts, e ao leuante 
com estrada de Melides ate fonte dagoa de beber, e ao poente cos 
medoB darea que devidem a costa do mar da dita lagoa de que todo 
elle Juiz mandou fazer oste termo ^ 



1 Liv. 19 de Legitimagdes de D. Sebastiào e de D. Henrique, fl. 257. 

2 Cartorio da Ordem de Santiago, n.« 54, fl. 302, Tombe de Se tubai de 1611. 



Archeologo Portugués 41 



XVIII 

Reeonhecimento que fez Bertólameu de Sequeira das estalagens 
da Troya que ha no termo desta villa de Setuual 

Anno do nascimento de Nosso Senhor Jesu Cristo de mil e seis- 
centoB e treze annos aos trìnta e hu dias do mas de Janeiro do ditto 
anno na villa de Setuual e casas da morada do Licenciado Antonio 
Machado da Sylua, Juiz dos tombos.da messa mestral da orde e ca- 
ualaria do mestrado de Santiago^ ahj pareyeo Bertholameu de Se- 
queira, morador nesta ditta villa, e por elle foy ditto e seu nome e 
no de sua molher Natalea Froes que elles tinhSo e pessuhìSLo huas 
estalagens c<5 suas casas no citio da Troya, termo desta ditta villa, 
as quaes até agora pessuhirSo por liures se dellas paguare foro algum, 
e por via de sesmaria sem fóro a ouuerào seus antepassados do mos- 
tre Dom Jorge, que Deus tem, e bora por quauto as dittas estala- 
gens forao fejtas no salgado do termo desta ditta villa e senào po- 
dìSo pessuhir sem foro e por outrosj estar julgado por sentega do 
supremo Senado dos juizes dos feitos delRey comò a ditta estalagS 

pertenfia a messa mestral da Orde de Santiaguo 

e declarou partir e confrontar hora a ditta estalage da parte do norie 
c3 Ryo desta villa de Setuual e ao sul, leuSite e poente c3 terras 
da Troya que pessue Manuel Serrilo desta ditta villa de que todo 
elle Juiz m^ou fazer este termo ^ 



XIX 

Reeonhecimento que fez Miguel Serrào de hua Marinha 
que està no Ryo de Pera, termo desta villa 

Anno do nascimento de Nosso Senhor Jesu Cristo de mil e seis- 
centos e doze annos aos dezanoue dias do mes de Junho do ditto 
anno nesta villa de Setuual e casas de morada do Licenciado Anto- 
nio Machado da Sylua, Juiz dos tombos da messa mestral da Orde e 
Caualaria do Mestrado de Santiaguo, perante elle pare$eo Miguel 
Serralo, morador nesta ditta villa, e per elle foj ditto em seu nome 
e de sua molher Luisa dÀguiar de Andrade que elles tinhSo e pes- 



1 Cartorio da Ordem de Santiago, ii.<» 54, fl. 304, Tombe de Setubal de 1611. 



42 O Archeologo Pobtugués 

suhiao hua marinha no Ryo de Pera, termo desta villa, forejra a 

orde de Sam Tiago em hua galinha ou trinta reis por ellas 

e declarou partire cSfrontar a ditta marinha da parte do norte com 
morra9ais que vem dar ao Ryo de Setuual da mesma marinha, e do 
sul com morra9aÌB que vSo pera a cSporta, e ao leuante com madre 
daugoa do Ryo de Pera, e ao poente com terras da Troya delle Mi- 
guel Serrao, e por elle Juiz foy mandado aj untasse o titulo que tì- 
nha da ditta marinha ^ 



XX 

Tem mais a orde na ditta villa hua barqua de pasagem que atra- 
uessa Ryo della para a Troya que he Direito real que foy emco- 
mendada a Antonio Sages Pereira porque vagou, vai de trinta mil 
reaes para cima de que so pagSLo os concertos da fabrica da barqua ^. 

Hermida de Nossa Senhora da Troya 

Ha no termo desta villa de Setuual alem do Ryo que vay della 
para Alca9er que se distancia de hua legoa na outra terra chamada a 
Troya hua hermida da InuocafSo de Nossa Senhora chamada Nossa 
Senhora da Troya, a qual he hua casa teda de pedra e cai, madej- 
rada de castanho e forrada, ladrilhada per bayxo con seus poyaes ao 
Redor e para a parte do poente tem hiì portai de pedraria redondo 
e na parede desta hermida para a parte do leuante està hum arquo 
de pedraria Redondo c3 suas grades, o qual vay a hiìa capella outro 
sy toda de pedra e caal forrada e madeyrada de castanho. 

Na parede desta capella de fronte do arquo està hum Aitar c5 
seu degrao ao pee e em 9Ìma delle hi! Retauolo pintado e dourado e 
no meyo delle a Imagem de Nossa Senhora em vulto de boa grS- 
dura. A porta principal desta hermida està hii Alpendre todo em 
Roda fejto a maneira de casa de pedra e cai c5 seu portai de pedra- 
ria redondo. 

Pertence està hermida c3 suas casas que ao Redor tem, em que 
pousa hermitSo della e os mordomos quando a ella vSo, a ordS de 
Santyago por estar em sua terra situada. 



^ Cartorio da Ordem de Santiago, n.» 54, fl. 394, Tombo do Setubal de 1611. 
* Cartorio da Ordem de Santiago, n.« 55, fl. 13, Tombo de Setubal de 1611. 



O ÀBCHEOLOGO PORTUGUÉS 43 

He hoie hermitSo desta hermida Gaspar Alvez ^ por caria de Sua 
Magestade corno gouernador e perpetuo administrador qae he do ditto 
mestrado e ordS de Santiago passada pelos deputados da Messa da 
Consciencia e ordens. E c3 o ditto cargo ha somente as esmolas que 
OS fieis christSos Ihe querS dar por sua deua92lo e te de obriga9&o de 
a ter sempre e limpa e bS concertada. 

Perten^e a fabrica desta hermida aos mordomos e confrades della 
con seus ornamentos de que o Juiz dos tombos màdou fazer estermo 
feifte termo) que assynou comigo escrjvJto Mattheus dAguiar que o 
escrevj.s=3^n^onio Machado da Syltia,=Matheu8 dAguiar '. 



XXI 

Reconhecimento que fez Miguel Serào dos teRaa 
e mojnhos da Troja 

Amio do Nacimento de Noso Senhor Jesu Cristo de mill e seis- 
cemtos e omze annos aos quatro dias do mes de outubro do dito ano 
nesta villa de Setuvel nas pouzadas da murada do Licenciado Anto- 
nio Machado da Silva, juis dos tombos da mesa mestral de Santiaguo 
que por provizFLo delRey noso senhor corno mestre e gouernador que 
he do mestrado e ordem de Santiaguo amda fazendo o tombe das 
propiadades e mais cousas pertemcentes à dita mesa mestral da dita 
ordem, perante elle pareceo Miguel SerrSo, morador nesta dita villa, 
e dice em seu nome e em nome de Luisa Delgada (sic) dAguiar, 
sua molher, que elles pesohiSo e tinh^o hua teRa e hii estejro na la- 
goa da Troia em que tem uinhas cazas e cilhos de colmeas e asim 
mojnhos que ouverSo per eramga de seu pai e sogro Manuel dAguiar 
e Ines Delgado, sua molher, os quais ouverSo amtiguamente per 
compra dallmoa, molher que foi de Joam Gomsalves, a quem forEo 
dadas de sesmaria pelos oficiais do mestre no ano de mill e qui- 
nhentos e dous comò consta de hiia carta de sesmaria que apre- 
zentou ^ 



1 Adeante no mesmo Tombe vem o termo de reconhecimento que Gaspar Al- 
vez assignou de cruz, pelo qaal se ve ter recebido carta de ermitSo em 13 de 
dezembro de 1606. 

* Cartorio da Ordem de SanHago, n.» 55, fl* 341, v. 

5 É n.« I. 



44 O Archeologo Portugués 

e declarou comfrontarem as ditas teRas e partirem da bamda do 
norte com Rio que vem dAlcacere do Sai e do Sul com porto de 
mar e strada que vai pera Melides, e ao levante com Rio de Pera, e 
ao poente com a costa do mar, e loguo outrosi aprezentou hiìa sen- 
temga que se ouve na mesa da comciencia * 

XXII 

Comprehende mais a dita freguezia seis Ermidas ou Capelas su- 
fraganeas a saber a de Nossa Senhora dos Prazeres no citio da Troya, 
que dista desta vila buma legoa, que ocupa entro huma e outra o Rio 
Sàdo, ficando a Troya à parte do Sul e a vila à parte do Norte, e 
na dita Troya ainda no tempo prezente se descóbrem muitos vesti- 
gios de grandes edificios que sempre mostra ter sido huma grande 
povoassSo fundada por Tubai, tambem nas prayas da dita Troya se 
tem descoberto e achado algumas moedas de varios metàis e deversas 
figuras e letreiros humas do Emperador Tito, outras de Nero, e Ves- 
paziano, dizem que em poder de Francisco Manuel de Brito desta 
vila se concerva huma tal moeda de ouro com as figuras de Nero 
debaixo dos pés de Vespaziano e oste com bum punbal na mao mos- 
trando que com elle o tiuba morto cuzido a punhaladas^. A imagem 
desta Senhora he muito milagroza em cuja Igreja se selebrSo em o 
mes de Agosto duas festas annuaes, huma pelos Orteloens da terra, 
e outra pelos homens maritimos a que concorrem grande parte do 
povo desta villa. 

Tem seu capelao quo ho o Padre Machàrio Joze Ferreira Nàbo 
posto pelo senhor Rey Dom JoSo quinto, que està em gloria que na 
dita Capela dis missa todos os Domingos e dias Santos de guarda em 
cada bum anno para os pescadores asim da Costa corno do Rio ouvirem 
missa, e bem asim os navegantes catolicos, que vam lanyar os Làstros 
fora aquele citio ^. 

A outra fonte tambem està no termo desta vila e districto desta 
freguezia de SSo SebastiSo no citio da Troya, que divide o mar do 
rio e dista huma legoa por agua que he a largura que apanha o tal 



^ Està sentenza que vem transcripta no Tombe nada adeanta. Cartono da 
Ordfja de Santiago, n.*» 54, fl. 538, Tombe de Setubal 1611. 

2 Ha um typo vnlgar nas moedas romanas que representa um guerrciro 
arresta» do um prisioneiro. 

^ Diccionario Geographico, ms., t. xxxiv, fl. 1108. Anno de 1758. 



O Archeologo Portugués 45 

rio a qual agua he singular para as obstru9oens que as disfas e abre 
a vontade de corner cujo efeito Ihe comunicSo as raizes da erva de- 
vina que naquele terreno se crìa que produzem o mesmo efeito e 
tanto estas corno a mesma agaa sam procuradas de muitas e diversas 
partes *. 

Fedro A. de Azevedo. 



Museu de Sèvres 
Faian^as portngaesag 

Os museus de Fran9a estSo-se constantemente enriquecendo, nSo 
so por acquisijSes feitas à custa do Estado, ma« por generosos dona- 
tivos particalares. 

Nam dos i]Itimos numeros do Tampa encontramos nós a rela9So 
dos objectos que deram ultimamente entrada no Museu de Sèvres, 
entre os quaes avulta uma colIecfSo enviada pelo engenheiro francès 
Sr. Charles Lepierre, professor de chimica na escola industriai de 
Coimbra. 

Està collecgSo comprehende 229 peyas, que formam um quadro com- 
pleto dos especimes da industria ceramica em Portugal. 

O Sr. Lepierre juntou a està remessa uma interessantissima me- 
moria manuscrita, em que estuda os diversos processos de fabrica- 
9S0, e dà a analyse dos barros, entre os quaes famoso barro de Es- 
tremós, de que antìgamente, segundo se diz, as fidalgas portuguesas 
e hespanholas usavam comò gulodice. Conta madame d*Aulnoy — vae 
a asser9So sob a sua inteira responsabilidade — no seu Voyage d'Es- 
pagnej que os confessores a maior parte das vezes so Ihes impunham 
a penitencia de passarem alguns dias sem comerem o barro ^. 



* Diccionarto Geographico, ma., t. xxxiv, fl. 1116. 

* [Sobre este costume, tanto em voga em Hespanha no seculo xvii, escreveu 
um interessante artigo o Sr. Alfredo Morel-Fatio, in Mélanges de PhUologit 
romant dediés à Cari Wahlund, Macon 1896, pp. 41-49. O illustre professor da 
École pratique dea Hautes Études, de Paris, conunenta com a sua costumada eru- 
dirlo, e conhecimento especial que tem da litteratura hespanhola, as palavras 
de M"" d'Aulnoy citadasna locai aqui transcrita do Diario de Notìcias, sobre as 
quaes nSo póde haver a menor duvida. artigo do Sr. Prof. Morel-Fatio inti- 
tala-se «Gemer barro». — J. L. de V.]. 



46 Archeologo Poetugués 

Fora para estimar quo o estudo do Sr. Lapierre Be vulgarizasse 
em portugués e que nas nossas escolas industriaes se formassem col- 
Iec9SeB, methodicamente organizadas e classificadas corno aquella que 
foi remettida para o Museu de Sèvres. 

(Do Diario de Noticias, de 7 de Janeiro de 1898). 



Notioias antigas de Ceuta e T&nger 

I 

«Copta cidade em ho estreyto herculeo em fronte de Gybraltar. 

Em tempo dos mouros estava nesta cidade huma muj fremosa e 
grande cisterna, a qual oje neste dia està ajnda que jà cahe e se 
quebra. E tambem os christaSs a quebram por respeito dos mouros 
que alli se metiam e escondiam. Està cisterna he feyta dabobada e 
tem dentro III*^ e tantos (300 e tantos) pilares de pedra. Està cisterna 
he tam grande comò hum lugar de 500 vezinhos e he teda ladrilhada 
com azulejos ou tijoUos vidrados. 

Tanger jaz cince legoas de Alca9ar Ceguer Tem porto e baya 

que tem huma legoa de penta a penta. 

E da outra banda estam hums edificios velhos onde em outro 
tempo foy huma cidade muy grande e se chama Tangere velho, porem 
OS mouros dizem que em tempo antijgo estavam aquì trez lugares e os 
chamavam per seu arabigo Tango, s. o novo, e Angee. s. o velho, e 
Fango era huma cidade abaixo em a praya a qual ho mar alagou e he 
cuberto de area porem achanf la ainda muytas cousas da poyora$ain. 

Em està cidade desfezerom certas torres comò em qualquer das 
outras que os christaSs desfezerom amtre as quaes acharom huma 
que debaixo do chaEo de licece e Ucece tinha huma abobada (arrada 
e come9aromna quebrar, e em rompendo hum buraco ouvirom huma 
voz ou hum brado grado queyxoso, forom espantados, porem os oflS- 
ciaes seguirom seu comejado trabalho cuydando a descubrir algom 
grande thesoro. E quando chegarom abaixo acharom em a parede 
hum buraco à maneyra de janella bem corregida em a qual estava 



O Archeologo Portugués 47 

huma ymagem de metal de dous palmos em longo nùu teendo em 
huma mSo huma [clava] do mesmo metal ^ E outro tanto acharom em 
Arzilla e os levarom a elrey dom Affonso a Portugal ho qual os deu 
a hum Judeo mestre Josepe e em seu poder os vii e dizem que em 
Copta e Alcacer estam outros porem ainda nam som achados». 

(Ms8. de Valentiin Femandes (see. xv) sobre Descobrimentos dos Portugue- 
ses, — que se encontram na Bibliotheca Beai de Munich, pp. 45-48). 

Gabriel Pereira. 



Castro de Saooias (BraganQa) 

Mais uma povoa9So morta^ que està para ahi, a norte de Sacoias, 
a 10 kilometros de Braganga, numa pequena collina da margem di- 
reità do rio de Igrejas afluente do Sabor, aonde o visitante encontra 
vestigios bem distinctos aiuda de uma esta^So luso-romana, que, a ava- 
liar por elles, teve logar importante durante o dominio do grande povo. 

Como todas as esta^des archaicas d'essa epocha, a sua situa9So 
satisfazia em grande parte ao principio tactico de difBcultar, pela con- 
figuragSo do terreno, o accesso ao atacante ; e estava protegida por 
duas ordens de fortifica95eB; formadas, comò parece, por um fdsso e 
por uma cintura de muralha de pedra solta. 

Além d'estes restos de obras de defesa, encontram-se signaes de 
alicerces de casas, abundantes fragmentos de tijolo, de lou$a, e de mós 
de granito e de lousa. E tem apparecido lapides funerarias romanas, 
que existem no Museu de Bragan9a; peda908 de objectos de ferro e 
de cobre; moedas; e um bezerrinho de bronze^ que se suppSe ser um 
ex-Yoto, que està no Museu da Sociedade de Martins Sarmento, em 
GoimarSes^. 

É notavel a impressSo que se sente ao percorrer aquelle locai 
onde jaz um Flao e um Talocio que foram, sem dùvida, homens prin- 
cipaes que presidiram às gera9Ses que viveram por aquelles sitios, e de 
quem a unica memoria que nos resta, é o nome esculpido toscamente 
em peda90s de granito, que a natureza, no seu labor de transfor- 



* [Trata-se provavelmente de Hercules]. 

2 Vide o sea desBnho in Arch, Pori,, i, 313, acompanbado de um artìgo do 
director d'està revista. 



48 O Archeologo Portugués 

iDa9^o, e homem, na sua insania de de8truÌ9ao^ ainda nSo puderam 
apagar totalmente. 

Estas cinzas do passado e a situafao topographica do sitio, que 
està comò que escondido e assombrado pelas elevajSes que o cercam, 
convidam à medita9ao e levam o espirito a converter em realidade o 
que a imaginaf^o architecta num momento de mysticismo, que toca a 
alma ao contemplar a realidade da pequenez das grandezas Imma- 
nas. E d'ahi provém, talvez, a crenja viva dos sacoienses, que bem 
se revela na maneira encantadora comò narram os milagres de Nossa 
Senhora da Assump9Jlo, cuja imagem està agora na sacristia da 
igreja do povo, mas que em 1640 tinha a sua morada junto das rui- 
nas, e de que os sinos, segundo a tradÌ9So, tocaram «so por si», em 
signal de regosijo, por occasiSo da fausta acclama9So de D. JoSo IV. 
E que ao principio que a mudaram para a sua nova habita9ao, ella, 
à primeira badalada da Ave Maria^ fugia para a sua antiga residen- 
cia, d*onde tinha assistido aos folgares das popula93es circumvizinhas, 
que no dia da sua romana, que era em 15 de Agosto, dia em que se 
fazia tambem uma grande feira, Ihe iam levar as suas offertas em tes- 
temunho de gratidSto pelos benefìcios que tinham recebido *. E por ella 
tinham passado os seculos, e em roda de si se tinha formado longa 
historìa, de que a unica pagina que existe s3o essas ruinas^ que nSo 
queria abandonar por conterem as jazidas dos que cheios de fé Ihe 
imploraram protec9ao desde que os deuses do paganismo se transfer 
maram em phantasmas lendarios, que foram a occupar os bosques e 
as soIidSes das montanhas. 

Tal é Castro, que uma vaga tradÌ9ao dos naturaes diz ter aldo 
a Villa de Crodia, que fica, comò se ve do esbÓ90, junto e em frente 
de Sacoias, que é logarejo pobre e triste, de pouco mais de trinta 
mesquinhas casas de pedra solta e cobertas de lousa, situada entre 
duas pequenas linhas de agua affluentes da margem direita do rio de 
Igrejas. 

Mas, se geographicamente o seu nome nS[o é conhecido, nSo Ihe suc- 
cede o mesmo historicamente, pois elle indica um monumento archai- 
co, que mais tem prendido a atten9So dos que se tem dedicado às in- 
vestiga95e9 archeologicas ; e tudo induz a crer que sera elle o que no 
futuro mais venha a esclarecer a historia desta regiSo durante o do- 
minio romano. 

Albino Pereira Lopo. 



* Cf. artigo intitulado «Gruta da Senhora de Carnaxide», publicado in 
Arch, Port>^ i, 182-189, pelo seu redactor. 



O Archeologo Pobtugués 49 



Estudos numismatioos 
II 

Fftbrieo <U moed* nos A^ores e em Lamego — Umft esUiisttea moneUrU do seeulo un 

Só duaa vezeS; e em perìodos de agita9So revolucionaria, transito- 
riamente, se fabricou moeda nos Ajores. A primeira ve» foi depoìs 
de 1580, no tempo em que dominou ali o Prior do Grato, o rivai inaia 
pertinaz que Filippe II encontrou na sua pretenjSo à coroa de Por- 
tugal. A segunda, jà no presente seculo, foi no tempo das noasaa lutas 
intestinas entro os partidarios de D. Pedro e D. Miguel. 

Em 1829, a Junta provisoria que governava na ilha Terceira em 
nome de D. Maria II estabeleceu em Angra mna officina monetaria, 
em que se fundiram moedas obsidionaes de cobre, conhecidas vulgar- 
mente pelo pittoresco nome de maluco9. 

Anteriormente ao Prior do Grato, houve quem alvidrasse k coroa de 
Portugal a ideia de se fundar uma casa da moeda na cidade de Angra. 

No seculo XVI o archipelago a9oriano era muito frequentado por 
navios que vinham tanto das Indias orientaes comò oceidentaes. 
Naquellas aguas pairavam as esquadras de Portugal e Hespaiiba à 
espera das frotas da India e da America, para as comboiar aos por- 
tos da Peninsula. Eram tambem, por isso mesmo, o ponto que os cor- 
sarios escolhiam de preferencia para realizar as suas mais vaiìosas 
presas. 

A cidade de Angra, na ilha Terceira, era um dos portos de escala, 
que mais naturalmente attraiam os navegadores. Ali vinham os navios 
a refrescar, mas infelizmente as condigSes economicas da ilha nSio se 
prestavam ao desenvolvimento naturai de grande trafico mercanti!. 
Abundavam os generos, mas escasseava o principal elemento de tran- 
8ac9So, a moeda. Os carregadores traziam euro e prata, metaes pre- 
ciosoB extraidos principalmente das minas da America, mas nUo havia 
na terra quem Ih'os quisesse tomar, porque ignoravam o seu verdadeiro 
valor e nSo se queriam arriscar a fazer negocio senào em condi^569 
muito doras para uma das partes. Assim algumas vezes ficaram em 
penhor por98es de metal que valiam o decuplo do objecto vendido. A 
ambÌ9So e a usura aproveitavamse d'estas circumstanclas^ porque 
acontecia nSose vir resgatar o penhor. Gusta a crer que nSo houvesse 
alguem que tomasse sobre sì a iniciativa d'este negocio, que, embora 
estivesse sujeito a risco, promettia, em compensa9SLo, grandes lueros. 
Com isto perdia a prosperidade da terra, e a fazenda real deixava de 



50 O Archeologo Poetugués 

cobrar a parte que Ihe cabla nos direitos do grosso trato de mercado- 
rias que se podia realizar. 

Para obviar a estes graves inconvenìentes, que revelavam grande 
atraso economico, e tristissima comprehensSo dos interesses publicos, 
houve alguem que propòs a el-rei a criag^o de urna Casa da Moeda 
na cidade de Angra. Chamava-se o homem Sebasti&o Moniz e por 
emquanto ainda nSo logràmos averiguar qual era a sua posi^So social 
e se era effectivamente a^orìano ou se exercia ali apenas algum cargo 
pùbiico, motivo da sua residencia. memorial, em que elle expoe e 
justifica a sua ideia, n%o dà esclarecimentos à cérca da sua pessoa, 
nem t&o pouco traz a data, mas suppomos nSo andar fora da ver- 
dade, attribuindo-o ao reinado de D. JolLo III, ou, o mais tardar, ao 
reinado de D. Sebastifto. É um documento interessante, prova de 
um espirito que sabia ver as cousas e que se mostrava superior 
aos preconceitos dominantes. Merece ser lido, n&o so porque é ama 
pagina curiosa da historia dos A9ore8, mas porque nos revela urna 
tentativa, que, embora nSo realizada, n[lo deixa de ser benemerita. 
Se a proposta de Sebasti&o Moniz foi attendida ou teve algum anda- 
mento nSo sabemos, mas tudo leva a crer que o. resultado fSsse 
negativo, porque nSo ha vestigìos de ter existido Casa da Moeda 
nos Afores, senSo no ephemero dominio do Prlor do Crato e, secalos 
depois, de igual fórma passageira, no governo de D. Maria II Cremos 
portante que sera recebida com agrado a publica§llo do Memorial de 
Sebasti&o Moniz. 

A outra Casa da Moeda nos vamos ainda referir, cuja existencia 
parece que nSo poderà ser posta em dùvida, embora o nesso erudito 
.amigo e illustre consocio, dr. Teixeira de Arag&o, nSo inclua Lamego 
na lista das terras que possuiram officinas monetarias. Temos pre- 
sente uma carta de quita^&o exarada por D. Jo&o IV, a 30 de Maio 
de 1644, em que dà por quite a Gon9alo de Paiva, que foi thesou- 
reiro da Casa da Moeda da cidade de Lamego. A quitagào abrange 
um periodo muito curto, desde 25 de Agosto de 1642 a 2 de Novem- 
bre do mesmo anng, e uma quantia pequena : 2:708^554 réis, o que 
demonstra sem dùvida o pouco e limitado exercicio d 'aquella officina. 
Apresentaremos por ultimo uma pequena nota estatistica da moeda 
cunhada em Lisboa no anno de 1556, e por ella se póde fazer uma 
ideia aproximada do movimento d'aquella officina e da nossa 8Ìtua9&o 
economica naquella epoca, por ser mais risonha que a situa9&o actaal, 
em que a cunhagem dos metaes preciosos foi substituida pelo fabrico 
do papel representativo de moeda. 5:172 marcos de euro e 16:700 
marcos de prata, eis o metal precioso amoedado naquelle anno. Com 



Archeologo Pobtdgués 51 

11:000 oruzadoaem cobre, o valor da producgSo total foi de 700:450 
crazados. 

Segaem agora os dooumentos comprovativos : 



1. Propo§ta para a cria^Io de ama Caga da Moeda 
na cidade de Angra 

cSnfior. Àa cidade dÀmgra da ylha Terceira, homde heu sam 
morador, vem ter todollos anos muita qamtidade doiro e prata do 
Pera e outras partes e os que ho dito euro e prata trazem ho querern 
yemder e nil acham quem Iho compre, por a quali cousa deyxam de 
comprar espravos e pastèll e coyros e a9ucres e outras mercadorias 
que ha na terra por fallta de lA terem moeda, no que vosa allteza 
re-^be muita perda nos direitos que deyxam de Ihe pagar por asi nil 
comprarem aa mercadorias por fallta de dinheiro, o que nS seria se 
na tera houvese moeda hou quem Ihe ho dito euro e prata comprase, 
porque os que as ditas mercadorias vendem n& querem tornar curo 
nem prata em pagamento delas, por que hus as vemdem polla nece- 
cidade que tem do dinheiro e outros sam lavradores e pesoas que nil 
emtemdem a ley do caro e prata por Tyr mail aporado allgum e nelle 
ayer Sgaiio. 

It. e com iste asi ser ho nS querem hos moradores na ylha com- 
prar por nyso receberem muita perda asi na còpra delle corno na des- 
peza que fazem em ho vyrem qa yemder e terem ho dinheiro que 
nyso Spregam catjnro cayse hum ano por ho nS poderem trazer por 
^ausa dos framcezes sen& nas armadas de yosa alteza que da ylha pera 
està cidade yem homde ho trazem a ySder e por todas estas causas 
deyxam de c5prar ho dito curo e prata e hos que o trazem de Perù 
deyxam de comprar hos esprayos e mais mercadorias por n& acharem 
quem Iho cSpre, no que y. allteza recebe a9az perda. 

li. muitas yezes acomteceo quererem hos ditos estramgeiros com- 
prarem bysqoutos e outros mStimentos e por fallta de nSL terem moeda 
deixarem baras douro em penhor de muita quantidade mais da valya 
das cousas que Ihes yendiam e dahi a tSpo as yyrem tyrar e acomte- 
ceo deixar homem bara douro que tinha cem mil rs. em penhor de x 
rs. e morreo no mar e nuqa por sua parte a nìgem mais tyrou, ho 
que tudo causa nS hayer na tera dinheiro nem quem compre ho dyto 
curo e prata, ho que iudo causa muito escamdalo aos estramgeyros, 
por que todolos anos SyemS na dita cidade muitos, esperamdo pelas 
armadas, que trazem tftta camtydade que muitas yezes està hy hum 
conto douro todo Sverno. 



52 Archeologo Pobtugués 

It. e yemdo ben o pouqo 8erv79o que he de Deus e de vosa allteza 
ni Ihe Berem dìtas as cousas decraradas me pareceo muito 8em$o 
de vosa alUeza e acrecemtamento de suas remdas e bem da repu- 
brìqa mSLadar vosa allteza bater moeda douro e prata na cidade dAm- 
gra por qae bos que bo trazem follgaram muito de ho &zerem em 
moeda asi pera suas despezas corno pera cSprarem as mercadorias 
e asi allgiis que trazero euro e prata por fumdyr e aby ho fumdem e 
qylatam e fazendose moeda fiqara na tera muita qamtidade de dinheiro 
que he muito 8ervÌ90 de vosa allteza pella gro9ura da tera comò nos 
dereytos das mercadorias que comprarem pagaram a V. A. e asi na 
liga que Ibe bam de lam9ar e tambem avemdo na dita cidade casa da 
moeda os moradores compraram soma douro e prata e bo amoedaram 
e trataram nyso pelo muito proveyto que baveram. E por me pare- 
cer que fazya bo que nS devja nSL dar comta a vosa allteza das cou- 
sas decraradas as pus nesta lembram9a pera delas fazer rolla9am a 
V. A. e doutras muitas de seu servi90 que sam mais pera dizer que 
pera esprever qSdo vosa allteza de my as qyzer ouvyr, Bastyam 
Munyz». 

(Torre do Tombo, Carta» misHvaSf mtL^o 8, n.* 167). 



2. Qaita^fto a Gonzalo de Paira» 
thesoureiro da Casa da Moeda de Lamei^ 

cDom Jo3o etc., £a90 saber que eu mandei tomar conta em meus 
contos do Reino e casa a Gon9alo de Paiua, que seruio de thesoureiro 
do dinheiro que se cunbou na casa da moeda da cidade de Lamego 
de vinte e ciuco de agosto de seiscentos e quarenta e deus te deus 
de nouembro do dito ano, e pella recada9So de sua conta, se mostra 
receber no dito tempo dous contos sete centos e oito mil quinbentos 
cincoenta e quatro rs., a qual contia despendeo e entregou som ficar 
devendo cousa algua comò se uio pella dita conta, que foi tomada 
pollo contador Jorge da Cunba, e vista pelle prouedor Inacio Gii Fi- 
gueira, pollo que dou por quite e liure ao dito Qon9alo de Paiua e a 
seus erdeiros do dito dinheiro pera que nunca em tempo algum por 
elle sejSo executados em meu6 contos nem fora delles por ter dado 
conta com emtrega comò dito he. E mando aos veedores de minba 
fazenda e ao meu contador mor dos ditos contos e a todos os corego- 
doreS; ouvidores e mais justÌ9as,'officiaes e pesoas, a que està minha 
carta de quita9So for aprezentada, a cumprSo, guardem e fa9fto in- 
teiramente cumprir e guardar comò se nella contem, a qual por fir- 
meza de tudo Ihe mandei pasar por mim asinada e pasada polla chan- 



O ÀBCHEOLOGO POBTUGUÉS 53 

celeria. Bertolaineu de Gamboa, escriuSLo dos contos do Reino e casa^ 
a fez em Lixboa a trìnta de maio ano do nacimento de noso Senhor 
lesila xpo de mìl e seis centos quarenta e quatro. ElRei». 

. (Torre do Tombo, Ghftncellarla de D. Jofto lY, Doa^Su, llr. 17, fol. 61). 

8. Nota da moeda ennhada em Lisboa no anno de 1556 

e Està he a moeda que se laurea na casa da moeda desta cidade o 
anno passado de Ibj. 

cit. se laurarUo cimqno mill cento setemta e deus marcos douro 
que yallem a rezSo de xxx rs. o marco iij^lxxx bij ix crazados. 

e E de prata dezaseis mill e setecemtos marcos que yallem a rezào 
de deus mill e seis cemtos rs. o marco c*° biij b^ P cruzados. 

«E em cobre omze mill cruzados que monta ao todo b^ b^ iiij^ 1^ 
cruzados. 

(Torre do Tombo, Colke^So dn S. ViamUf Ut. 9, fol. M6). 

SousA Viterbo. 



OontribuiQdes para a Ustoria da pesca, em Portugal» 
na epoolia luso-romana 

1. Anzoes e oatros objectos de pesea, aehados no Algarre 

A pesca foi largamente exercida na Peninsula pelos Eomanos. 
Attestam-no em demasia os escriptores classicos, os symbolos das 
moedas ooloniaes da Hispania, os tanques de salga que exìstem por 
todo littoral algarvio ', e os instrumentos de pesca encontrados em 
abundancia nas esta$5es d'està epocha. 

SXo, pois, estas as fontes a que devemos recorrer para o estudo 
da historia da pesca neste periodo. Nós, porém, nRo pertendemos 
aqui escrevé-la minuciosamente, mas apenas esbofà-la a largos trafos, 
comò introduc9So ao presente artigo, cujo assumpto sito os anzoes 
romanos existentes no Museu Ethnologico Portuguès, pertencentes à 
coUec§ao algarvia organizada por Estacio daVeiga, agora encorpo- 
rada naquelle Museu. 



* Estacio da Veiga, Memortas das Antiguidadee de Meriola, Lisboa 1880, 
I, p. 121. 



54 O Archeologo Portugdés 

E certo que o povo-rei, conliecendo a rìqueza das nossas àgoas, 
tanto maritimas corno fluviaes, e tendo nellas recarso para a sua ali- 
nienta9SU), as explorou largamente, continaando assim ama industria 
j& cultivada antes d'elle pelos phenicìos. 

E peixe que os Romanos pescavam nSo era so consumido pelas 
povoa^Ses ribeirinhas, mas exportado em conserva para o interior do 
imperio, talvez até para a propria Roma. 

Do garum da sua patria escrevia Marciai: 

Candida si croceos circamfloit unda vitellos, 
HIsperiuB scombri temperet ova liquor ^ 

Plinio ' e Estrabfto ' citam tambem o garum da Hispanìa. 

Poljbio^, falla dos atuns, que engordavam nas costas do sul da 
Peninsula, por ahi haver em abundancia um ca/rvalho submarino, que 
produzia a glande, de que elles eram muito vorazes. 

EstrabSo^ refere o mesmo facto, transcrevendo-o de Polybip. Mas 
parece que aquì houve confiisXo de EstrabSo ou Polybio, entro o 
Fucus vesiculosus e a Uex major^. 

Oppiano, poeta grego, dos fins do sec. n de J. C, refere-se tambem 
aos atuns do mar iberico 7. 

Justino^, Marciai^, EstrabSo ^^ fallam da abundancia de peixes dos 
nossos rios, referindo-se os dois ultimos escriptores em especial ao 
Tejo. 

Nas moedas coloniaes da Hispania s&o muito frequentes os peixes 
comò symbolos das colonias maritimas, comò o arado o era das agra- 
rias, e as insignias marciaes o eram das militares. Encontram-se figuras 
de peixes nas moedas de Myrtilis e Salacia, cidades da Lusitania. 

Estacio da Veiga cita accidentalmente na sua obra de prehistoria 
algarvia** varios pontos do littoral d'està provincia, em que existem 



* Epigrammas, XIII, 40. 

2 Historia Naturai, XXXI, 43. 
5 Geographia, III, iv, 6. 

* Hhtoria Geral, XXXIV, 7. 
^ 06. cU., Ili, 7. 

* Geographia de Estrabào, versao de Q-. Pereira, E vera 1878, III, parte i, 
nota e. 

^ Halieutica, III, 620. 

8 \5wtorwM, XLIV. 

» 06. cit,, X, 78. 

w 06. cU., Ili, 3, 1. 

" Antiguidadea monvmentaes do Algarve, Lisboa 1886-1891, i-xv. 



O Archeologo Portugués 55 

tanques de salga. Mas onde elles »e acham melhor conservados é 
em Bùdens, na B6ca-do-Rio, e proximo a Tavira na regiXo balsense ; 
bSo do typo dos da Troia, jà descriptos e figurados n-0 Arch. Pori., 
in, 158. 

KXo so no Algarve e em Troia apparecem as rapix^iac dos pheni- 
cios, mas em varios pontos do littoral da Andaluzia^ 

Plinio' e Estrabào^ citam numerosos estabelecimentos de salga 
de peixe, nas proximidades de Carthagena, e em outros pontos de 
Hespanha. 

Instrumentos de pesca tem sido encontrados com *abundancia em 
Portngal, em esta98es d'està epocha, e d'elles vamos adeante tratar. 



, SSo em namero de 46 os anzoes e fragmentos, da coUecjZo algarvia 
do Museu Ethnologico Portugués. 

Todos s2o de cobre ou bronzo, excepto um, o maior dos coUecio- 
nados, que é de ferro. 

Dois typos se observam nestes anzoes: um, farpado, semelhante aos 
actualmente usados (fig. 1); outro, sem farpa, simplezmente agu9ado 
na extremidade menor, semelhante a outros congeneres da idade do 
bronzo (fig. 2). 

No entanto, de modo goral, os tiami que estamos tentando des- 
crever, constam de uma baste de metal, mais ou menos cylindrica, 
recurva, quo. forma dois ramos desiguaes, o maior dos quaes tem a 
extremidade levemente achatada, a fim de receber a linha, e o menor 
é farpado, ou simplesmente agU9ado. 

O seu tamanho varia muito. O anzol maiòr, que é o de ferro, 
mede 0'",072 de comprido, proveniente, assim comò o menor, que 
apenas mede 0",018, da Torre d'Ares (antiga Balsa). 

O tamanho dos outros é intermedio entro estes dois. D'estes 46 
anzoes e fragmentos, 20 sSo farpados e outros 20 apenas agugados. 

Porém comò alguns exemplares se acham muito oxydados pelo 
Bea longo estacionamento em terra humida, é possivel que a farpa 
desapparecesse. 



1 E. Hflbner, La arqueologia de Espana [y Portugal], Barcelona 1888, x, 
pp. 223 e 224. 

» 06. di,, XXX, 43. 

3 Oò. ct<., m, IV, 2,6; n, 6. 



56 O Abcheologo Pobtugués 

Nesta collec9&o acham-se mais ou menos representados todos os 
concelhos do Algarve, porém o que mais contribuiu foi o de Tavira, 
pois que da Torre d'Ares (Salsa), neste concelho, ha 17. Depois foi o 
de Villa do Bispo com 12 ; o de OlhaO; com 5 ; o de Faro, com 4 ; 
de PortimXo com 3 ; os de Silves e Lòolé com 2 cada nm, e final- 
mente de Villa Real com 1. 

NSo indicamos as proveniencias em especial, isto é, as fregnesias, 
lugares, etc, porque a lista seria longa, e de ponce interesse, mas 
apparecìmento de anzoes nestas esta$5es indica pontos onde se 
praticou a pesca. N%o sabemos porém as circumstancias em qne estes 
anzoes foram achados, pois que a parte das Antiguidades monumen- 
taes do Algarve, que devia abranger os tempos historicos, onde elles 



J 




Fig. 1 Fig. 8 



o 



Fig. 8 

seriam descriptos, nio se publicou; é todavia para notar que em 
muitos dos lugares d'onde provém foram assignaladas rainas de esta- 
belecimentos de salga de peixe ^. 

Da grandeza de alguns exemplares, e da pequenez de outros 
concluimos que os peixes pescados eram de tamanhos muito diversos. 

Algarve n&o nos offerece unicamente estes instrumentos de 
pesca. Agulhas de fazer rede de bronze, ha tres no Museu Ethnolo- 
gico, tambem pertencentes à coUecj&o algarvia, sondo duas da regiio 
balsense (fig. 3), e uma do Montinho das Larangeiras, no concelho de 
Alcoutim, onde existiu uma vUla romana, que tambem forneceu pesos 



^ Sobre os vestigios d'estes estabelecimentos no littoral do Algarve, estamoa 
preparando um artigo que sera publicado n-0 Archeologo Portuguta. 



O Archeologo Poétugués 57 

de rede de barro, e onde foram descobertos pavimentos de mosaico, 
que representam peixes, talvez symbolos do christianismo. Agulhas de 
fazer rede, de metal, ha-as na oollecfilo archeologica do Sr. Teixeira 
de AragSo, provindas tambem da regiSo balsense. Pesos de chumbo, 
de rede, analogos às chumbadas, ainda hoje usadas pelos nossos pes- 
cadores, tem side encontrados em estagSes romanas no Algarve, e 
muitos exemplares d'està especie se acham no Museu Etimologico. 

Na collec9So do Sr. Jadice dos Santos, depositada na Bibliotheca 
Nacional de Lisboa, ha um péso de rede, de barro, discoide, prove- 
niente de PortimSo, do typo de um da Troia existente no Museu 
Etimologico, e que adeante descrevemos. Pesos semelhantes a estes 
ha-as no Museu Lapidar do Infante D. Henrique, em Faro, natural- 
mente de proveniencia algarvia. 

No Museu Municipal da Figueira ha, proveniente da freguesia de 
Bùdens, Bdca-do-Rio, um anzol de bronzo sem farpa^. 




Fig.4 

NSo sSo so estes *os exemplares de instrumentos de pesca desco- 
bertos em Portugal. 

No Museu Nacional de Bellas Artes e Archeologia de Lisboa ha 
tambem, entro muitos objectos provenientes de Alcacer do Sai, alguns 
anzoes e agulhas de fazer rede, de cobre ou bronze. 

Na Troia, em Setubal, appareceu outra agulha de fazer rede*. 

Da mesma proveniencia ha no Museu Ethnologico um pandiUho 
discoide de barro (fig. 4), que mede 0",70 de diametro. 

No Museu Mineralogico da Escola Polytechnica ha um grosso 
anzol de cobre proveniente da Fonte da Ruptura, proximo a SetubaP. 

No Museu Municipal da Figueira, ha provenientes do crosto luso- 
romano de Santa Olaya, alguns pesos feitos de cacos romanos, com 



^ Santos Rocha, Memoria» sobre onHguidades da Figudra, 1897, i, p. 231. 
* Armae» da Sociedade de Archeologia Lusitana, partes i e n, 1850-1851. 
3 Ardiguidades monumentae» do Algarve, ir, p. 148. 



58 O Archeologo Portugdés 

vestigios do sulco de suspensXo, mas tanto poderiam ter sido de rade, 
corno de tear. 

Ob peixes, molluscos, e monstroB marinhos apparecem frequente- 
mente representados nos mosaicos romanos do Algarve. Exemplares 
com semelhantes representajSes, provindos de là, estio no Mnseu 
Etimologico. 

Comquanto seja està epocha urna das mais abundantes em vesti- 
gios da industria das pescarias, encontramo-los em Portugal no perìodo 
neolìthico, e noutros pafses tambem com mais ou menos abundancia, 
desde o perìodo paleolithico, até o presente, e por isso o Sr. Gabriel 
de Mortillet diz: fLa pèche est aussi vieille que Thumanité»^. 

A. Mesquita de Figueiredo. 



Circular do Rev.^o Bispo de Braganga 
sobre Archeologia 

É com vivo prazer que vemos o Alto Clero portugués interessado 
na grande obra dos estudos da archeologia nacional. 

Os Srs. ParochoB podem na verdade prestar incalculaveis serviyos 
neste sentido, comò jà a respeito de alguns se tem visto n-0 Archeo- 
logo PortuguSs. 

Merece, pois, vehemente applauso o Rev.^^ Prelado de Tr-as-os- 
Montes pelo impulso que pela sua parte procura dar à sciencia ar- 
cheologica na sua diocese. 

Jà em caloroso artigo publicado n-0 Norie Trasmontano ^ de 26 
de Novembre de 1897, Ihe respondeu o sr. P.® José Augusto Tava- 
res, parocho de Mafdres (Moncorvo), o qual allia à palavra o exem- 
plo, pois muitos servÌ908 Ihe deve o Museu Ethnologico Portugués, 
que conta entro os seus mais desvelados protectores. 

J. L. de V. 

Circular. — Sondo informado da organizafSo de nm museu de ar- 
cheologia nesta cidade, devido à iniciativa de um illustrado officiai do 
exercito, aqui residente e filho d'està nossa Diocese, o qual se distingue, 



* Origines de la chasse, de la piche, et de la domesticixtion, Parfs 1890, i, p. 



O Archeologo Poetugués 59 

tanto pelo seu esclarecido espirito, corno pelos seus sentimentoB reli- 
gioBOS e dotes do cora98o, cuja ideia e plano respectivo foram imme- 
diatamente abrasados pela Ex."*^ Camara Municipal de Bragansa, 
offerecendo salas para a sua instalIa^So, e preatando outros auxilio's 
de qne se carecia — nio seremos Nós qiie deixemos de cooperar nesta 
levantada obra com todo o Reverendo Clero d'està Diocese. Temos esse 
dever, e inoita-nos o amor, que consagramos à verdade historica, e ao 
desenvolvimento das sciencias de que é subsidiaria a archeologia, e 
ao conhecimento dos progressos que teve a arte ornamentai sagrada 
e profana nos tempos idos, sondo hoje os seus especimes a admira9So 
e o pasmo dos apreciadores, os modelos dos primeiros artistas, e até a 
delicia dos mais abalisados aiTeheologos que os tem estudado. 

O gesto pelo estudo das antìguidades, e pelas suas perseverantes 
inve8tiga93e8 e conserv^So, come9a de propagar-se nesta provincia 
com um desenvolvimento que muito consola. Ainda bem, que as phra- 
868 de amarga verdade que iniciam o Belatorio & cérca da renova(2o 
do Musen Cenaculo dirigido em Fevereiro de 1869 ao Presidente da 
Camara Municipal de Evora por um antiquario illustradissimo, e nesso 
mallogrado amigo, deixarSo de ser applicaveis à Diocese Brigantina. 

Dìzia elle: 

«É tfto naturai sentimento dos povos cultos a venerasse dos monamentos da 
antiguidade, que ningnem acreditarìa, se o nSo visse bem patente, o desprezo 
com qne em Portagal tem side tratados. Desde a capital do reino até às yillas 
e aldeias n^ faltam por toda a parte copiosos vestigios do conmìnm furor de 
destrnir, adulterar on emplastar as reliquias da architectura e da escnlptora dos 
seculos que foram.» 

Actualmente o empenho enthusiastico que se nota aqui em os in- 
dividuos de todas as classes sociaes, sobresaindo a ecclesiastica^ em 
mandar e em levar para o Museu Municipal de Bragaufa numerosas 
moedas antigas, romanas, e pprtuguesas dos primeiros reinados, quasi 
todas de muita raridade, assim comò exquisitos artefactos, e instru- 
mentos artìsticos, restos de jazigos, inscripfSes lapidares, fragmentos 
de esculpturas de pedra, baixos relevos, laminas, bordados, tape9a- 
rias, etc., mostra à evidencia felizmente nSo so que os habitantes da 
Diocese de Bragan9a veneram as antiguidades, mas tambem que ha 
nella quem as colleccione, e as estude com muita competencia; e possa 
transmittir à posteridade importantes notioias archeologicas^ acompa- 
nhadas de critica sensata fìrmada em boas razSes, que sejam deduzidas 
de uma investigarlo acurada e conscienciosa, para dar luz a pontos 
obscuros da nossa historia. 



60 O Archeologo PoetuguééT 

EstamoB certos que hoje o distinctissimo archeologo, que em 
Evora escreveu aquellas palavras; faria honrosa excep9So da Diocese 
* de Braganga. 

E louvando Nós o que jà tem feito o Reverendo Clero d'està Dio- 
cese, recommendamoB-lhe, especialmente ao Clero parochial, que, sem 
pdr de parte nenhum dos deveres do sen sagrado ministerio (os quaes 
estSo sempre em primeiro lugar), preste todo o ausilio a estas invea- 
' tigafSes, e promova a con8erva9Ao das antiguidades que o mere9am; 
nSo so porque é ezcellente occupaQ&o para guardar o espirìto dos ocios 
de um so momento, mas porque ha malta vantagem no seu concarso 
para o desenvolvimento de tSo sympathicos estudos, que nos revelam 
OS progressoB e as glorias dos nossos antepassados e os seus elevadis- 
simos meritoB, que tanto os ennobroceram assim comò aos seus des- 
cendentes, e à naySo que nos prezamos de chamar a nossa querida 
Patria. 

NSo se julgue, porém, que o nobre senado brigantiuo foi sómente 
generoso ; elle soube cumprir o seu dover em presenta da lei que Ih'o 
presorevia. 

El-Rei o Senhor D. Jo«o V, em Alvarà de 20 de Agosto de 1721, 
disp6s sobre oste assumpto nos termos seguìntes : 

«Fa90 saber aos que este Alvarà de lei virem, qae, por me representarem o 
director e censores da Academia Real da historìa portugueza, ecclesiastica e se- 
cular, que procurando esaminar por si, e pelos academicos, os monumentos anti- 
gos que havia, e se podiam descobrir no Beino, dos tempos em que u*elle domi- 
naram os Phenices, Gregos, Penos, Bomanos, Godos e Arabica, se acfaava que 
muitos que puderam ezistir nos edificios, estatuas, marmores, cippos, laminas* 
chapas, medalhas, moedas e outros artefactos, por incuria e ignorancia do vulgo 
se tinham consumido, perdendo-se por eete modo um meio mui proprio e ade- 
quado para verificar muitas noticias da veneravel antiguidade, assim sagrada 
comò politica ; e que seria multo conveniente à luz da verdade e conhecimento 
dos seculos passados que, no que restava de semelhantes memorias e nas que o 
tempo descobrisse, se evitasse este damno, em que póde ser multo interessada 
a gloria da Na9So Portugueza, nSo so nas materias concementes à historia secu- 
lar, mas ainda 4 sagrada, que sSo o insti tuto a que se dirige a dita Academia : 
£ desiando eu contribuir com o meu Beai poder para impedir nm prejuizo tao 
sensivel, e t&o damnoso à reputa9ào e gloria da antìga Lusitania, cujo Dominio 
e Soberania foi Deus servido dar-me : Hei por bem que d'aqui em diante nenhu- 
ma pessoa de qualquer estado, qualìdade e condi^tU) que seja, desfa^a, cu des- 
trua, em todo nem em parte, qualquer edificio que mostre ser d'aquelles tempos, 
ainda que em parte esteja arroinado ; e da mesma sorte as estatuas, marmores e 
cippos, em que estiverem esculpidas algumas figuras, ou tiverem letreiros Phe- 
nices, Gregos, Bomanos, Gotbicos e Arabicos *, ou laminas ou cbapas de qualquer 
metal, que contiverem os ditos letreiros ou caracteres ; comò outrosi medalhas ou 
moedas, que mostra rem ser d'aquelles tempos, nem dos inferiores até o reinado 



O Archeologo Fortugués 61 

do Senhor Rei D. Bebastiao ; nem encubram ou occultem alguma das sobreditaa 
consas: e encarrego às Camaras das Cidades eVillas d^este Beino tenham muito 
particular cuidado em conservar e guardar todas as antiguidades sobreditas, e de 
semelhante qoalidade, que houver ao presente, e ao diante se descobrirem nos 
limites do sen districto » 

Foi BUBcitada a inteira e piena observancia d'estas disposifSea por 
Sua Alteza o Principe Regente, em Alvarà com forfa de lei de 4 de 
Fevereiro de 1802. 

Quanto a Nób^ pelo dever que noe assiste, na qualidade de Fre- 
lado d'està Diocese^ de promover a conserya9So das apreciadas mani- 
festa$3e8 da Arte dos tempos passados, especialmente das qne sSo 
relativas à ReligiSo e ao culto^ apesar de nSo termos a competencia 
para tratar dignamente taes assumptos, fazemos saber ao illustrado 
Clero parochial d'este Bispado que Ihe cumpre observar cuidadosa- 
mente o seguinte: 

1.^ Quando se proceda à re8taura9So de alguma Igreja ou Ca- 
pella, no todo ou em parte, deve e8for9ar-se por que se Ihe conserve 
o typo da sua primitiva tra^a e feitio, n£o inutilizando pe9a alguma 
aproveitavel, nem escondendo ou emplastando quaesquer lavores de 
pedra, sejam omatos ou inscrip98es, baixos ou meio relevos que ahi 
existirem. 

2.° Resolvendo as Juntas de parochia ou as Mesas gerentes das 
confrarìas promover a 8ub8tituÌ9&o de quaesquer alfaias. de prata, ti- 
das por inutilizadas pela sua vetustez e muito uso, taes comò — cru- 
zes processionaes, pixides, ambulas dos santos oleos, calices com suas 
patenas, custodias, thuribulos e navetas, relicarios, etc; ou os para- 
mentos de seda ou IS — casulas, dalmaticas, pluviaes, estolas e mani- 
pulos, veus de hombros, panos de pulpito e da estante, etc, serSo por 
conselho do respectivo Parocho remettidos a este Pa90 Episcopal, 
sendo elle o portador, ou outra pessoa de bons creditos na freguesìa ; 
e procedendo-se ao exame de peritos que Nós nomearemos, e pódendo 
effectuar-se a acquÌ8Ì9llo de quaesquer objectos muito voluntariamente, 
mediante o pre9o ajustado, ficarSo em deposito na casa forte d'este 
Pa90, ou onde melhor convenha, para que se vejam em expoBÌ9fto per- 
manente na cidade de Bragan9a. 

3.® Emquanto aos demais objectos, cuja conserva9fto se recommenda 
pelo seu merecimento artistico ou pela sua antiguidade, ou elles te* 
nham rela9Xo com os monumentos religiosos, ou com os civis e mili- 
tares, ou sejam comprehendidos na archeologia esculptural, ou na da 
pintura e da epigraphia; e na archeologia de gravuras em pedra, em 
metal ou madeira, vasadas ou em reldvo ; ou perten9am à numisma- 



62 O Archeologo PoBTUGUÉfi 

tica, corno as medalbaa e as moedas, ou & archeologìa domestica e or- 
namentai, comò OS tecidos e bordados, os artefactos de metal^ 00 ma- 
veis e utensilioB domesticos, militares e funerarios, etc., com tanto 
que nSo perten9am ao culto, — aconselhamos Reverendo Clero d'està 
Diocese que informe da existencia d'elles o digno Conservador do 
Museu Municipal de Bragan9a; e merecer&o os nossoB louvores todos 
aquelles que sem difficuldades remetterem para o dito Museu quaes- 
quer d'esses objectos autigos para augmentarem e enrìquecerem as 
collecfSes ezistentes, se puderem dispor d'elles livremente. 

Seja a presente Cìrcular regìstada em cada parochia, e archivada. 

Braganfa, 15 de Outubro de 1897. 

José, Bispo de Bragan^a. 



Mudanga do nivel do Oceano ^ 
2. Planalto ao Sul do Cabo da Roca 

Em 1894 mencionei no Boletim da Sociedade de Geographia 
de Lisboa (13.* serie, p. 1176) descobrimento de vestigìos de orna 
antiga praia em Vianna do Castello a uns 10 metros acima do nivel 
do Oceano, caracterizada pelas fórmas da eros&o marina, e principal- 
mente pela presenta das concavidades chamadas pelos geologos mar- 
mitas de gigantes. 

Acabo de ver vestigios analogos ao Norte e ao Sul do forte do 
Guincho, entro Cabo Raso e Cabo da Roca, mas o desnivella- 
mento é multo mais accentuado, visto ficarem a 21 metros a cima do 
nivel do Oceano. 

Foi provavelmente na epocha em que mar chegava a està altura 
que se formaram as dunas hoje transfonnadas numa especie de grès, 
que se observam nos arredores de Oitavos. Formaram monticulos tSo 
resistentes que nXo se temeu assentar a estafSo semaphorica no topo 
de uma d'ellas, que attinge a altitude de 55 metros. S3o bem distin- 
ctas das dunas que invadem actualmente oste planalto, vindo pela 
Praia Grande do Guincho. 

Paul Choffat. 



1 Yeja-se a p. 301 do voi. n um convite para se mandarem ao Arckeolo^ 
Poriuguéa noticias referentes a eate assompto. 



O AbCHEOLOGO POBTUGtTÉfi 63 



Cmzado de D. JofiLo m 

No interessante estado «Des monnaìes d'or portngaises ayant cours 
aux XVI* et xvn* siècles dans les anciennes provinces belgiques, etc.», 
publicado no n.® 12, voi. m, d-0 Arch. Pori., descreve o Sr. A. de 
Witte om cruzado de D. Jo2o III, que n2o figura nas estampas da 
DescripgSo geral e historica das moedas, etc., do meu mostre e amigo 
Sr. Teixeira de AragSo, mas que, no fiegulamento para os cambistas, 
impresso em 1575 em Anvers, està reproduzido sob a designa9So de 
duccit de Portugal. 

Na mìnha collec$Io existe nm cruzado de euro de Jo&o III, cuja 
descripgfio é: O IO A III '^' PORTVGALIE A- AL A* R: 
Dentro da circumferencia granulada, ìnterceptada pelos florSes da 
coroa, qae o encima, o escado das armas de Portngal; à esquerda È, 
à direita F. 

Reverso.— A- IN A- HOC A SIGNO A- VINCES: Circum- 
ferencia granulada, acompanbando inferiormente a legenda; no campo 
Cruz de S. Jorge, déntro do perimetro, limìtado por quatro segmentos 
curvos que se cortam dois a dois, formando angulos reintrantes, e tan- 
gefttes à circumferencia granulada na intersecalo d'està com o prolon- 
gamento dos eìxos dos bra$os e baste da cruz. 

Ha differen9as entro a moeda a cima descrita e aquella a que se 
refere o Sr. de Witte. 

A Cruz de Christo, que precede a legenda do anverso d'està, é 
substìtuida por O naquella; as palavras sXo separadas de differente 
fórma, tanto na legenda do anverso, comò na do reverso; a legenda 
do anverso da moeda descrita pelo Sr. de Witte termina pela lettra 
J)(ofninu8) e na minba por Bj(ex), e finalmente as lettras R e P, que 
estSo aos lados do escudo das armas de Portugal, estSo encimadas na 
minha por . * . E, se o Sr. de Witte segue o uso gerabnente adoptado 
pelos numismatas de referir a direita e a esquerda ao observador, està 
trocada nas duas moedas a posi^So das mesmas lettras. 

A estar conforme o originai a reproduc9So feita no Regolamento 
de 1575, citado pelo Sr. de Witte, ou a nSo baver lapso da descrip9&o 
apresentada a p. 274, do voi. ni, d-0 Arch. Port.^ o que nXo é licito 
suppor, dada a competencia do seu auctor, houve pois mais de um 
cunbo d'està curiosa e n2o vulgar moeda. 

Lisboa, Junho de 1898. 

Manoel F. de Vargas. 



64 Abcheologo Pobtugués 

Notas de arobeologla artistioa 

1* BAlthasar Moreini 

Entre os documentos yindos da Reparti^So de Fazenda do distrìcto 
de Vianna do Castello para a Iii8pec9So geral das Bibliothecas e Ar- 
chivos, e procedentes dos extinctos conventos de S. Bento e Santa 
Clara da encantadora cidadezinha do Lima, encontra-se urna escri- 
ptura que nos fornece um nome de artista portngués nXo ìnduido 
nas listas de Volkmar Machado, do Cardeal Saraiva, e do Conde de 
Raczjnski. 

E ins tramento do con tra to ajustado em 12 de Agosto de 1595 
entre as freiras de S. Bento e o esculptor Balhasar Moreira, morador 
em Vianna do Cartello, para a feitura do retabulo da capella-mór, 
pela quantia de 100^000 réis. 

O retabulo devia ter seis paineis e quatro anjos, dois d'estes janto 
do sacrario e comò que sustentando-o nas mSos. As dimensSes eram 
(sem OS vios das molduras) vinte e dois palmos de largura, e, de 
altura, trinta e quatro, do aitar para cima. A obra devia estar con- 
cluida pela .paschoa das flores do anno immediato. O trabalho de 
pedreiro, e os pedestaes, do aitar para baixo, com as respectivas 
molduras, seriam feitos pelo convento. 

A escriptura segue-se um recibo de SOjJOOO réis, por conta do reta- 
bulo, com a data de 9 de Novembre de 1595 e a seguinte assignatura: 



(^^t^^i4/^efiirw{yry 



^dU^ 




convento de S. Bento foi ba pouco demolido. Datava de 1549 
e havia side fundado, quatro annos antes, junto k igreja de S. Bento, 
por um grapo de moradores da risonha villa (entSo) da foz do Lima. 

A julgar pelas notas que me envia um amigo, residente a curta 
distancia de Vianna, o retabulo de Balthasar Moreira esdste ainda^ 
posto que um tanto damnificado. 

José Pessakha. 



O Archeologo Portugués 65 



Coup d'odil sur la Numismatiqae 
en Portugral ^ 

Le Portugal, bien qu'il soit un petit ptjB, ofire aux erudite et 
aux oollectionneurs un vaste Bujet d'investigation dans le domaine 
de la Numismatique et des sciences congénères. 

Ijaissant de coté l'ensemble des monnaicB dites ibérìques, et d'autres 
piècee anciennes émises dans la Péninsule, qu'on trouve de temps à 
autre dans le pays, surtout dans le sud, je me contenterai de men- 
ti onner celles qui sont particulières à la Lusitanie portugaise et à la 
partie de la Bétique dépendant du Portugal, c'est-àdire celles de Sa- 
lacia, Myrtilis, Ebora, Ossonoba, Pax lulia, Àesuris, et, à ce qu^l 
semble, Sirpa ou Serpa. Toutes ces villes se trouvent au sud du 
Tage, dans la région qui a refu la première et le plus profondément 
Tìnfluence des grandes civilisations qui se sont succède à diverses 
époques, à Toccident de THispanie. Parmi les monnaies lusitaniennes 
celles de Salacia, Myrtilis et Ebora sont, outre les pièces d'Emerita, 
les seules qu'on découvre assez souvent en certaina endroits. La mon 
naie de Serpa est douteuse. Les uns j lisent sibpens, d'autres seule 

ment ense, et d'autres encore rkense Pour moi, je dirai 

qu'ajant été en septembre demier au Musée National de Madrid, où 
existe le seul exemplaire connu^ j'y ai lu, après l'avoir bien examiné, 

IRPENS ; la lettre P n'est qu'une ombre, mais je la distingue ce- 

pendant. Au commencement de l'inscription, il y a un espace pour 
une lettre, qui n'y existe plus. Les autres lettres sont dairement vi- 
siblesy lorsqu'on expose la monnaie à une lumière convenable. Le 
résultat de mon examen a été vérìfié par un des employés du Cabi- 
net des médailles du Musée de Madrid. L'état actuel de Tétude des 
monnaies ibériennes se trouve consigné dans le livre très remarquable 
du IF E. HUbner, Monumenta linguale IbericaSy imprimé en 1893. De- 
puis l'apparition de ce livre, j'ai publié dans Archeologo Portugués 
(u, p. 280, et m, p. 127) trois variétés inédites de monniues qu'on 
peut attribuer à Salacia, malgré l'excommunication lancée contro cotte 
opinion par D. Manuel Berlanga, de Malaga. 



1 Artigo jà publicado na Gaxefte numiétnatique frangaise dos Srs. Maserolle 
e Serrare, Paris 18Ì97, pp. 484-497, na 8ec9So de Correspandencias estrangeiras. 
Tendo-me algumas pessoas pedido qne o reprodaziase n-0 Archeologo, conservo- 
Ihe, com leves modifica^Ses, a lingoa em que o escrevi. 



66 O Abcheologo Pobtugués 



Les monnaieB romaines proprement dites existent en grande quan- 
tité dans le pays ; quelquefoìs elles constituent dea trésors cacbés, ou 
ripostigli, comme disent les Italiens. Elles apparaissent aassi bien au 
nord qu'au sud du Portugal. Les monnaies de Tépoqae consulaire con- 
sistent naturellement surtout en denarii. Celles de l'epoque imperiale 
appartiennent pour la piupart aux iii^ et iv^ siècles. Depuis qaelques 
années j'ai vu plusieurs dizaines d'argentei antoniniani qui ont été 
découverts dans une cachette près d'Abrantes; dans Tarrondissement 
de BaiSLo on a trouvé quelques centaines de monnaies da iv® siècle. 
Les petits bronzes de Constantin le Grand, de Constantin II, de 
Constant I^^ et de Constance II apparaissent si fréquemment qu'ils 
finissent par devenir, trop vulgaires. ( /ependant on ti'ouve partout dea 
monnaies de tous les siècles. M. Tabbé Manuel d'Azevedo, de Villa 
Real, possedè plusieurs exemplaires de grands bronzes d'Adrien, qui 
proviennent d'une cachette. Comme pièces d'or, ce sont les monnaies 
d'Honorius et d'Arcadius qu'on trouve le plus -souvent. La civilisation 
romaine s'est implantée très profondément : il n'est pas étonnant qu'il 
en reste tant de vestiges. Sur quelques trouvailles récentes de mon- 
naies romaines, ou pourra consulter O Archeologo Portuguèe^ l, p. 134 
et 223; n, p. 222; m, p. 119. 



Les monnaies frappées dans la Péninsule au temps des Barbares 
(v^-vm^ siècles) comprennent, comme on le sait, deux séries : a) Mon- 
naies suévo-lusitaniennes ; h) Monnaies visigothiques. 

Toutes ces pièces sont en or (tiers de sous, et peut-ètre sous). Les 
monnaies suévo-lusitaniennes apparaissent presque exdusivement en 
territoire portugais, parco qu'en partie elles ont été émises dans des 
villes aujourd'hui portugaises. Les monnaies visigothiques se trouvent 
aussi dans le pays en grande quantité, soit parce que le Portugal £ii- 
sait partie du royaume des Visigoths, soit parce qu'il y a eu des atehers 
dans des villes portugaises, telles que Braga, Idanha-a-Velha, Evora, 
Coimbra, Lamego, Porto, Viseu. A Texception d'Evora, toutes les vil- 
les portugaises qui ont émis de la monnaie à l'epoque des Barbare» 
sont situées au nord du Tage. 

Les travaux fohdamentaux sur la numismatique barbare sont ceux 
de Heiss, Description generale des monnaies des rois visigoths d^Espa- 
gne, Paris 1872, et un article sur les monnaies des Suèves publié 
dans la Revue numismatique, 1891, p. 146 et suiv. Déjà avant Heiss, 



O Archeologo Portdgués 67 

deux auteurs portugais s'étaient occapés dea monnaìes suévo-Iusita- 
niennes dans la Revue numitmatique de 1865: ce furent MM. £. Au- 
gusto Alien et H. Nunez Teixeira^ dont Tarticle a aussi paru séparé- 
ment. Le premier de ees auteurs a publié en outre une brochure sous 
le titre de Noticia e de$crtpgào de urna moeda cunhada pelos Visigodos 
?ja cidade do Porto nos fina do seculo vi, Porto 1862. Le Catalogo de 
coUec^o de moedas visigodas de Luis José Ferreira, imprimé à Porto 
en 1800 (avec des planches), où sont décrites 71 pìèces, est aussi im- 
portant. Dans la Revue belge numismatique, de 1890, a paru une courte 
note de M. Arthur Engel (tirage à part, 13 p.) sur les monnaies des 
Barbares. Presque tous les travaux sur ce sujet ont étó mis à profit 
dans Texcellent Indicador manual de la numismatica espusola (crest- 
a-dire hispànica!) de Campaner y Fuertes (Madrid-Barcelone, 1891, 
175 pp.)* Postérieurement à ce travail, M. Engel a parie de quelques 
monnaies inédites des Yisigoths dans son Rapport, sur une mission ar- 
chéologique en Espagne (Paris 1893, 89 pp.). 



Gomme l'action de la civilisation de l'epoque suivante, ou arabe 
(viii^-xm^ siècles), s'est fait surtout sentir au sud du pays, c'est aussi 
daos cotte région que les pièces arabes apparaissent en plus grande 
quantité. Les monnaies les plus abondantes sont celles en argenta soit 
rondes, soit carrées : TAlgarve en est très riche ; cependant les mon- 
naies en or et en cuivre n'y manquent pas. Sous la domination des 
Arabes, on a frappé des monnaies en Portugal : on connait les mon- 
naies de Mertola. Sur une trouvaille recente de pièces arabes dans 
le sud du Portugal, voir O Archeologo Portugues, i, SOL Je connais 
également un grand trésor numismatique^ compose presque exclusive- 
ment de pièces carrées, qui a été découvert depuis peu à Alcantarilha, 
dans le royaume de TAlgarve. 

Il y a peu de travaux portugais touchant les monnaies arabes : je 
me rappelle en ce moment un manuscrit du xviii^ siècle, de Fr. JoSo 
de Scusa, existant à Evora, Numismalogia ou breve recopUagào de 
dgumas medaUuu de ouro e de prata do$ Califas e doe Reis Arabes 
da Asia, Africa e de Hespanha, ae guaes foram achadas neste Réino 
de Portugal^ etc. ; un article de Fr. José de S. Antonio Moura, pu- 
blié dans les Mémoires de VAcadémie des Sciences de LUbonne, voi. x, 
l'« part. (1827), sous le titre de Memoria de cinco medalhas africanas; 
qnelques notices d'Estacio da Veiga dans les Memorias de Mertola 
(Lisbonne 1800, p. 39); le Catalogo das moedas arabes existentes no 



O Abcheologo Portugdés 



Museu Miinicfpal PoHueruts, par Leite Netto, Lisboa 1882; et en 
dernier lieu, un article de M. le prof. David Lopez, Algumas moedoM 
arahts da Peninmla, encontradoB no Aìgarve, pani dans V Archeologo 
Portugues^ I, 97. 



Au XII* siede, commence le monnayage portugais. Nos monnaies 
se composent de deux grande groupes: 

A) Monnaies db la métropole; 

B) Monnaies provinciales, — qui à leur tour comprennent celle»: 

a) Des iles adjacentes (Ajorea et Madère) ; 

b) De Ceuta, si Ton admet Texplication donneo par M. AragSo 
dans sa Descripgào da$ moedas de PoHugal (i,2o0 et 257); 

e) De TAfrique Occidentale (Guinee, Saint-Thomas, File du 
Prince) ; 

d) De TAfrique Orientale (Mozambique) ; 

e) De l'Inde (Cochin, Goa, Diu, DamXo) et de Malaca (?) ; 
/) Du Brésil (Rio de Janeiro, Fernambuco, Minas Geraes, 

Bahia). 

Toutes ces monnaies n'ont pas été fabriquées dans les régions où 
elles devaient avoir cours ; on les a frappés parfois dans d'autres en- 
droits, surtout à Lisbonne. Le commencement du monnayage pour les 
Iles et TAfrique Occidentale remonte au temps du roi Don José 
(xvni* siede) ; pour TAfrique Orientale, au temps du roi Don JoSo V 
(xviii* siede); pour l'Inde, au temps du roi Don Manuel (xvi* sie- 
de); pour le Brésil, au temps du roi Don Fedro II (xvu* siede). 
Four les Agores, il y a méme une sèrie speciale de Don Antonio (xvi* 
siede). Sur ce prince malheureux, voir la brochure de Renier Cha- 
lon, D. Antoine, roi de Porttigal, Bruxelles 1868; cf. aussi une note 
dans la Revue numitmaiiqae, 1889, p. 351). Les monnaies attribuées 
à Ceuta ont ét4 emises aux xv« et xvi« siècles. Quelquesunes des sé- 
ries précédentcs comprennent un petit nombre de pièces ; d'autres 
son très importantes, telles que celles de Flnde et du Brésil. 

Fendant Téphémère gouvemement de notre roi Dom Fernando 
(xiv« siede) en CastiUe, on a aussi frappé à son nom des monnaies 
à 9amora, Tuy, CoruSa; ces monnaies circulaient en Fortugal et 
dans les terres castillanes soumises au roi portugais. 

La partie la plus étudiée des monnaies portugaises èst natureUe- 
ment celle de la métropole. Le travail classique à cet égard est la 
Deacripiào geràL historica das moedas de Portugal, 3 voi., 1875-1880 



O Archeologo Poetugués 69 

par M. Teixeìra de ÀragSo qui prépare maintenant un qaatrieme vo- 
larne. L'auteur y s'occupe non soulement des monnaiea de la mètro- 
pole^ mais ausai, et avec un égal développement, des séries provin- 
cialesf sur les demières, il a publié la partie qui concerne les Iles, 
l'Afrique Orientale et Tlnde ; dans le iv^ volume, il publiera ce qui 
concerne TAfrique Occidentale et le Brésil. 

Kos monnaies provinciales ont également attiré Tattention d'autres 
érudits. Je citerai ici qaelques-uns des travaux les plus considera* 
bles : sur les monnaies indiennes les Contributions io the sUidy of Indo- 
Partuguese numismatics, de J. Gerson da Cunha (Bombay, 1880-1882); 
sur Ics monnaies du Brésil, Das bra$ilianÌ8che Oeldwesen^ de Jules 
Meili (Zurich, 1897), qui est une oeuvre de grand luxe. 

Outre les monnaies nationales, beaucoup d'autres de^divers pays 
ont ciroulé dans le royaume portugais ; c'est poarquoi la totalité des 
séries monétaires qui se rapportent à l'histoire du Portugal est consi- 
dérable. 

Gomme à cdté des monnaies on a Thabitude d'étudier les médail- 
les et les jetons, je dirai que le Portugal n'en est pas dépourvu. 
L'une et Tautre de ces espèces remontent chez nous au moins aux 
xiv*-xv® siècles. 

Personne n'a encore songé à écrire à propos des jetons un mé- 
moire special et développé ; le D^ Teixeira d'Aragfto en a mentionné 
quelques-uns, sans les reproduire, dans sa Deacription des monnaies, 
médaUles et autres ohjets d'art concemant l'histoire portugaise du tra^ 
vaU (Paris 1867), et Tito de Noronha & Amarai Toro, dans leur 
Numismatica Portuguesa (Porto, 1872-1884), avec des dessins; je 
prépare à présent un travail sur ce sujet. 

Quant aux médailles, il faut dire qu'elles ont été plus étudiées 
que les jetons ; Lopez Fernandez leur a consacré son livre Memoria 
das medalhas e condecoraqZes portuguesas e das estrangeiras com rela- 
qào a Portugal (avec des planchei<), livre qui est aujourd'hui tres ar- 
dere. La brochure toute recente de M. Santos LeitSo, Medalhas e 
condecoraqdes portuguesas e estrangeiras referentes a Portugal (Porto, 
1897), comprend 481 descrìptions de pièces, qui vont de 1553 à 
1896, mais elle n'a point de planches. 

* 

Il resulto de cotte variété et de cotte abondance de matériaux, que 
les études numismatiques ont été cultivées en Portugal dès longtemps. 



70 O Archeologo Portugués 

J'ai lieu de croire que Thìstoire de la numismatiqae portugaise remonte 
au moins au xv^ siecle. Cette hìstoire comprenda à mon avis^ trois 
périodes que je vais successivement examiner: 

/« Période. — Depuis le XV* siècle juaque vere le milieu du 
XVII* siècle. 

Il manque des travaux spéciaux eur ce sujet, mais il y a beau- 
coup de notìces numìsmatiques, fournies par les chroniqueurs et Ics 
historìens, lorsqu'ils s'occupent d'autres faits de caractère general; il 
existe de mème quelques manuscrits numismatiques dans les biblio- 
thóques et les arcbives da pays. Le mouvement de la Renaissance, 
pénétrant en Portugai, échauffait les esprits avidea de science et les 
disposait à produire den oeuvres ayant une portée scientinque. Dans le 
domaine de la numismatique^ on peut citer les travaux historiques de 
FernSo Lopez, Gaspar Correia^ DamiSo de Goes, AfFonso de Albu- 
querque, Gaspar Estago et d'autres encore. Cependant, chez ces au- 
teurs, la numismatique n'apparait, comme je^l'ai dit^ qu'incidemment; 
ainsi, par exemple, le pere de Thistoire portugaise, Fern&o Lopez, 
traite des monnaies des rois Don Fedro I, Don Fernando et Don JoSo I, 
quand il fait le récit des événements de leurs règnes. 

Farmi les manuscrits que je connais, je mentionnerai une tradu- 
ction portugaise d'un abrégé franyais du livre latin De Asse, de Guil- 
laume Bude, traduction faite au xvi* siècle par Fero de Moyna An- 
geli. Quant aux collections, je n'ai des renseignements que sur celles 
du connétable Don Fedro (xv* siècle), d'André de Résende (xvi* siè- 
cle) et de Gaspar Esta90 (xvii* siede). 

La collection de Don Fedro provenait en partie de celle de Don 
CarloS; prince de Viana (mori en 1461); elle nous est connue par le 
testament du connétable, publié dans une brochure d'Andrés Bala- 
guer y Merino (Gérone, 1881). Le goùt pour la littérature et Tar- 
chéologie se trouvait déjà chez les ancétres de Don Fedro, dont U 
mère a fait traduire en portugais la Vita Christi, et dont le grand- 
pére, du cdté maternel, le comte d'Urgel, a forme des collections nu- 
mismatiques. Le méme goùt existait chez d'autres princes de cette 
epoque. 

André de Resende et Gaspar Estafo, archéologaes distinguées, 
nous parlent de leurs collections ; celle du premier nous est aussi con- 
nue par son testament. Le goùt de ces deux Fortugais peur les étu- 
des archéologiques est surtout explicable par leurs voyages à l'étran- 
ger et par Theureuse circonstance qui les avait fait naìtre Tun et 
l'autre dans la ville d'Evora, si riche de tout temps en monumenta 
antiques. 



O Abcheologo Pohtugués 71 

li* Période. — Depuis le milieu da xvi® jusqu'au commencement 
du xviii® siede. 

Cette période est caractérisée par rapparition des premiers tra- 
vaux d'ensemble sur la numismatique. Don Rodrigo da Cunha et Ma- 
nuel Severim de Faria sont les initiateurs de ce mouvement, le pre- 
mier, dans son ouvrage intitulé : Hisioria ecdesicutica de Lisboa (1642), 
et le second, dans ses Noticias de Portugal (1655); ce travail^ quoi- 
que publié après Tautre, a été redige avant, et lui est supérieur. Les 
seiscentistas, héritiers des trésors scientiiìques accumulés durant les 
siècles précédents, s'efforjaient de les accroìtre davantage, d*où na- 
quit le besoin de la spécialìsation des sciences, et partant, chez nous, 
la constittttion de la numismatique comme science autonome. 

Outre les auteurs ci-dessus mentionnés, on peut encore citer più- 
sieurs autres dont les travaux nous foumissent de nombreux maté- 
rìaux numismatiques, par exemple: Fr. Antonio da Purificagllo, LeSo 
de S. Thomas^) Faria e Sousa, Fr. Francisco de Santa-Maria, Rocha 
Pitta, Xavier de Meneses, LeitSo Ferreira, Costa Solano, Antonio 
Cordeiro et d'autres. Quelques-uns des ouvrages de ces auteurs son 
analogues à ceux de la première période, mais dans une dassification 
chronologique, on ne doit pas les passer sous silence. 

Parmi les coUections de cette epoque, ou connait celle de Seve- 
rim de Faria, citée dans son travail, et d'autres qu'il n'est pas ici fa- 
cile de distinguer de celles de la période suivante. 

///* Période. — Depuis le commencement du xviii® siècle jusqu'à 
no8 jours. 

Cette période est caractérisée par le développement snccessif de 
la numismatique, par rapport au progrès des études historiques en 
general. Ce progrès a re9u une considérable impulsion de la créa- 
tion de l'Académie de THistoire portugaise, au xvni^ siècle, par le 
quatrième comte da Ericeira, sur le modale de l'Académie Fran9aise, 
fondée par le cardinal de Richelieu en 1635. 

Au sujet de la numismatique, déjà en 1738, Caetano de Sousa 
donne dans le iv volume de son grand ouvrage Hisioria Genealogica 
da Casa Real, non seulement des descriptions, mais encore des des- 
sins de nombreuses monnaies alors inédites; cet ouvrage forme un 
vaste recneil d'articles et de mémoires sur la numismatique, écrits par 
les auteurs antérieurs ; l'auteur coordonne aussi la législation mone- 
taire. Caetano do Bem insère dans ses Memorian Historicas (voi. li) 
un ^ticle synthétique sur Timportance de notre science, et Bento 
Morganti public sa Numismnlogia, où il s'occupe des monnaies remai- 



72 O Archeologo Pobtugués 

nes ; tout cela montre que la namismatique commen9ait à acqaérir 
un caractère general et qu'elle ne se restreìgnait pas exclusivement aii 
Portugal, comme jusqu^alors. 

Le travail de Gaetano de Sousa devint le point de départ de 
deux autres travaux très importants: oelui de Lopez Fernandez, 
intitulé: Memoria das moedas correntes em Portugal (1856), oii il 
a développé, corrige et utilisé methodiquement les écrits de ses 
devanciers, et celai de M. Teixeira de Araglo, intitulé : Descrip^Bo 
das moedas de Portìigcd (1874-1880), que j'ai déjà cité, et qui est, 
comme je Tai dit, Touvrage le plus détaillé que nous possédons sur la 
numismatique. Après la publication de ces livrea, on en a fait parai tre 
beaucoup d'autres, sartout dea catalogues. Je viens d'en mentionner 
quelquea-una. 

Nous n'avona pas eu de revues apéciales de numismatique, mais 
dans la Revista archeologica de Borges de Figueiredo, dana mon Ar- 
cJieologo Portugu^s, et dana d'autrèa périodiques, se trouvent de temps 
en tempa dea articlea aur ce aujet. U Archeologo Portugues possedè 
des index roethodiquea qui en facilitent lea recherchea. 

Indépendamment de la bibliographie portugaiae, il pourrait j avoir 
lieu de parler, en forme d'appendice, de la bibliographie étrangère 
qui ae rapporte à noa monnaiea, mais Tespace me manquerait; en oa- 
tre, j'ai déjà cité quelquea travaux, tela que ceux de Chalon, Heias, 
Meili, Engel. 

C'est dana la troisième periodo de THiatoire de la numiamatiqae 
portugaiae qu'on a fonde la chaire de numiamatiqne (1836), qui a été 
d'abord annexée à celle de paléographie, et qui plua tard seulement 
est devenue indépendante. Le cours de numismatique se fait à la Bi- 
bliothèque Nationale de Liabonne. Le premier profeaaeur, feu F. Mar- 
tinz d'Àndrade, a commencé par publier sea legona en 1858 dana une 
revue, maia il en a laisaé la plupart manuscrite; le professeur actnel, 
qui a pria posaeasion de aa chaire en 1888, a publié lea articlea sui- 
vanta: Li^ào inaugurai (1888), Elencho das ligdes de Numismatica, 
n« I (1889) n«» ii-vi (1894), n*»» vii-viii (1894), n<>» vii-vm (1896); 
le n° IX eat aoua preaae. Il a aussi publié les premières pages d'une 
petite Histoire de la numiamatìque portugaiae ^. 



1 Voir sur ces brochures : Revue numismatique, ì 889, p. 469 (notice par M. En- 
gel) ; Undem, 1896, p. 258 (notice par M. Blanchet) ; Bokiin de la Instihtciàn libre 
d^emehanza, 1893, p. 76-77 (notice parMM. Bianco & Vaca) ; Monatablatt derNu- 
mismatischen GesdUchafl in Wien, 1896, p. 337 (notice par M. Kenner) ; Mevue 
belge de Numismatique, 1897, p. 480 (notice par M. A. de Witte) ; Rivista italiana 



Archeologo Portugués 78 



Le cours est de deux années, le professeur s^ occupe de la numisma- 
tiqne purtugaise et de la partie de la numismatique ancienne qui se 
rapporte à notre pajs, tout cela étant précède, bien entendu, de quel- 
ques notions de numismatique generale. 

Lies coUections numismatiques formées pendant, la troisième pé- 
lìode, sont très nombreuses, soit au xvm* siècle, soit au xix®. Il y en 
a qui appartiennent à de hauts personnages ; d'autres font partie de 
certains établissements publics, par exemple la Bibiiothèque Nationale 
de Lisbonne, TAcadémie Rojale des sciences de Lisbonne, la Bibiio- 
thèque de rUniversité de Coì'mbre, THòtel des Monnaies, les Musées 
archéologiques ; on rencontre enfin une riche collection au Palais 
Royal d'Ajuda. 



La corre^pondance portugaise dont MM. MazeroUe et Serrure m'ont 
aimablement chargé devant contenir les faits contemporains sur la 
numismatique de mon pajs, je vals faire de cette section de mon ar- 
ticle le complément naturel de Tesquisse historique qui précède. 

Sons le roi actuel, S. M. Dom Carlos I®', qui est monte sur le 
tr6ne en 1889, on a frappé les monnaies suivantes: argent 500 réis, 
200 reis, 100 reis, 50 réis; bronzo 20 reis, 10 reis, 5 reis. La der- 
nière emìssion des monnaies d*argent est de 1897; celle des monnaies 
de bronzo, de 1896. Quelques piéces de bronzo ont été frappées à la 
Monnaie de Paris; elles se distinguent par la lettre A, qui est la mar- 
que de cet atelier. 

A cause de la crise monétaire que traverse le Portugal, l'or a dis- 
paru de la circulation et Targent lui-mème est rare à Lisbonne ; ces 
métaux sont remplacés par des billets de la Banque du Portugal et 
par des cédules de THòtel des Monnaies, celles-ci ayant la valeur de 
50 reis et 100 reis. A Porto, on a vu circuler pendant quelque temps 
des billets émis par la Municipalité, et il y a de simples marchands 
qui ont mia en circulation non seulement des billets, mais encore des 
tessères métalliques ressemblant à des monnaies. 

Lors de la célébration du centenaire de saint Antoine de Lisbonne 
(yulgò de Padoue), en 1895, on a fabriqué de nombreuses médailles 



di Numimiìatiea, 1897 (notice par M. Ambrosoli). — Poar plas de détails sur This- 
toìre de notre numismatique, on pent consultar la Descrip^ geral da» moedae de 
M. Teixeira de AragSo, i, 92122. 



74 O Archeologo Portugués 



d'argent et autres métaax, soit dans un bui artUtique, soit comme 
simples souvenirs religieux. 

La mémc annéo, un Centre Numitmailque fut fonde. J'en ai fait 
mention dans f Archeologo Portugués (t. I, p. 303). Il se proposait 
d'établir des rapporta parmi les coilectionneurs, et de facilitar des 
acquisitions, des ventes et des échanges de monnaies. Ce Centre dis- 
parut bientót; mais j 'ai appris qu*on va en fonder un autre dans le 
magasin d'antiquités de Cruz-Leiria, avenue de la Liberté, où depuis 
longtemps on vend des monnaies, des médailles et des jetons. 

La bibliographie numismatique portugaise, dans ces demières an- 
nées, est assez limitée. Ayant cité les principaux travaux, il est in- 
utile d'y revenir. Cependant, il faut encore mentionner ceux qui con- 
cement les trouvailles. Il y a quelque temps, on découvrit dans la 
province de la Beira, un trésor de monnaies d*or du roi Don San- 
che I«'. Dernièrement, j*ai vu une collection de monnaies de billon du 
xui* siècle, qui ont été trouvées ensemble ; quelques-unes sont curieu- 
Befl par ce fait qu'eiles sont incuses; j'en ai obtenu des exemplaires 
dont j'ai fait cadeau au cabinet des antiques de la Bibliothèqae Na- 
tionale de Lisbonne. 

En terminant, je parlerai des collection 8 numismatìques actuelles 
que je connais^ ou du moins de celles que je me rappelle pour le 
moment. 

Les collections les plus importantes se trouvent à Lisbonne. Je 
commencerai par le Cabinet des médailles de la Bibliothèque Natio- 
nale< Cette collection, constituée au xvm* siècle, se compose des séries 
euivantes : 

A) Monnaies: 

a) grecquea, la sèrie des monnaies de THispanie étant la seule 

remarquable ; 

b) romaines et byzantines; 
e) barbares et arabes ; 

d) portugaises, du continent, des iles, et d'outre-mer ; 

e) de divers pays, et pour la plupart modemes. 

S) MÉDAILLES: 

a) poi'tugaiaes (les décorations militaires y comprises); 

b) étranghre$. 

C) Jetons portugais, jadis appelés «contos para contar». 

Sur les médailliers des autres établissements de TÉtat, dont j'ai 
parte plus haut, et de celui du Palais-Royal d^Ajuda, je ne peux rien 
ajouter à ce qu'en dit M. Aragio (op, ciL, li, p. 92 et seq.). 




k 



O Archeologo Portugués 75 

Voici malntenant une indication sommaire dea collections particu- 
lières et autres: 

Dans la capitale, je dois mentionner celles de MM. Judìce dos 
Santos, Carvalho Monteiro, Sousa Cavalheiro, Manoel F. Vargas, 
Ferreira Braga, Manoel J. de Campos, Jo^o J. da Silva, Sousa Vi- 
Ihena, E9a d'Azevedo, Asc-ensfto GuimarSes, José J. Colla90, Robert 
A. Shore, Joào Manoel de Carvalho, Cardoso Castello Branco, Cyro 
A. de Carvalho, Jayme Couvreur et de feu J. Gregorio Barbosa. A 
Alcacer do Sai, il y a une collection au Musée munieipal; M. Bar- 
bosa en possedè une autre. A Setubal, j'ai appris que la Municipalité 
a établi une petite collection à l'Hotel de Ville; feu Almeida Carvalho 
en possédait une. 

Dans la province de TAlemtejo, je connais les collections du Musée 
d'Evoraj dans la mème ville, eelle de M. le vicomte daEsperanya et 
de Alvarez da Silva; à Elvas, celle de M. Tiemo; à Beja, celles du 
Musée municipal et de M. Mira; à Mertola, celle de M. Costa; à 
Serpa, feu Farla y Ramos avait une collection. 

Dans le royaume de TAlgarve, je connais les collections de M. 
Fiorendo, à Lagos; de M. Trindade, à Tavira; de M. Flores, à 
Fai^; de M. Antonio Judìce, à Mexilhoeira; feu Silvestre Rocha en 
avait une autre, à Castro Marim. 

Dans la province de la Beira, je connais les collections de la Bi- 
blìothèque de TUniversité de Colimbre, de M. Mirabeau, aussi à Coìm- 
bre, du Musée municipal, a* Figueira da Foz, de M. Duarte Silva, 
dans la méme ville ; M. Aguilar eu possedè une autre,* à Viseu ; feu 
M. le juge Ferreira Finto avait, à Fucdfto, une collection de mon- 
naies qui ont été vendues à Tencan apres sa mort. 

Dans la province d'Entre-Douro-e-Minho, on peut citer les colle- 
ctions des Musées de Porto et Guimarftes, et celles de M. Azuaga, à 
Gaia, de M. Ferreira, a Porto. 

Dans la province de Tras-os-Montes, je connais celles de M. Bo- 
telho et de M. Tabbé Azevedo, à Villa-Real, et celle de M. Ilomem 
Pizarro, à Bobeda. . 

Si je ne craignais pas d'ètre trop long, je pourraìs foumir sur plu- 
sieurs de ces collections quelques renseignements, d'autant mieux que 
M. Ferreira Braga et M. Campos ont bien voulu recueillir pour moi 
certaines notes, que j'ai Tintention de publier plus tard. 

Dans les médailliers que je viens de signaler, il y a toutes sortes 
de pièces (monnaies, médailles, jetons) ; ce sont toutefois les monnaies 
portugaises et romaines qui y prédominent, le médaillier de M. Ju- 
dice dos Santos excepté; ce médaillier a une importance universelle 



76 O Archeologo Pobtugoés 

et comprend de vérìtables raretés namismatiqnes. Les coUections par- 
ticulières les plus riches en jetons sont, à ma connaissance, celles de 
M. Ferreira et M. Campos ; je les utiliserai dans le travail que je pré- 
pare sur ce sujet. Je ne saurais passer sous silence la remarquable 
sèrie de médailles portugaises formée par feu J. Gregorio Barbosa, 
la plus grande qui jamais alt été faite en Portugal. M. Jo^ J. da Sil- 
va, autrefoìs juge à Macao, possedè dans sa coUection numismatiqae 
de TExtréme-Orient une sèrie de monnaies chinoises assez rares, affé- 
ctant plusieurs formes, telles qu'épèes, couteaux, etc. 

La plupart de nos coUectionneurs sont de simples amatears et 
non des èrudits contribuant par leurs travaux aux progrès de la 
science; ils connaissent d'une .manière très complète les pièces qu'ils 
possèdent, leur raretè, leurs variantes, etc, mais très rarement ils 
les mettent à la portée du public, et au profit de Tétude de THis- 
toire, de TÀrt et de TEconomie politique, les trois cbamps où la Nu- 
mismatique alme à s'èpanouir et à rèpandre la lumière. 

Lisbonne, Novembre 1897. 

J. L. DE V. 



Atalaia da Oandaira, em Bragranoa 

O planalto que constìtue a planicie ondulada, que se estende em 
volta de Bragan9a, è dividido pelo rio Sabor e pela eleva9Xo da sua 
margem esquerda denominada da Candaira, que elle em parte torneia. 
e cuja linha de cumiada segue a direc9So E.-O. No seu ponto 
culminante véem-se restos bem distinctos ainda de urna pequena for 
taleza, que era composta, comò se ve da pianta, de um fosso quadran- 
gular de lados curvilineos, que tinha 144 metros de perimetro, e que 
envolvia outro circular, no recinto do qual se elevava uma torre, que, 
pelos vestigios existentes, parece ter tido fórma arredondada, e sido 
feita de pedra sem cimento. 

Tal è a situagfto e a constituÌ92ko da fortifica9So chamada aUdaia. 
por ser destinada a vigiar e a observar teda a vasta àrea da planicie^ 
OS seus caminhos, e os que das alturas, que a cercam, a ella vem ter. 

E na verdade, quem jà tivesse estado neste ponto, devia ter no- 
tado corno d'elle se descobre um horizonte admiravel, limitado pela 
curva sinuosa das cristas das eleva98es, que, là ao longe, se projectam 
no céu ; e teria o prazer de disfructar uma paisagem bella e surpre- 
hendente, ao ver tantas povoa98es revestidas de uma simplicidade 



O Archeologo Portugués 



77 



quasi primitiva, situadas ora no meio das planuras, ora nas encostas 
<lo8 montes e coUinas, ora, finalmente, na concavidade dos valles ; 
destacando-se d'entre ellas, dando um notavel realce ao panorama, a 
cidade de Braganfa, pela sua grandeza, pelo aepectu alegre que Ihe 
imprimem as suas habitafSes caiadas, e, principalmente, pela sua 
torre de m«i/iagemy que, sobresaindo magestosa por cima das velhas 
cinturas de muralhaS; Ihe dà uns ares do antiguidade, de soberania e 
de poder. 











Depois, Sabor, formando curvas regulares, atravessa teda està 
extensSo, de modo calmo e tranquillo, que parece que Ihe custa aban- 
donar estes lugares, aos quaes dà (ei^Sio sobremodo poetica e encan- 
tadora. 

Quem quiser, portante, fazer ideia exacta da grandeza e topogra- 
phia d'este vasto trato de terreno, tem de ir à atalaia, d'onde, ao 
mesmo tempo que contempla as maravilhas e os encantos da natu- 
reza, que observa os effeitos de perspectiva provenientes da combina- 
{So de uma multiplicidade de cousas t2o diversas e variadas, sente 
nascer e recrudescer em si o desejo de querer saber a historia das 
gerajSes que por aqui passaram, cujas cinzas est^ nesses innume- 
ro8 castros, que d'ella se divisam. Resultando d'ahi gozarem-se simul- 
taneamente dois quadros verdadeiramente interessantes e admiraveis : 



78 O Archeologo Portugués 

o do passado, envolvido ainda nas trevas do desconhecido, mas cheio 
de lendaa e tradÌ93es ; e o do presente^ todo alegre e palpitante de 
vida. 

Està pequena fortaleza fazia parte de urna linha de torres em que 
entrava a de Rabal e outras, de que jà desappareceram os veetigios, 
que envolvia a Cidadella de Bragan9a, constituindo assim, teda està 
defensa, urna especie de campo entrincheirado ou urna grande testa 
de ponte, segando a technologia da fortìiìea9&o moderna. Pois estas 
torres eram de ordinario organizadas nXo so para alargar o campo da 
obserya9So, mas tambem para ofFerecerem a primeira resistencia ao ata- 
canto ; de modo que oste, na sua avaD9ada, tinha de subdividir as 
suas for9as em tantas partes quantas ellas eram, originando d'ahi o 
seu enfraquecimento pela quantidade de combates parciaes, qne era 
obrigado a sustentar simultaneamente. 

Os restoSy pois, que nós agora vemos na Candaira, a 3 kilometros^ 
proximamente, a nordeste de Bragan9a, pertencem a urna obra des- 
tacada que protegia os cpobladores de BregS9a» ; era uma das alme- 
naras que ao longe vigiavam pela 8eguran9a dos que habitavam dentro 
do recinto dos seus muros e torres, e d'onde, mais de uma vez, seriam 
chamados a appeUido, para repellirem as azarias ou fossadeiras do ini- 
migo, ao grito ou ao signal de alarme, ent&o diariamente repetido, de 
cMouros na terra! Mouros na terra! Moradores às armas!» * 

Bragan9a, 1897. 

Albino Pereira Lopo. 



Meio-tostfio de D. Sebastifio 

meio-tost%o de D. SebastiSo é moeda relativamente vulgar, nSo 
admirando por isso, dado o systema de cunhagem da epocha, que se 
encontrem com preferencia exemplares bastante variados nos typos e 
legendas. 

• A p. 297, do voi. Ili, d-0 Arch, Pori., vem publicado o desenho, 
e a de8crip9fto de um esemplar de uma d'estas moedas pertencente ao 
Sr. Ferreira Braga, distìncto coUeccionador, e entendido numismata 
de Lisboa, differindo essencialmente do typo descrito pelo meu amigo 



1 Cfr. Viterbo, Elucidario, i«, 83. 



Archeologo Poetugués 79 

e mastre Sr. Teixeira de Aragào a p. 278, n." 19, do voi. i da sua 
obra, em nao ter cantonada a cruz do reverso, e em nSo ser acompa- 
nhada inferiormente por circuito granulado a legenda do anverso. 

Na minha collecc9%o esiste um meio-tostào de D. SebastiSo, que 
diflFere apenas do do Sr. Ferreira Braga em ter a legenda do reverso 
precedida de *:- em vez da estrella; sendo a legenda completa do 
anverso: >!< SEBASTI ANVS IREXPO. 

Possuo ainda mais dois exemplares em que a cruz do reverso nlo 
é cantonada, mas tem as quinas dentro do circuito granulado. 

a) )i< SEBASTIANVS:I:REX POR. Quinas dentro do 
circuito granulado. 

Reverso.— IN -HOC- SIGNO VINCE S- Cruz de S. Jorge 
encimada por . * . , dentro do circuito granulado. 

b) * SEBASTIANVS:I:REX:PORTVG. Quinas dentro 
do circuito granulado. 

Reverso.— IN:HOC:SIGNO:VINCES: Cruz de S. Jorge 
encimada por . * . , dentro do circulo limitado por linha continua. 
Lisboa, Junbo de 1898. 

Manoel F. de Vargas^ 



Moedas romanas aohadas na Idanlia ^ 

No Museu Etimologico Portuguès deram ultimamente entrada as 
segaintes moedas de prata da republica romana: 

1.* 

Anyerso. — PITIO, cabe9a da densa Roma à direita; adeante X. 
, Reverso. — L'SEiyP, Dioscuros a cavallo à direita. No exergo 
ROMA. 

Denario de Lucio Sempronio Picio, que foi monetario por 174 
A. C. — Cf. Babelon, Monnaies de la réprìblique romaine, n, 430; 
mas as lettras do esemplar do Museu Ethnologico Portuguès s2lo 
pontuadas. 



i Summula de urna IÌ9S0 de Numismatica dada na Bibliotheca Nacional de 
Lisboa em 1898. 



80 O Archeologo Portdgués 



2.* 

Anverso. — ROM a, cabeja da densa Roma à direi ta. 

Re verso. — Victoria com urna coroa na de^Ltra, na quadriga i 
direita. No exergo vestigios das duas ultimas lettras da legenda 
M-FANCF. 

Denario de Marco Fannie, que foi monetario por 149 A. C — 
Cf. Babelon, ob. cit., i, 491. 

3.* 

Anverso. — Cabeja da densa Roma & esqnerda. 

Reverso.— Saturno com a foncé, em uma quadriga; no campo, 
•js: encima. No exergo L • S A T V RN . 

Denario da familia Appnleia, cunhado entre 104 e 94 A. C. - 
Cf. Babelon, ob. cU., i, 207-208. 



Anverso. — S A B I N , cabota do rei Tito à direita, adeante nma 
palma. 

Reverso. — Dois guerreiros romanos que levam cada um sua Sa- 
bina. No exergo LTITVRI. 

Denario de Lucio Titurio Sabino que foi monetario por 88 A. C. — 
Cf. Babelon, ob. cit., n, 496-498, n.* 2. 



Estas moedas foram encontradas no castello de Monsanto e arre- 
dores, concelho de Idanhaa-Nova, e offerecidas ao Director do Mueeu 
Etimologico pelo Sr. CarvalhXo Novaes, professor do Lyceu de Leiria. 

Tanto em Monsanto corno na Area de Idanha tem apparecido 
muitas inscrip$5es romanas, comò se póde ver no Corp. Inscr. Lai., 
Uy p. 50-51, e n-0 Arch. Pori., i, 225-232. Nesta àrea viviam, comò 
é sabido, os povos Igeditanos. 

As nossas moedas, que datam do sec. nei antes da era christi, 
pertencem pois a uma regiSo archeologicamente bem determinada, 
que ellas porém ajudam a definir melhòr; é provavel que fossem 
para là levadas em epocha muito antiga da domina$2o romana uà 
Lusitania. 

Cesar Pibes. 



O Archeologo Portuguks 81 



O oemiterio da Igreja Velha (Alvaiàzere) 

Pelo DOSSO intelligente amigo Sr. Polycarpo Marqaes Rosa, de Al- 
vaiàssere^ tivemos noticia do apparecimento de algumas sepulturas no 
sitio denominado Igreja Velha, que fica ao norte da poyoa9%o. Elle 
disse-nos que taes sepulturas consistiam em sarcophagos de pedra ta- 
pados com lages ; e que havia quem as attribuisse à epocha romana, 
posto que a elle Sr. Rosa parecessem relativamente modemas. 

Isto determinou-nos a ir a Alvaiàzere fazer alguns estudos no inte- 
resse do Museu da Figueira. De facto em 4 de Outubro ultimo esta- 
vamos no proprio sitio da Igreja Velha, procedendo à ex:plora9&o na 
presenfa do Sr. Rosa e dos Srs. Francisco Ferreira Loureiro, nesso 
collega na direc$So do Museu^ e Annibal de Brìto Paes, alumno da 
Faculdade de Philosophia na Universidade. 

O locai que conserva particularmente o nome de Igreja Velha fica 
à esquerda do caminho que vae do lado de Alvaiàzere, e em nivel 
inferior ao do mesmo caminho. Informou o Sr. Rosa que a tradiffto 
diz ter existido alli a antiga igreja matriz da povoa9llo ; e nós vimos 
solo juncado de fragmentos de telha commum, indicando talvez os 
restoB de um edificio. 

Pelo norte d'este locai, à direita do caminho, e contiguo a este^ 
mas em nivel mais elevado, està o oemiterio, estabelecido numa en- 
costa. É provavel que a porgSo d'esse caminho, que fica entro o sitio 
da Igreja e o oemiterio, fizesse em tempo parte d'este, e contivesse 
sepulturas; pois que o Sr. Rosa declara ter encontrado urna d'estas na 
orla meridional do mesmo caminho. 

Tambem reputamos provavel que na por^So do caminho, que im- 
mediatamente se prolonga para o norte do sitio da Igreja, estivesse 
em tempo uma parte do oemiterio, porque este se manifesta na bar- 
reira qne fica à direita da via; mas do lado esquerdo d'està, onde se 
diz ter existido um cruzeiro, a sondagem do terreno nXo assignalou 
sepultura alguma. 

Pelo norte do oemiterio, a algumas dezenas de metros, o caminho 
passa contiguo às ruinas de uma casa que, segundo a tradi(Xo indi- 
cada pelo Sr. Rosa, fora residencia do presbytero. 

Nfto sabemoB qual o numero aproximado de sepulturas que o ce- 
miterìo deve center, mas parece-nos exaggeradissimo o calculo de 
cffnknare8j que alguns fazem. Pelo numero de sarcophagos que os vi- 
zinhos tem extrahido d'alli, para Ihes servirem de pias, pelos vesti- 
gios dos cortes feitos no terreno em consequencia das profana(8es e 



82 Archeologo Poetugués 

expIora9Òe8 que nos precederam, cortes quo quebraram a lìnha do 
declive do solo, e ainda pela disposifSo e numero de sepulturas que 
encontràmos a descoberto ou que foram descobertas durante o nesso 
trabalho, e pelas sondagens que fizemos inutilmente em alguns pontos, 
onde aliés o solo nìio apresentava indicios de remeximento, pensamos 
que devem reduzir-se muito as propor93e8 da necropole. 

Nós apenas obtivemos as provas materìaes da existencia de onze 
sepulturas, contando neste numero as que jà tinham side extrahidas 
antes da nossa exploraf^). 

Dois sarcophagos de pedra achavam-se descobertos, era parte por 
explora93es anteriores. Um estava cheio de terra ; e o outro continha 
ainda uma gi*ande porgSo de ossos. Este ultimo nILo fora inteiramente 
explorado ; e nós verificàmos pela diversidade e desordem dos esqae- 
letos, que elle estava servindo de ossario comò outras sepulturas em 
seguida descobertas pelas nossas excava98e8. 

D'esses tumulos, jà privados das tampas, um tinha a fórma trape- 
zoidal e era feito de grès. O outro era formado de duas pegas, urna 
rectangular, de grès, que constituia mais de metade do eomprìmento 
da sepultura, e a restante de calcareo, arredondada na extremidade. 

O comprimente d'estes caixòes de pedra era de 1",65 e 1",75. 

A fórma aproximada de corpo humano, que alguns dizem ter no- 
tado nestas sepulturas, nSo existe: e nem a encontràmos nas que fo- 
ram descobertas nas nossas excava(5es. 

Difficil nos foi lego ajuizar da epocha a que pertencerìam taes 
monumentos. Ao principio fizeram lembrar-nos os sarcophagos roma- 
nos, mas depois netàmos nelles differen9as importantes. Por outro 
lado em todas as necropoles luso-romanas que tinhamos exploràdo, 
nunca nos apparecèra sepultura alguma que servisse meramente de 
ossario. Quando alguma tinha recebido successivas inhuma9oes, appa- 
recia estendido e esqueleto do ultimo inhumado, e agglemerados a 
seus pès OS ossos dos inhumados anteriormente. Outras vezes estes 
ultimos encontravam-se fora da sepultura, esparsos por cima da 
tampa; e até appareceu e exemplo de ter side depositado um cada- 
ver sobre e esqueleto de outro inhumado anteriormente, sem que se 
dessem ao incommodo de desarranjar os ossos! 

Atacando o solo coberto de mate, onde nos pareceu nSo haver 
vestigios de remeximento, netàmos que estava durissimo, e que as 
raizes penetravam profundamente nas camadas inferiores. entulho 
continha muitos fragmentos da telha curva. 

Estes objectos fizeram-nos pensar na imbrex da epocha romana, 
porque os temes encontrade com os mesmos caracteres em esta95es 



O Archeologo Portugués 83 

d'eata epocha; mas corno tambem eram semelhantes às telhas dos 
tempos modemos e ufio appareciam vestigìos alguns da tegnla, ou telha 
de rebordo, e de vasos romanos, n&o ousàmos attribui-los à antiguìdade. 
Entretanto urna poquena moeda de bronze foi encontrada no seio 
d'aquelle entuiho, por cima das sepulturas que em seguida apparece- 
ram. Essa moeda so foi decifrada depois do nesso regresso, pelo 
Sr. Dr. Antonio Alvares Duarte Silva, director da secgSo de numis- 
matica do Museu ; e por isso n%o influia na direc9So que dèmos às ex- 
plorafoes. 

A C^jTO aproximadamente de profundidade estavam quatro fossas 
cobertas com lages, orientadas no seu eixo maior, a LO. ou de ONO. 
a ESE. Uma nXo excedia 1™,2 no comprimento e 0™,3 na largura e 
na profundidade ; e servia apenas de ossario, onde se guardavam, em 
desordem, ossos de diversos esqueletos. As outras com a fórma tra- 
pezoidal, mais ou menos arredondadas nas extremidades, ou com a 
fórma de dois trapezios de alturas deaiguaes unidos pelas bases, me- 
deiam no comprimento l^jBO a 1",75, e na profundidade 0™,35 apro- 
ximadamente. Duas d'estas tambem serviam de ossarios porque con- 
tinbam mais de um esqueleto, cujas pe9as estavam misturadas e fora 
da sua ordem anatomica. 

So urna das fossas continha um unico esqueleto, na sua disposi- 
9ÌL0 naturai. corpo fora inhumado sobre as costas, estendido horì- 
zontalmentC; com a cabefa para o lado de O. e os brayos curvados 
para a parte inferior do ventre. 

Outra excava92lo, pelo lado do sul dos dois sarcophagos mencio- 
nados, pos a descoberto um novo tumulo d'està especie, feito de grès, 
com a fórma trapezoidal, tendo a base do trapezio voltada para ONO. 
Estava ainda tapada com uma grande lage ; e nfto encontràmos 
vestigios de remeximento no entulho que envolvia, nem no depòsito 
que encerrava. Media monolitho no comprimento 2™,07, na largura 
0'",72 em uma das extremidades e 0'",60 na outra, e na profundidade 
0™,3 a O^jé. 

Este tumulo orientado de O. a ESE. tinha esculpida grosseira- 
mente em relévo na face externa do lado ONO. uma cruz de fórma 
grega, iste è, de hastes iguaes. 

Servia tambem de ossario. Dentro encontraram-se, envolvidos em 
terra, nove cranios e muitos outros ossos humanos, fora das suas re- 
la^Ses anatomicas. Tres cranios alinhados do lado do 0., com a face 
voltada para E., e outros tres alinhados do lado de E., com a face 
voltada para O., indicaram-nos que mSos piedosas ha^am disposto 
estes ossos com singular cuidado. 



84 Archeologo Portugués 

Em face de tal descoberta nlKo nos resta dùvida que o cemiterio 
era chrìstSo : mas de que epocha ? A resposta foi dada pela moeda 
encontrada nos entulhos. Era um dinheiro de D. AflFonso III (se- 
culo xm). 

A. DOS Santos Rocha. 



Offioio-oiroular da AssooiaQfio dos Arohiteotos 
e Aroheologos * 

A Real AssociafXo dos Architectos Civis e Archeologos Portugae- 
ses, prof und amente impressionada pelo abandono cruel a que tem sido 
votadas quasi todas as joias precìosissimas do nesso valioso thesouro 
monumentai, dispersas por muitos pontos do pais e sujeitas & sorte 
vària da ac9&o destruidora do tempo ou entregues sem protec9So 
aos multiplices factores vandalicos, na maioria dos casos provenientes 
da iniciativa locai inconsiderada e tumultuaria, resolveu em oonfor- 
midade com uma proposta de um dos seus associados, approvada 
unanimemente, promover por todos os meios ao seu alcance, uma 
intensa e efficaz corrente de protec(2o a todos os monumentos nacio* 
naes, de fórma que se Ihes assegure a integridade e se Ihes sanccione 
o respeito que merecem comò padrSes valiosissimos de arte e de 
tradÌ9&o. 

Resolveu està Asdocia9So, com o fim de generalizar essa corrente 
protectora, appellar para todas as sociedades scientificas do pais e 
para todas as entidades prestimosas que pelos seus estudos ou orien- 
tarlo, tenham prestado a està causa benemerita reconhecidos ser- 
VÌ90S, conscia de que todas essas for9a8 e vontades dispersas, devi- 
damente congregadas na aspìra9Xo commum de uma cruzada santa 
de respeito e protec9Jo às nossas reliquias tradicionaes, obterSo num 
futuro proximo dos poderes constituidos, medidas de salvaguarda e 
protec9llo decididas, que se traduzam em effeitos praticos de fórma 
que dèem satisfa9%o piena a todas as queixas vehementes e a todas 
as recrimina95es justificadas, dos sinceros patrìotas que de alma e 
cora92o se dedicam ao culto das tradÌ93e8 venerandas da nossa pas- 
sada grandeza. 



1 Dirigido à iinprensa e aos estabelecimentos scientificos do pais. 



Archeologo Portugués 85 

£m conformidade, pois, com està resolugSlo e em nome da Asso- 
ciatilo que representamos, dirigimo-nos a V. Ex.* a firn de que, com 
a sua yaliosa coopera$%o, junta & de muitos outros individuos e colle- 
ctivìdades que ultimamente e neste sentido nos tem prestado espon- 
taneamente o seu benemerito concurso, possamos encetar està patrio- 
tica cruzada. 

Sem querer hostilizar nem censurar ninguem, sem querer fazer 
concorrencia a qualquer corpora9ao e entidade officiai ou nXo officiai, 
embora a sua longa existencia e os servÌ90s até hoje prestados à 
sciencia portuguesa Ihe dèem e assegurem o direito de propriedade, 
a Real Associa9lo dos Architectos Civis e Archeologos Portugueses, 
no maus rigoroso cumprimento dos seus deveres, e na mais pura e 
leal das aspira9oes, so pretende e tem em vista, neste momento: 

a) Formular o inventario dos monumentos e objectos de arte, 
que devem ser apontados à ac(%o vigilante do governo e ao culto 
esthetico do povo portugués; 

b) Estabelecer uma forte corrente de opiniSo que contribua para 
o bom exito de qualquer projecto que tenda a assegurar efficazmente 
a guarda e conserva92o dos monumentos ; 

o) Recolher, para depois fundir num pensamento commum, todos 
OS alvitres e todas as propostas que mais racional e praticamente 
concorrem para se realizar o fim que se pretende. 

Apesar de muito cerceado jà, o nesso patrimonio monumentai 
ainda se imp8e a todos, pelo seu inestimavel valor, e merece bem 
08 cuidados de velarmos zelosamente pela sua integridade. 

Esse patrimonio de arte e tradÌ9ao, que, se fosse devida e reli- 
giosamente respeitado, constituiria para todos nós um justo motivo 
de patriotico desvanecimento, tal comò se encontra, desprotegido 
e entregue a todos os factores de destruÌ92o, synthetìza a nossa 
vergonha e apresenta-nos perante as na95es cultas do mundo, que 
outr'ora reconheceram quanto valemos, comò indignos de sermos 
depositarios d'esses venerandos padrSes de inigualavel ousadia, cren9a 
e arte. 

Se conseguirmos, em intima collabora9lLO de esfor90S, desinte- 
ressada e patriotica, o nesso fim elevado, que significa uma cruzada 
de honra e brio nacionaes, deve ficar-nos tranquilla a consciencia 
por havermoB cumprido o nesso indeclinavel dever e evitado que os 
estrangeiros, que visitem o pais, continuem a vexar-nos com as suas 
crìticas vehementes, que, se muitas vezes molestam dolorosamente 
nesso brio de portugueses, nem por isso deixam de ser, na maioria 
dos casos, infelizmente merecidas. 



86 Archeologo Portugdés 

Sào estas as nossas aspiraySes e desejos, é este o unico objectivo 
do trabalho de propaganda que encetamos e calorosamente defende- 
remos, contando para isso com a adhesSo valiosa, nSo so de V. Ex.*, 
mas tambem das collectividades com que esteja em immediata corres- 
pondencia, para que na exposÌ9So que tenha de ser apresentada aos 
poderes publicos pedindo-lhes providencias sinceras e eflFectivas, elles 
reconhegam que n%o é so urna Associarlo que para elles appella, 
mas pais inteiro, profonda e intimamente interessado numa causa 
a que se ligam as suas tradÌ99es e o seu brìo de poYO civilizado. 

Se V. Ex.*, em^atten92k> ao exposto, se dignar associar-se ao 
nesso appello, em nome da associarlo que neste momento represen- 
tamos, Ihe pedimos nos envie para a sède Associativa quaesquer noti- 
cias que tenham chegado ao seu conhecimento, nSo so referentes & 
existencia de monumentos de arte e de tradirlo, mas tambem as que 
se correlacionarem com o estado e circumstancias especiaes d^esses 
monumentos, acompanhandoas da sua opinilo individuai sobre o 
assumpto que constitue està campanha benemerita. 

A compilarlo d'estas noticias, opini5es e pareceres, constitaìrà 
valioso subsidio para a organizar^U) definitiva de urna representa^So 
serenamente pensada, em que se apresentem ao Governo as nossas 
legitimas e communs aspirarSes, devida e methodicamente funda- 
mentadas com a citarlo de factos de que tivermos conhecimento. 

Contando antecipadamente com a adhesSo valiosissima de V. Ex.*, 
somos com teda a considerarlo e respeito de V. Ex.* attentos vene- 
radores. 

Lisboa e sala das sessòes da Real Associarlo dos Architectos 
Civis e Archeologos Portugueses, 28 de Novembre de 1897. =Pre- 
sidente, Conde de S. t7anttano=Vice-presidente8, Valentim José Cor- 
rea, Antonio Pimentel itfoZdowodo = Secretarios, Gabriel Pereira^, 
Eduardo Augusto da Rocha l>ia«= Vice-secretarios, José Joaquim 
d'Ascengào Valdes, Rosendo Carvalheira, 



Pela parte que, comò director do Museu Ethnologico Portuguès, 
me teca em resposta ao officio antecedente, que tambem me foi 
enviado, direi que concordo pienamente com as ideias nelle expen- 
didas, e que todos os meus esforros no campo da Archeologia Nacio- 
nal, quer com o impulso que procuro dar ao Museu Ethnologico, 
quer com excursSes que realizo pelo pais, quer com incessante propa- 



O Archeologo Portugués 87 

ganda epistolar e orai, quer finalmente com a publica§Xo d-O Archeo- 
logo Portugués, tendem exactamente para que tenha bom exito a cru- 
zada que a Associa^fio do Canno, representada pelos signatarios do 
officio, tao patrio ticamen te enaltece e defende. 

Como resposta especial ao pedido que nos ùltimos periodos do 
officio se faz, submetto à aprecia^So dos meus illustres consocios 
OS volumes publicados à-0 Archeologo Portugués, onde se acha men- 
9S0 de muitos monumentos artisticos e areheologicos. 

J. L. DE V. 



As fortiflcagCes de Rabal (Braganga) 

Na margem direita do Sàbor, e banhada por elle, a 10 kilometros 
a norte de Bragan9a, e encravada nas fraldas da serra de Montesinho, 
i^é-se a poyoa9ao de Rabal, que, em virtude da fertilidade do seu 
solo, e da amenidade do seu clima, é uma das aldeias sertanejas mais 
ìmportantes d'estes sitios. 

Proximo e sobranceira a ella, do lado do poente, ha uma collina 
que està sepacada da serra por duas ribeiras affluentes do Sàbor , 
que nascem logo ao lado de cima, perto uma da outra, e que formam 
dois yalles lindissimos, que tornam està estancia verdadeiramente 
alegre e aprazivel. 

Està elevagSlo tem as encostas bastante escarpadas, permittindo, 
com difficuldade, accesso à infanteria ; e seu horizonte é limitado 
por todos OS lados pela montanha, à excep9&o do nascente, que se 
estende até às alturas de Babe e MilhSlO; numa extensSo de mais de 
12 kilometros. 

Considerada tacticamente, no tempo da arma branca, satisfazia 
em multo às exigencias requeridas a uma posigSo no favorecer a de- 
fesa, difficultando a aproxima9&o do atacante ; e por isso foi escolhida 
para refugio dos prìmeiros habitantes que foram cultivar aquelles 
valles que domina completamente. 

Tal é a situa9ao e taes sSo as condÌ95e8 militares do locai a que 
OS naturaes chamam Castro, por nelle ainda se distinguirem uns 
vestigios de fortifica93o em andares, que era formada de fossos e mu- 
ros de pedra solta. A cintura mais interior, que corca planalto, 
torà, quando muito, 300 metros de desenvolvimento, e seu tra9adO; 
que é circular, segue a configura9So do terreno. 



88 Akcheologo Portuoués 

Alem do8 restos de defesa dìvisam-se mais, nestas ruinas, abun- 
dantes fragmentos de lousa e de mós de granito ; d8o se encontrando 
de tijolo, de loufa e de telha^ corno acontece em grande quantìdade nss 
outras povoa93eB mortas. O nSo existirem fragmentos de teiha nSo é 
para admìrar, porque é milito de presumir que as babitaj^es foBsem 
cobertas de lousa, que a ha no termo, comò ainda hoje o s&o todas as 
casas de Rabal, o que Ihes dà aspecto muito pittoresco. 

Se estas ruinas sSo de poyoa92Lo extincta, poucos signaes ha d'ella; 
e a ajuizarmos pelos existentes, era pequena e pouco importante. So 
demoradas investiga98e8 poderSo esclarecer o que foram, que à sim- 
plez in8pec9So nos dSo a impressSo de um acampamento ou arraial 
(em latim castra). 

A vista d'este castro, para sudoeste, a uma distancia nSo superior 
a 1:500 metros, e numa altura que margina a estrada que vae para 
Bragan9a, véem-se tambem umas ruinas de uma pequena fortaleza 
circular, de cousa de 6 metros de diametro, formada de pedra sdita, 
fortaleza a que chamam a torre. D'ella avistase distinctameiite a 
face norte do castello da cidadella de Bragan9a, e deve ser tida corno 
ponto avan9ado, atalaya d'està fortaleza, destinada a vigiar este cami- 
nho da fronteira. 

NSo resta dùvida que està torre serviu de ponto intermedio de 
communica9So entre a fortaleza da cidade e a nossa aldeia de Babai, 
ou o seu castro, se porventura coexistiram na mesma epocha. 

Ahi fica essa noticia sobre as ruinas das fortifica95e8 da povoa9Ìo 
que alguns tem querido identificar com o Roboretum de Antonino. Mas 
comò se ve por ella, e pelo que se induz das informa95e8 dos seus 
habitantes, nSo se póde acceitar este parecer sem outras rar^Ses que 
justifiquem. E pelo menos està a minha opiniSo. 

Bragan9a, 1897. 

Albino Pereira Lopo. 



Dois macliados de bronze 

Foi por mero acaso que se descobriram os machados de bronze, 
de que vou occupar-me; um d'elles vae aqui representado. E foi ainda 
preciso novo acaso, para que os seus fragmentos n&o andassem hoje 
dispersos e irreparavelmente perdidos! 

Cà em Portugal, nao sei de pesquisador de antigualhas, mais sol- 
licito e mais feliz do que o acaso. Curvemo-nos, pois, perante elle. 



O Archeologo Portugcés 89 

£m 1895, uns pedreiros exploravam as bancadas superficiaes de 
urna pedreira de granito, na quinta chamada da Commenda^, emTa- 
vora (Arcos de Val-de-Vez). 

Em urna fenda naturai da rocha, fenda entulhada de rèbos (pedra 
menda), achavam-se dois objectos de metal, collocados um ao lado do 
entro, e inteiros ambos. Verificando os trabalhadores, depois de os par- 
tirem, que esses objectos nSo eram do vii metal precioso, arremessa- 
ram-nos em peda^os para um montSo de entulho, aonde um dos donos 
da propriedade*, apparecendo pouco depois, os pòde recolher e com* 
pletar. Estava jà um dos ìnstrumentos partido em tres e entro em dois. 




Os dois machados nada nos vem dizer de 40vo, creio eu, nem pelas 
eircumstancias do seu apparecimento, pois ainda d'està vez parece que 
se trata de um esconderijo, sem iuten9So religiosa ou antes modesto, 
thesouro visto tratar-se de objectos novos (Vid. Chantre, Age du 
hronze, il, 68), nem por particularidades de fórma, que jà é conhe- 
cida. Com elles nSo me consta que estivesse qualquer outro objecto 
(le valor archeologico. 

Em todo caso, confirmam o que jà era sabido, e iste sempre é 
de vantagem. Testemunham um fabrico locai. 

Os machados de Tavora pertencem a um typo, reproduzido em 
varias partes de Portugal, e da Hespanha, no sudoeste da Franja, no 
sul da Inglaterra e na Irlanda^. 



1 Foi commenda da Ordem de Malta, e os bens que a constituiram foram doados 
por D. Theresa. Àinda existe a crmida ; bello, embora modesto, exemplar do est^^lo 
romano-byzantino, sobre a qual preparo um pequeno estudo. 

2 Os donos da quinta sào os Ex.»®' Srs. Joao de Brito e Dr. Fedro de Brito, 
ambos lavradores abastados e multo illustrados. Aquelle deve hoje a archeologia 
portoguesa mais estes dois machados ; à iniciativa e posi^So officiai do outro, deve 
a cuidadosa canserya9ào da sua ermida, a do pelourinho da villa, etc. 

5 Vid. Cartailhac, Lts àges préhistoriques de VEapagne et du PortugcUj pp. 236 
a 238 ; Rapport sur la session de Lisbonne du Congrhs intematiotìale d'anthr apologie 
et d^arckéologie préhistoriquej p. 74; — Campte-rendu do mesmo Congresso, pp. 365 
e 366 segs. 



90 O Archeologo Pohtugués 

Foi porém a este typo de machados com duas ctsdhas que o 
Sr. Hildebrand, no Congresso Prehistorico de Lisboa, em 1880, appli- 
cou a denomina^ao de typo do Minho, corno occupando o remate na 
escala de aperfeiyoamentos, a come(ar da simples lamina cu cunlia 
do Alemtejo. 

Hoje, porém, nem é licito reclamar para a archeolo^a exclusi- 
vamente portuguesa este typo de machados, comò em 1880 quis o 
Sr. Possidonio da Silva ^, pois que machados de aselhas tem sido 
encontrados em diversas regiSes, nem tampouco* me parece poder 
justificar-se a denominammo, ainda mais restricta, de machados de t^j 
do Minho, quando jà o Sr. Possidonio os dava tambem da Beira e da 
Estremadura e hoje os ha do Alemtejo, de Tras-os-raontes, etc. ^ 

No Minho (Barcellos) tambem tem apparecido machados de cunha*; 
pertanto nXo sio proprios so do Alemtejo. 

Aos dois machados deTavora ajustam bem estas palavras de Car- 
tailhac {oh. cit, p. 229): «Les grandes haches à talon trouvées en 
groupe — cachettes de fondeurs, trésors de marchands, — sont sou- 
vent telles quelles sortaient du moule, avec leur culot, leurs bavures, 
et Tabsence de tout martelage». Cf. Evans, L'àge du hronze, p. 49h. 



* Sr. Possidonio da Silva firmava em tres elementos caracterìstieos o exclu- 
sivo dos machados portugueses. £ram elles : l.<^, as duas aselhas; 2.*>, as suas grau- 
des dimensòes ; 3.«, nào serem de encaixe vasado (douilie), mas de corpo massico 
(talon plein) com as duas cannelluras. (Vid. Notict sur les haches de brome prt- 
historiques trouvées en Portugal, avec une planche, par le chevalier J. da Silva. 
1888). Hoje nem pelas suas dimensòes se tomam elles singulares, pois em Car- 
tailhac {oh. city p. 230 e segs.) vem 1 da Andaluzia com 0",23 de compriniento; 1 
da Gironda com 0",22; 1 da Inglaterra com (>",18; 1 de Grandola (Alemtejo) com 
0",25; 1 de Montalegre com 0",23 (devem deduzir-se para este talvez 0",02 para 
a cabe^a ainda adherente da fundi^ào, o culot) ; n-0 Arck. PorL, i, 26 e 27, citam-se 
de Mirandella, Contomil, Barcellos e Riba-Tua com 0»,226; 0",195; 0-,222 e O-^H- 
da estampa, que o Sr. Possidonio deu na citada Noiice, mede 0",26, mas devem 
desprezar-se 0",015 para o cvlot ou cabe9a de fundi^fto. Mede pois 0",245. Mas 
deve notar-se que o pouco comprimente de alguns póde provir do uso (Evans. 
Uàge du bronze, pp. 90, 94 e 95). 

2 £m todo caso o facto de apparecerem os grandes machados de cannel- 
luras e duas aselhas na Hespanha, em Portugal, sudoeste da FraD9a e sul das 
llbas Britannicas dà razào a suppor, alem de outros factos, que estes paises se 
relacionaram durante a epocba do bronze (Vid. Cartailhac, oh. cit., p. 241). Ma*» 
seria de facto na Peninsula que elles tiveram mais voga? 

5 Vid. Cartailhac, oh. dt., pp. 230, 231 e Augusto Simoes, Introduc^o à 
archeologia da p^niiisìda iberica, p. 116. 

* Vid. Minho Pittoresco, ii, 172. Està obra dà notizia de mais 2 machados de 
aselhas; um de Caminha (i, 168) e outro de Esposende (ii, 199). 



O Archeologo Portugués 91 

Pertanto os dois instrumentos de que me occapo foram fundidos nesta 
mesma regimo ^ ; nem era naturai que fossem transportados coin aquella 
pesada e inutil excrescencia, que tinha de ser eliminada antes de por 
machado em estado de servir. 

Mas tambem nSo* posso convencer-me de que a fundÌ9ao d'essas 
armas fosse industria de sedentarios castrejos ^; as condi(de8 em que 
ellas apparecem inclinam-me antes para admittir a existencia de uma 
casta cu talvez ra(a de fundidores ambulantes, embora as fórmas re- 
gionaes me suscitem tambem a hypothese de uma subdivis&o d'essa 
gente em grupos isolados de familias que frequentassem e percorressem 
determinadas regiSes^. 

A semelhan9a dos dois macbados de Tavora, que s2lo entro si perfei- 
tamente iguaes e, ao que parece, obtidos no mesmo molde, com os 
que Cartailhac gravou a p. 230 da sua obra, tantas vezes citada, vae 
até ao ponto de terem todos o mesmo comprimente, que é de 0",23, 
com a cabe9a de fundÌ9%o. A fórma das canelluras é ainda a mesma. 
Diflferem apenas nas nervuras da lamina. Sao ainda todos tres do norte 
de Portugal. 



NSo posso omittir uma particularidade que apresenta o machado 
da gravura. 

Uma das fracturas revelou uma falta de homogeneidade de bronzo. 

O fundidor, calderario ou o que fosse, dos macbados de Tavora nfto 
conseguirà realizar ainda uma acceitavel perfeÌ9Slo na sua industria, ou 



1 Como por aqui nSo ha minerios alguDs, o commercio limitar-se-ia aos dois 
metaes componentes do bronzo. Ou entSo os objectos era apenas refundidos, 
bypothese que, do que adeante escrevo se mfere, é pouco provavel. 

2 Chamam era MelgaQO castrejo ao habitante de Castro-Laboreiro. NSo é pois 
sem razao que denomino castrejos os habitantes dos antigos castro», Aqui diz-se 
gavinro o homem da Gavieira e suajeiro o de Suajo. Sr. Leite de Yasconcellos 
ouviu crastefos: cf., do mesmo A., Uma excursào ao Suajo, 1882, p. 34. 

' No alto do castro de S. Miguel-o-Anjo de Azere, encontrei em recentes 
excava^oes a qne procedi, pequeuos peda^os informes de bronze, muito oxidados, 
que me pareceram e parecem ainda escorias de fundiyao de bronzo. 

Cotitrariarà este achado a hypothese que formulo no texto? Nao me parece 
haver incompatibilidade. Chantre, discntindo a attribnÌ9So dos thcsouros e escon- 
derijos, chegoii, com outra auctoridadc porém, à mesma conclusào. Vid. Chantre, 
Àgt du bronze, ii, 154. 



92 Archeologo Portugués 

por impericìa e defeito proprio, ou porque a evolajao industria na 
regimo ou na peninsula aìnda vacillava os seus primeìros passos^. 

O que parece certo é que a resistencia dos machados de Tavora 
devia ser insufficiente, ainda que por ulterior recozimento ou tèmpera 
ou pelo martello o fundidor procurasse communicar m^or dureza k 
liga e ao gume*. 

mal dirigido arrefecimento da massa fundida ou o desleixo em 
calabrear bem os dois metaes componentes tinham dado lugar ao phe- 
nomeno da liquaqào^. 

Na massa de bronze do machado da gravura vé-se uma cavidade 
alveolar, aonde veiu a isolar-se e prender-se um pequeno grSto ou nodulo 
de estanho, jà depois de solidificado o bronze da arma. E o fragmento 
das aselhas que mostra esse pedalo de estanho. 



Os dois machados de Tavora estSo perfeitamente novos, sem uso 
algum. Acabados, foram em seguida escondidos*. 

1^0 gume d'estes machados, as duas superficies convergentes nllo 
sSo rigorosamente symetricas, mas uma d'ellas é de curvatura mais 
accentuada ou de mais curto raio que a outra. (Cf. Cartailhac, ob, cU., 
p. 236). Està disposÌ9ao ainda hoje se adopta em varios instrumentos 
de trabalho, quer tenham gume transversai ao cabo, quer parallelo. 
Mas a presen9a das duas aselhas talvez denote que estes machados 
eram encabados com o gume trans versai. 

Na regimo aonde appareceram os dois machados, a que me tenho 
referido, ha alguns castros; o mais proximo, e esse pequeno ó, e quasi 



^ No bronza d'estes dois machados ha ainda urna notavel imperfei^So. Conhe- 
ce-se pelo aspecio fibroso do bronze, quasi corno a lava moderna de um vulcao, qnc 
a fluidez do metal era insufficiente para dar materia bem homogenea. Conclue-se 
que o foco de calor era pouco intenso e portanto a fuslLo da liga incompleta. 

2 Vid. Georges Perrot, L*art phénicien, p. 866, citado por Hamard no Cosmo9, 
xTxvi, voi. 36, n.» 117, p. 89. Evans, ob, cit., pp. 90 e 100. 

' Veja-se Dicttormaire de» dictionnaire», par Mgr. Gruérin, s. v. Bronze. 

* Na freguesia de Aba^a (Villa-Real) appareceram 7 machados de cunka, 
provavelmente novos e com uma pedra de granito fino ao lado, que talvez fosse 
para os afiar (Ardi. Fort., i, 131). No castro de Azere (Arcos de Val-de-Vez) 
tambem encontrei alguns pequenos calhaus de gneiss, com signacs de terem ser- 
vido de amoladores [Arch, Port., i, 174, nota 1). 



O Archeologo Portugués 93 

8Ó hoje nome o indica, fica a 1 kilometro pouco mais ou menos do 
sitio do esconderijo. 

Uin pouco mais distante, ha vestigios bem patentes de mn outro 
castro grande, d'onde tenho visto (e algans possuo) bronzes e meios- 
bronzea de Faustina, Hadriano, Antonino, Nerva, Trajano e dois pe- 
qaenos bronzes de Constantino e de Constancio II, com outra moeda 
que me disseram ser de Vitellio. O sitio, pois, do achado talvez marque 
um ponto de passagem que póde servir para retra9ar hoje os antigos 
caminhos que, neste concelho, ligavam os castros entro si. As vezes 
é a toponymia locai que nos conserva a tradi^fto d'essas vias de 
communìca$So. 

Arcos de Val-de-Vez, Maio de 1898. 

F. Alves Pereira. 



Sociedade Aroheologioa da Figrueira 

cEstSo definitivamente lan9adas as bases para a consti tuÌ9So d'està 
nova sociedade, a que no passado numero deste jomal nos referimos, 
informando os nossos leitores dos seus louvaveis intuitos, e accentuando 
a influencia benefica que d'ella póde resultar para o desenvolvimento 
do gesto e interesse do publico pelos estudos tSo descurados da archeo- 
logia e da arte, e impedindo a destruifSo dos objectos dignos de serem 
conservados pela sua importancia historìca ou artistica. 

Foram seus socios fundadores os srs. Dr. Antonio dos Santos Ro- 
cha, dr. Antonio Alvarez Duarte Silva, Dn José Jardim, Francisco 
Ferreira de Loureiro, Augusto Goltz de Carvalho e Fedro Feman- 
dez Thomas. 

A ideia da organizasSo d'està sociedade foi acolhida comgeralsjm- 
pathia nesta cidade, e a nova aggremia9So conta jà bom nùmero de 
valiosas adhesSes. 

Oxali que as outras terras do pais, da importancia da nossa, seguis- 
Sem este exemplo, porque nSo haveria a lamentar os vandalismos de 
que todos os dias sSo victimas os nossos monumentos ! 

Publicamos em seguida os estatutos da Sociedade Archeologica^ que 
vZo ser submettidos à approva9So da auctoridade competente. 

Artigo 1.^ A cSociedade Archeologica da Figueira», com sède na 
cidade da Figueira da Foz, destina-se, em goral, ao estudo de diversos 



94 O Archeologo Poetugués 

ramos das sciencias archeologicas, procurando contribuir para a solu- 
jao dos probleraas de prehistorla e da historia antiga do Occidente da 
Peninsula; e, em especial, a auxiliar o desenvolvimento do Museu Muni- 
cipal da Figueira, onde se acham colligidos numerosos e importantes 
elementos para estes estudoB. 

Art. 2.** Para a consécu9So do seu firn a tSociedade» farà pesquisas 
e excava95es, registando fielmente todas as circumstancias d'estes tra- 
balhos, organizarà coUecgSes, promoverà, pelos seus delegados em to- 
das as freguesias do concelho da Figueira, a acquisirlo ou conserva- 
rlo dos monumentos da antiguidade que se descobrirem, coordenari 
todos 08 materiaes que colligir, dando-lhes publicidade, e entrarà em 
relar^es com outras instituiròes de indole semelhante. 

Art. 3.® Podem ser socio* todos os que se interessam pelQ3 refe- 
ridos estudos, comprehendendo os menores auctorizados pelos seus 
representantes. 

§ 1.° Os socios sfto de quatro categorias: efFectivos, corresponden- 
tes, protectores e honorarios. 

§ 2.® A admissSo ou exclusSLo dos socios compete à direcjSLo. 

Art. 4:"* A asaembleia goral compòe-se de socios efFectivos^ e re- 
unc-se no dia 1 de Janeiro de cada triennio para eleger a direcrUo e 
tornar contas da gcrencia cessante, e todas as vezes que for convocada 
pela direcv^o par**i receber e discutir as communicarSes que forem 
feitas sobre os estudos a cargo da tSociedade». 

§ unico. A asaembleia goral escolhe em cada sessSo o seu presi- 
dente^ servindo-lhe ile secretano o da direc9&o. 

Art, 5." A dìrecyfto comp3e-se de um presidente e tres directores, 
servindo um d'estes ultimos de vice-presidente, outro de secretarlo 
geral e outro de thesoureiro. 

I unico. O presidente tem voto de qualidade nos negocios da gc- 
rencia economica ou administrativa. 

Art. 6.** Constituem a receita da «Sociedade» a quota mensal de 
200 réiSj que paga cada socio effectivo, as quotas com que contri- 
buirem os socios protectores e quaesquer outras sommas doadas. 

Art, 7.** Os casos inteiramente omissos nestes estatutos» serSo re- 
flolvidos pela assembleia geral, convocada pela direcr^o ou por cinco 
socios òfFeotivos. 

A direc^ao: — Presidente, Dr. Antonio dos Santos Ilocha = Ftc«- 
prémhnte^ Francisco Ferreira Loureiro = /Secretorio geral, Pedro Fer- 
nandez Thomas ^^ 7We«oareiro, Augusto Goltz de Carvalho». 

{Da Gaxetdda Fiipieira, de 22 de Dezembro de 1897). 




O Archeologo Portugués 95 



ProteoQfio dada pelos Qovénios, corporaQdes offloiaes 
e Institutos soientiflcos & Archeologria 

9, Acquisita do Museo Archeologico de Madrid 

«Lorsque, en 1895, le Président du Conseil des ministres d'Es- 
pagne, Sr. D. A. Canovas del Castillo, inaugura la Biblioiheque et 
le Musée archéologique de Madiid, réunis dans un vaste et somptueux 
édìfice, M. J. Ramon Mélida, conservateur des antiques, lui montra 
les photographies do trois tétes de taureaux ou de vaches en bronze 
récemment découvertes à Costig, dans lìle de Majorque. M. Canovas, 
qui est un amateur de goùt fort éclairé, eut alors Theureuse initiative 
de faire négotier par D. Alberto Bosch, ministre du Fomento, Tachat 

de ces importantes reliques Les bronzes, avec les divers objets, 

en tout 70, recueillis au méme endroit, sont devenus la propriété du 
Musée archéologique». 

(Pierre Paris, in Eevue Archéologique^ 3." serie, voi. xxx, 138). 

10. Monetarlo da Bibliotlieca ITacIonal de Paris 

O Calinet des Médailles da Bibliotlieca Nacional de Paris acaba 
de se enriquecer com uma bellissima collecfEo de 7:093 moedas gre- 
gas, que havia sido formada com todo o esmèro pelo fallecido W.-H. 
Waddington. 

Para està acquisÌ9&o as Camaras francesas votaram a quantia de 
421:000 francos. 

eli faut faire honneur de ce succès à Térudition et au zèle du 
savant M. Babelon [conservador do Monetario da Bibliotheca Nacio- 
nal de Paris], qui ne neglige rien, non seulement pour enrichir les 
coUections confiées à sa garde, mais pour en faciliter Texamen aux 
curieux conmie à son public special d'érudits». 

(Bulletin de Nvmismcdique, R. Serrure, iv, 97-99). 



Acquisifdes d'estas, para servijo da sciencia, fazem-se em Franja 
e noutros paises civilizados. Pelo que respeita a Portugal, lembrarei 
que Gabinete Numismatico da nossa Bibliotheca Nacional nXo està à 
altura do que devia e podia estar. 

J. L. DE V. 



96 



Archeologo Portugdés ì 



Vaso romano de La^os 

Sr. Joaquim Henriquez, que possue algons objectos archeo- 
logicos de merecimento, teve a bondade de me envìar o desenho de 
um vaso romano achado em Lagos, e existente agora na sua collecjSo 
(Lisboa) . 

Eìs aqui a respectiva graynra: 




O vaso mede de altura 0°*,345, e de perimetro na maior largura 
do bojo 0™,64. E de barro. NXo tem asas, mas termina inferiormente 
em tronco de cone, comò muitas amphoras. 

Em Lagos, comò em todas ou quasi todas as terras do Algarve. 
apparecem constan temente antiguidades romanas; por isso nada tem 
de estranilo o apparecimento d'este objecto. 

J. L. DE V. 



O Archeologo Pobtdgués 97 



Estagfio prehistorica de Alcalar 
(Algarve) 

Està e8ta9ào é urna das mais notaveis do Àlgarve, tanto pelo 
nùmero de objectos que là se encontraram, corno pela significammo 
d'estes e pela fórma especial dos monumentos tnmulares que os 
encerravam. 

Alcalar (menos correctamente Alccdd) é o nome de um sitio que 
fica proximo da Mexilhoeira-Grande, no concelho de Villa-Nova-de- 
Portimào. 

Foi Estacio da Veiga quem explorou a estamio. O resultado theo- 
rico dos seus trabalhos acha-se consignado nas Antiguidades monu- 
mentaes do Algarve, vols. l 'e in; resumi-os nas ReligiZea da Liuntania^ 
voi. I (vid. «Indice»), subordinando-os ao plano d'està obra. Os mate- 
riaes colhidos por Estacio da Veiga acham-se hoje no Museu Ethno- 
logico Portugués. 

Em Mar(o de 1894, tendo tomado antes algumas informa^Ses dos 
Srs. Prior Nunez da Gloria e P.® José Joaquim Nunez, fui, em com- 
panhia do Sr. Maximiano ApoUinario, adjunto do Museu, & refenda 
esta^So, com o fim de a examinar, para a seu tempo continuar a 
exploragSo comeyada por Estacio da Veiga, pois este ainda là deixou 
alguns monumentos por explorar. 

A accumulammo de servilo e a ausencia do Sr. ApoUinario, tem 
sido causa de eu nSo haver realizado ainda o meu antigo projecto das 
excavamSes em Alcalar, o qual porém realizarei na primeira occasiSo, 
tanto mais que o Sr. Nunez da Gloria, multo conhecedor do locai, 
comò um dos mais activos e intelligentes coUaboradores de Estacio 
da Veiga, e o Sr. José Joaquim Nunez, igualmente fervoroso apostolo 
de tudo que respeita ao progresso scientifico do pais, me promette- 
ram, cada um pela sua parte, o seu valioso concurso. 

Effectivamente, existindo jà no Museu Etimologico Portugués 
materiaes archeologicos tSo importantes corno os que Estacio da 
Veiga reuniu por occasiSo das excavajSes que praticou na necro- 
pole de Alcalar, nSo devo deixar de emprehender a tarefa de prose- 
guir nos trabalhos que elle encetou; e so as razSes imperìosas que 
ficam expostas me tem ató hoje impedido de o fazer. Como porém 
ellas serSo removidas brevemente, espero que dentro em pouco tempo 
venha para o Museu o espolio alcalarense que là falta para completar 
preexistente. 

J. L. DE V. 



98 O Archeologo Portugués 



Objeotos de arte 

«Na ultima sessào da Real Associa9l£o dos Archltectos e Archeo- 
logos Portugueses, o illustre architecto Sr. AdSes Bermudes chamou a 
atten9%o da assemblèa p^ra um assumpto, que tem sido até agora muìto 
descurado : — a conservagìo dos objectos de arte de valor historico ou 
archeologico. Lembrou mesmo a elaboragSlo de um projecto de lei des- 
tinado a difficultar ou até a impedir a exportagSo d'esses objectos, 
que no presente se faz com teda a facilidade. 

A questào levantada pelo Sr. Bermudes encontrou echo na im- 
prensa, tendo- se jà occupado d'ella alguns jomaes. O assumpto me- 
rece com effeito ser estudado e discutido. E preciso chamar para elle 
a attengSo do governo, comò deseja o illustrado architecto, mas ainda 
é mais necessario levar o povo a compenetrar-se do verdadeiro valor 
dos objectos artisticos e archeologicos, de que se tem desfeito por 
prejos infimos. 

NSo se póde calcular a somma de preciosidades artisticas que Por- 
tugal accumulou durante seculos nos conventos, igrejas, casas nobres 
e pagos reaes. As grandes riquezas trazidas pelos descobrimentos e 
conquistas portuguesas na Africa, Asia e America permittiram que no 
nosso pais se reunissem, a par das joias, lougas, tapetes e outros obje- 
ctos de valor, importados do Oriente, muitas preciosidades artisticas, 
devidas quer a nacionaes, pois tivemos artistas eminentes, quer a es- 
trangeiros, que concorriam com os nossos compatriotas, chamados 
pelos principes e grandes do reino, ou, a pedido ou por encommenda 
d'estes, dos seus paises nos envìavam os seus artefactos. Assim se 
espalharam por toda a nagSo ricas e formosas pegas de ourivezaria, de 
ceramica, de tapegaria, de mobiliano, de pintura, etc. O terremoto 
de Lisboa em 1755, a fuga da familia real para o Brasil e a in- 
vasSo francesa come9aram a devastagSo das nossas riquezas artisti- 
cas, que no nosso seculo continuou incessantemente, gra9as à igno- 
rancia do nosso povo e ao desleixo imperdoavel dos governantes, 
primeiro, durante as luctas civis de D. Pedro e D. Miguel e por 
occasi&o da aboIigSo dos conventos, e depois, nestes ultimos cin- 
coenta annos, pelas incessantes visitas de viajantes estrangeiros, vin- 
dos de proposito a Portugal para adquirirem preciosidades artisticas, 
das quaes o nosso povo por absoluta ignorancia facilmente se desfaz. 

Tem sido grande o saque soffrido pelo pais. No emtanto, ainda 
hoje é consideravel a somma de objectos de arte que existe espalhada 
por todo pais. A exposÌ9&o de arte retrospectiva, celebrada em Lis- 



O Archeologo Portugués 99 

boa, demonstrou-o pienamente, e depois outras exposÌ99e8, realizadas 
em varios ponto» do pais, o tem confirmado. Mas, se é ainda multo o 
que possuimos, apesar de jà ser pequena parte das nossas riquezas 
no seculo pa&sado, tende a desapparecer, porque é incessante a expor- 
ta9&o dos objectos de arte antigos, sendo cada vez mais frequentes 
as visitas de viajantes esirangeiros, os quaes chegam a publicar noe 
jornaes da capital e das provincias annuncios em que declaram sem 
rebugo o que os traz a Portugal. 

Como evitar, porém, a exporta9llo dos objectos de arte de valor 
historico ou archeologico, ou, pelo menos, comò diflScultà-la? 

N&o faltam alvìtres; mas todos elles se nos afiguram improficuos. 
Os principaes que tem sido lembrados sSo a prohibÌ9SI[o expressa da 
salda de Portugal d'esse genero de mercadoria e applica9fto de um 
forte direito, quasi prohibitivo, sobre a respectiva exporta9So. A prò- 
liibÌ9So pura e simples, condemnavel conio medida violenta, é sem 
dùvida ìnferior por muitas razòes ao pesado imposto sobre os objectos 
exportados; mas tanto urna comò outra providencia sSo de difficii ap- 
plica9So. 

Como determinar com precisSo o que s5o objectos de arte de va- 
lor historico e archeologico? A prohibÌ9So absoluta da salda de obje- 
ctos de arte, ou a imposigSo de um direito pesado sobre todos elles, 
seria contraproducente, indo prejudicar em grande parte o commercio 
e OS nossos artistas, que porventura possam collocar os seus produ- 
ctos no estrangeiro. Estabelecer urna differeii$a, o que seria justìs- 
simo, entro as preciosidades artisticas e archeologicas e os trabalhos 
modemoB de arte? Mas onde come9aria o moderno e acabaria o an- 
tigo? Ainda mais, comò distinguir na alfandega, onde os funcciona- 
rios nXo tem nem podem ter conhecimentos especiaes de arte e ar- 
cheologia, OS objectos de arte de valor, dos que o nSo tem, ou ainda 
das imita95es modernas, que sSo por vezes perfeitissimas ? 

NZo nos parece que seja facil a elaborarono de um projecto de lei 
que, protegendo a conservarla) no pais das preciosidades historicas e 
archeologicas, nSo offenda ao mesmo tempo os interesses do commer- 
cio e dos artistas pela dif&culdade que ha de determinar com precisilo 
quaes sSo aquelles objectos. 

Bom sera, todavia, estudar o assumpto, procurando urna S0IU9S0 
satisfatoria. 

Melhor do que todas as leis seria, sem dóvida, a comprehensXo 
por parte de todos, do povo inteiro, do valor historico e estimativo 
que tem os objectos de arte, de modo que os viajantes estrangeiros 
nXo pudessom adquirir sem difficuldade e por pre90 infimo esses 

629374A 



100 O Archeologo Pobtugués 

- 

objectOB. Para se conseguir isso seria preciso que o nosso povo fosse 
ìnstruido, e de8gra9adan[iente nSo é o que succede. Fa^a-se, no em- 
tanto, sèna e insistente propaganda a favor da con8erva9So dos obje- 
ctos de arte, que talvez alguma cousa se consiga». 

(D-0 Seculo, de 9 de Dezembro de 1897). 



Concordo absolutamente quanto à necessidade de se evitar por qual- 
quer meio o desperdicio das nossas antiguidades e preciosidades ar- 
tisticas, e tanto que jà urna vez fallei nisto em sessSo da Commissào 
dos MonumentoB Nacionaes. Esperar, porém, que o nesso povo com- 
prehenda o valor d'ellas, para, por essa comprehensSo, as n%o deixar 
ir para fora, é utopia ! O melhor sera talvez um pesadissimo imposto 
sobre os objectos de saida, definindo-se, quanto se puder, o que sAo 
objectos archeologicos e artisticos. 

Entretanto, é de grande utilidade que a imprensa periodica se 
occupe do assumpto, porque maior cuidado bavera de fiituro. 

J. L. deV. 



Aroheologla do seculo passado 

^Adaufe. — Nas ruinas do antigo Mosteiro de Adauffe, da Ordem 
de S. Bento que foy extincto, e reduzido a comenda sondo Arcebispo 
de Braga D. Fernando da Guerra huma legoa distante da Cidade 
de Braga, da parte do nascente, nas Cazas de residencia do Parrocho, 
se ach&o em bum lugar dellas onzes sepulturas ; e ha constante tra- 
di(So, que em huma dellas jazifto os ossos de hu Monje venaravel, 
a quem o Povo chamava Sancto, e que no dia em que se festeja 
gloriozo Patriarca Sam Bento, e em alguns outros, sahia della 
huma suavissina fragrancia, a que se persuadia a devo(2o dos Povos 
vezinhos ser mais que naturai. Movido de tHo graves, e atendiveis 
circunstancias o grande, e piadozo zelo do M. R. P. Fr. Jeronimo 
de S. Bento, Don Abade do Mosteiro de Renduffe, procurou trasladar 
para este aquelles ossos. RevolverSo-se as 11 sepulturas. Nas dez se 
nfto encontrar&o vestigios ; mas na undecima se acharìo organizados 
OS do dito Veneravel Padre, que com prefeita simetria mostravSo ser 
de homem de grande estatura. Fez-se a sua traslada(So para o Mos- 
teiro de Renduffe onde se Ibe iizer2o exequias solennissimas, Offi- 



O Archeologo Portugués 101 

ciando a missa Pontificalmente o R. P. Doni Abade Geral da Ordem 
de S. Bento Fr. Antonio de Sancia Clara. Pregou com grande elo- 
quencìa, e piedade o R. P. D. Fr. Jozé de S* Miguel^ Monge Bene- 
dictino, edificando multo o seu numerozo auditorio, e respeitando 
em todos os seus discur^os os decretos Apostolicos. Destinou-se para 
sepultara dos veneraveis ossos a Capella mór da Igreja do mesmo 
Mosteiro; o que se fez com piedoza decencia, e por demostra9So 
de agradecimento, por constar por varias memorias, que os Monges 
de Adauffe forSo os prìmeiros, que povoaram em tempos muj antigos 
este Mosteiro de RenduflFe». 

(Gazeta de Lisboa, n.*" 25, de 23 de Junho de 1757). 

•Braga 20 de Outtibro. — Faleceu nesta Cidade depoìs de 15 dias 
de huma violenta febre, em idade de 77 annos nam completos, no 
Sabato 22 do mez de Julho, o nobre, e sabio vario Valerio Pinto 
de Sàa naturai desta Cidade, onde naceu a 12 de Dezembro de 1681. 
Acabou muy resignado nas disposifoens Divinas, depois de receber 
com grande devo$So todos os Sacramenlos da Igreja. Foy sepultado 
no Claustro, chamado de Santo Amaro, proximo à Sèe desta Cidade, 
no jazìgo de seus antepassados com assistencia da parte da principal 
Xobreza. Foy o mayor antiquario, e geneologico desta Provincia; e 
ajuntou a mayor collec9%o de medalhas antigas de Ouro, Prata, e 
Cobre que se saiba haja bavido em Portugal porque n2o so dos Im- 
peradores, e Consules Romanos, mais dos Reys Godos de Hespanha, 
e dos deste Reyno as quaes deixou vinculadas com os seus escrìptos, 
a bum sobrinbo seu para andar na sua familia» . 

{Qazeta de Lisboa, n.'* 49, de 7 de Dezembro de 1758). 

€ Torres Novas. — De Tori^es Novas se escreve, que no dia nove 
do mez de Agosto, andando huns Pedreiros desmanchando huma pa- 
rede de humas Cazas de Antonio Xavier Riheiro^ sitas na rua nova, 
que antigamente se chamou a Jvdiaria nova, achàrfto bum v%o, em 
que havia um saquinbo de couro, e dentro nelle bum livro em oytavo 
manuscripto em caracteres bebraicos pontuados, em papel de muito 
corpo, e com grandes margens, que parece ser copia do testamento 
velbo, enquademado em pasta preta chapeada de prégos de latam 
lavrado, e as folhas douradas, ou pintadas de amarello, e com este 
livro, estava no mesmo saquinbo outro de veludo azul, e dentro nelle 
bum enbrulbo em forma de novello, que constava de trez correas de 
couro macio, de largura de um dedo minimo, cada buma de duas 



102 O Archeologo Portugués 

varas de cumprimento, e nas cabejas dellas, humas bolsinhas cozidas, 
que abrindo-se se achou nellas embrulhadas em ham pergamìnho maito 
delgado humas tiras enroladas do mesino pergaminlio de palmo, e 
meyo de cumprimento, e de largura de bum dedo grosso, em que ha 
sinco regras de letras hebraicas multo meudas, e bem formadas. 
livro foi entregue ao Reverendissimo Prior da Igreja do Salvador. 
O saquinho, e correas ficàrao aodono das cazas em que se descobriu 
està antigualha». 

{Gazeta de Lisboa, n.* 36, de 6 de Setembro de 1759). 

tSerpa, 6 de Fevereiro, — Antonio José de Mello, senhor de Ficalho, 
desejando conservar os monumentos da nossa Historia, e descubrir 
OS que as injùrias do tempo tiverem encuberto, tem come9ado a fazer 
no seu Palacio huma coiiec$2o dos que se ach&o no termo das Villas 
de Serpa, e de Moura, onde em tres differentes sitios se tem descu- 
berte consideraveis ruinas de povoajSes Romanas, que as excava95e8, 
que nellas se continuSo, darlo melhor a conhecer: por ora os monu- 
mentos que se tem descuberto, consistem: 1." em huma ara com 
esculturas em relevo : 2.® em deus cippos sepulcraes com orna\nentos 
de relevo, e inscripfSes: 3.° em outros tres cippos sepulcraes em 
forma de barricas de marmore com inscripjSes : 4.® em varias colum- 
nas de hum até quatro palmos de diametro: 5.® em frìzos, e capiteis 
de ordem corinthia, e em varias outras cousas notaveis, de que em 
outro lugar mais conveniente se fari mais particular men^So». 

{Gazeta de Lisboa, n.« 6, de 9 de Fevereiro de 1779). 

^Marita. — Do Algarve participou o Doutor Joào VicUd da Costa 
e Soxisa, Superintendente dos Tabacos daquelle Reino, e correspon- 
dente da Real Academia das Sciencias, muito applicado ao estudo 
Numismatico, que a 28 do mez passado hum trabalhador, que ab ria 
huma valla no sitio de Marim, Termo da cidade de Faro, em alicerces 
de antìgos edificios, achàra cem medalhas de curo do Imperador 
Honorio. No segundo Supplemento se por à a descrìpgào dettasi. 

(Supplemento & Gazeta de Lisboa, n.** ZLin, 27 de Outubro de 1786). 

€Descripgào das cem Medaifias d'ouro, que se achdrào uttìmamente 
no sitio de Marìm, Termo de Faro no Algarve. Cada huma das 
Medalhas tem na parte principal està inscrip^SLo — D. N. HONORIUS. 
P. F. AUG: com o busto do Imperador coroado do Diadema: no 
reverso huma figura Militar com o Estandarte dos Romauos, chamado 



O Archeologo Portugués 103 

Labaro, na mSo direita, e na esquerda a figura da Victoria, pondo-lhe 
huma coroa: debaixo do pé esquerdo a figura d'hum cativo: e a 
inscrip$ao— VICTORIA. AUGG». COMOB. E na area — M. D. 
Todas estas Medalhas se achXo perfeitamente conservadas, e parecem 
feitas na me»ma Fabrìca». 

(Segando supplemento a Gazeta de Lisboa, n.** xliii, de 28 de Outubro de 1786). 

Fedro A. de Azevedo. 



EzoursSLo aroheologioa ao Sul de Portugal 

Alcacer e arredores. — Torrio. — AlcA^ovai. — Evora e visinhanfaa 

Aproveitando as ferias do Natal de 1895, fiz nova excursio archeo- 
logica ao Sul do reino, e colhi vàrìas noticias, que vou aqui resumir, 
pois me falta o tempo para desenvolvimentos. 

No dia 23 de Dezembro de 1895 cheguei a Alcacer, onde tinba a 
receber-me o meu prezado amigo Joaquim Correia Baptista, que, comò 
da prìmeira vez que eu ahi fui, — vid. Arch. Pori,, i, 65 sqq. — , 
me deu hospitalidade em sua casa, e me tratou do melhor modo possi- 
vel. O dia 24 e o dia 26 foram destinados à visita do Museu e da villa. 
No dia 25 e 27 ahdàmos pelos arredores, o Sr. Baptista e eu. No dia 
28 parti para o Torrio e Alcajovas. No dia 29 visitei a serra das 
Alca^ovas, e segui para o concelho de Evora, onde estive até o dia 5 
occupado a ver o museu Cenaculo, e algumas collec^oes particulares, 
a colhér indica(5e8 manuscriptas na Bibliotheca da cidade, e a visitar 
vàrias estajSes archeologicas. No dia 6 regressei a Lisboa. 

I 

A.loa,ee]r-do«SAl 

A villa de Alcacer occupa àrea bastante extensa, parte d'ella num 
alto, onde, comò digo adeante, fica o castello, e outra parte num 
declive e numa baixa, junto do rio Sade. Para mais commodidade e 
clareza, dividirei o meu assumpto em sec9Ses, occupando-me prìmeiro 
da villa velha, de diversas antigualhas alcacerenses e do museu muni- 
cipal, e referìndo me por fim à archeologia dos arredores. 



104 O Abcheologo Portugués 



1. Alcaeer retas 

Cfr. Arch. PoH., i, 69- 

Na parte alta da villa, tanto dentro da àrea limìtada pela maralha 
do castello, corno fora, junto d'este, apparecem a cada passo fragmen- 
tos de barro saguntino, com e sem marca; fora, junto da maralha, onde 
se tem feito excaya98es accidentaes, apparecem os mesmos fragmentos, 
verticilli (cossoiros) e pondera (pesos) de barro. 

Janto da muralha passa um caminho ; do outro lado do camìnho, 
a uns decametros, encontra-se barro romano, pesos, e opus Sigidnum 
que teve mosaicos. 

Adeante estXo as ruinas da capella de S. Vicente, de que eu n2o 
tinha fallado no primeiro artigo; ficam porto de S. Francisco. Nas 
paredes d'està capella vèem-se fustes de columnas sem dùyida per- 
tonfa de um edificio romano, corno o sSo todos ou quasi todos os 
objectos de marmore da mesma natureza, que se véem nas casas, 
paredes e ruas de Alcaeer. Das paredes da mesma capella extrahiu o 
Sr. Baptista urna das cabefas de marmore que estSo no museu. 

A poYoafXo primitiva foi sem dùvida na parte alta da actual 
Alcaeer, onde està o castello e os templos da Senhora dos Martjres, 
de S. Vicente e de S. Francisco. Em todos os pontos, nos campos, nos 
caminhos, se encontram restos romanos: moedas, barros, marmores. 

2. AntlgaaUias dirersas 

De uns apontamentos manuscritos, que vi na villa, organizados 
pelo fallecido Dr. A. A. Vargas, medico de Alcaeer, em resposta a un» 
quesitos da Commiss2o dos Monumentos Nacionaes, extràio o seguìnte: 

a) Instrumentos neolithicos: 

tHa vàrias machadinhas de pedra polida, achadas em differentes 
pontos, algumas grandes, e muito bem conservadas». 

Effectivamente o aro de Alcaeer é fertil nestes objectos : no Museu 
Municipal podem ver-se bastantes. 

b) Cabega de tauro: 

cE^tìa ha uns annos, coUocada na esquina de uma cérca, junto 
ao Passeio d'està villa, uma cabota de touro, de pedrai. 

Segando informafSes de pessoa de idade, està pedra foi aprovei- 
tada nos alicerces do predio que foi de JoXo de Scusa Aguamel, no 
Largo do Visconde de Alcaeer. 

Seria uma cabe(a de touro igual às célebres de Beja? 



O Archeologo Portuguès 105 

e) Sepuliura de Junia Corinthia: 

cAchoa-se urna lapida, — e que jà vìnha seu caminho para ser 
engolida por um alicerce, — que tem urna inscrip92o romana. Era 
lapida sepulcral. Ficou por muito tempo servindo de pedestal a um 

candìeiro publico, até que foi dada a ^ de Lisboa, e para là foi. 

Dizia no epitaphio o seguinte: IVNIA CORINTHIA | -AN- 
XVII |HSH|-S-TL I-SATVLIA I FILIAE | . O que 
traduzido ahi r Junia Corinthia, de 17 annos, aquijaz, A terra Ihe seja 
leve. Sattdia a suaJUhai». 

Està ÌQScrip(Xo foi publicada no Supplemento do Almanach de 
Lembrangae de 1888, e n-0 Alcacerense de 21 de Outubro do mesmo 
anno, em artigo do mesmo A. A. Vargas. N-0 Alcacerense lè-se por 
erro Satìlia. Tanto no artigo ms., comò no impresso, se le S*T" L 
e nio S • T • T • L • Depois foi publicada na Remata Archeologica de 
Borges de Figueiredo, n, 70, d'onde passou para o Corp. Inscr. Lat., 
n, 5183; aqui a reproduzo de là: 

IVNIACORIIS&IA 

ANXVIIHSE- 

ST-T-L- 
SATVLLA-FILI^E 

8. Mnsea Mnniclpal 

N-0 Archeologo Portuguès, fiz jà algumas referencias a este inte- 
ressante museu. Agora farei outras, com o firn de ampliar as infor- 
ina(5es primeiras. 

Museu Municipal de Alcacer-do-Sal foi fundado por delibera^Eo 
camararìa de 15 de Outubro de 1894, Assignaram està patriotica 
deliberafSo os seguìntes senhores: 

José Serra Lince, presidente da Camara Municipal ; 

Manoel Augusto de Matos, vogai; 

Antonio da Costa Villa-Boim, vogai ; 

Manoel Perez Ramirez, vogai ; 

Francisco Vieira dos Reis, vogai ; 

Joaquim Correia Baptista, secretarlo. 



1 [Falta o nome, mas consta-me que a lapide foi dada ao marqués de Sousa 
Holstein, que a pediu à Camara de Alcacer]. 



106 O Archeologo Portugdés 

Acha-se installado numa alegre sala, contigua à das sessSes. 
Eis a indica^fto methodica dos principaes objectos que o compa- 
nham na data da minha vìsita (1895): 

A. JEpocha prehistorica. 

Collec$&o de quarenta e tantos instrumentos neolithicos (machados, 
marteilos, etc), encontrados quasi todos no concelho de Alcacer. 
Pertencem a typos conhecidos. 

No concelho ha, segundo me consta, alguma^ antas. E provavel 
que, em se explorando, appare^am mais objectos que venham enri- 
qnecer o museu. 

B. Epochas protohistorica e romana. 

Collec(ào de vàrias armas de ferro achadas na necropole a que 
me referi n-0 Ardi, PoH., i, 78-79; 

dois ferros de lanja (cuyndes), encontrados na mesma necropole, 
e que podem ser romanos ou nXo; 

urna collec(So de dez vasos de barro, da mesma proveniencia : 
quatro formam uma serie d'este typo pouco mais ou menos: 




outros sSo variados, e um, o menor, é tXo grosseiro, que se confunde 
com alguns prehistoricos ; 

um prato de barro, e tres verticilli, -r- ainda de igual procedencia. 

Como se disse n-0 Arch. Port,, i, 79, nem todos os objectos da 
necropole sfto pre-romanos. No museu està o gargalo de uma pequena 
ampolla romana, provinda tambem de là. 

Entro OS objectos protohistoricos do museu conta-se o idolo de 
que fallei n-0 Arch. Port, i, 79-80, e as moedas de legenda indigena 
publicadas n-0 Arch. PoH., i, 81-82; ii, 280-281 e m, 127 e 269. 

Quanto a objectos sem dùvida romanos, temos os seguintes: 

1. Monumentos de marmore: 

a) Duas cabefas, e um torso de estàtua ; 

b) Uma tampa sepulcral em fórma de pipa, com uma 
ìnscripyao bastante apagada, de que so pude ler: 



Archeologo Portugués 107 



.OLA 
..ANSER- 

E 

...B....R 



Linha 1.*: Antes de OLA podiam caber mais tres lettras; junto 
do O ha um tra90 duvidoso, que póde ser de T, de E ou de F. 

Linha 2.*: Depois de A N ha um ponto. Entre o N e o ponto 
podia ter cabido um I, mas creio n&o ter ahi havido lettra. As lettras 
SER, entre pontos, sXo claras. Podia ter havido nesta linha mais 
seis ou sete lettras. 

Linha 3.*: Parece acabar no E, mas sem ponto (H'S-E?). 
Cabiam nesta linha mais umas quatro lettras. 

Linha 4.*: Entre o B e o R cabia urna lettra, talvez fosse E. 
Podia ter havido no resto da linha mais quatro lettras. 

Por baixo creio nSo ter havido outra linha. 

£m resumé : a inscripgfto parece ser de uma pessoa cujo nome aca- 
bava em -ola, serva de outra, cujo nome abreviado acabava em -an. 

Altura das lettras: 0",035 a (^,04. 

Està lapide foi tirada das ruinas do castello, segundo me informa 
Sr. Correia Baptista. 

ci Cabeceira de sepultura, apenas com algumas lettras. 
d) Dois pequenos fragmentos de estelas com lettras. 

2. OhjectoB de barro: 

a) Um bello vaso de barro saguntino marcado (terra sigiU 
lata) com tampa, — uma funeraria. Jà fallei d'elle n-0 Arch. Pori., i, 
85. No bojo lé-se, comò là disse : 

CORrEL(itt«) PRIMVS 
e no operctdum lé-se: 



O primeiro nome sera o do morto, pois nXo parece naturai que 
cada pe9a fosse feita por seu artista. O segundo nome é com certeza 
marca figulina, pois tem ao lado um ramo que apparece noutras mar- 
cas que se véem em fragmentos de vasos no museu. 



108 O Archeologo Portugués 

b) Muitos fragmentos de vasos, do chamado barro sagun- 
tino, aretimo ou samio, com carimbos taes corno: 



(Ex±zE% 

{alia, resto ; a penultima lettra é P e n&o R ; o segundo T é cruciai, 
e menor que o primeiro. 

8. 




Este oarìmbo quadrado estava no fundo de um vaso, mas pelo lado 
de dentro. A segunda linha significarà SMIA == Samia, nome que 
apparece tambem em vasos de Tarragona: vid. o Corp. Inscr. Lai,, 
II, 4970, 516. O A nSo é cortado : cfr. a marca antecedente. 



(UTTTTl 



Este carimbo rectangular ostava no fundo de um vaso, tambem 
interiormente. 

Linha 1.': depois do L um ponto. A segunda 4ettra é I ou T. 
A penultima sera T de baste curta. 

Linha 2.*: SMIA = Samia: cfr. a marca precedente. 

No fim da 1.* linha um ramo vertical. 



(CELE-al 
RftS/ 



Num pequenìno caco. 

Deve entender-se CELER RASIN 

Num vaso de Tarracona lè-se tambem Cder, nome de um oleiro : 
Corp. Inscr. LaJt., n, 4970, «9. 



O Archeologo Portugués 



109 




Creio dever ler-se na 1.* linha CORNE(Ztw«)^ senSo a baste 
do E seria perpendìcular e n2o obliqua ao tra^o inferior. 




Sera M com um ponto adeante, ou MII, tennma9So de genitivo? 
A direita meio ramo com quatro hastes ^ 

e) Vinte e tantos pesos de barro {pondera) grosseiros, d'estes 
typos : 





Os tamanbos variam. As fórmas tambem variam: uns sSo paratie- 
lepipedos, outros sXo troncos de pjramides, e quer aquelles, qaer 
estes, de sec(&o qaadrada ou rectangular. Alguns tem marcas: dois 
tem nma cruz; um tem um comò L. 

d) Fragmentos de amphoras. Um fragmento de asa de 
amphora tem a seguinte marca: 



Q¥Àà 



e) Objectos diversos : cossoiroB ou pesos de ftisos (verticilli), 
tegulas, imbrìces, tijolos. Mencionarei tambem aqui, embora eu n&o 
saiba ao certo se sSo da epocha romana, se de epocha posterìor, uns 
pesos de rède, de dois typos: de tubo, e de argola (de barro). 



1 Ontra marca figulina com ramo, em vasos are tinca achados na Italia, veja-se, 
por exemplo, in Notizie degli scavi di antichità, 1896, p. 166. 



110 O Archeologo Poetugués 

4. Ohjectoè de ferro: 

Difficil sera dizer se todos estes objectos sSo romanos cu nfio, 
aìnda que me inclino a crer que sim, pelo menos alguns. Pertencem 
às seguintes classes: ferros de arado, picaretas, marrétas, e outras. 
Appareceram todos nos entulhos do castello, onde tambem apparece 
barro saguntino. 

5. FormigSo romano (opus Signinum) destinado a receber mosai- 
cos ; fragmentos de mosaicos {opus vermiculatum). 

C. Epocha arabe. 

Està epocha està, corno é naturai, modestissimamente represen- 
tada. 

Posso apenas mencionar: 

a) uma inscripySo lapidar ; 

b) uma lucerna de barro; 

e) varios fragmentos de vasos. 

D. Epocha posterior a ìdade mèdia. 
Pertencem a està epocha os seguintes objectos : 

a) diversos azulejos, uns de relévo outros lisos; 

b) boiSes de botica, de lou9a, de varios formatos ; 
e) espingardas; 

d) dois estandartes bordados ; 

e) fragmentos de obra de talha (de igrejas); 

f) balas grandes de pedra. 

E. Numismatica. 

Està sec^So comprehende moedas antigas, moedas modernas, e 
ccontos para contar». 

D'entre as moedas antigas, as mais importantes s%o asjà mencio- 
nadas, de Salacia; tambem ahi ha moedas romanas; muitas d'ellas, 
senSo quasi todas, encontradas em Alcacer, e que sXo por isso docu- 
mentos historicos de interesse locai. 

As moedas modernas sào pela maior parte portuguesas, sobre- 
sahindo entro todas a meia-barbuda de D. Fernando que publiquei 
n-0 Arch. Pori., i, 86, e que é authentica, sem dùvida alguma. 
Tambem ahi se véem alguns exemplares de moedas dos grSo-mestres 
portugueses de Malta. 

Sobre os contos temei alguns apontamentos que publicarei a seu 
tempo. 



O Abcheologo Pobtugués 111 

O encarregado d'està secyfto é especialmente o Sr. P.® Francisco 
de Matoa Galamba, que a isto se presta da melhor vontade, e que, 
corno notei n-0 Arch. Pori., i, 87, ahi depositou as moedas que 
posane. Do mesmo Sr. jà Arch. Pori., in, 266, publicon um inte- 
ressante artigo sobre Salacia. 



Comparando-se o que fica dito à cérca do estado actual do museu 
com o que se escreveu nesta revista, voi. i, pp. 80--87, vé-se que 
elle tem progredido bastante. 

4. Arredores de Aleaoer 

Dou aqui noticia de algumas antigualhas dos arredores de Alcacer, 
nmas que eu vi, outras de que apenas colhi informa^Ses. 

1. Na herdade da Làpkga de Cima*, freguesia de Santa Susana, 
ha um outeiro chamado Castelliriho. Ao fundo passa a ribeira de 
Rio-Mourinho ; em cima num alto, sobranceiro ao rio, ha vestigios de 
paredes. Diz o povo que aquillo era obra dos Moiros. Estaremos deante 
de um castro? 

2. Na herdade da Biscainha, da mesma freguesia, ha uma pedra, 
com uma cavidade: diz o povo que o Diabo se servia d'està pedra 
corno de marrèta para assentar as pedras de uma cal9ada que alli 
havia, e de que ainda hoje se observam alguns langos. Em certo ponto 
està cal$ada chama-se cEstrada da Calfadinha». Conduzia de Alcacer 
a cEvrai (Evora). 

Quem sabe se teremos aqui uma via romana? 

SSo multo vulgares as lendas que attribuem ao Diabo e a outras 
entidades fabulosas ou sobre-naturaes as obras de certa importancia. 
Se o tempo me nSo faltasse, eu poderia juntar aqui muitas notas, 
tunas referentes a factos nacionaes, outras a factos estrangeiros. 

3. Na herdade das Romeiras, da mesma freguesia, disseram-me 
qne ha e pedras com lettras». 



* Tambem se diz Alapa, isto é, Lapa: d*onde se ve que Làpega é mera modi- 
fica^io popular de Lapa. £u ouvi pronunciar Làpega, com o accento tonico no a. 
Na Ckorograpftia de Baptista, indice, lése porém Alapéga, com o accento no e 
(talyez por erro). 



112 O Archeologo Poetugués 

4. Na herdade dos Alamos, freguesia de S. Martinho, parece que 
existe urna anta. 

5. Na herdade do Córte-Peeeiro ha um pfijo em que me dizem 
que se observam vestigios antigos de trabalhos de mìneraliza^So. 

6. Herdade do Berlonguinho. — Em companhia do Sr. Correia 
Baptista, que lem pela archeologia de Alcacer enthusiasmo verdadeiro, 
e por isso muito louvavel, vìsitei a herdade do Berlonguinho, na fre- 
guesia de Santa Susana. Em volta do f monte» (casa de campo) appa- 
recem muitos alicerces de edificajdes, e fragmentos de tegulas e de 
imbrices, bem comò pondera de barro, de que vi alguns. Igualmente 
appareceu uma moeda romana, que porém nio vi. De certo houve 
alli uma povoajfto ou, mais provavelmente, villa romana. Encontrei 
tambem \k uma pequena pedra excavada*, de 0"',1 de eixo, que se 
assemelha a outras que tenho achado nas esta93e8 prehistoricas, e que 
hoje estSo no Museu Ethnologico Portugués: estas pedras deviam ter 
servido, umas de mós, outras de afiadores. — A distancia de uns 300 ou 
40Ò metros do cmonte» parece que existiu uma anta: pelo menos vi là 
tres pedras cahidas, de uns 2 metros de comprimente cada urna, e de 
mais de 0",5 de largura, as quaes podiam muito bem ter servido de 
esteios; num locai, onde tanto falta a pedra, que poderiam significar 
aquellas grandes lages, que de mais a mais vieram de longe para alli, 
senio que fizeram parte de uma anta? Em todo o caso so a explora9lo 
archeolo^ca poderà decidir a questuo. Ainda mand^mos cavar no locai, 
mas a terra estava muito encharcada, nSo pudemos apurar nada. Pelas 
vizinhanjas apparecem instrumentos neolithicos, o que pouco significa 
para o caso, pois elles apparecem em teda a parte. — O que se veé 
que, assim comò a civilizayEo portuguesa, representada pelo «montei, 
se sobrepds naquella herdade à civilizafEo romana, representada por 
objectos de barro, e certamente pelos alicerces de que fallei, està se 
tinha sobreposto à civiliza9ào prehistorica, representada pelos instru- 
mentos, e talvez pelo pequeno utensilio de pedra excavada, senlU) tam- 
bem por uma anta. O nesso povo n2o sabe hoje, de nenhum modo, o 
que aquillo é, comò os Romanos tambem n?lo sabiam o que eram as 
antas e os instrumentos lithicos. Assim se vao succedendo as civiliza- 
jSes : e os que menos tem consciencia d'isso s5o muitas vezes os pro- 



1 £ de granito. Como naquella zona n£o ha està rocfaa, ve -se que o utensilio 
veiu de longe, o qne indica antigas rela9oeB commerciaes. 



O Archeologo Portugués 113 

prios protagonistas ! A parte as notas que costumo tornar na minha 
carteira, e que depois me servem para os meus estudos, quanto prazer 
nào experimeato nestes passeios archeologicos, que me transportam 
ao passado! Nuns sitios converso com os homens da epocha da pedra, 
que me revelam as suas habilidades artisticas, as suas reIa(oes com- 
raerciaes, as suas cren9as; noutros OU50 os Romanos fallar-me latim, 
e, com lettras gravadas em desprezados pedagos de barro, ou em quasi 
apagadas superficies de pedras toscas, vou formando listas de nomes 
de artistas ou de povoajSes extinctas, que por outra via nSo sEo co- 
nhecidos. Seja ao menos este prazer uma compensatilo das fadigas que 
por là apanho, das noutes mal dormidas, das viagens incómmodas! — 
Voltando a fallar do Berlonguinho, rematarei està noticia, lembrando 
que o dono da herdade é Sr. Francisco Pereira de Scusa, que por 
vezes tem dotado de varios objectos antigos Museu de Alcacer. 

7. Herdade de S. Bras. — Indo-se pela estrada real de Alcacer 
para Santa Susana, encontra-se, a uns 3 kilometros da villa, a Her- 
dade de S. Bràs, que é atravessada pela estrada, e fica nas margens 
da ribeira de Sltimos. Estive là com Sr. Correia Baptista. A direita 
da estrada, a pouca distancia d'està, ficam as ruinas da capella de 
S. Bràs, que deu nome à Herdade; nas paredes d'essa capella depa- 
raram-se-nos dois fustes de columna, lisos, de marmore ; e um capitel 
(? — que por nSo se distinguir bem, fica para ser descrito depois). 
Nos arredores da capella, até à ribeira, vè-se chXo juncado de tijolos 
e grossos cacos de amphoras e de outros vasos; tambem apparecem 
fragmentos de tegulas. rendeiro da Herdade informou que, a uns 
metros de distancia da ribeira, encontrou vàrias sepulturas de tijolo, 
qaadradas, e demasiado pequenas para conterem um cadaver esten- 
dido; ahi dentro achou fragmentos de ossinhos :• seria sepultura de 
incineraQSo? Tambem tem achado vàrias moedas de cobre romanas. 

8. Herdade da Barrosinha. — Fica ainda mais perto de Alcacer: 
1,5 kilometros a 2 kilometros. Na margem direita do Sado, junto à 
àgoa, encontràmos, no mesmo dia, innumeros fragmentos de ampho- 
ras: bojos, asas, gargalos; Sr. Baptista tinha tambem achado testos. 
Foi aqui que appareceu, na occasiSo da nossa visita, fragmento de 
asa de amphora com a inscripySo que acima transcrevi. Apparecem 
igualmente muitos tijolos prismaticos e outros, bem comò fragmentos 
de barro saguntino, e de opus Signinum, — Merece a pena proceder 
a excavajSes, porque de certo apparecem mais objectos. So depois 
se saberà se se trata de povoafSo, se de simples villa. 



114 O Archeologo Portugués 



II 

rrorir&o 

Na manhS de 28 de Dezembro despedia-me dos meus amigos de 
Alcacer do Sai, e dirigia-me para a patria de Bernardini ou Bemal- 
dim Ribeiro. 

A estrada que conduz de Alcacer para o TorrSo é solitaria, corno 
em geral succede no Alemtejo *. Atravessei varios riachos, chamados 
ribeira de Alfevre, ribeira de Algalé, etc. As correntes fluviaes tem 
no Alemtejo varios nomes, conforme a importancia d'ellas: ribeira, 
que significa menos que rio; ribeiro^ menos que ribeira; barranco, 
menos que ribeiro. O barranco sécca de verfto. 

A manli2 estava ennevoada, e por isso pouco pude apreciar dos 
panoramas d'estes sitios. De longe em longe passa j unto do meu trem 
um carro alemiejano, guiado por um homem alto, de jaqueta e chapeu 
desabado; durante uns segundos ouvemst» os chocalhos das mulas que 
levam, depois tudo volta à solidSo e ao silencio, so cortado pelo 
ruido do vehiculo em que vou. Nem uma venda se ve, em que possa 
dar-se uma gotta de vinho ao coclieiro, para o fortalecer centra a fria- 
gem matutina: so encontrei uma fonte; mas àgoa nXo a quereriaelle! 

Um pouco antes de se chegar à ponte de Algalé, o Sado deixa 
de ser navegavel, e muda de nome: fica chamando-se ribeira do 
Sadào^. Cousa curiosa: pois que, deminuindo de volume, recebe uma 
denominarlo com apparencia de augmentativo! 



A pouca distancia do TorrXo ha uma anta, que fui visitar, apesar 
do terreno estar bastante molhado. Conservam-se d'ella alguns esteios, 
da camara, uns em pé, outros cahidos, e o respectivo chapeu ou co- 
bertura; os vestigios da galeria sSo incertos. Como outras do Alem- 
tejo, està anta fica em terreno um pouco elevado, que conterà acaso 
OS restos da mamòa. Ao pé cresce uma oliveira, que a ampara. E 
vulgar encontrarem-se no Alemtejo antas protegidas por arvores. Aqui 
dou algumas medidas da anta do TorrSo: largura da lage que sen^e 



1 Alcacer, politicamente, fica na Extremadura; mas geographica e ethno- 
graphicamente pertence ao Alemtejo. 

* Pronuncia Sd-ddo, com o accento tonico na ùltima syllaba. 



O Archeologo Poetugués 115 

de tampa, uns 3 metros; altura de um dos esteios, tomada por fora, 
1 metro; largara interior, uns 2 metros. A anta està muito eheia de 
pedreguiho e muito arruinada, e n&o podem tomar-se medidas exactas 
sem proceder primeiro a certas remo93es. Orientatilo: ONO-ESE. 
O Sr. Correia Baptista, posteriormente à minha visita, foi tambem là, 
e encontrou ao pé d'ella um pereutor prehistorico de pedra. Està anta 
tem de curioso o seguinte: anda-lhe annexa a lenda de S. Fausto, e 
por isso se chama Lapa de S. Fausto^ ou comò o povo pronuncia: de 
S. Fausto, S. Fagusto, S. Frausto e S. Fragusto, fórmas que ouvi 
todas, quer em Alcacer, quer no TorriLo. Diz o povo que o santo 
appareceu dentro d'està anta, e que tivera em cima da tampa um 
nicho, de que ainda em verdade se vèem vestigios abundantes; so 
depois foi mudado para um tempio. Na mesma propriedade, a poucos 
pasBos de distancia da anta, acham-se sitnadas as ruinas de uma igreja, 
onde li a data de 1645. NSo é està a unica anta portuguesa relacionada 
com lendas de santos: nas minhas Eeligides da Lusitania, i, 21, 
fallo de uma lenda analoga, localizada em Sines; ibidem fallo tambem 
d'està do TorrSo, a p. 290, nota 1. 

Tive ainda conhecimento de outras antigualhas dos arredores do 
TorrXo : 

Na Herdade de Monte-Novo, freguesia do TorrSo, appareceram 
uns quatorze machados de cobre ou bronzo, cujo paradoiro eu nSo 
soube ao certo, apesar de bem ter perguntado por elles, estimulado 
pela cobÌ9a de tSo rica prèsa! 

Perto da Lapa de S. Fausto, de que a cima fallei, ha um sitio 
chamado Fedra d'Anta, onde havia uma anta que foi destruida, para 
com as pedras d'ella se construir um moinho. 

Em S. JOAO DOS AziNHAES, a 2 kilometros do TorrSo, ha, segundo 
me informaram, uma lapide com uma inscripy&o, que serve de pedes^ 
tal nSo sei a qué, e ha um abarrii de pedra», provavelmente sepul- 
tura romana doliar, comò tantas outras do Alemtejo. 

Nos campos apparecem com frequencia, comò em teda a parte, 
instrumentos neolithicos. Eu vi um nas m2os de um sujeito, mas nSo 
achei meio de o convencer a ceder-m'o. D'està vez declinou a mirìha 
estreUa! mas ia despontar em breve, nas Alca^ovas, e em Evora. . • 



A volta, se bem me lembro, do meio-dia, avistava eu a patria do 
cSenhor das Saudades», comò Garrett chama a Bernardim Ribeiro 
no Auio de OH Vicente. nevoeiro havia-se desfeito, e o sol brilhava 



116 O Archeologo Poutugués 

com toda a sua luz. Primeiro atravessei o Xarrama, numa bella ponte ; 
rio espreguìfa-se num leito de pedras, zoando e espumando; pelas 
margens vé-se roupa estendida, que enxuga ao sol. Depois de urna 
pequena subida, entrei na villa, que é de ruas estreitas e casas baixas. 
Apesar de o intuito da minha visita consistir apenas em proceder a 
algumas investiga9Òes archeologicas, eu ia absorvido na memoria de 
Bemardim Ribeiro: e por isso experimentei certa commoyEo, quando 
carro comejou a rodar nas ruas da villa. Aqui nascerà com effeito 
no sec. XV o novellista da Menina e moga, o poeta das Saudades, 
cujos cantoB exprimem tanto ao vivo a alma portuguesa^ sempre me- 
lancholica e apaixonada! Mas d'elle, nem sequer um vestigio material 
achei na villa; nada que tornasse lembrado aos seus conterraneos 

O coitado do pastor, 
Pobre, mal aventurado. . . 

Pelo lado archeologico tambem nada se me deparou, digno de nota. 
A igreja, de tres naves, tem um portai manuelino; e ha no interior 
d'ella vàrias sepulturas com inscrip(8es portuguesas: mas estes as- 
Bumptos nilo entram no meu programma de estudos. So num arrabalde 
da villa encontrei uma pequena con8truc9ao romana, feita de opus 
Signinum, e que talvez fosse depòsito de àgoa; em volta, muitos 
fragmentos de tegulas. O sitio chama-se Fonte Santa: ha li real- 
mente uma fonte, mas tSo caiada e modernizada, que nada re vela jà 
hoje da importancia cultual que de certo teve em tempos pagSos. 

Demorei-me noTorrào apenas bora e meia. 

Ao Sr. Adelino SimSes da Guia, pharmaceutico no TorrXo, agra- 
de(o a complacencia com que me acompanhou, e me informou k cérca 
do que Ihe perguntei. 



Se se resumir o que fica exposto, vè-se que o TorrXo, com rela- 
9%o às epochas antigas da sua historia, offerece os seguintes vestigios 
materiaes : 

1. Lapa de S, Fausto e Fedra d'Anta (dolmens); 

2. instrumentos neolithicos; 

3. instrumentos de cobre ou bronze; 

4. uma pequena edifica92lo romana, e junto d'ella uma/cm^e santa, 
que data de epochas immemoriaes. 

Sfto pois vestigios pre-romanos e romanos. 



O Archeologo Portugués 117 



III 

Deixando os pardacentos e tristes arvoredos que rodeifto oTorrXo, 
entrei na estrada das Alcagovas, que segue em linha recta, pelo meio 
de charnecas profundamente desertas. Aos lados d'ella estendem-se 
durante longo espago renques de eucalyptos, que animam um tanto a 
arìdez da paisagem, e sao tambem benefìcio phjsìco, por causa das 
condÌ55es sazonaticas do sitio. 

Aqui e alem, comò desde Alcacer até o Torrio, passava por mim 
um carro alemtejano com um camponés là dentro: afigurava-se-me 
entSo ver um romano no seu carpentum, recolhendo a villa, quero 
dizer, ao «monte». O carro alemtejano é sem dùvida de orìgem romana. 
Mas em vez de toga, eu encontrava a «manta alemtejana», em vez de 
feminalia os gafoes de pelle, em vez de galerus o barrete. A manta 
e OS 9a{Ses sXo trajos caracteristicos do Alemtejo; o barrete encon- 
tra-se noutras partes com igual profusSto. Ao lado da estrada, nas 
gandaras, pastavam manadas de porcos, pequenos e avermelhados, 
multo gordos, do mesmo tamanho e da mesma cor, — comò regimentos 
uniformizados, em descaiiso. 

A pouca distancia da villa comegam a apparecer campos verdes, 
arvores de fructo e casas. Ao lado direito avista-se a Serra, onde està 
convento da Senhora da Esperanga; està vista alegrou-me, pois que 
a Serra era o objecto especial da minha visita, por là haver antigui- 
dades romanas que estudar. Por fim surgem as Alcagovas, com hortas 
umidas e frescas à entrada, comò que para eativarem a quem vinha 
farto de atravessar montados e terras séccas. Os ultimos raios do sol 
illuminavam a igreja-matriz e os edificios mais altos; por de tràs o 
ceu, salpicado de nuvens prateadas, formava um fundo de quadro. 

A villa é pequena, de ruas estreitas e lamacentas, com algumas 
casas de ar afidalgado. Fabricam-se em grande quantidade nas Alca- 
9ovas chocalhos para os gados, d'onde o dar-se vulgarmente o nome 
de chocal/ieiros aos habitantes, designagSo porém com a qual ninguem 
deve offender-se, por isso que lembra uma importante industria locai. 
A cérca da historia da villa publicou-se em Evora em 1890 um opus- 
culo com titulo de Breves memorias da villa das Alcagovas; sahiu 
anonymo, mas sei que é devido ao actual Sr. Prior, Rev.**® Joaquim 
Fedro Alcantara. 

Fiquei numa estalagem, O nome, em verdade, nio inculca muito ; 
mas, comò me deram roupa lavada na cama, e comida substancial na 



118 O Archeologo Pobtugués 

mesa^ nio fiz caso do titulo. Alem d'isso, para mim, que me interessi) 
pelos costumes populares, o pernoitar numa estcdagem^ onde nada ha- 
via das modas afrancesadas dos hoteis, constituia prazer, porqne me 
punha em contacto intimo com a ethnographia nacional. Logo que 
chegaei, sentei-me no lar, à fogueira, com a familia da casa, nmas 
pobres molheres, affaveis e falladoras. A mais velha, que era a dona 
da estalagem, desfiou-me, no meio da conversa, os nomes dos -seus 
filhos e dos seus netos; sSo, diz ella, muito exquisitos: Vinato, Ver- 
gilio, Horacio . . . Por pouco que esgotava todo o Onomasticon de De- 
Vit! NSo desgostei, porque, indo eu às Alcajovas estudar archeologia 
luso-romana, encontrava ao pé de mim o nobre caudilho dos nossos 
maiores, do seculo n da Era ChristS, e os mais notaveis poetas lati- 
nos da epocha de Augusto. A cozinha da estalagem era, corno todas 
as alemtejanas, espajosa, com urna longa e alta chaminé; a parede 




tinha a classica honeca, feita de tijolo, — figura, a que o povo jà hoje 
nXo liga significagXo moral, mas que eu considero vestigio de urna 
antiga divindade (Lar familiarù) : vid. a figura junta. 

Depois que jantei e sahi, procurei o Sr. Aurelio de Aguilar, que 
me relacionou com o Sr. Francisco de Mello Cabrai e Sousa, dono 
da propriedade em que ostava a antigualha romana que eu tencio- 
nava ver, na Serra da Senhora da Esperan9a. A estès senhores devi, 
durante a minha permanencia nas Alcagovas, muitas finezas: a ambos 
tributo pois aqui os meus agradecimentos. 

Tendo voltado para a estalagem, dormi num quarto ladrilhado de 
tijolo, com esteiras algarvias a servirem de tapetes, conforme o cos- 
tume do Sul. Apesar de ir alquebrado da viagem, pouco repousei, 
sobresaltado, comò estava, com a ideia de partir de madrugada para 
a Serra, que fica a uns 3 kilometros da villa. 



O Archeologo Poetugués 119 

Quando o carreiro ao oiitro dia bateu à janella, e me chamou, às 

seis horas da manhS, jà eu estava pronto, de saca ao ombro, e de 

cajado na mio. O Sr. Aurelio de Aguilar, que havia tido a amabili- 

dade de me prometter acompanhar-me, appareceu pouco depois. De 

modo que às seis e meia partia, levando-nos, um carro alemtejano, 

toldado. Por causa do declive do terreno, e tambem para combatermos 

o frio matinal que entrava comnosco, subimos parte da ladeira a pé. 

Na Serra tinha havido frades outro tempo. Là estavam em cima, 

a alvejar, o convento e a igreja. Mal atravessei o portXo da cérca, 

comecei a ver pelo chÌo fragmentos de antigo vasilhame, que me mos- 

travam que eu estava numa esta9So archeologica. Por toda a Serra 

depararam-se-me tambem muitas paredes velhas de casas, e mettidos 

nos muros dos campos peda9os de marmore trabalhado, provavelmente 

de origem romana. 

Tanto a igreja comò o convento ficam entre antiquissimas ruinad 
de casas. Num campo, ao Sul, do lado opposto ao tempio, haviam os 
trabalhadores descoberto, entre muìtos cacos, ossos humanos e vasos. 
Eu pude ainda alcanjar de um dos trabalhadores um vaso de barro, 
quasi inteiro, que era uma olla cineraria, pois, de mistura com terra, 
continha pequenos carvSes, cinzas e esquirolas osseas, algumas ainda 
chamuscadas. Està olla està hoje no Museu Ethnologico; aqui dou 
a figura d'ella (Ya da grandeza naturai), segundo um desenho do 
Sr. Henrique Loureiro (na estampa j unta, n,° 1): 

Sem dùvida o campo constìtuia um cemiterio romano, onde os ca- 
daveres eram incinerados. D'este cemiterio proveiu, segundo todas as 
probabilidades, a lapide marmorea, com inscripjSo, que foi com leves 
incorrecjSes, publicada n-0 Arch. Pori,, i, 155. Està lapide, por 
causa da qual eu fora às Alcajova^, estava junto do convento: tem 
fórma de pipa, offerecendo numa das extremidades a repre8enta92Lo 
de dois peixes, e na outra a de uma patera e de um praefericidum. 
A inscripgSo diz: 

DMS 

LAMA 

XXXV 

ICTLAES 



A pipa mede de comprimente 0"*,94; de diametro 0",40; a altura 
das lettras é de 0",035. 



120 O Archeologo Poktdgués 

Mercè da generosidade do Sr. Francisco de Mello Cabrai e Scusa, 
proprietario do locai, obtive por offerta a lapide, que està hoje no 
Museu Etimologico Portuguès: cfr. Arch. Pori., il, 159. Receba 
mais uma vez S. Ex.* os protestos da minha gratid%o por.este servijó 
que prestou ao Museu, onde a lapide fica à dÌ6po8Ì9Eo dos que a quise- 
rem ver e estudar. O Sr. Cabrai e Sousa levou a sua franqueasa a 
permittir-me proceder a excavaQÒes no terreno, o que farei em occa- 
siao opportuna, apenas eu me veja desafogado de certos trabalhos; 
talvez entao a nossa Archeologia tenha de registar novos e curiosos 
documentos da epocha luso-romana. Por essa occasiSo procurarci ver 
outras antiguidades locaes, de que me fallaram, entro ellas uma anta 
na herdade da Pijeira, onde serve de chiqueiro de porcos. 

Antes de me retirar da Serra, em que tao boas impress3es colhèra, 
visitei a igreja, e perguntei por tradifSes populares à familia do sacris- 
tSo. Na igreja venera-se a Senhora da Esperanja, que ahi appareceu 
sob a fórma de imagem de pedra*, e ahi tem a sua e casa dos mila- 
gres»; nella vi, entro outros ex-votos, o de um sol dado, que, corno 
OS da epocha luso-romana em analogos ex-votos, indica num lettreiro 
a sua posi^So social. ^ 

Nas baixas da Serra passa a ribeira do Degebe, a respeito da 
qual sacristSo me disse, no dialecto do sitio, que ella cóla por um 
fundào, isto é, que corre por um valle. Porto da Serra e da ribeira 
fica a Fonte-Santa, onde està pintada a Senhora da Esperan9a, e cuja 
àgoa, me asseveraram, «tem vertude». 

Todos OS factos mencionados concorrem pois para provar que a 
Serra das Alca$ovas foi uma esta^ao archeologica: as ruinas das casas, 
OS restos ceramicos, a olla funeraria, e a inscrip9ao latina, mar- 
cando-nos està a epocha, que é a romana; comò ùltimo eccho do 
passado, achamos a Fonte-Santa, com as suas àgoas virtuosas, a 
testemunharem-nos ainda, posto que sob outro aspecto, as crenjas 
pagSs que os antigos habitantes da Serra possuiam. 

Eram bem horas de almo90 quando desciamos do alto, e diziamos 
adeus àquelles lindos panoramas que de là de cima se disfructavam, 
outeiros cobertos de mato, montados, rios, casaes fumegantes, tudo 
numa vasta amplidao de horizonte, por onde a minha vista nao se 
causava de correr, — à procura ainda de outros monumentos archeo- 
logicos. . . 



* Ab lendas de apparecimentos milagrosos de imagens religiosas sSo multo 
vulgares no dosso paia. Jà n- Archeologo se tem citado algumas. 



O Aecheologo Portugués 



121 



IV 



"EvorcL e arredoires 



N2io Tou aqui fazer a descrìp92o de Evora nem a das suas antigui- 
dades. Isto constituirìa trabalho extenso; de mais a mais jk parcial- 
mente tem sido emprehendido por muitos. Contentar-me-hei com apon- 
tar algomas notabilidades que observei. 

a) Museu lapidar: 

No Palacio de D. Manuel, situado no Jardim Pùblico, ha uma 
interessante eolIec(%o lapidar que contém monumentos da epocha 
romana e posteriores. Entro os monumentos vi cippos, aras, sepul- 
turas dolìares; alguns d'estes monumentos contém escuipturas de 
vasos, de pateras, de coroas, uma aguia, etc. Os monumentos chris- 
t2o8 s8o muito numerosos; indicarei algumas figuras curiosas que 
se véem insculpidas em pedras que serviam de cabeceiras sepulcraes : 








Nesta collec9fto notam-se: sarcophagos, uns lisos, outros com 
brasSes de fidalgos, e de próceres da Igreja; capiteis e escuipturas 
diversas, de muitas qualidades. 

Na parte epigraphica póde seguir-se o estudo da paleographia 
lapidar, desde a epocha romana até à actualidade. 



122 Archeologo Portugués 

b) Bibliotheca e Museu Cenaculo: 

Nos papeis que pertenceram ao arcebispo Cenaculo, e que estlo 
na Bibliotheca de Evora, existem muitas noticias de antiguidades, 
que jà por varios investìgadores tem sido aproveitadas e publicadas. 

Pela minha parte, publiquei n-0 Arch, Port.j i, 338, com o tìtulo 
de «Antiguidades do Sul do Tejo», varios extractos interessantes da 
obra de Cenaculo intitulada Sisenando martir e Bya suct pcUria, 
extractos que tirei durante a minha estada em Evora*; na mesma 
occasiSo tornei outros apontamentos que a seu tempo darei a lame. 

Museu Cenaculo, annexo à Bibliotheca, é bastante curioso, e 
merece que muito dos objectos que contém sejam desenhados oa 
photographados, e tomados conhecidos do pùblico. 

Nas salas do rés-do-chHo ha uma collec9ao de lapides romanas. 
Entre ellas està uma com o seguinte fragmento de inscripgSo que julgo 
inedito : 

LIVLIVS-PI 

adeante do P vé-se, comò indico, uma baste. Foi encontrado nas pare- 
des do convento de S. Francisco. Mede de comprimente uns 0™,60; 
de largura uns 0™,38; de altura uns 0",13. 

Ha outras inscripjSes que tambem croio ineditas, mas precisam àe 
maior estudo do que o que fiz nellas, por isso as deixo para outra vez. 
Uma d^ellas foi achada com tegulas, molas manitarias, e parece que 
com uma raoeda imperiai de euro, na herdade de Claros Montes, fre- 
guesia de Vimìeiro, concelho de ArrayoUos; termina por estas lettras 
BALSj que significarSo antes Bals(€w^) do que 'B{otum) =Y(otum) 
Ainimo) lj{iben8) S{olvit). 

e) André de Blende: 

Quem fSr a Evora ver velharias ha de por forga lembrar-se de 
André de Ròsende, o pae dos estudos archeologicos entre nós, no 
eec. XVI. Nao o devo eu, pois, esquecer nestas breves notas. 

Ha na cidade uma rua denominada de «Mestre Rèsende^, por 
ahi estar situada a casa em que viveu o célèbre antiquario. Na minha 
d©vo9ao por elle, nSo pude furtar-me ao desejo de passar diversas 
vezes por deante da casa, comò que em romaria; de uma das vezes, 
em que eu ia aeompanhado pelo Sr. A. F. Barata, outro apaixonado 
das cousas velhas, resolvi-me a bater à porta, e a pedir licenja para 
entrar, o que facilmente me foi concedido. 



' i^'oraiis trauBcritos no B^'ense (de Beja) pelo Sr. Umbelino Palma. 



O Abcheologo Pobtuqués 123 

■ ^ 

Aqui, disse eu, quando me vi dentro, pensou muitas vezes Mestre 
André na sua querìda Lusitanìa, e na obra que às antiguidades d'ella 
consagrou, na qual se faz pela prìmeìra vez um prospecto da nossa 
geographìa antiga, embora o auctor deslustrasse algumas das péginas 
com a publica(&o de inscrìp^Ses falsas, que elle proprio mandou gra- 
var em marmores, que ainda hoje se conservam na bibliotheca ; mas 
perdoemos ao bom filho de Evora a pia fraude, devida ao muito amor 
da patria, e à tibieza do methodo critico, ent&o apenas incipiente! 
D'aqui manteve elle correspondencia latina com eruditos estrangeiros, 
seus amigos, comò Vaseu, que vivia em Salamanca ^ Após quatro 
seculos, aqui yenbo eu saudar a tua memoria, venerando Velho, sabio 
Mestre, que nos teus livros nos deixaste tantas noticias preciosas, e 
ao mesmo tempo a prova eloquente do ferver e proveito com que, 
para honrares a patria, te dedicaste ao estudo da antiguidade clas- 
sica, que é a base de todos os progressos realizaveis no campo das 
sciencias historicas. 

A casa tem uma varandinha de pedra, em fórma de claustro, hoje 
tapada, mas que deixa ainda ver os arcos : deità para um pequeno 
jardim murado, onde estavam no tempo de Rèsende monumentos anti- 
gos, que elle para là tinha levado. Pouco distante de Evora possuia 
Kèsende uma quinta em que havia uma fonte com uma cruz, e duas 
inscrìp(3eB latinas^, entro ellas a seguinte, que hoje se conserva no 
Museu do Palacio de D. Manoel, a que a cima alludi e d'onde a copio : 

FLECTE GENV. EN SIGNV PER QVB VIS VOTA TIRANI 
ANTÌQVt ATQAE ÈREBI CONCDÌT M>ERÌVM: 
HOC TV SiE PlVS FRONTE. SÌE PECTORA SÌG^ES 
JEC LEMORV NSDÈS EXPECTiftAQVE VANA TÌME. 



Iste é: 



Flecte genu: en signum per quod vis vieta Tyranni 
Antiqui, atqtie Èrebi concidit imperium; 

Hoc tu 8Ìve piu8 frontem, sive pectora signes, 
Nec Lemurum insidias spectraque vana tìme. 



1 Yid. por ezemplo L. Andr. Besendii Opera, ii, Conimbricae 1790, p. 7 sqq. 

2 Barbosa Machado, Bibliotheca Lusitana, i, 162. Està qainta està incluida 
na da Manisola, pertencente ao Sr. Yisconde de £8peran9a, que ahi achou ulti- 
mamente alguns restos archeologicos qae ascendem ao tempo de Rèsende (infor- 
ma9So particular do Sr. Yisconde). 



124 O Archeologo Portdgués 

Nestas quatro linhas temos dois disticos, d'estas fórmulas: 



O distico, ou distichon, compSe-se, corno é sabido, de um verso 
hexametro, combinado com um pentametro. — No segundo sive do ter- 
ceiro verso o poeta fez systole {stve), 

O latim oflFerece de particidar: Lemorumf or «Lemuram»; in^idies 
por «insidias»; expéctara por «spectra». Na expressSo vis vieta ha 
allittera9So *. 

Traducfio portuguesa: 

Curva joelho, Eis o signal pelo qual foi vencida a forga do 
Tyranno Antigo (= Diabo), e baqueou o imperio do Èrebo (= Inferno); 
persignando'te devotamente com elle, ou na testa, ou no petto, nào temas 
as cUadas dos Lémures, nem os vàos espectros. 

A lapide està numa estela de marmore, de 0™,59 de comprimento, 
e de 0",4l de largura. 

Quantas horas, e qufto doces, nfto passaria André de Rèsende 
neste jardimzinho ou na quinta, entro as pedras, e ao pé da fonte 
sagrada, conversando com os mortos que & sua imaginaySo de erudito 
Ihe appareciam alli, fallando-lhe da» civilizajSes de outras eras? 

As cinzas do nesso archeologo quinhentista jazem actuabnente na 
Sé eborense, num antigo tumulo de marmore, aproveitado para esse 
fim: da tampa, que é moderna, copici a seguìnte inscripjlo, que foi 
elaborada pelo Dr. Rivara : 

L. ANDRENE RESENDII 

MEMORIA DICATVM. 

EX ìEDE DOMINICANA FVNDITVS EVERSA 

TANTI VIRI CINERES 

IN PERPETVVM GRATI ANIMI MONVMENTVM 

CVRA ET SVMPTIBVS EBORENSIVM, 

QVIBVS DECVS PATRIA CARVM, 
HVC TRANSLATI AN.MDCCCXXXIX. 



^ Sr. Dr. E. Hiibner publica tambem està inscrip^So nas Noticias archeo- 
logicas de Portugal, Lisboa 1871, p. 49-50, e attribue-a ao sec. vii ou vm. Jà 
antes a tinha publìcado Barbosa Machado, Bibliotheca Lusitana, i, 162. 



Archeologo Portuqués 



125 



TraducfXo : 

A, memoria do Licenciado André de Resende, Da igreja de S. Do- 
mingos, que padeceu completa ruina, foram para aqui transladadas 
em 1839, para prova de gratidào perpètua, as cinzas d'este grande 
varcto, por cuidado e a expensas dos habitantes de Evora, a quem a 
honra da patria é cara. 

d) CoUecgdes particulares : 

Tive ensejo de ver a coIlec9So monetaria do Sr. Alvarfez da Silva, 
que vive em Evora, e a do Sr. Visconde de Esperan9a, que vive nos 
arredores, na sua quinta da Manisola. A ambos os meus agradeci- 
mentos. 

Aqui dou uma synopse da prìmeira: 



Dcsl^a^io 



Consulares roroanas 

Imperiaes romanas 

Byzantinas 

Municipi OS e colonias da Hispa- 

nia 

Ibericas 

Godas 

Arabes 

» / Continente e ilhas 

1 l India 

bo { Brasil 

"C I Africa Orientai 

o f 

^ I Africa Occidental 

Estrangeiras que tiveram curso 

em Portugal 

Grao mestres de Malta, portu- 

gueses 

Sapecas 

Mcdalhas portuguesas 

Medalhas estraugeiraa 

Pesos 

«Contos» portugueses 

Jettons eatrangeiros. . .^ 

Senhas 



AT. 



121 

3 

17 

1 



143 



&. 



38 
10 



11 
284 
74 
73 
2 
18 



528 



JE. 



1 

102 

2 

12 
9 

1 

175 

72 

75 

8 

37 





3 
4 
8 
2 
3 

530 



95 



98 



Br. 



16 

1 



17 



PI. 

e 

Cai. 



21 



22 



18 

1 
3 

22 



Total 



39 

115 
2 

12 
9 
1 

12 

691 

171 

165 

11 

55 

17 

7 

18 

11 

3 

5 

8 

5 

3 

1:360 



126 O Archeologo Portugdés 

Nesta coUeojao ha algumas moedas curiosas, corno urna de D. Fer- 
nando, e um vintem de D. Jo%o II, cunhado no Porto, e em que ha 
urna variante das legendas conhecidas. Espero qae d'estas e de outras 
notabilidades da sua collec^So de o Sr. Alvarez da Silva, corno me 
prometteu, mais circumstanciada noticia aos leitores d-0 Archeologo 
Portuguès, em artigo especial, provido de estampas. 

Na collecjlo do Sr. Visconde da Esperanja, que consta de moedas 
portuguesas e outras, ha boa serie de moedas arabes de prata (dtrAe- 
mes), grandes e redondas, apparecidas em ArrayoUos dentro de urna 
panella; s%o interessantes pelo facto de algumas d'ellas conterem um 
furo com urna pequena argola, ou uma laminazinha, feitas de outras 
moedas, e postas em fórma de appendices, e que parece servìriam de 
contrapesos para darem às respectivas moedas valor legai. A coUec- 
9E0 das moedas arabes distribue-se assim: 

inteiras : cento e tantas ; 

moedas com furos e appendices : vinte e duas ; 

moedas com furos, mas sem appendices: vinte e uma; 

fragmentos de moedas, alguns com appendices : umas dezenas. 
O Sr. Visconde da Esperanga nào collige s6 moedas, mas tambem 
outras antiguidades : possue por isso alguns instrumentos prehistoricos 
de pedra e de metal, e armas de differentes idades. 

e) Sepultura antiga: 

No sitio do Eivado, dentro da Quinta-Grande, do Sr. Visconde da 
Esperan9a, visitei no dia 5 de Janeiro com este illustre titular uma 
antiga sepultu):a, apparecida algum tempo antes. Na visita acompa- 
nhou-nos tambem Sr. A. F. Barata, que foi quem pnmeiro me 
fallou do monumento, e Sr. Alvarez da Silva. 

Aqui represento pouco mais ou menos a pianta da sepoltura: 



N. 




Provavelmente a pedra e constituia com a pedra e um lado; a 
pedra d devia ficar parallela à pedra a: do que resultarla ser rectan- 
gular a sepultura. Eis os comprimentos das pedras: 



O Archeologo Poetugués 127 

a, d, e, uns 0'",54; h, uns 9™,60; e, uns 7",70; largura das lages: 
entr© 0™,20 © 0",30. Altura actual da sepultura (r,50. 

As pedras s2o do granito da regimo. 

NSo dou medidas exactas, porque, corno n%o tinha k mSo fita 
metrica, medi aos palmos. 

Quando o Sr. Visconde encontron a sepultura, jà ella estava 
sem tampa, e cheia de terra. As pedras achavam-se na po8Ì92Lo actual, 
excepto a pedra h^ que estava um pouco ìnclinada, tendo-a o Sr. Vis- 
conde mandado por na posi^ilo naturai. Infelizmente nSo se sabe a 
nature za dos objectos que primitivamente conteria. 

A sepultura parece pertencer à classe que nas minhas Beligides 
da Lxisitania, i, 308 sqq., chamo cistas. 

Està situada, comò muitos dolmens alemtejanos, num altinho, que 
de certo fez parte de mamoa que envolveu outr'ora a sepultura. 

f) Antas da Herdade do Freixo: 

O Sr. Emilio Cartailhac publica no seu livro Les dges préhistori- 
ques de V Espagne et du Portugalj p. 167 sqq., algumas noticias e 
desenbos das antas da herdade do Freixo, que ficam perto de Evora. 
Para là remetto o leitor curioso d*estes assumptos; aqui desejo so 
fazer breve menglo do passeio que dei à herdade do Freixo, em com- 
panhia do Sr. Engenheiro Dr. Gaetano da Camara Manoel, digno 
Director das obras publicas do districto de Èvora. 



O terreno pertence ao Sr. Duque de Palmella, a quem agrade^o a 
franca auctoriza^So que me concedeu de là ir, e de até proceder a 
excavajSes, se eu quisesse. 

O Sr. Camara Manoel e eu partimos por uma fria manhS de 
nevoeiro. dia nSo foi pois dos mais asados. Andàmos mesmo de baixo 
de umidade até à noite. 

Uma das antas tem a camara quasi circular, corno se ve do esbo;© 
que da pianta dou a cima. 



128 O Archeologo Portugués 

Consta de sete esteios ìnclinados para o centro ; jà faltava a cobertura. 
As pedras g, h s%o as mais altas, medem o dòbro das outras. Assenta 
a anta numa pequena eleya9%o do terreno, corno outras muitas do 
Alemtejo ; està elevajao deve center os restos da mamoa primitiva. 

Mandei excavar, para simplez reconhecimento, na zona o-ò^ sepa- 
rada por pontos; levei a excavagao até 0™,5 de profdndidade, e 
encontrei um lageado, que tinha em cima ossos humanos, algons 
chamuscados, e fragmentos de vasos mnito antìgos, dos que se encon- 
tram nas esta^oes neolithicas mais archaicas. 

Temos pois o solo da camara constituido assim: 




A altura da camara, desde o ladrìlho, no fundo da excaYa92o, até 
cimo do mais alto esteio, or(a por uns 4 metros. A maior largura 
é tambem de uns 4 metros ; a menor é de uns 3'°,5. 

Galeria nSo se percebia. A entrada da anta é por c-rf^ ao Nas- 
cente *. 



Neutra anta vizinha, jà explorada pelo Sr. Cartailhac, encontrei 
alguns cacos analogos aos achados na anta precedente, e urna penta 
de flexa de silex que pertence lioje ao Museu: Cfr. Arch. Pori., 
Ili, 107. Dou na estampa junta (fig. 2), em tamanho naturai, desenho 
d'ella, feito pelo Sr. Henrique Loureiro. 

g) Antas do Barrocal: 

O Barrocal é um sitio perto de Evora. Tendo sabido que ahi 
havia antiguidades prebistorìcas, fui là. Tive por companheiros o 
Sr. Visconde da Esperanga e o Sr. F. A. Barata, que igualmente se 
dignaram acompanhar-me à estasio archeologica da Tourega, de que 
fallo adeante. 

Ao pé do e monte» (casa da berdade) do Barrocal vi urna anta, 
situada num altinho, comò a do Freixo, em meio de terrenos oultiva- 



^ À cérca dos dolmens ladrilhados vid. as minhas Rdigioea da Lusitama, i, 
276-2V7. 



O Archeologo Pobtugués 129 

<los; podia muito bem ter tìdo mamoa, destruida pelos trabalhos 
agricolas, mas revelada ainda em parte pelo refendo monticulo. 

A camara fórma um polygono, com tendencia para circulo, comò 
se ve do adjanto esb890 de pianta, 




e consta de cinco esteios de granito, ainda em pé, e mais dois, nm 
tombado, outro quasi ; a lampa, ou cohrideira, comò Ihe chamam no 
sitio, està tambem quasi a desabar* Todas estas pedras sSo de gra- 
nito, e sem i^ìparelho. Galena ji Ih'a xAo percebi, a nSo ser que Ihe 
houvessem pertencido umas pedras que se véem proximo. Altura dos 
esteios a cima do solo actual 1°*,60 plus minus; comprimente e lar- 
gura, respectivamente uns 2™,48. Entrada ao Nascente. 

A gente da localidade excavoa em tempos està anta, e achou uma 
placa de lousa, que eu ainda pude adquirir, e que hoje se acha no 
Museu Etimologico: na estampa j unta (fig. 3) don, em tamanho natu- 
rai, desenho d'ella, feito pelo Sr. Henrique Loureiro. 



Deram-me noticia de que porto d'este dolmen havia outro, ainda 
bem conservado, e de mais tres ji cabidos. 

O poYO chama a estes monumentos antas, e diz, segundo o cos- 
tume, que elles aeram dos Moiros». 



Espero em occasiRo conveniente proceder a excavajSes regulares 
nestes cinco monumentos, tanto mais que elles ficam proximo uns dos 
outros. 

Em 1875 publicou o Sr. Gabriel Pereira um opusculo com o titulo 
de Dohnens ou antcu dos arredores de Evora, onde tambem falla do 
Barrocal. 



130 O Abcheologo Portugués 

h) Estagào archeologica da Tourega: 

A Tourega fica perto do Barrocal, nos arredores de Evora. Fui 
là na mesma occasiSo em que fui ao Barrocal. 

Em volta da igreja da freguesia, em grande àrea, véem-se muitos 
vestigios de antiguidades romanas : telhas de rebórdo, imbrices, peda- 
50S de marmore coni vestigios (frisos) de haverem pertencido a obras 
de arte, e tambem langos de construc95es ainda em parte revestidos 
de opus signinum. Num campo ha urna pequena fonte, que de -certo é 
muito antìga, talvez tambem romana. 

Junto da igreja, num muro, està uma tampa sepulcral romana, de 
marmore, com fórma de pipa, comò outras muitas que apparecem no 
Sul ; mas infelizmente a inscrip92Lo jà nXo se le, por estar 9afada. 

Alem da fonte mencionada, e que jaz esquecida em meio de um 
campo, existe outra a alguns metros da igreja, consagrada a Santa 
Comba, e que merece conceito muito santo ao povo, que ahi vae 
buscar agua para curar molestias dos olhos. E um P690 quadrado, de 
granito, de O",?© de lado, coberto por uma abobada de engras (de 
tijolo). Na parede ha uma inscrip9ao portuguesa em verso, do que so 
pude ler: 

....STA AGVA TAL 

VERTVDE 

....TANDO DA 

SAVDE 

17. ..8 

que deve interpretar-se assim : 

Tem està agua tal vertude, 
Que, matando, dà saude 

tmatando a sede», entende-se. O estylo é pois gongorico. Em lugar 
de dois versos de redondilha maior podiam formar-se quatro, de quatro 
syllabas cada um. 



O Sr. Visconde da Esperan9a, alem da collec9Eo archeologica de 
que fallei a cima, posane boa livraria, composta de impressos e 
manuscritos *. Tendo-me Sr. A. F. Barata, particular amigo do 



* Em 1897 publìcou-se em Evora o Catalogo dos princtpaes manuscritos da 
Livraria do Visconde da Esperanga, organizado pelo Sr. A. F. B(arata). 



O Archeologo Pobtogués 131 

Sr. Visconde, communicado que nesta livraria estava um manuscrito 
do sec. xvni, com urna parte & cérca das antìguidades da Tourega, 
facilmente me foi concedìda licenza para copiar e publicar essa parte. 
Aqui pois a publico, corno complemento e ilIustra9%o do que sobre a 
Tourega fica exposto: 

«De fronte da porta principal da igreja, debaixo do alpendre, 
està urna pedra, qae dizem se desenterrou neste mesmo sitio ; é de 
marmore, em fórma de sepultura, e bem moldada, com a inscri- 
pgSo em lettras romanas ou latinas, e d'ella faz men9£o o P. M. 

Resende: ^ Dentro do mesmo pateo, e defronte da porta da igreja, 

està uma pedra parda, do feitio de peso de algar (== alagar = lagar), 
com diias gaiyas, corno costumam a ter os taes pesos, mas tam grande, 
que tem de circamferencia dezaseis palmos, e de altura sete palmos, — 
e dizem se desenterrou neste sitio, bavera, a quando multo, quarenta 
annos^; sobre està pedra està hoje um relogio de soP. Pouco distante, 
no portai da tapada, que disse, da igreja, està outra pedra de marmore, 
que mostra ter sido parte de uma grande columna, com seus filetes 
em roda^. E e&t&o tambem neste pateo, à roda d'este sitio, algumas 



* [A inscripcSo vera publicada no Corp. Inacr. Lai., ii, 112 e diz assim : 

DM S 

Q • IVL • MAXIMO • e • V Q • IVL • CLARO • C • I • UH • VIRO 

QVAESTORI • PROV • SICI VIARVM • CVRANDARVM 
UAB • TRIB • PLEB • LEG<J> ANK • XXI 

PROV • NARBONENS ramut Q • IVL • NEPOTIANO • C • I 

6ALLIAB • PRAET • DES lauH UH • VIRO • VIARVM • CVRAN 

ANN • XLVI DARVM • ANN • XX 

CALPVRNIA • SABI CALP • SABINA • PILIiS 
NA • MARITO • OPTUiO 

Està inscrip9ÌLo està na collec^ao lapidar do Palacio de D. Manoel em Evora. 
Para commodidade dos leilores, fa^o-lhes tambem a traduc^&o : 
Consagragao aos deuae» Manes. 

1) Calpurnia Sabina [dedieou aste monumento] ao aeu optimo marido, Quinto 
Julio Maximo, varào muito illustre, questor da provincia da Sicilia, tribuno da 
plebe, govemador da provincia Narbonense, pretor eletto da G alita, [fellecidoj de 
46 annos. 

2) Calpurnia Sabina [dedieou oste monumento] aos seus filhos Quinto Julio 
Clara, e Quinto Julio Nepociano, jovens muito illustres, quattuórviros intendentes 
das estradas [falleeidos^ um] de 21 [e o^outro] de 20 annos]. 

2 [Là YÌ ainda està pedra]. 

' [Jà nio vi]. 

4 [É a sepultura romana, em fórma de pipa, de que fallo a cima|. 



132 O Abcheologo Portuguès 

bases de columna, capiteis, umas maiores, outras mais peqnenas, qne 
se tem achado neste sitio, e ainda se descobrem cada dia, e ontras 
pedras de vàrias esquadrias ^. E na passagem da ribeira estSo umas 
passadeiras, d'onde se passa muita agua, e entre ellas està urna tio 
bem do feitio de peso de àlgar (= alagar = Ugar), mas com qnatro 
encaixes nos lados*. Sahindo do pateo da igreja, para a parte do 
Noroeste, em distancia de 200 passos, estSo umas ruìnas de edificius 
antigos, a que hoje chamam As martas («e)', de paredes tSo bem 
caldeadas, e argamassas tSo rijas, compostas de meudos seixoSi e com 
a cai t2o unidos, que os instrumentos de ferro e afo mais bem t^inpe- 
rados na sua resistencia, ou quebram, ou se acham brandos. Mostram 
hoje estas ruinas que foram antigamente lagos ou tanques de banhos, 
dos que usaram os Romanos, por quanto a sua fórma é de tanques 
grandes e pequenos. maior tem 120 palmos de comprìdo, e de 
largo 22. Os de mais o cercam em roda. Todos por dentro argamas- 
sadas da argamassa de seixinhos, e n2o se Ihe conhece porta ^. Contigo 
(= contiguo) aos tanques se ve (atc) as ruinas de urna torre, e parece 
ser arruìnada com polvora, porque estSo uns grandes peda^os d'ella 
desviados do assento, e empinados, servìndo-lhe de assento o que Jbe 
servia de face, e tem a face o que Ihe servia de assento ^. £m circuito 
de todas estas ruinas se mostram e se descobrem varìos alicerces de 
casas, e no meu tempo se desenterrou a volta de um arco redondo, 
e nSo se Ihe chegou ao pé direito ; era de tijolo, mas tSo bem cozido, 
e tSo rijo comò as mesmas pedras, e d'estes se véem em todo este 
sitio infinitos peda9os^, comò tambem sem nùmaro (sic) de bocados, 
comò argamassa, queimados, que se parecem com escumalfaa de fer- 
reiros^. Para este sitio d'estas ruinas se descobre sobre a terra, em 
vàrias partes, e em outras descobrem os arados, e em larga distancia; 
uma telha de agua, e vem da parte do Nascente, mas hoje nSo ha 
notlcia d'onde viesse a tal agua®. Em a distancia de 200 passos d'estes 
tanques, descendo para a parte da ribeira que Ihe passa ao Norte, 
està uma fonte, todo o anno perenne, com o nome de Fonte de 



^ [A cima fallo de algumas d'estas pedras, que ainda là vij. 

* [0 Sr. A. F. Barata mostrou-m'a]. 

5 [Nfto é claro no ms. se o A. eacreveu martas ou martos]. 

^ [Vi tudo isto. A «argamassa de seixinhos» é o opu8 signinum cu formigàó]. 

^ [Là a vi tombada]. 

« [Vi tijolos, tegulas e imbrices. Cf. o que digo supra]. 

"^ [0 mesmo tenho encontrado noutras ruinas romanaa]. 

^ [Vi urna serie de argamassas, qne devem ter sido de um cano]. 



Archeologo Poktugués 133 



Santa Anominata, & qual Ihe veni agaa por nm cano subterraneo, 
e corre em um ambito de feitio de fonte quadrado, e feitio de pedras 
de cantarla, estSo j& da agua carcomidas, para mostrar a sua antigui- 
dade; e, comò corre muito fundo, nio se sabe o seu nascimento»^. 
(Pag. a-4). 

O ms. refere-se à fonte de Santa-Comba (a 400 passos), e diz que 
està santa era irmSL de Santa Anominata. Mas nXo adeanta mais. Vé-se 
que as duas fontes erSo sagradas para os Romanos, e que o Chris- 
tianìsmo as santificou tambem, relacionando-as de mais a mais uma 
com a outra. 

O ms. tem por titulo geral: Noticta dafreguesia de Nassa Senhora 
da Assumpgào da Taurega, termo da cidade de Evora^ seu districto, e 
de ludo o mais que nella se contém, Com a data de 1736. Sem nome 
de auctor, provavelmente padre. In folio, de 16 paginas. 



Tenho conhecimento de outros artigos sobre a Tourega, mas jà 
publicados. Aqui indico dois: 

tExtinctas povoajSes romanas, Tauregia (?)», por A. F. Barata, 
in InstitutOj voi. XXVI (2.* serie), Coimbra 1879, p. 81 sqq.; 

cTourega», por Gabriel Pereira, in Estudos Eborenses, n.® xxvi, 
Evora 1891, p. 15 sqq. 

Sr. Barata, alem de v&rias noticias curiosas que transcreve de 
obras impressas, publica a inscripjio da fonte de Santa-Comba, a qual 
elle encontrou completa, e que confirma a facil restituÌ9lo que lego 
no locai fiz; alem d'isso menciona muitos restos romanos de que 
tambem fallo, e que visitei em companhia d'elle. Quanto k pergunta 
do Sr. Barata sobre se a palavra Tourega tem alguma relay&o pho- 
netica com Turóbriga, nome de uma cidade iberica, posso responder 
que essa rela^llo me nfto parece possivel. O Sr. Barata termina o seu 
artigo queixando-se com teda a razfto do abandono a que tem side 
votadas as nossas antiguidades. 

No artigo do Sr. Gabriel Pereira acha-se igualmente a confirmaffto 
das obserya^Ses feitas a cima em rela$2o ao apparecimento de restos 
romanos na Tourega, dXo-se indica95e8 bibliographicas, e relatam-se 



7 [Là vi a fonte, teda en volta em hervas- A agua sae ainda de um cano 
antigo, redondo]. 



134 



O Archeologo Portuguès 



lendas de interesse. Sr. Gabriel Pereira occupa-se tambem de outras 
esta^des archeologicas dos arredores de Evora. 



i) Castello de Giraldo: ?> 

Na Serra de Monte-Muro, junto à quinta de Valverde, que é pnif 
priedade dos arcebispos de Evora, ha um castro lusitano. Posto que j 
niU) fosse là, e so o visse de longe, menciono-o aqui, porqne no 
rido ms. que falla de Tourega lè-se o seguinte, que julgo 
archivar : 

«E castello de Giral[do] na sua architectura, parte fabr 
pela natureza, pois da parte da cidade Ihe serve de murali 
alta rocha, que se levanta a prumo, e continua em circuito, 8U| 
as suas faltas. Urna parede de pedra e barro, de largura de 3 j 
e tem de circuito 300 passos. Cercam a este castello duas ord 
reductos, corno fossos. Servem-lhe de muralhas grandes pene 
rocbas, que, juntos uns com outros, constituiam as suas mnd 
E tradisse que neste castello se fazia forte, e se refugiava, o y^ 
e intrepido Giraldo, com os seus companbeiros, de que o 
tomou nome». (Pag. 14). * 

j) Antigiudhas diversa^: 

Durante a minha estada na cidade de Evora obtive varios ol| 
archeologicos que mencionei n-0 Arck. Pori., i, 158-159. 

Entro elles, especializarei aqui os seguintes objectos prehist 
que vSo figurados na estampa junta, em grandeza naturai, 
desenhos do Sr. Henrique Loureiro: dois machados polidos (^ 
lima placa de lousa (fig. 5) e uma lampada de barro (fig. 
machados sSo de typos vulgares. A placa de schisto difiere, no j 
nho e no desenho, da que a cima fica publicada, com quanto ] 
tambem corno ella à herdade do Barrocal. A lampada era, corno li 
de suspensfto, e, embora mais perfeita, e com uma falha accid 
pertence aos typos que publiquei nas Rdigides da LusUania, i> 
Està lampada nSo é vulgar. 



Como sempre me acontece quando volto de uma excurs2o 
logica, cheguei a Lisboa cheio de saudades, e por tanto com von 
de emprehender outra, o que eiii verdade nXo tardou muito. 

J. L. deV. 



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THE WEW YORK 



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O Archeologo Pobtugués 135 



Extractos axclieologicos 
das cMemorias parooliiaes de 1768» 

179. Donnas (Beira) 

Vestlglos d« Igre)a sagrad* por um bitpo 

«Tem este lugar quatro capellas; huma de Nossa Senhora do 
Abbade qae dista deste lugar quasi de meya legoa e ha tradÌ92Lo que 
foi freguesia e mostra que foj sagrada a Igreja pellas muntas cruzes 
que apparecifto feitas nas pedras das paredes quando a mesma se de- 
molìo » (Tomo xiii, fi. 140). 

180. Donim (Entre-Dooro-e-Minho) 

CiUnla 

«Tem està freguezia do nascente para o poente bum pjqueno 
coarto de legoa, e do sul para o norte bum grande, confina do poente 
com a freguezia de Santo Estevam de Briteìros .que antigamente se 
denominava da Sylva Eacura e com a do Salvador de Briteiros; na 
qual devizam està o piqueno mas elevado monte da antiga cidade de 
Sitaina adonde se ve vestigios de ser bém povoada pellos sinais de 
cazas, e muros aruinados; agora tudo monte frio adonde pastam ga- 
dos » (Tomo XIII, fl. 146). 

181. Dornellas (Tras-os-Montes) 

C1dad« de Genettosa. — Crasto 

«No tempo que o Snr. Conde Dom Henrique da Letorìngia com 
seu inclito e8for90 andava na expuls&o dos sarracenos que nesso tempo 
estas terras occupav&o cbegando a està terra nella os acbou tfto for- 
teficados que dandolhe bum e muitos combates nSo pode romper a 
Prafa ou muralba em que se achavSo forteficados e tanto que se cha- 
mava a Cidade gens tota (hoie corruto bocabullo genes toza ^) vendosse 
Senbor Conde D. Henrique neste conflito recorreo a Deos etc.» 
(Tomo xin, fl. 157.) 

< Lugar de Giestosa, tem este ao pé de si outro monte cha- 

mado Crasto que foi onde os Mouros se forteficarSo para rezestirem 



1 Num documento que o parocho transcreve eztrahido do Tomus tertiue rerum 
memorabilium, fl. 183 e seqq., pertencente ao archivo da Sé de Braga vem citado 
Cautwn CivUatis de Genetto^a, — Gens tota («teda a gente») é inven^So. 



136 O ÀBCHEOLOGO POBTUGUÉS 

aos 86U8 contrarios; he este monte redondo, piqueno^ e descortìnado 
da parte do Poente e Norte, e do Nacentò Ihe fica o monte Pinheyro 
quo cobre e deffende, està fortaleza ou monte Crasto foi murado 
com tres ordens de muros a primeyra o cerca pello meio em roda a 
segunda mais asima couza de quarenta passos e a terceira em todo o 
sima todo a roda e terà de comprimente ^e Norte a Sol cem passos 
e de Nascente a Poente sincoenta e hoie se ach&o seus maros quaad 
de todo aruinados mas ainda se veem seus fundamentos e em algumas 
partes se achSo inda parte dos mesmos muros : no sima desta muralha 
para a parte do sul se descobre huma porta que ouyo por tradi^&o 
que he de huma entrada falsa que elles tinh&o feito para hir buscar 
agoa a hum ribeiro que passa a bejra da fortaleza mas tSo fundo que 
sSo mais de seiscentos passos donde se diviza a porta abajxo ao ri- 
beyrOy he este Monte todo fragoso e està ainda cheio de pedras vir- 
ges que nunca forSo movidas nem quebradas, em todo este monte 
nem dentro da fortalleza ha vestigio de que ouvesse caza alguma està 
todo cuberto de urzes etc.» (Tomo xiii, fl. 166). 

182. Dornellas (Entre-Douro-e-Mlnho) 

Ectrada d« Oelra. —Torre dos mouroif 

< a bem.celebrada estrada da Geira fabricada pellos Roma- 

nos, pella qual se servilo da Cidade de Braga para a de Roma. Di- 
zem OS naturais que se Ihe deu o nome de estrada da geira, ou por 
que se fabricou pellos moradores dos destrictos por onde passa, dando 
OS dias de geira athé se concluir ou por que vai fazendo muntos giros 
pellos montes desviando-se das subidas delles para asim ficar mais 
suave aos caminhan^.es». (Tomo xui, fl. 175). 

e Ha nesta freguesia huma torre, dentro da quinta de Luis Lazaro 
Pinto Cardozo, da Cidade de Braga, a cuja torre tem o dito arrimado 
as suas cazas, ha tradiy^o ser do tempo dos Mouros». (Tomo xm, 
fl. 175). 

188. Duine 1 (Entre-Doaro-e-Minho) 

Pedraa Uvradas. — In8crip9lo roman* 

c foy està igreja reedificada pelo Reverendo cabido no anno 

de 1731 em sede vacante. Ao refazer desta igreja se acharam subter- 



1 Haverà alguma rela^&o entra este nome e o Dora allemfto (em francés do- 
me) f Os snevos eriaram aqui a cadeira episcopal de Dumiura, fundando portanto 
urna cathedralf que é a traduc^ao de Dom. 



O Archeologo Portugdés 137 

radas pedraa que inculcavam Magestade, qne ella teria na sua anti- 
guidade, corno pedayos de colunas, com boa arte lauradas, sepultaras 
de pedras inte7rÌ9a8, e muitas outras pedras de outra cantaria e inda 
ao prezente se acham nSo so nella, mas nas suas yisinhan9as, o que 
bem testemunha huma, que em huma parede està posta de hum pi- 
queno recìnto dos Priores, que em si tem aa letras seguintes» * : (To- 
mo XIII, fl. 198). 

184. Eira Yedra (Entre-Doaro-e-Mlnho) 

/ 

Penedo de Santo Chriatln» 

cToda està terra he montuosa e de quallidade frìa nam tem cerra 
' raemoravel nem cria$8es de abundancia e falta de cassas por acaso 
algum coelho e alguma perdis de tudo pouco semente muita abundan- 
cia de penedos grandes de galhos brabo {sic) e entro estes està hum 
por limittes desta freguezia pouco distante da jgreja deus tiros de 
espingarda no pé do monte chamado de Sam Payo, o coal penedo he 
todo inteiro torà em Redondo duzentos palmos e de altura torà ses- 
santa palmos chamado o Penedo da Santa Christina onde antigamente 
ha memoria ouve huma cappella». (Tomo xm, fl. 30 da 3.' numera9&o). 

185. Elrlx (Entre-Donro-e-Minho) 

Citonift 

«No monte de que jà fis men$&o no cappitulo 4.^ se acham ajnda 
OS vestigios de bua cidade chamada a Citania que dizem que anti- 
goamente abitavSo nella os mouros ou outros semilhantes bende se 
vem ajnda os vestigios das muralhas e das casas e de hfia cappella 
chamada de Sam RomSo etc.» (Tomo xiu, fl. 52). 

186. ElTES (Àlemtejo) 

In8crlp98eB portngaesM e Utlnas 

«He està Cathedral sagrada pelo ex.*"® Bispo D. Balthazar de Fa- 
ria em 13 de outubro de 1751 comò se ve no seguinte letreiro gra- 
vado en hum marmore branco ao lado direito da porta principal : 



* Corp. Inter. Lat,, ii, n.» 2444. 



138 O Archeologo Pobtugués 

ANNO M.DCC.LIV. DIE XIII OCTOBRIS DOMINICA 

PROXIMIORI FESTIVITATIS S. LUCAE EVANGELISTAE. EXCELEN- 

TISSIMUS 
ET REVERENDISSmUS DOMINUS DOMNUS BALTHAZAR DE FABIA 
ET VILLASBOAS HUIU8 DI0ECE8IS EPISCOPUS, HANC CATHEDRA- 
LEM 
ECCLESIAM RITU SOLEMNI CONSECRAVIT. QUAE DOMINICA 
JAMPRIDEM PER SINODALES CONSTITUTIONES AD CELEBRATIO- 
NEM DEDICATIONIS ECCLESIAE ASSIGNATA FUERAT.. 

(Tono xiiii fl. SO). 

Estes pa90s (cuja antiguidade mostrSo bem os ameafos de ruioa 
que padecem) mandou fazer D. Affonso o V, o qual no anno 1446 
corno consta do Archivo da Camara (Pergaminho n.° 85, § 2) conce- 
deo a sua ter9a para està obra. .... corno se ve no Letreiro, que, gra- 
vado em bua pedra colocada na frontaria da mesma camara nos dei- 
chou a rudeza d'aquelle tempo; e transcrevo na mesma forma em 
que se acha e he o seguinte : ^ 

ESTÀ OBRA SE COMEgOV E ACABOV 
NA ERA DE MIL E B« E XXX EBIII SEMDO NO PE 
RZENTE ANNO VEREADORES BAS DE SOVZA FID^ DA C 
AZA DEL REI D» DA 9^ P MACHADO 1° NVNEZ E PRECVRADOR ME»^ 
Z9LL0 

Por al vara de 31 de maio de 1360 (Archivo da Caihara, Tombo 
1.** de Reg.*^, parte 1.*, fl. 280 t?) se mandou fazer sobre a porta da 

Camara huma bem ornada Capella sobre o arco da capeila se poz 

o Letreiro seguinte, en bua pedra: 

ESTÀ CAPELLA HE 
DE DONA LEONOR DE . 
MENEZES DE QUE HE 
ADMINISTRADORA 
E PAOROEIRA A CA 
MARA DESTA CIDADE 

^^^ (Tomo xiix, fl. 81). 



I 



^ Na nltima linha da inscrip92o devem ler-se os nomes ali indicados assim: 
Diogo da Gama, JoSo Machado, JoSo Nuoes e Manuel Zagallo. signal que re- 
prcaenta G é extranho. 



I 



O Archeologo Portugués 139 

cNa frontaria dog pa$os da camara sta o Letreiro seguinte com 
Lietras msgusculas gravadas em bua pedra en obsequio da ConceigSo 
immacnlada de Maria Santissima: 

AETERNIT SACRAE 

IM M ACULATISSIMAE 

CONCEPTIONI MARIAE 

JOA. IV. PORTUGALIAE REX 

UNA CUM GENERAL. COMITIIS 

SE, ET REGNA SUA 

SUB ANNUO CENSU TRIBUTARIA 

PUBLICE UOVIT. 
ATQUE DEIPARAM N. IMPERII TUTELAREM ELECTAM 
A LABE ORIGINALI PERSERVATAM PERPETUO DEFENSURUM 

JURAMENTO FIRMAVIT. 
VIVERET UT PIETAS LUSITANA 
HOC VIVO LAPIDE MEiMORIALE PERENNE 

EXARARI JUSSIT 
ANN. GERISTI M. DC. XL. VI 

IMPERII SUI VI. 

Por Carta de 30 de junho de 1654 (Archivo da Camara, fl. 67 do 
Liv. 5.^ das proprias) determiDou a devo9ao de D. Jofto o 4.^ se po- 
sesse em todas as portas e entradas das'eidades, villas e logares deste 
reino a inscrip^lk) que se acha gravada en hua pedra no arco que fica 
por baxo da Camara e por onde se faz ingresso para a pra9a, o qual 
he o seguinte : 

NOSSA SENHORA 
FOI CONCEBIDA 
SEM PECADO 

ORIGINAL (Tomo™, ti. 82). 

Achavasse o povo opprimido com a immundicie dos persovejos, 
e para se livrar de praga tam hedionda recorreo ao seu Domingos 
(era um postar que tinha feiio poeto com o demonio ohi por 1278) o 
qual com palavras que disse os fez sahir todos, e os afogou em hum 
pego, que fica por cima da ponte de Frade, no ribeiro chamado das 
hortas, que em memoria deste successo mudou o nome no das Chin- 
clias, vocabulo Espanhol quo em portuguez vai o mesmo que perso- 
vejos». (Tomo XIII, fl. 94). 



140 Archeologo Portugués 

cSobre a porta pequena da igreja {de Santa Marta Magdalena) sta 
gravado en bua pedra o Letreiro seguinte» *: (Tomo xin, fl. 94). 

Seu author (de urna cisterna que està detràs da Capdla de S. Fran- 
cieco) e antiguidade se ve no seguinte letreiro, que^ sobre as bicas, 
se acha gravado en bum marmore branco : 

HOC PERENNE 

REGIAE AFFLUENTIAE MONUMENTUM 
PUBLICO ELVENSIUM COMMODO; 
AC DELICIIS PERPETUO EXUNDANS 
MARTINUS ALFC>NSUS A MELLO COMES S. LAUR. 
SUMMUS TRANSTAGAXI BELLI ARBITER 
SUB SERENISSIMO REGE JOANNE IV 
INDUSTRIA NICULAI LANGRES GALLI 

PERFECIT ANNO M. DC. L. (Tomo xiu, il. 95,. 

Na Capella (de S. Jorge, Convento de S, Paulo) em barn mar- 
more sta letreiro seguinte : 

ESTÀ CAPELLI HE DOS MILITARES D ESTÀ PROVINCIA 
E NELLA SE DIZ HUA MISSA CADA MEZ PELA SUA ALMA 

^^^ (Tomo XIII, a. 991. 

< cuja imagen se eolocou sobre a porta (da Esquina) em bum 

nicbo, que o Capitilo Belchior Domingue^, acrescentou, sobre a abo- 
beda, no firn do seculo passado, formando bua pequena, mas decente 
Capella guarnecida de azulejo fino, com sua sacristia. 

O letreiro é o seguinte : 

HONORI ET GLORIAE 
MAGNAE MATRIS 

MARIAE 
URBIS ELVIANAE PRAESIDIS PERPETUAE 
A QUA EJECn QUONDAM MAURI 
NUNC REPULSI RECESSERE CASTELLANI. 

UTRIQUE 
SACRA A PURISSIMO VIRGIN IS CONCEPTU DIE 
UT DOCUMENTO ESSET MORTALIBUS 
SE NON MAGIS RELIGIONIS QUAM JUSTITIAE 
PATRONAM ESSE, AC VINDICEM. ^^^ ,^^ , joi). 



^ Identico ao auterior. 



Archeologo Pobtugués 141 

cPor cima da porta da sacristia {da Ermida do Senhor da Pie- 
dcidé) sta o seguinte letreiro gravado en hua pedra branca: 

LVIS M.E^ MARQUES F o 

D. D M"' MARQUES NETO 

D. CHRISTOVAO ROIZ MARQUES 

FIDALGO DA O DE S. MAG.» DEV 

DESMOLA AO S.«« DA P.« TERENO 

NDE ESTÀ A SVA IGREIA E S. CRISTI 

A FEITA POR ESMOLA DOS FI 

EIS TEVE PRINCIPIO E 

M 19 DE F.BO DE 1737. ^^^ „,^ ,. ,03). 

e No paTÌmento da Capella Mor {da igreja do Salvador) està bum 
jazìgo que boje be do Coronel André Jozé de Vasconcellos, Fidalgo 
da Caza de Sua Magestade, o qual tem ein ci^^cuìto este Letreyro. 

E8TA SEPULTURA HE DE LUIZ JOZE DE VASCONCELLOS 

E TEM DE FORO TRINTA ALQUEYRES DE TRIGO PARA A FA- 

BRICA DESTA JGREJA. 

E porque nunca se pagou, nem seus antecessores, nem seus sue- 
eeasores por isso anda litigiozo o dito jazigo que foy feyto en Agosto 
de 1551 por mandado de André de Azevedo de Vasconcellos». (Tomo 
xin, fl. 109). 

187. Enxara-do-Bispo (Extremadura) 

Tamalo.— Mlmu de oiro. 

«A igreja bora de abobada de TijoUo con cordois de pedra em- 
troncados obra primorosa; e todo o tecio pintado de ramos e flores 
com remates de oiro; as paredes cobertas de todas de azulejo antigo 
cruzes de pedra sinal de ser sagrada e o foy pello Bispo Dom Ambro- 
cio aos 8 de outubro de 1534 corno consta de buma pedra que se acha 
da parte de fora da Igreia da banda direita da porta principal escri- 
pto en letra gotica ya gastada que mal ce le, e posto que esteia en- 
butida na mesma parede be a igreja mais antiga e se nan sabe quem 
fosse seti fundador, e se entende ser buma pessoa que se acbaua 
em bum caixam de pedra obra pouco polida e emcostada a jlbarga 
da porta travessa da mesma Igreja pera a parte do sul e poente e 
por este lado tinba a dita igreia quatro gigantes de pedra laurada 
qua se Ibe tiram por se terem no terremoto afai^tado das paredes». 
(Tomo xin, fl. 213). 



142 O Archeologo Pobtugcés 

e Ha Doticia que tem (serra do Soccorro) minas de ouro: e no anno 
de 1752 com licen9a de Sua Magestade Fidelissima andaram hans 
homeng que tinham estado no Brazil a minerar nelle e tiraram gr2os 
de oiro ; mas porque o sitio he alto e agreste e posto que tenha munta 
agoa fica baixa para a poderem leuar ao sitio da mina para o bal(Ea- 
rem^ dizistiram da obra e nam tornaram aquelle sitio». (Tomo xiii^ 
fl. 218). 

188. Ermello (Tras-og-MontcB) 

Hina« de estanho 

cDizem no sitio do Linhar onde chama — Prados — se tirava es- 
tanho fino, mas disse se nam sabe». (Tomo xiii, fl. 247). 

189. Erra (Extremadura) 

Inscripf io sepulchral 

cA outra he acharce en a Capela mor da matris desta villa hum 
mauzuleu de pedra marmore junto ao arco da parte do Evangellio 
metido na parede sobre tres LeÒis que terà de complimento nove 
palmos, e de altura terà 6 com tres escudos de armas ha frente. . . e 
na superficie do Mauzuleo, hum epitaphio de Letra gotica que dis: 

AQUI JAS ALVARO DE CAMPO DO CONCELHO DELREY, 

E SENHOR DESTA VILLA DA ERRA E SUAS MULHERES COM 

ELLE, QUAL PALECEO NA ERA DE MIL, QUINHENTOS, E 

SETTE. (Toinoxiii,fl.S8S|. 

190. Esealhao (Beira) 

Allcerces de casas uitigu. — CIdade da Calabria 

cPorem nas guerras antigas foi arruinada a ditapovoa92o de sorte 
que ha tradic9ào de constar em algum tempo de 700 vezinhos ; o que 
bem mostrSo os vestigios da mesma pelos alicesses das cazas antigas 
por varias partes etc.» (Tomo xiv, fl. 344). 

«Tambem nas margens do rio Douro nos limittes da villa de Ai- 
mendra estào em hum monte e altura emminente os vestigios da an- 
tiga cidade de Callabria, Patria de Sancto Appolinario Martir, eto 
(Tomo XIV, fl. 349). 

191. Eseamarfto (Belra) 

Fedra lavrada 

cEstà bua pedra labrada e redonda do comprimente de tres coaa- 
dos leuantada ao alto a vista desta igreia, onde chamam a Cai do Lu- 



O Abcheologo Poetugués 143 

zio, na freguezia de Sam Pelagio de Fornos que dizem em memoria 
<leste evidentissimo miiagre se asim foi ; Eu nam acho, nem sei outra 
elareza mais». (Tomo xiv, fl. 359). 

192. Eseariz (Enta-e-Douro-e-Minho) 

Ruinaa dog Mouros 

Fregueaia de S. Martinho de Eacaiiz, conceìJio de Penella. — « N!lo tem 
antigualhas, nem couzas dignas de memoria, so me dizem, que no 
monte, que asima digo chamado o monte Zillo ou Izidio antiguamente 
no alto delle houvera hua povoa^So de Mouros no tempo dos godos; 
e ainda hoje se achSo nelle alguns vestigios de estradas, apparecem 
muitos tijollos, e se achSo alguns modos comò de estarem por ali ca- 
zas; porém hoje se acha povoada de mattos, e tojoss. (Tomo xiv, 
fl. 395). 

198. Eseoural (Alcmtejo) 

Covas da serra de Monfurado 

«Das serras so huma se faz memora vel e se chama Serra de Mon- 
furado, veo ihe a proprìedade do nome de se verem na mesma serra 
muntas covas e algumas que atravessSo por bayxo della por cujo mo- 
tivo Ihe chamavam Serra do Montefurado, e corrupto vucabulo se veyo 
chamar Serra de Monfurado a principal concavidade destas, que nella 
se acha he huma a que chamam a Cova Santa etc. Pouco afastado da 
dita Cova Santa havia otras Covas na mesma Serra a que chamavam 
Covas infemaes por serem munto horrendas, e cauzarem pavor ainda 
de dia a quem chegava a ellas. Tendo receyo grande ainda os pasto- 
res de passarem por ali com o seu gado. Para estas covas veyo ba- 
veri perto de sincoenta annos hu homem naturai da Cidade de Evo- 
ra, officiai de Caldereyro chamado Jo2o de Deus, e trouce huma 
imagem pequena etc.» (Tomo xiv, fl. 403). 

194. Esmoriz (Beira) 

Mndanf aa de conflgnraf &o da praia 

«Ha sim nesta freguezia bua grande lagoa que se acha unida com 
a da freguezia de Paramos e desago2Lo no mar por bum sitio chamado 
a barrinha que fica entre os limites de anbas as freguezias. mar Ihe 
tapa muitas vezes a foz, de que resulta gravissimo damno aos campos 
que Ihe ficSo contiguos ao qual dà remedio bum antiquissimo compro- 
misso feito entre os povos desta freguezia e da de ParamoS; etc.» 
(Tomo XIV, fl. 436). 



144 O Archeologo Pobtugués 

«He tra<lÌ9Xo nesta fregnezia de que antigamente entravSo pela 
barrÌDha da lagoa alguas caravellas, de qae hoje nSo he capax pelas 
muitas areas qae o mar o tem arojada & praya». (Tomo xiv, fl. 437). 

195. Esplnliel (Belra) 

MotleU de ama Inicrlpf io portoguefl* 

< e hayer& 142 annos que faleceo o ultimo Prior chamado Ga- 
briel Thomas, segundo o que consta de hua inscrip9fto que se acha 
em hua sepultura na Capella Mor desta Igreja.» (Tomo xiv, fl. 492). 

196. EsplnhoseUa (TrasHM-Montes) 

Marco da divit&o 

«He està serra hum ramo da de Sìabra, e no alto della em hua 
planice estS hua pedra chamada a Fedra Estante que divide o fiejno 
de Portugal e Castella^ e nella se dividem tambem os Bispados de Mi- 
randa, Asterga e Ourense etc.» (Tomo xiv, fl. 512). 

197. Esposende (Entre-Boaro-e-Minlio) 

Madanf a de conflgnrafio da prala 

«He està villa porto de mar, tem barra que por natureza he de 
area, e por arte tinha hu quaes de pedra que hoje se acha arruinado, 
e dizem os nacionaes que o estar elle aruinado he o motivo de nSo 
estar a barra em termos de nella poder entrar embarca^oens etc.» 
(Tomo XIV, fi, 547). 

198. Esqoeiras (Entre-Bovro-e-Minho) 

Castello do Barbado 

«O que ha de mais celebre, e digno de memoria he, que este 
monte, na parte mais eminente de hum dos deus brasos, que olhSo 

para o Occidente, e he naquello que fica para o Norte tem (comò 

fui ver e examinar acompanhado de hum Ecclesiastico, naturai da 
terra, para evadir todo o engano) hum acervus lapidum e vestigios do 
antigo Forte e Castello, chamado de Barbudo, de que falla o Author 

da Benedictina Lusitana etc. Tinha este Forte e Castello em 

todo o ambito hum levantado vallo, que Ihe servia de antemural, ar- 

mado por arte, cavando (atc), comò se mostra, do mesmo muro 

etc. Deste Castello, segundo o conceito do Author refierido foi Senbor 
magnanimo Portnguez Don Frey Martina Annes de Barbudo, que 



O Archeologo Pobtugués 145 

no anno de 1385 foi eleito Mestre General da Ordem Militar de Ai- 
cantra, e que bem mostrara, dis o mesmo Escriptor a resolu9ao do 
sen animo no epitaphio que mandou gravar na pedra do seu sepulchro 
que dis : 

AQUI JAZ AQUELLE QUE DE NENHUA COUSA HOUVE 
FAVOR EM SEU CORAgAO. 

(Tomo xiT, fl. 558 e aqq.) 

199. Esieraes (Tras-os-Montes) 

Obra doa Mouros 

t Aos confina deste termo^ decendo pera a ribeira de Villarifa està 
bum sitio chamado Sam Mamede, donde se acha huma eapella de pe- 
drarìa munto bem feita, porem coasi distruida que apenas tem algumas 
paredes, e dizem ser obra dos mouros e o que ha de admiragam he 
que a uista, ou tudo o que se avista desta capela nam fazerem mal 
algum OS bichos pe^onhozos'^ outros, poren, dizem ser virtude de Sa- 
gregorio (sic) que fica a sua capela pela parte de cima comò diz no 
parrafo trezev. (Tomo xiv, fl. 572). 

200* Ester (Beira) 

GftBteUo dosMonrot 

« em citio chamado — as portas de Monte de Muro— se 

achSo moralhas jà disruptas, e mostrSo os seus alicersses, o forSo 
muyto ao valente, as coaes cìrcuitarSo no seu tempo quazi de mejo 
coarto de legoa, em a aspera serra daquella montanha ; e he tradiySo 
antigua houvera naquelle citio castello, e fora fortaleza abitada pellos 
Mouros, donde forSo expulsos pollo valerozo e Beai Brasso, do sem- 
pre memoravel Monarca Portuguez O Senhor D. Afonso Henrique: 
que a Santa Gloria, he crivel, pella Bondade de Deus, està occupan- 
do. E se dÌ2 que a batalha, que antSo houvera durara e continuara 
desde aquele citio the o da Desfeita etc.» (Tomo xiv, fl. 622). 

201. Estoi (Algarre) 

BulnM romanas 

c està freguezia, comò a mais antiga, e especial d'este Bis- 

pado, por ter tido aquella primazia (entro as mais) de ser a celebre e 



^ Cfir. o n.® 84 d'està coUec^ilo. 

10 



146 Archeologo Portugués 

aspectavel Cidade de Ossónoba, da qiial ainda hoje se manifesUo al- 
gans vestìgios quo por singulares se conservSo, para timbre e BrazlLo 
da sua prehimenencia. corno attesta Dom Frei Amador Arraes, no Dia- 
logo 3." cap. 8 etc.f (Tomo xiv, fl. 632). 

iHa no meyo deste Povo e dentro da Pra^a delle hiìa admiravel 

fonte A sua estructura he quadrada, e ao antigo e dizem os qne o 

sSo, ser obra do tempo dos Mouros He guamecida de quatto mar- 

mores nos seus bordos que estfto levantados do chSo tres palmos. E 
dizem que forilo huas collunnas da Sé, quando a Cidade de Osssnobo 
florecia etc.t (Tomo xiv, fl. 642 e 643). 

cHa no sitio de Milrreu, suburbio deste Lugar distancia de tiro 
de balla de areabus, no fìm de hùa Campina bua Igreja aruinada que 
dizem foi cappella da Cathedral da Cidade de Ossonoba, a qaal bem 
mostra na sua arquitetura ser obra primorosa e antiga, porque he 
feita com tal galanteria, que as que hoje a quizerem imitar ao mo- 
derno Ihe nào excederik) mayormente sondo os seus materiaes de ti- 
jolos, cai, area e rebolinhos t2o conglutinados huns com os outros, 
que formào hua tal argamassa que o querela desfazer à for$a de bra^o 
qualquer artifice daquella mesma arte seria expor-se a ficar so com 
o trabalho etc.» (Tomo xiv, fl. 644). 

202. Egtombar (Algarre) 

Ruinaa 

cEstombar, cabessa desta freguesia, nntiga povoafSo, cdificada na 
costa de um monte sobrè hum vivo roxedo, ha duvida se foy ella a 
ceibre e antiga Cidade de Ossonoba, com que nasceo a Santa Igreja 

Cathedral deste Reyno do Algarve de que alguma probabilidade 

se mostra pelos alicerses das ruinas que nos seus suburbios se desco- 
brem: etc.» (Tomo xiv, fl. 651). 

«No meyo da Capella Mor (do convento de S. Francisco) està bum 
carneyro ou sepulcro, em cuja pedra ou campa està esculpido hnm 
escudo com as armas da antiga familia dos Vyeyras, com huma inBcri- 
pfXo por bayxo que dis : 

ESTÀ SEPULTURA, CAPELLA, E IGREJA FOY 
DE DIOGO VTEYRA BOVO, CAPPITAO E CAVA- 
LHEYRO FIDALGO DA GAZA DELREY NOSSO 
SENHOR, E DE SUA MULHER DONA MAR- 
GARIDA E SEUS HERDEYROS. 

(Tomo xnr, a. 656). 



Abcheologo Pobtugués 147 

20à. Extremoi (Àlemtejo) 

Tanque dos moaros. -> Barro« de Extremoi. — Tnmalos romanos. — Inscrìp^Qes portugnesas 

Freguesia ds Santa Maria, — cEm pouca distancia deste Tempio se 
Tem as ruinas de hum tanque, a que a tradÌ9ào chama dos Mouros, e 
he quadrado de bastante grandeza, e no groyo de suas paredes alguas 
casinhas que mostrato serem os lugares aonde os romanos se despifto 
para se banharem na agoa que Ihe vinha por aquedutos suterraneos 
dos sitios onde està situada a cerca do convento dos Capuchos que 
fica pouco distante do dito tanque comò se mostra das ruinas delles ; 
e a dita area se semea hoje de trigo que levarà seis a outo alquei- 
res». (Tomo xiv, fi. 707). 

Freguesia de Santo André. — <N2o sKo menos selebres os seos finos 
e odoriferos barros, cujos pucaros e outros vazos silo estimados em 
toda a Europa, e na Italia servem de ornato aos gabinetes dos Car- 
deaes, e Prlncepes, alguns Medicos (nSo sei se com bom fundamento) 
pretenderSo discobrir- nelles a vertude Buzuartica». (Tomo xiv, 
fi. 724). 

«O Infante D. Luiz enriqueceo o seu mosteiro com hum preciozo 
thezouro de reliquias, entre as quais tem o principal lugar a Cabe$a 
de S. Baco, martyr adevogado centra o pulgSo e outras pragas das 
vinhas etc » (Tomo xiv, fl. 733). 

«Junto desta Igreja se descobrìrSo deus tumulos de pedra, hum 
no anno de 1732, e outro no anno de 1744 que muitos pensarSo ser 
de Romanos, porque junto da Caveira tinha bua almotolia, com hum 
prego dentro, prova na verdade debll, porque o uzo dos tumulos foi 
muito frequente em Portugal athe o Secnlo 15.** ahinda nas pessoas de 
mediana esfera: e das almotolias com o prego so se prova que era 
algum ricto supersticiozo, a que os antiguos e antigos gentjos e ca- 
tholicos er&o muito inclinados, e de que ahinda hoje se descobrem 
vestigios nas povoasoens pequenas, e entre os rusticos de campanha 
nio sera possivel conheser a verdade faltando nos os epitafìos nos 
ditos tumulos. 

«Nao longe desta Igreja ha hum famozo Iago antiguo, que terà 
mais de quatrocentos passos de sircuito, e vinte e sinco palmos de 
alto, vulgo Ihe chama o tanque dos Mouros (nome que o povo cos- 
tuma dar a todo o edeficio cuja antiguidade se ignora) este Iago é 
quadrado e alguns pensalo serem banhos dos Romanos; porem, com 
serteza so se sabe que a agoa Ihe vinha de huma fonte publica que o 
povo deu aos Religiozos de Santo Antonio que fica pouco distante». 
(Tomo XVI, fl. 736). 



148 Archeologo Poetugués 

e Jimto desta Igreja fica a Ermida de S. Miguel e o quinto 

he de S. Miguel em buma Cappella funda com o aitar de pedra branca 
e preta, està Cappella mandou fazer Martim Rodrigues sitoleiro que 
faleceu a 16 de Dezembro de 1409 da Era de Cesar, que vera a ser 
no anno de Cbristo de 1371, e sua'mulher Mor Domingues faleceu 
no anno de Cbristo da 1380, e ambos estSio sepultados na ditta cap- 
pella, em bum tumulo de pedra, em que tem por armas sinco cabe^as 
de serpe, sem timbre. Este tumulo se abrio no anno de 1755, e se 
acbarSo os ossos dos dous consortes niuito desfeitos e com o vinagre 
que se Ibe bavia deitado, quando os enterrarfto, o qua! conservava o 
mesmo xeiro e fortidSo que teria no principio». (Tomo xiv, fl. 737). 

<Dom Jerardo Domingues, Bispo de Evora, foi execntor de bua 
Bulla Apostbolica, pela qual o Pappa escomungava a todos os Portu- 
guezes que perturbassem a pacifica posse de El Rei D. Deniz, por 
està so couza os parciaes do Infante D. Affonso sabirSo de Coimbra, 
e dissimuladamonte emtrarao em Estremoz, aonde o Bispo estava, e 
de noite o matarSlo sacrilegamente e se retirarìLo lego sem que os mo- 
radores da villa Ibe pudessem dar alcanse, levarSo estes o corpo do seu 
prelado a Evora para ser sepultado, e no lugar do Assacino (que foi 
junto da Igreja de Santa Maria) puzerfto bum padrSo com o letreyro 
seguinte : 

ERA DE 1359 ID EST, ANNO DE CHRISTO 
DE 1321 D. GERALDO EM OUTRO TEM- 
PO BISPO DE EVORA, H0MEN8 FILHOS 
D'ALGO MATARÀO NESTE LUGAR, SEM 
MERICIMENTO, A ALMA DO QUAL 
DEOS PERDOE AMEN. 

Està pedra nfto parece no prezente tempo e della faz memoria o 
Autor da Evora Glorioza^. (Tomo xiv, fl. 740). 

20é. Estnrftos (Entre-Doaro*e-Mlnho) 

Gattello da Fomifga 

«He toda està freguezia sercada de montes principalmente desde o 
Sul, poente, e norte, em vastante distancia, que sera de legoa e meya 
em sircuito, e no principio della be o monte de Cazais de fraco monte^ 
e este sitio se olbSo vestigios de trincbeiras, e estradas emcobertas 
tradÌ9%o (sic) que fora tudo fabrieado pellos mouros, tem o castello 



O Archeologo Portugués 149 

chamado da Formiga ^ que acava em ponta aguda, sitio deleitavel & 
vista, e ha tradÌ92o que neste monte rezidirSo multo os Mouros, honde 
se tem achado vestigios de sua avita(So, por apare9erem tijolos e fer- 
ree velhos, e he monte pobre, que n&o perdus arborea nem flores». 
(Tomo XIV, fl. 765). 

205. Erora (Alemtejo) 

Tempio pftglo — Maroa romanos. • Inscrlpf lo latin* 

Freguesia da Sé, — «Merece tSobera fazerce memoria neste Lu- 
gar da grande antiguaiha do portico do tempio de Diana, que depois 
de dezoito seculos se concerva inteiro no mais eminente da cidade 
sustentado em quatorze colun^ de notavel grandeza com capiteis 
de folhagens de admiravel feitio e prìmor. 

TSobem nesta cidade se concervSo ainda algumas reliquias dos 
moros de Sertorio, que erSo fortissimos de pedra de cantaria com 25 
palmoB de grosso: desfizerSo-so no tempo del Rey D. Fernando por 
persuasoens de Lopp e Vasco Roiz, os quaes fundados em interesses 
particulares sondo cidadoins desta cidade forSo tSo pouco apreciado- 
res da antiguidade que fizer&o acabar e por por terra huma das mi- 
Ihores obras e mais inteyras dos Romanos que havia em toda a Eu- 
ropa». (Tomo xrv, fl. 821). 

cNSo muito longe deste ultimo (chafariz d'El-Rei) està o posso 
de Entro as Vinhas, obra dos Romanos, todo de pedra de cantaria de 
grande copia de agoa e de admiravel qualidade, etc». (Tomo xiv, 
fl. 822). 

Freguesia de Santo Antào. — «Foy fundada (a Igreja de Santo An- 
tao) pelo Serenissimo Senhor Cardeal D. Henrique, Arcebispo desta 
Metropole, e depois Rey deste Reyno e se acabou em 1563 e arrui- 
nando se parte da sua abobeda com o terremotto de 17 de abril de 

1568 da pen92o que tinha reservado na de Evora a mandasse 

reediflScar gravandose na porta principal para memoria dos vindouros 
a seguinte letra: 

D. ANTONIO ARCHMANDRITAE SACRUfd 
D. EMMANUELIS LUSITANIA REGIS PII FELICIS 
INVICTI FILIUS HENR1CU8 S. R. E. PRESBITER 
CARDINALIS PRIMUS EBORENSIS ARCHI EPISCOPUS, 
PRIORE DIRECTO NOVUM HOC, LONGE CAPACIUS, FORMA, 
STRUCTORAQUE AUGUSTIUS, RELIGIONIS ERGO EREXIT. 

(Tomo xiT, fl. 890). 



1 Cfr. o u/* 40 d'està coUec^So. EsturSos provém de Asturianos, 



160 O Archeologo Pobtugués 

«Defronte deste Tempio estava lium portico Romano com tres 
arcoB trinnfaìs, omado de diversas oixlens de colnnas alquitravas, ni- 
chos e estatuetas de preciozo marmore que occupava com pompoza 
prespectiva todo o largo da Pra9a^ o qual transformou em fonte 
El Rei D. Joao Terceyro etc». (Tomo xiv, fl. 830). 

Freguesia de S. Fedro. — «No districto da mesma freguezia està 
a linda Ermida do Apostolo desta Provincia, e prìmeiro Bispo della 
S. Man9os, a qual nem por ser bastantemente pequena deixou de 
custar grande traballio, polla dificuldade de abrir huma massisa torre 
dos antigos muros sertorianos, està dificuldade venceu Balthazar Vyeira 
seu authòr^ a quem por està cauza der2o o apelido de Racha Tor- 
res». (Tomo xiv, fl. 848). 

206. Evora-Monte (Alemtcdo) 

Inscripf&o portagueMi 

cTem mesmo xafaris bum Letrejro que dis o seguinte : 

ESTÀ OBRA MANDOU PAZER FERNAM MIZ MOHDOMO 
DE DOM FERNANDO NETO DE ELREY E PILHO DO CONDE 
DE BARCELLOS DO NACIMENTO DE MIL QUATROCEN- 
TOS E VINTE E TRES. 

(Tomo XIV, fl. 879). 

207. S. Facondo (Beira) 

IntcrlpfSes de Conlmbrlca 

fEntre estas Quìntas se distingue multo huma, que he caza de 
campo de D. AntSo de Almada, Mestre Sala de Sua Magestade, a 
qual foi mandada fabricar por D. André de Almada, Lente de Prima 
de Sagrada Theologia, e nella duas vezes Jubilado na Universidade 
de Coimbra. Nesta Quinta por ser sitio multo levantado, e descuberto 
fazia suas observa95es e Mathematicas, sciencia em que foy doutis- 
simo, e tfto conhecido por ella na Europa, que em Flandres se Ibe 
dedicarSo muitos Mappas. No portico das Cazas se ve em lingoa ita- 
liana seguinte letreiro : 

LASCIAT OGNI ESPERANZA VOY CHE INTRATE. * 

Logo da outra parte das cazas estA bum espa^ozo terraplano de 
noventa pes de comprimente, e de vinte de largura, do qual se des- 



^ Dante, Divina Comedia, Inferno, iii, 9. A ]Ì9ao correcta é : 

Lateiate ogni speranKA, voi che entrate. 



O Archeologo Portugués 151 

cobre a Cidade de Coimbra, o rio Mondego e os Campos ; neste se 
ve erìgida a estatua do antigo GeriSo com tres cabe9as, da qual toma. 
seu nome, o lugar da Geria, por ser no dito lugar vencido por Her- 
cules, comò dis Antonio de Souza de Macedo no livro Eva e Ave, 
Part. I, Gap. 48. num. 10. de cuja batalha, ou seja verdadeira ou 
fabulosa, ha neste sitio algiimas memorias pois logo da parte de alem 
do Kio Mondego estii bum sitio, a que chamSo Porto de Ossa, e junto 
ao lugar da Sidreìra oiitro aonde dizem esteve bum Castello chamado 
dos Loureiros donde talvez se daria a batalha para o campo, e ainda 
nSo ha muitos annos me dizem tem apparecido em bum e outro sitio 
muitos ossos, e Caveiras humanas, e no da Sidreira ha sinco annos 
appareceo hum thezouro de varias pe^as de euro, que cazualmente 
descnbrio com seu movimento a roda de bum carro que passava com 
grande fortuna de seu dono. Mas tornando & estatua digo que foi feita 
por mSo de perito artifice, e he de biia so pedra de altura de doze 
palmos ; na base polla parte antorior se ve o seguinte Letreiro : 

SUM REX GERYONES, A QUA GERIA TYRANNVS 
NI FORET ALCIDES, HAEC ME A REGNA FORENT. 

Pela parte posterior da mesma baso tem oste : 

EGO SUM REX GERYONES ALCIDIIS ROBORE 
VICTUS, UNDE HAUSIT NOMEN GERYA NOSTRA SUUM. 

pella parte do meio dia tem outro na mesma baze que dis: 

D. ANDREAS ALMADA P. 

pella do noiie outro que dis: 

OPERA EMMANUELIS DE OLIVA 

No meio das escadas que sSo de seis degraos por onde se desce 
das cazas para o dito terrapieno està huma pedra quadrada, em que 
està lavrado o seguinte Epitaphio: 

VEGETO AVITI F. 
ANNO XVIII. DEFUNCTO 
MONTEMARIANO 0. F. AVI- 
TUS ARCONIS F. ET RUFINA 
RUFI F. PARENTES F. C. 
S. T. T. F. 



152 O Archeologo Portugués 

No firn do terrapieno para o oriente està colocada em correspon* 
dencia da dita Estatua hua pedra de altura de doze palmos, a qual 
tem no aitar bum Letroiro para a parte do meio dia que di8 assim: 

ELEVABIT SIGNUM IN NATIONIBUS. 

O qual he tirado do Cap. 5, vera. 26 de Isaias. Logo mais abaixo 
tem bum Epitaphio que dis assim ^ : Per baixo està outro de letra 
mais menda que dis assim ' : 

Por baixo de^te letreiro està bSa sarja com bum livro, e homa 
lan9a e da parte do norte na mesma pedra està outro letreiro que dis 
assim : 

LAPIDUM MONÙMENTUM EOMANI REGIMINIS 
EX RUINIS ANTIQUAE CONIMBRICAE UBI 
NUNC CONDEXE A VELHA IN PONTE D'ATADOA 
JACENTEM, AC PENE SEPULTUM D. D. ANDREAS 
ALMADA THEOLOGIAE PRIMARIUS CONIMBRICENSIS 
TRASTULIT IN MELIOREM PACIEM RE8TITUIT 
MEMORIAQUE EXOLVIT ANNO FORI M.C.XXII (sic). 

No muro da mesma Quinta para a parte da vaia està bua pedra 
«quadrada, a qual em tempo de inverno està quasi sempre submergida 
por creserem as agoas, a qual tem o seguinte Letreiro : 

INVICTO P^ATI 

enigma que dà muito que entender aos curiosos. (Tomo xv, fl. 2 
e seg.) 

208. FaiP(Beira) 

Cartello d08 Mouros 

«Nam he murada, nem be prafa de armas tem no lemite bum si- 
:tio de bum monte a que cbamam o Castello que dizem foy habita^am 
:iintiga de Mouros ; mas nam apparece signal algum que fosse povoado 
por estar tudo cbeio de montej». (Tomo xv, fl. 29). 



' É n."" 391 do Corp. Inter. Lai. com as yariantes na 3.' linha de Vaimi 
Maximtf. e Da 4.* de Valeria ejus cdsa. 

2 Differe em ter Scribi cm logar de Scribere. Fas parte da in8crip9So anterìor. 

3 Fail de Fagildif genitivo de Fagildus. Failde tem a mesma origem. De for- 
ma^So semelbante parece ser Athaydej ou melhor Alahide, de Atanagildi, que por 
outro lado dà Tàgilde, nome geograpbico. 



^. 



O Archeologo Pobtuguès 153 



209. Famallefto (Extremadura) 

Castello e intcrlp^Sei 

«lontre està Quinta e Campo medea hum antiquissimo Castello, a 
que o vulgo intitula ser de Mouros; mas corno tao antigo se acha to- 
talmente demolido e arruinado, em forma que jà se nl&o avista mais 
quo as suas bazes e fundamentos, e destes se infere ter sido magni- 
fico, e as pedras do seu material s2Lo quasi todas de cor pretat. 
(Tomo XV, fi. 77). 

«Nas costas desta Irmida (de S. Gillo) se acha huma pedra com- 
prida e bem lavrada comò cousa dezestimada jaz entro huns silvados 
e tem hum mal figurado Letreiro, cuja significasse se pode ver na 
Monarchia Luzlfana, i parte, Livro 3, fi. 319. E neste proprio lugar 
estSo mais duas pedras compridaa metidas no chSo comò marcos que 
se dis, serem sepulturas dos Mouros, cujas letras ainda se divizSo 
claras». (Tomo xv, fl. 79) ^ 

«Apartada desta Quinta da Irmida de S. GiSLo cousa de deus ti- 
ros de bésta e outra o Norte havia antigamente hiia fortaleza nSo 
multo sumptuoza e està por sua anteguidade se acha dissipada e to- 
talmente demolida. O firn e ministerio da dita torre dizem seria para 
que està ti vesso lume de noite para que os barcos e navios de .pesca- 
ria atinassem porto por onde haviSo de entrar e supposto que a 

torre està de todo desfeita, e a pédraria della levada em barcos para 
lastre de navios ainda ali se ve bua pedra com outro letreiro escul- 
pido». (Tomo XV, fl. 80). 

P£DBO A. DE Azevedo. 



Museu Municipal de Bra^anga 

(Cfr. O Aréh. Pori., ni, 48, 99, 155 e 844) 

1. Inaagnra^fto do Moseu 

Lé-se n-0 Norte Traamontano, de 19 de Mar50 de 1897 : 

<Com grande concorrencia de damas e cavalheiros de todas as 

oiasses, foi aborto ao pùblico no domingo passa do o Museu Municipal 

d'està cidade. 

Assistiram o Srs. Major Luis Ferreira Real, Presidente da Camara, 

e illustrado Tenente de ca^adores 3, Albino dos Santos Pereira Lopo, 



154 O Archeologo Poktugués 

director do mesmo Museu, que leram allocu95es relativas ao acto, e 
levantaram vivas a Suas Magestades e ao povo de Braganfa, sendo 
enthusìasticamente correspondidos. Em seguida foi lavrada pelo secre- 
tano da Camara urna acta d'este tao notavel facto para a historia de 
Bragan9a, e que foi asstgnada por grande nùmero das pessoas pre- 
sentes. 

No atrio tocou a musica dos bombeìros voluntarios. 

Museu, que jà se encontra bastante enriquecido de objectos 
archeologicos, estarà d'ora avante aberto, do meio dia às 3 da tarde, 
todos OS domingOB, dias santificados e quintas-feiras». 

2. ICoras acquisl^Oes 

Uma medalha, cunhada em 1808, que tem numa das faces lun 
tropheu, e na outra uma proclamafXo ao povo portugués contra a 
inyas2o francesa. Foi encontrada em Alfandega da Fé, na casa da 
Ex."* Sr.* D. Maria da Cunha Ferreira. 

Tres moedas romanas de prata, achadas no sitio do Castello, termo 
de Cabefa de Igreja. 

Uma por9%o de p2lo serodio e trìgo em grfto, encontrada nunia 
sepultura em Aldeia Nova (Miranda do Douro), e dois fragmentos de 
telha, que a continham. [Da epocha romana?]. 

Um gapato de madeira, que finge uma caixa de rapè, e apresenta 
muitos lavores feitos a canivete. 

Um machado de pedra da epocha neolithica, encontrado no sitio do 
Tombeirinho, termo de Donai. 

Um martello de pedra polido, achado, parece, em Sendim. 

Uma penta de lanja de pedra, encontrada em Valle de Vime, 
termo de Avelleda. 



Ultimamente offereceram objectos ao Museu: 

D. Maria das Eiras, de Palacios, tres moedas de cobre. E uma 
velhinha de mais de 80 annos que, ouvindo ler a circular de S. Ex.* 
Rev."** o Sr. bispo, quis tambem concorrer para o Museu. 

Manuel Alvez, de Ba9al, uma moeda de cobre portuguesa. 

P.® J. A. F. de Carvalho, abbade de Picote, uma moeda de co- 
bre do tempo de Augusto, cunhada em Turiaso (Hespanha), um bro- 
che de bronzo antigo, um fragmento de uma gargalheira de cobre, 
que parece de adorno, que foi tudo encontrado num castro jnnto a 



Archeologo Portugués 155 

Picote (Miranda) ; e além d'isso um bello machado de pedra da epo- 
cha neolithica encontrado no termo da mesma poyoa92Lo, um vìntem 
em prata de D. Manuel, 5 réis de D. SebastiSo e 3 réis de D. Joào III. 
Como se vfi, é urna dadiva multo valiosa. 

Aug^usto Secca, urna Avella de a90. 

Arnaldo Monteiro de Carvalho, urna espora. 

Antonio José Parente, uma moeda de cobre dos Filipes. 

Antonio dos Prazeres Rocha, uma moeda de cobre. 

Antonio Augusto Pirez, uma moeda hespanhola. 

P.* Francisco Manuel Alvez, abbade de 6a9al, um protector do 
Museu, uma lapide funeraria romana, encontrada no castro de Sa- 
coias, em que se le: BOVIVS TALOCI P. ANN. S.. T. T. L.* 

(Noticias extrahidas d-0 Norie Trasmontafio, de 19 de Mar^o, 17 de Setem- 
bro, 19 de Novembro, e 10, 17 e 24 de Dezembro de 1897). 

J. L. DE V. 



Bibliographia 
Revue Belge de Numismatique, 1898, 1.® fasciculo. 

A p. 106 d'està importante Revista dà-se noticia da notavel obra 
do Sr. Meili, intitulada Dcis brasUianiache Geldwesen, Zurich 1897, 
cuja parte i, em que se estudam as moedas do Brasil corno colonia 
nossa (1645-1822), tem todo o interesse para Portugal. 

O auctor da noticia, o Sr. Fred. A., ao fallar da Parte iv do 
livro do Sr. Teixeira de Aragilo, diz: «mais cotte partie de son 
ouvrage, longtemps attendue du public, n'ayant jamais para, il eùt 
pa sembler que le savant numismatiste avait complètement renoncé 
a la publier». Felizmente podemos annunciar ao nesso confrade de 
Bruxellas que o Sr. Teixeira de AragXo trabalha activamente no 
voi. IV, da sua grande obra, o qual nao tardarà multo que va para 
prelo. 

J. L. DE V. 



* [A inecrìp^So parece-me estar imperfeitamente copiada : para nSo cstar a 
fazer emendas hypotbeticas, espero que o Sr. Lopo escreva sobre iste um artigo 
neutro numero d-0 Areh. Pori,— 3. L. ds V.] 



156 O Archeologo Pobtugués 



Notlcias vàTlas 
1. Urna faneraria 

«Pelo Commando de Artilheria n." 3 foi communicado à Camara 
que em frente ao portico do convento de S. Francisco [em Santarem , 
procedendo- se a excava95es, foi encontrada ama urna funeraria com 
ossadas e algumas moedas antigas. 

Vae tudo, de accordo, recolher ao Museut. 

(Jomal de SaMtarem, de 30 de Janeiro de 1898). 

2. Monamentos hlstoricos naelonaes 

«A iliustrada Camara Municipal do Porto nomeou na sua ultima 
sessSo, conforme noticiàmos, ama commisaXo composta de cavalheiros 
de alto valor intellectual, a firn de fazer o arrolamento dos monumen- 
tos antigos e historicos do Porto, para que a mesma Camara fìcasse 
habilitada a velar pela sua conservafSo e integridade. 

O patriotico exemplo d'està iliustrada Camara merece os mais ras- 
gados elogios, e é absolutamente digno de ser seguìdo pelas restantes 
camaras do pais, comò o mais proprio para salvar da ruina essas pre- 
ciosas relìquias do nesso passado». 

(0 Seculo, de 30 de Janeiro de 1898). 

8* Musen do Instituto de Coimbra 

Lè-se n-0 Popular, de 5 de Marjo de 1897: 

«O Mnseu Archeologico do Instituto de Coimbra acaba de ser en- 
riquecido com diversos exemplares de reconhecido valor, comò um 
grupo de pedra, que representa a Virgem com o menino ao collo e 
S. Bernardo ajoelhado aos pés, grupo do seculo xvi, e em que se ve 
ainda a primitiva pintura ; um retabulo de madeira dourada de que 
se destacam as armas do bispo que fundou o convento de Sant'Anua, 
a que o retabulo pertencia; fragmentos de um tecto manuelino, de 
madeira; do bispo-santo, de pedra; e de um aitar que pertencen bo 
claustro da Sé Velha e se supp8e obra de JoSo de RuÌo. 

Recebeu, ainda, do antigo Museu Municipal mobiliano dos seculos 
XVI, XVII, XVIII, e umas figuras de barro cozido, do seculo xvi, de 
Udarte, e alguns exemplares de faian9a portuguesa». 



Archeologo Portugués 157 



4. Maseu de Àrtllherla 

cU no8SO prezado amìgo sr. Sezinando Ribeiro Arthur, digno ma- 
jor de ca5adore8 n." 2, acaba de offerecer mais duas agnarellas para 
a co]lec9ito que esiste na bibliotheca do Mnseu de Artilheria. Està 
collecySo de estudos, que o sr. Ribeiro Arthur se prop3e concluir, 
consta de valiosos documentos, de incontestavel valor bistorico, onde 
se poderSlo estudar todos os uniforines do dosso exercito desde o prin- 
cipio do seculo. As duas aguarellas, ultimamente offerecidas, represen- 
tam um corneteiro de ca9adore8 (gratide uniforme) e um sapador de 
infanteria (uniforme de campanha): ambas da actualidade. 

Estes trabalhoB sSo mais uma prova brilhante do talento do sr. Ri- 
beiro Arthur, que se póde considerar comò um dos nossos mais dis- 
tìnctos aguarellistas, comò o tem demonstrado em varios certames 
onde as suas obras tem sido expostas». 

(O Seculo, de 19 de Mar9o de 1898). 

5. Inscrip^So de am «Paeensls» 

Na Ribeira del Fresno (Extremadura Hespanhola) appareceu um 
cippo funerario de marmore, da epocha romana, consagrado à memoria 
de um individuo naturai de Pax lulia (Beja). O texto està incompleto, 
por se achar quebrado o cippo; so se le: 

M 

PACEN... 

LARRVMvs CROI... 

BE-MEFCHS 

Vid. Boletin de la Beai Academia de la Historia, xxxii, 151. 

6. AntiiriiidadeB do Àlemtejo 

De carta, que recebi de pessoa muito illustrada e de teda a res- 
peitabilidade, extraio as seguintes noticias archeologicas e ethnogra- 
phicas, por serem interessantes. 

a) Antas e stiaa lendas : 

cNuma anta da Herdade da Torre, da condessa de Sarmento, 
dizem que ha cahedal escondido. Deve, porém, quem o quiser, sonhar 
primeiro com elle^ e entSo em a noite seguinte, à meia noite, deve ir 
cavar. Sae-lhe um touro^ que o persegue; e, se consegue passar o 



158 Abcheoloqo Portdgués 

ribeiro proximo sem o touro o alcan9ar, o touro continua a correr sem 
parar, e o thesouro é d'elle. Se nSo, é morte certa. Todos tem mede 
do touro. 

Ao pé, neutra anta, a tenda é a mesma; mas em vez do touro é 
urna gallinha. Deita-se-Ihe um alqueire de trigo; se, antes de acal>ar 
de corner, se encontra o cabedal, està salvo; se nSo, a gallinha mata 
pesquisador». 

b) Restos romanos e lendas: 

«Os homens fallaram-me de que neutro sitio proximo havia pala 
ct08 e pedras pequéninas jnntaa. Dei o passeio. É nas Veladas de Baixo. 
Kuma enorme extensSo ha urna porySo infinita de destr09O8 de gran- 
des construcySes romanas (croio eu). Os tijolos com rebordo abundam 
e as pedras pequenas nSo sSo mosaicos (o que, devo confessar, me 
tinha despertado a cobÌ9a), s^ embrechados, ou bocados de arga- 
massa com fragmentos de tijolo. Està tudo, porém, esmigalhado. Na- 
turalmente jà foi explorado; mas por certo que as excavagSefl seriam 
fecundissimas. NSLo tive tempo ; a propriedàde nXo era minha, mas da 
familia Torres Yaz Freire, de Evora, e fiquei num passeio lindissimo, 
porque a propriedàde é muito pittoresca. 

Neste sitio das Veladas de Baixo ha a competente moira, que vem 
na manhS do dia de S. Jo&o pentear-se^ ao alvor da manhS, antes de 
romper o sol, em certa pedra, junto de uma oliveirat. 

J. L. DE V. 



lohnograpUa parolai das oonstruogSes luso-romanas 
de Mllreu (Estoi,— Algarve) 

Thermas 

Andronloeom (SeogSo balnear para homens) 

1, 1, 1". — Proikyrum ou corredor de especìal ingresso pela ianua 
1, (porta para a rua-via a, h, e, pavimentada com lageas irregulares, 
typo lithostrotum), 

2, 2'j 3, 5'. — Quartos {cuhicula) ; idem i^ j, k, l, V. 

4. — FaìiXj passagem para a sala 6. 

o, — Sellarla, camara de reuniUo e conversa, de onde se descia 
para a cella 6. 



O Archeologo Portugués 159 

6. — Apodyterium, isto é, sala de espera, com assentos (sedUia) 
de espalda de estucada. 

7. — Oectis, salXo de entrada nobre, pela escada (jjradtis) E. 

8. — Frigidarium, divisào mantida em baixa temperatura; com 
tanque circular (baptisterium) para banho frio. 

9, — Tepidarium, casa gradualmente estabelecida entre o frigida- 
rium e o caldarium. 

10. — CaMarium, cella balnear cujo grao thermal era entretido 
por camara calorifera subjacente: do lado 11^ dependente de for- 
nalha especial (hypocausis)^ com tina para banho quente (alveus) : no 
topo 12, vao semicircular (laconicum) destinado a banho de estufa. 

13, 18''. — Hypocaibsis, fornalha com b6ca adequada (propigneum 
cu praefumium) 'j pelas gargantas abobadadas, 14, 14', alimentava a 
camara de ar quente (hypocaustum ou vapor arium)^ cujo tecto {sus- 
pensura) descansava em pilares de alvenaria. Està mesma hypocausis 
mantinha, por conducto directo, o hypocaustum do banho feminino, 
indirectamente robustecido pela passagem do calor, em 15; 16, com- 
munica92o por frestas, idem. 

Oymneoaeaxn (Seog&o balnear para mnlheres) 

17. — lanua, porta de uma casa de entrada, talvez simultanea- 
mente apodyterium^ com immissarium ou registo, 19, para alimen- 
ta9&o do banho. 

21. — Ostium ou porta para a cella frigidaria, 22, com outro 
accesso por y; baptisterium quadrangular, 23, com degraus {gradus) 
para a balneayfto fria. 

24. — Tepidarium, k esquerda, com elaeothesium annexo (gabinete 
para perfumes) em 24'; outro accesso por e. 

25. — Caldarium: laconicum em 26 e alveus em 27. 

BeogSo desambalatorla e gymnastloa 

20. — Atrium, superficie rectangular com arcadas de passeio co- 
berto, apenas destelhada ao centro: conjnthium, de columnas grano- 
laminares cinzentas 20™,6 por lado maior e IT^jò k frente; (fuste, 3 
metros; base, 0",3); intercolumnios vedados por galerias rendilhadas 
marmoreas ((y",80 a 0™,90; pogo de agua potavel em, 30, puteus. 



160 O Archeologo Portugués 

31. — Impluvium, tanque alimentado pelas aguas pluviaes e pelas 
do dividiculum, k, destìnado a exercicios natatorios {piscina natalis) : 
em e e o)^ capta$So de aguas por tubagem de chumbo (jdumbum): 
em TT, (emmissarium) ou orificio inferior para despejo ; em tu', vasio 
superior, em direcjSo a um aqìmrium ou reservatorio de aguas, 33. 

32. — Oecus, salao destinado a palestras litterarias {gymnasium)^ 
usos festivaes, etc, dando para o campo. 

34. — Xysti, espago ajardinado com assentos, estatuas, etc. 

36. — Xysti, secjao votada a exercicios de inverno^ com apodyteria 
em 36 j 37, 38; divisSes para jogos em 39, 40; etc. 

Tempio e annexos 

45. — Lavacrum & beira da via, em fronte do templum (peripierusjj 
cujo accesso {ianua) era em 46, pelo escadorio (gradus)^ 47, de ascen- 
s&o ao vestibulo (pronaum, 48). 

49. — Entrada para a pega principal do edificio {cella m, nJ , m"): 
ladeada por corpo de abobadas e columnas {porticvs) com balaus- 
tradas {n, n', n!') e varadim para o recinto sepulchral inferior, jacent*» 
em 0, d , o". 

50. — Pia lustrai, labrum^ alimentada pelas aguas do dividicuium, 
k; foi omada de marmore branco. 

SI. — Fundo semicircular (absis)^ o sanctuario, em que se erg^ueria 
aitar da divindade, a quem as thermas seriam consagradas. 

OBSERVA9OE8. — 1.*) No pojo 30 appareceram destrogos de cruz 
de pedra vetustissima. 2.*) Beconheceram-se porto sepulturas sem «'- 
gna^es de paganismo, comò as do recinto funereo 0, 0', o". 3.*) Em o, 
d'este campo mortuario selecto fizeram-se inhumagSes em maasoleo 
especial. 4.*) Em 61, abside, — a secfSo mais lithurgicamente nobre dos 
templos — houve ossadas, que deviam ter pertencido a tres cadaveres. 
Enterramentos christàos luso-romanos? Com especie de deposito com- 
mum nas immediagSes do templum, sepulturas reservadas em o, o". 
etc, classificadas (sacerdotaes?) em 0', e classicas (episcopaesf) em 
w? Tempio remotissimamente christianizado ? Modestos primordios da 
Cathedral de Ossonoba? 

Faro, Museu Lapidar do Infante D. Henrique. 

Monsenhor Conego — J. M. Pereira Botto. 



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VOL. IV JULHO A SETEMBRO DE 1898 N." 7 A 9 



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ARCHEOLOGO 




COLLECfAO ILLUSTRADA DE HATERIAES E NOTICIAS 



PUBLIGADA PELO 



MUSEU ETHNOLOGICO PORTUGUÉS 




Veteriim volvens monumenta virorum 



LISBOA 

IMPRENSA NACIONAL 

1898 



A Pabeica dk L0U9A DO Rato. 
Uh numisma pobtuoués. 
Antas do concelho de Alijó. 

O TERRITORIO DE cAnEGIA». 

PBOTEC^AO dada PELOS GOVEUNO8, CORFORAgoES 0FFICIAE8 E IKSTI- 

tut08 scientificos a archeologia. 
Estudos sobre Troia de Setubal. 
Um problema numismatico. 

A LENDA COIMBR! DA FREIRA DAS MAOS C0RTADA8. 

O CASTELLO DE S. MiQUEL-0-AnJO. 

VeSTIGIOS ARCHEOLOGICOS DOS ARREDORES DE VlSEU. 

BlBLIOGRAPHIA. 

D0I8 MACRADOS DE BRONZE. 

ACQUIS190ES DO MusEU Etiinologico Portuquès. 

ExTRACTOS ARCHEOLOGICOS DAS cMeMORIAS PAROCHIAES DE 1758». 
NOTfClAS VARIAS. 



Este fasciculo vae illustrado com 14 estampas. 



ARCHEOLOGO P0RTUGUÉ8 



COLLEC(iO ILLUSTRADA DE MATERIAES E lOTICIAS 

PUBLICADA PKLO 

MUSEU ETHNOLOGICO P0RTU6UÈS 



VOL. IV JULHO A SETEMBRO DE 1898 N^ 7 A 9 



A Fabrica de Louga do Bato 
Uin docmuento para a sua historia 

A fabrica de louja do Rato, cujos productos sfio hoje tSo apre- 
ciados peloB colleccionadores de faianfas portuguesas, data de 1767^ 
e era urna das annexas à Real Fabrica das Sedas. 

Para a sua historia, ainda nSo integralmente feita, apesar do elu^ 
cidativo capitalo que José Accursio das Neves Ihe consagra nas suas 
Nocdes historicas, economicas e administrativas sobre a producgào e ma- 
niifactura das sedas em Portugal (^Lisboa, 1827), contém subsidios de 
valor a seguiute consulta, inedita, que se encontra num dos livros de 
registro da Junta do Commercio, — tribunal cujo archivo se guarda 
actualmente na Torre do Tombe. 

Esse extenso parecer reeommenda-se tambem a attenyào d'aquelles 
a quem interessa a historia das artes industriaes em Portugal, pelo 
facto de documentar uma das nossas primeiras tentativas de fabrico 
da louga de pò de pedra. 

A primeira foi da iniciativa do Dr. Domingos Vandelli, a quem 
se concedeu, em 1793, Ì6en9ào de direitos de entrada, nos portos do 
Brasi], para a louga d'esse genero, manufacturada na sua fabrica do 
Cavaquinho (Porto), da qual era entSlo mestre Bento Fernandes de 
S. Francisco. 

Jose Pessanha. 

Senhor. — Com aviso da Secretaria d'Estado dos Negocios do 
Reino, de 25 de fevereiro do corrente anno, foi Vessa Alteza Real 
servido mandar remetter a este tribunal as duas consultas da direc9ào 
da Real Fabrica das Sedas e Obras de Aguas livres, que sobem com 
està, relativas às pretengoes do doutor Joaquim Rodrigues Mila- 



162 O Archeologo Portugués 

gres, a respeito da nova louya do seu invento, e sobre os progressos 
e estado d'està manufactura, com a informayào que deu sobre este 
negocio doutor José Bonifacio de Andrada *, supplicando o dito Joa- 
quim Rodrigues Milagres, que, sendo necessarios mais aiguns exames, 
se commettesse a este mesmo tribunal o seu conhecimento e deter- 
minando Vessa Alteza Beai que se Ihe consultasse sobre tudo o que 
parecesse, e tambem sobre o premio que mereceria o dito inventor. 
por este descobrimento e inven9So, se declarasse os sitios e a abun- 
dancia do barro e despesas da sua conduc^ào, e se achasse que ha, 
com effeito, abundancia do mesmo para a permanente labora$So d'erta 
lou9a, sem custo que faja encarecer a sua venda. 

Na primeira consulta, de 22 de abril do anno proximo passado de 
1812, expoe a direcyào da Keal Fabrica das Sedas que ella tem exgot- 
tado todos os meios que estavam em seu poder, para persuadir o 
doutor Joaquim Kodrigues Milagres a que continuasse os ensaios da 
dita nova louja, tao recommendados por Vossa Alteza £ea], remo- 
vendo-lhe todas as dif&culdades que elle tem suscitado; pois que, 
decididas as duas ultimas requisiyòes que fizera, de dinheiro para as 
suas despesas pessoaes, e de varias obras e concertos na Fabrica do 
Rato, immediatamente Ibe tizera um novo cunvite para come9ar a sua 
manufactura em grande, participando-lhe que se iam desde logo aproni- 
ptar 08 ditos concertos, e que estava à sua disposi(ào, para a receber 
quando quizesse, a quantia de 240j>000 réis, que Vossa Alteza Keal 
Ihe mandàra dar ; mas que, de vendo esperar- se a sua prompta obe- 
diencia a tantas determinayòes regias que tem havido a este res- 
peito, e declarando elle, em direc9ào de 11 de Outubro de 1811, que 
tinha barro prompto para a sua labora9ào, decisivamente se negàra 
a este convite, respondendo, por carta de 9 de Abril de 1812, que nao 
podia tratar da extrac9ao das terras que entram na composÌ9ao da 
sua manufactura, sem a resolu9ào do requerimento que tinha aifecto 



1 José Bonifacio de Andrada e Silva (1763-1838), que, naturai de Santos 
(Brasil), tomou parte tao importante no movimento separatista, que mereceu ser 
considerado o patriarcha da indepcndoncia brasileira, foi mineralogista dis- 
tincto. Formado em direito e philosophia pela Universidade de Coimbra, realizou 
no estrangeiro, de 1790 a 1800, serios estudos de historia naturai e metallurgia, 
mediante uma pensao do governo, concedida sobre proposta da Academia Keal 
das Sciencias. Occupou os logares de lente de metallurgia e geognosia naquella 
Universidade, intendente geral das minas do reino, etc. No Brasil, paia onde se 
ausentà.ra com licenza, entregou-se com arder à politica, despertado pelos suc- 
cessos do 1821. Graves desgostos e um longo exilio em Fran9a Ihe advieram 
d'essa attitude, à qual fìcou, porém, deveudo, principalmente, a sua uomeada. 



O Archeologo Portugués 163 

a Tossa Alteza Real, e que era definitivamente o primeiro passo d'este 
negocio; — que, se elle pretendia adiantadas as suas recompensas, nera 
Si direcgao podia consultar a este respeito seni as necessarias nogSes 
da otilidade do seu invento, que devem ser o resultado dos ensaios a 
que se recusa, nem elle deveria ter feito requisigoes para as suas des- 
pesas pessoaes e desenhado as obras para a sua laboraySlo, quando 
ainda^o seu deferimento, na fórma e modo, estava dependente de uma 
consulta e da resoluySto de Vossa Alteza Real. E, porque està perem- 
ptoria repulsa do dito inventor tornava nullo quanto se tinha tratado 
sobre este negocio, jà quatro vezes consultado e resolvido, nSo podendo 
SL direcgao deixar de sentir a falta de seri ed ade que se mostrava em 
um objecto tiio efficazmente recommendado por Vossa Alteza Beai, 
se via na necessidade de o levar pela quinta vez à real presenga, para 
que niella ficassem constando, de um modo evidente, os motivos que 
obstavam ao cumprimento das reaes determinajdes. Tal era a expo- 
SÌ9ÌL0 da primeira consulta, que se acha comprovada com os docu- 
mentos que a acompanham. 

Na segunda consulta, de 14 de outubro do mesmo anno proximo 
passado, referindo-se a direcgao à primeira, expoe que doutor 
Joaquim Rodrigues Milagres se apresentàra, com eflfeito, a dirigir os 
trabalhos da sua louga, de que fizera manufacturar uma pequena for- 
nada, sem comtudo declarar (comò sempre se llie pedira) nem os 
logares d'onde sé extraem as terras que entram na sua composigào, 
nem o methodo da sua preparagào, requisitos estes sem os quaes 
nem se podia formar juizo sobre està manufactura, nem calcular o 
seu custo ; mas que a direcgao, para cumprir as reaes ordens e 
informar das circumstancias que estao ao seu alcance, mandàra ao 
administrador da Real Fabrica da Louga que fizease assentos separa- 
dos e distinctos, para depois dar uma conta fiel de tudo que se des- 
pendesse, e que, inventariadas todas as pegas que produzira a for- 
nada, nomeàra tres dos negociantes de louga mais acreditados, para 
fazerem a sua avaliagào ; que, sobre uma e outra cousa, fizera dito 
Milagres diversas observagoes e reclamagoes, tendentes a augmentar 
a receita e diminuir calculo da despesa; e que a^irecgào, desejando, 
por uma parte, satisfazel-o, e, por outra, nSo devendo metter em um 
processo objectos tSo albeios de semelhantes formulas, Ihe mandàra 
participar que desse elle mesmo a sua conta, para se combinar com a 
do administrador, e que podia comparecer no acto da avaliagSo, indi- 
cando-lhe dia e bora, para representar que Ihe conviesse; que, 
negando-se a tudo, nào dera a conta que se Ihe pedira; e que, remet- 
tendo -se & contadoria a que dera administrador, para se Ihe fazerem 



164 O Archeologo Portuqués 



as competentes deduc95es, de alguns materiaes que accresceram, e dos 
utensilioB que pudiam ainda servir para oulras fornadas, resulterà urna 
liquidajào final da despesa que se fizera, importante em 140^763 réis; 
que, nao comparecendo igualmente no acto da avalia9lLo, fora estimada 
toda a fornada de lou9a, pelos peritos nomeados, em 824Ì160 réis; 
mas que, fazendo-se publioa està avalia^So, acudira logo, arguindo-a de 
nulla, por nfto serem os meemos peritos avaliadores da cìdade; e que, 
repetida por estes a mesma diligencia, subirà, eom effeito, a sua lou^a, 
n'esta segunda avalia9ao, à quantia de 119}J580 róis; que, combinada 
a despesa com o arbitrio feito pelos peritos que a direc9&o nomeàra, 
mostra va-se um prejuizo de 41 3 por cento; e, combinada igualmente 
com dos louvados requeridos pelo doutor Milagres, era sómente està 
prejuizo de 15 por cento ; devendo, porém, notar-se que ainda se de- 
viam accumular, pois se n&o tinham calculado, por se ignorarem, as 
despesas da extrac9ào, conduc9S[o, e preparo das terras, pois que 
mesmo doutor Milagres manderà conduzir para a fabrica o barro jà 
prompto ; e està addÌ9ÌJio, corno elle asseverava, era, seni contestataci 
objecto principal do negocio; que era quanto a direc9Ìo podia infor- 
mar a Vessa Alteza Real, ajuntando a està informa9l[o balan9o dos 
cofres da sua administra9%o, que assaz mostrava o seu estado misera- 
vel, para que Vessa Alteza Real, à vista de tudo, podesse, com conhe- 
cimento de causa, deliberar sobre as accumuladas preten95es d'este 
novo inventor, em que pedo a nomea9ao de inspector da Real Fabrica 
da Lou9a, para determinar quanto entender conveniente a beni da sua 
manufactura, entrcgando-se-lhe a mesma fabrica, com todas as suas 
existencias ; que se Ihe de, em premio do seu trabalho, a quarta parte 
dos seus interesses liquidos, e um adiantamento de dois contos de 
réis, para a extrac9ao, conduc9So e preparo das terras, e mais des- 
pesas indispensaveis ao principio; supplicando a direc9So humilde- 
mente a Vessa Alteza Real, que, julgando necessarios mais alguns 
exames a oste respeito, se dignasse de os commetter a este tribunal, 
encarregado dos negocios de semelhante natureza ; pois era duro, para 
pretendente, que as suas preten93es dependessem de informe de urna 
repartÌ9&o centra a qual tem manifestado desconfian9as ; e, para a 
mesma direc94o, ver-se obrigada a exp6r os seus officiaes benemeri- 
tos a serem por elle maltratados, corno ultimamente acontecera ao 
administrador da Real Fabrica da Lou9a, dentro da mesma e na sua 
propria face, nfto obstante as provas que este officiai tem sempre 
dado da sua honra e fidelidade, por nfais de trinta e tres annos da sua 
administra9^. Tal era a exposÌ9ào da segunda consulta, igualmente 
comprovada com os documentos que a acompanham. 



O Archeologo Portuguès 165 

A informa9lLo do doutor José Bonifacio de Andrada mostra que 
tivera por objecto o conheciraento da nova supplica e calculo demons- 
trativo que o doutor Milagres levàra à presen9a de Vossa Alieza 
Real, queixando-se de serem exaggeradas as contas da despesa que 
se fizera com a ultima fornada da sua lou9a, achando-se mancommu- 
nado administra,dor da Fabrica do Rato com alguns dos deputados 
da direc9^, P*^^"^ systematicamente persuadirem que o fabrico da dita 
lou^a é prejudicial à real fazenda; e pedindo que o oxame d'este 
negocio se commettesse a pessoas intelligentes, e capazes, por sua prò- 
fìssSo e probidade, de informar sobre elle com conhecimento de causa, 
exacfSo e verdade. 

Devendo, pois, a dita informa95o recahir sobre o conhecimento de 
facies dependentes de provas, que, alias, se nSo produziram, passou o 
ministro informante a escrever uma longa memoria, que tambem sobe 
à presen9a de Vossa Alteza Real, dividida em quatro capitulos: pri- 
meiro, sobre o calculo das despesas feitas com a nova lou9a ; segundo, 
sobre as avalia93e8 da mesma ; terceiro, sobre a qualidade compara- 
tiva da Iou9a antiga da Fabrica com a nova de que se irata, e de 
ambas com a de Inglaterra; e quarto, sobre o estado presente da 
Fabrica do Rato, factura da sua lou9a, seus defeitos actuaes, e melho- 
ramento futuro que deve ter. 

No primeiro capitulo, relativo à& despesas, calculadas pelo admi- 
nistrador da Fabrica no total de 172iJ197 réis, e pelo doutor Mila- 
gres em 89^187 réis, — reconhece o informante exaggera9ao nas pri- 
meiras, dizendo, porém, que n?.o póde afian9ar os abatimentos das 
segundas, supposto que grande parte d^elles Ihe parecem fundados 
em razSo ; e, para assim ó mostrar, continua a formar novos calculos 
hypotheticos e summamente miudos, nSlo do que importaram, mas sim 
do que deveriam importar, aquellas despesas, quando parece que Ihe 
seria muito mais facil, e muito mais proprio para o conhecimento da 
verdade, chamar os oflSciaes e mais individuos da Fabrica, e deduzir, 
pelos seus depoimentos, se na fornada de lou9a de que se trata, se 
tinham realmente consumido os jornaes, as materias e os mais artigos 
da conta do administrador, pois que este é o methodo que as leis 
prescrevem para a averigua9So de semelhantes materias de facto. 

De todos estes calculos miudos e hypotheticos dedtizindo o infor- 
mante uma conta ideal, conclue que as mencionadas despesas deve- 
riam importar semente na quantia de 91^080 réis, no que ha um 
abatimento tlo desmarcado sobre a conta do administrador e sobre a 
liquida95o que d'ella se fez na contadoria da direc9ao, que por si 
mesmo se torna inacreditavel, pois que, a ser verdadeira, seria preciso 



1 66 O Archeologo PoRTUorÉs 

que 08 officiaes da mesma cHrec9So, alias conhecidos pela sua pericia 
e probidade, tivessera apresentado a Vossa Alteza Real o testemunlìo 
mais indelevel da sua ignorancia e infidelidade, — o que absoluta- 
mente se nSo póde presumir. 

No segundo eapitulo, relativo às avalia93es da louja, refata o infor- 
mante a primeira (comò era naturai, por ser mais diminuta) e fun- 
da-se na sua illegalidade, porque nao fora feita por avaliadores jura- 
dos; e, approvando a segunda, porque Ihe parece muito chegada 
à Verdade, aecrescenta sómente que està avalia^^o ainda montaria a 
alguma cousa mais, se os avaliadores, em vez de avaliarem pefa por 
pe9a, a dividissem em apparelhos sortidos, porque, entào, valem estes 
mais do que a somma particular de cada pefa ; lembrando tambem 
que a lou9a està hoje muito barata, pela grande abundancia de louca 
ingleza, que paga poucos direitos, — ou nenhuns, quando se introduz 
por contrabando, comò està succedendo ; e conclue que, sendo a despesa 
a que podia montar o fabrico da nova lou9a 91^080 réis; barro pre- 
parado, quando muito, 15^000 réis, segundo diz o doutor Milagresf 
e sommando estas duas addÌ9oes 106^080, — fica evidente que està 
somma, comparada com* os 119^51580 róis do valor da mesma loiija 
pela segunda avalia9So, dà um lucro de 13^500 réis, ou 13 por cento 
do cabedal empregado ; mas que este lucro deitarà a muito mais, logo 
que houver no fabrico e cozimento os melhoramentos que deve haver, 
e maior economia nos jornaes e mSo de-obra. 

No terceiro eapitulo, relativo à compara9So das differentes loucas, 
come9a o infonnante explicando que as lou9as de mesa sSo de tres qua- 
lidades: — lou9a grosseira, faian9a fina ou p6 de pedra, e porceJana, 
a qual se divide em porcelana commum e porcelana fina; — que todaa 
lou9a de mesa, para ser boa, deve ter sete requisitos, a saber: — de 
pasta homogenea e igual por toda a pefa; nEo muito compacta; leve 
e devidamente delgada; duradoira; asseada; salubre; e de pre90 eom- 
modo; e d'aqui deduz que, entro a louya ordinaria, a faian9a ou a 
lou9a de pò de pedra é k unica que deve merécer contempla9ao, por- 
que póde reunir em si, mais ou menos, quasi todos estes requisitos, e 
que, portante, està lou^a sera tambem melhor quanto mais se chegar 
à porcelana; pois que a lou9a ingleza, de que tanto uso se faz em 
Portugal, ainfe que muito Ihe corresponda, todavia pecca, em nào 
soffrer consideravel grau de caler; em ter vidro que facilmente estala 
e se raspa; e entrar na sua composijSo a cai de chumbo, vindo a ser 
vidro dissoluvcl no vinagre forte fervendo, e nSo resistindo à prova 
de gemma de ovo, o que tudo faz que nSo seja tao salubre corno a 
porcelana grosseira, que hoje preferem os francezes. 



J 



ARCHEOLOGO PORTUGUÉS 167 

!PostoB estes preliminares, passa o informante a referir as expe- 
rieneias comparativas que fizera, com a nova lou9a do doutor Mila- 
gres, a da Fabrica, e a ingleza; e observa que, lan9ando agua fer- 
vendo sobre a lou^a da Fabrica, nSo estalou, mas absorveu muita agua 
através do vidro; que a Iou9a do doutor Milagres resistiu, e nSo 
absorveu; e que isto mesmo aconteceu à ingleza. 

Observa mais que estas differentes lou9a8 expostas a fogo mi 
sobre carvSo acceso em fornalhas de ferro, a primeira rebentou logo ; 
a segunda resistiu mais alguns instantes; e a terceira, ainda mais. 
Apresenta outras iguaes ob3erva9oes sobre o peso, a grossura, a cor, 
e o vidro d'estas differentes lougas, e diz que, podendo obter tambem 
a louQa de pò de pedra da inven92lo do doutor Vandelli, que se fabrica 
no Porto, e examinando-a, achara que é muito conforme com a do 
doutor Milagres, porém de vidro mais liso, supposto que alguma cousa 
inferior ao da ingleza. 

O resultado d'este capitulo consiste em mostrar que a nova lou9a do 

doutor Milagres é melhor que a da Fabrica, em solidez, leveza, salu- 

bridade e belleza; e, posto que nSo chegue ainda a equiparar-se com 

a ingleza, poderà nSo so igualal-a, mas até excedela, se for aperfei- 

yoada, comò é facil, pela melhor prepara9ao dos barros, mais exacta 

composÌ9SLo na mistura dos ingredientes, melhor cozimento da pasta, 

e vidro mais igual ; que o mesmo se deve esperar da sua barateza, 

pois agora mesmo a excede, segundo a avalia9ao dos louvados, e se 

pode dar, sem perda da Fabrica, pelo mesmo pre9o da que ali se 

manufactura. Diz, porém, o informante que, se està mesma lou9a da 

Fabrica nSo pode ter toda a perfeÌ9ao de que é capaz a lou9a nova, 

pode, comtudo, melhorar-se, conservando-se a sua factura por algum 

tempo, visto estar o povo acostumado com ella, uma vez que se en- 

tregue a sua direc9ao a um homem instruido na physica e chimica e 

a par dos conhecimentos do seculo, porque, às vezes, acasos felizes 

fazem descobrir bellas e novas cousas, mas nunca estas chegam ao 

grau de perfeÌ9!to, senSU) por meio de homens instruidos na materia, a 

cuja dispo8Ì92lo estejam todos os meios pecuniarios; sendo por falta 

d'està providencia que nSo vSo àvante, entro nós, muitas cousas come- 

9adas, uteis e bellas. 

No capitulo quarto e ultimo, entra o informante nos detalhes da 
manufactura da lou9a, que, segundo o seu parecer, nXo se conhecem, 
ou n3k) se praticam, na Fabrica do Rato. Para que està manufactura 
tenha as qualidades mencionadas no capitulo antecedente, depende 
ainda de quatro requisitosi — primeiro, que os barros e outros ingre- 
dientes sejam de boa e devida qualidade e mistura; segundo, que 



168 O Archeologo Portugués 

cstes ingredientes e barros sejam bem preparados; terceiro, qut^ 
as pe9a8 sejam bem cozidas; quarto, que o vidro seja adequado a 
pasta, bello, duravel e salubre. Debaixo d'estes priucipios, recommenda 
multo grande cuidado que deve haver na escolha dos barros, para 
que nSlo levem partes damnosas e, quanto possivel fòr, depois de pre- 
parados tenham a compo8Ì9So naturai dos ingredientes, nas propor^Ses 
indicadas segundo as expcriencias e analyse do celebre Vauquelin ; e 
assevera que a Fabrica do Riito està muito mal servida n'esta parte^ 
porque o seu barro contém pouca terra siliciosa, que ó a que dà às 
louyas a dureza, infusibilidade e iualteribilidade, e tem mais cai e 
ferro do que devia ter. Para evitar estes males, ensina o informante, 
miuda e diffusamente, a preparafSo das terras, a firn de se eorrigirem 
08 seus defeitos naturaes, por meio das differentes misturas artificiaes 
que as tornam aptas e salubres; e diz que estas opera9oes, na Fabrica 
Real, slo muito compendiosas e imperfeitas ; e d'aqui vem, em grande 
parte, a ma qualidade da sua lou9a. 

Preparados os barros, entra o informante na formatura das pefas, 
à mSo, ou em roda, ou moldando em fòrmas proprias; diz que as 
rodas de oleiro estSo hoje muito aperfeÌ9oadas na Inglaterra, Fran9a, 
e AUemanha; que as melliores fòrmas nao sSo as de gesso, mas sim 
as de pasta de enxofre, d'onde com mais facilidade se despegara as 
pe9a8 ; e que estas pe9as, depois de feitae, devem ser alisadas com todo 
melindre. Concine affirmando que, de tudo isto, pouco se faz na 
Fabrica Real, e, se se faz alguma cousa, é com summa imperfeiylLo. 

Formadas as pe9as, e antes que vSo ao forno, é preciso seccal-as : 
e fogo nSo deve ser nem muito brando nem muito forte, mas propoi- 
cional a natureza da pasta e do vidro, que deve ser fundido, e incor- 
porado na mesma. D'aqui se deduz que, para està opera9ào, se preci- 
sam fornos proprios e bom combusti vel. Explica o informante as 
diversas figuras e construc9/lo dos fomos que hoje em dia se conhe- 
cem : — quadrados, quadrilongos, ovaes e redondos ; de uma ou mais 
camaras; com uma ou mais foganhas, ou boccas de fogo; e diz que, 
na Fabrica Real, as portas, as camaras, as foganhas, os respiradou- 
ros, etc, tudo é mau; e o niesmo informa a respeito do combusti vel 
de que ali se uza, porque é matto, ordinariamente mau, e às vezes 
verde e molhado, que para nada presta, quando o combustivel deve 
dar muita chamma e pouco fumo; e, finalmente, lastima-se de que se 
n3to fa9a uzo do carvSo de pedra das minas de Buarcos, construindo-se 
um forno a ingleza ou à dinamarqueza, e accrescenta, antes de acabar 
oste capitulo, que o vidro, assim da lou9a antiga da Fabrica corno da 
nova do doutor Milagres, deve ser mais bem aperfeÌ9oado e moido, e 



Archeologo Portugués 169 

melhor seria para a saude que na Bua composijEo, ou nSo entrasse cai 
de chumbo, ou a menor por9ao possivel, comò praticam hoje os fran- 
cezes nas suas bellas lou9as. 

Sendo, pois, evidentemente, o objecto d^este quarto e ultimo capitnlo 
dar a Vossa Alteza Real urna idea a mais triste e a mais exaggerada 
do estado de imperfeÌ9ao da Fabrica Real, desde a primeira operagfto 
da sua Iou(a até o seu ultimo acabamento, conclue o informante a sua 
memoria pela forma seguinte: — a De tudo que, talvez diffusamente, 
tenho exposto no capitulo antecedente, devo concluir: — primeiro, que 
a loa9a nova é em tudo preferivel à antiga: segundo, que pode ser 
tSo barata comò està; terceiro, que tanto a nova comò a velha, se se 
julgar conveniente o dover continuar por algum tempo, podem ganhar 
em qualidade e dar maior lucro, uma vez que as opera93es se fa9am 
segando os preceitos da arte, e a par dos conheciraentos physicos e 
chimicos do seculo, havendo principalmente melhores fornos, e com- 
busti vel mais forte e mais barato»*. — Tal era o resultado d'està infor- 
ma9fto e dos doeumentos que a acompanham. 

O tribunal, à vista d'estes papeis, querendo dar o devido cumpri- 

mento ao sobredito aviso de 25 de fevereiro, encarregou os seus depu- 

tados, Francisco José Dias e Antonio José da Motta, de informarem 

sobre este negocio, procedendo a todas as diligencias e averigua95es 

que julgassem necessarias; e, comò no mesmo aviso se mandava 

expressamente consultar a Vossa Alteza Real o premio que mereceria 

inventor da nova lou9a, se declarasse os sitios e a abundancia do 

barro e despesas da sua conducgao, e se achasse que ha, com effeito, 

abundancia do mesmo para a permanente labora92lo d'està manufa- 

ctura, sem custo que fa9a encarecer a sua venda ( circumstancias 

estas de que nìLo ofFerecem a minima luz os referidos papeis, e que 

inteiramente dependem das declara55es do dito inventor, e das averi- 

gua95es necessarias para se qualificar a exac9ao e verdade d'essas 

raesmas declara9oes), — prudentemente entenderam os ditos deputados 

que deviam chamar o refendo inventor & secretaria do tribunal, onde 

foi, com effeito, convocado, no dia 13 de mar90 do corrente anno, e 

reduzidas as suas respostas a uni auto judicial, lavrado pelo officiai 

maior da mesma secretaria. Depois de muitas e diversas instancias, 

apenas se conseguiram as seguintes declara95e8: — primeira, que, em 

quanto ao pre90 das terras que entram na composÌ9ao da nova lou9a 

de que se trata, jà elle, declarante, tinha dito, e repetia, que podia 

importar cada arroba duzentos réis, posta na Fabrica do Rato ; e que 

cem arrobas bastam para uma foruada grande, obrigando-se a respon- 

der, se necessario fosse, pela exac93o deste calculo ; segunda, que, era 



170 O Ahcheologo Portuoués 

quanto aos sitios e qualidade d'estas terras, as declararia, logo qne 
Vessa Alteza Real determinasse a sua manufaetura, debaixo da direc- 
9ao d'elle, declarante, decentemente empregado, eom a remunera y&o 
que tem pedido, e Consiste na mercé de um legar de deputado da 
direc9ao da Real Fabrica das Sedas, com o cargo de inspector d.i 
Fabrica da Lou9a, contentando-se, pelo trabalho d'estes dois emprego*, 
com ordenado do primeiro, que se reduz, descontadas as d€Jciraa^. 
a 480?5000 réis; terceira, que, pelo que-respeitava à abundancia da 
materia para a sua manufaetura, podia assegurar que ha muiia no 
reino, capaz de fornecer a permanente labora^So de uma fabrica equi- 
valente & Fabrica Real, sem custo que fa9a encarecer a venda da louya. 

Semelhantes declara^oes, em que nada se manifesta, à excep^llo do 
premio que se pretende, ficando tudo o mais em mysterioso segredo. 
inaccessivel a toda a demonstra^So e provas de facto, — ofFerecem um 
exemplo raro da nimia desconfianja do sobredito inventor, e de que 
elle quer ser acreditado e grandemente remunerado, pelo unico tes- 
temunho da sua verdade ; pois, quando assevera que ha n'este reino a 
necessaria quantidade de barro para a permanente labora9ao de uma 
fabrica regular da lo.U9a do seu indento, e que uma arroba d'este barro, 
posta no sitio do Rato, apenas pode custar 200 réis, esconde cautelo- 
samente o logar da extrac9ao desse mesmo barro, e torna, por conse- 
quencia, improvaveis as suas proposÌ9oes, sobre as quaes se nSo pode 
formar um juizo seguro. 

Sendo, pois, este o resultado da conferencia que tiveram os depu- 
tados informantes com o inventor da nova lou9a, passaram ob mesmr»s 
deputados a averiguar o estado e progressos da sua manufaetura. 
assaz duvidosos, pela renhida contesta9So que offerecem os differente? 
calculos e avalia9oe8 da sua receita e despesa; e, para este effeito. 
mandaram que respondesse, a vista de tudo, o guarda-livros da direc- 
9ào da Real Fabrica das Sedas, por ser aquelle a quem mais propria- 
mente podia corapetir a averigua92LO e exacto conhecimento d*esses 
mesmos calculos. 

dito-guarda llvros ouviu tambem o administrador da Real Fa- 
brica da Lou9a que, julgando compromettida a sua honra, pelo modo 
com que se ataca a conta das despesas por elle produzida, offereceu 
uma longa memoria, em que se propSe a provar que a mesma conta 
é real e verdadeira, nem podia deixar de o ser, porque n'ella se pro- 
cede com a maior singeleza, de parcella a parcella, indicando-se os jor- 
naes, os feitios, os materiaos, os combustiveis e os carretos, que real- 
mente se pagaram e forara indispensaveis ; que, pelo contrario, a conta 
dada, ou as emendas feitas pelo doutor José Bonifacio de Andrada, 



Archeologo Portugués 171 

f^onstituem um calcalo arbitrario, porque n'elle se trata do que era 
possivel, quando devera tratar-se do que era actual ; que, fazendo-se 
Il in exame imparcial, e comparada a despesa e a qualidade da nova 
lou^a com o prejo por que ella se pode vender, e com o prego que 
actualmente tem a louga de pò de pedra de Inglaterra, superior em 
qualidade, belleza e durajSo, nenhuma utilidade pode dar à Real 
Fazenda aquella manufactura, porque o povo se decidirà sempre pela 
lou^a ingleza, de menor prego e melhor qualidade. Sustenta està pro- 
posi 5S0, affirmando que novo inventor jà tivera em Castello Picào 
urna fabrica por sua conta, d'està mesma manufactura, a qual abando- 
nou e largou *, e, a serem possiveis os grandes interesses que inculca 
n'este fabrico, nao é crivel que ófFerecesse a maior parte d'elles & 
fazenda real, podendo gozal-os por intoiro, argumento este que faz 
desnecessario tudo o mais que se pode dizer em assumpto seraelhante. 
Requer que, para averiguagao da verdade, e para conhecimento da sua 
condueta irreprehensivel e das injurias atrozes com que offenderà o 
doutor Milagres dentro da mesma Fabrica Real, se nomeie um ministro 
que proceda conforme direito, ouvindo os officiaes e mais indivi- 
duos que nella se empregam; e concine pedindo, com a mais pro- 
funda submissSo, a Vessa Alteza Real a demissSo do seu emprego, por 
despacho e recompensa dos muitos annos que o tem servido. Està 
memoria que, por ser summamente longa e escripta com demasiada 
viveza, nao cabe nos termos e nos limites de uma consulta, sobe, com- 
tudo, & real presenga, porque n'olia se encerram, alem do que fica 
analysado e que unicamente respeita ao ponto de que se trata, algu- 
mas outras cousas dignas de attengSo, e relativas ao manejo actual 
da fabrica da louga pertencente à real fazenda, por onde se mostra 
que ella se nSo acha reduzida ao estado de imperfeigSo e de ignoran- 
cia que Ihe atribue o doutor José Bonifacio de Andrada. 

O guarda-livros da direcgSo da Real Fabrica das Sedas, apresen- 
tando està memoria, que offerece comò parte da sua resposta, insta 
igualmente pela exacgSto e certeza da conta das despesas dada pelo 
adminiatrador e purificada na contadoria, em que se diminuirà do seu 
total valor dos moveis e materiaes que ficaram uteis ; e diz que uma 



^ A fabrica de Castello PicSo (Lisboa) foi fundada em 1794, por Joao Bento 
da Silva Pereira e Luiz Antonio Alvarcs. (Junta do Conìinercio, liv. 26.*> de 
lìegisto, fol. 46). — Pertencia, em 1820, a Joao Moniz Vieira, que a tomara por 
1808, tendo estado devoluta mais de dez mezcs. (Junta do Commercio, liv. 44.° 
de Rec/isto, fol. 59). — A tentativa do dr. Milagres foi, portanto, anterior a 1808, 
tendo talvez precedido immediataanente aquelle interregno. 



semelhante conta, nem precisava de grande sciencia para se fazer, 
nem se distrahia com calculos e conjecturas do que poderia Ber e 
nào foi; que, para o ministro informante apoiar mais as preten^oes do 
doutor Milagres, apresenta, no capitalo segando da sua inforiiia9ao, 
urna conta do lucro que deve dar a lou9a da questa ; mas que, para 
este firn, igualmente se serve do seu calculo imaginario de despesa, 
comparado com a segunda avalia^So da dita lou9a, e por este modo 
deduz um lucro de 13 por cento d fazenda real, promettendo ainda 
maiores vantagens, logo que haja no seu fabrico os melhoramentos 
que deve ter, com mais economia nos jornaes e m^o-de-obra; que. 
visto negocio por està face, parece nKo ter contradic9So ; mas, quando 
se observe urna despesa que realmente se fez, e que excede essa 
mesma segunda avaliagSo da manufactura, em que ainda falta o valor 
do barro, entSo se evidenceia que o prejuizo deve ser em dobro do 
avanzo que se promette, calculando raesmo com a certeza de que a 
lou^a sera vendida pelo pre90 d'aquella avalia9ao; que nSo entrava na 
discussilo da sua boa ou ma qualidade, comparada com a que actual- 
mente se fabrica, porque nào tinha os necessarios conhecimentos chi- 
micos ; mas que tinha bastante experiencia do prompto consumo que 
està tem, apesar da grande abundancia de lou9a que tem vindo de 
Inglaterra e do seu commodo pre9o, sem sofFrer eropate na sua extrac- 
9^0, que talvez nXo tenha acontecido à lou9a que se manufactura 
no Porto, da inven9ào do doutor Vandelli, que o ministro informante 
reconhece superior a nova lou9a de que se trata; que, sendo, pois, a 
antiga lou9a da Fabrica da acceita9ao do publico, nSo óbstante o grau 
inferior a que se quer reduzir, e dando j untamente proporcionados 
interesses, iste bastaria para ser conservada; e que, nJlo sendo possivel 
que na mesma Fabrica se emprehenda a labora9So das duas difteren- 
tes qualidades do lou9a, por nJlo haver as accommoda9Ses necessarias. 
precisando-se, alem d'isso, de urna enorme despesa para a reforma de 
utensilios e de fornos, a fim de que essa labora9ao seja feita debaixo 
dos preceitos apontados pelo ministro informante, — por estes motivos 
Ihe parecia mais util para a fazenda de Vessa Alteza Real, mandar 
supprir ao novo inventor um sufficiente fundo para o seu estabeleci- 
mento, pertencendo-lhe, pela sua inven9ao, todos os avultados inte- 
resses que elle espera, porque assim se tem outras vezes praticado 
em casos aemelhantes, 

Instinido jisi&im o negocio j no i notila possi velj foi ìnelatado no iri^ 
bunal pelos doia depntadoa a queiti eetava aflecto, na conferencia ci»? 
1*J de julho. com as sua?^ obpr^rvagoea verbaes e por escripto; raa^^ 
quando so Iratava de organisai" a reapeeliva consultii, requer«u ti 




O Archeologo Portuguks 173 

leputado iuspector da contadoria, Manuel da Silva Franco, tempo 
[»ara. meditar melhor no negocio, do qiial disse que nào tinha conhe- 
:*ìniento, corno se fez saber a Vossa Alteza, por meio da representa^So 
jiie nesse mesmo dia subiu a. sua real presenta; e, continuando-se 
todos este papeis ao refendo deputado, apreaentou elle, na conferencia 
le 26 de agosto, urna nova proposi^So ou i-equeriiuento, por escripto, 
eujo teor é o seguinte: 

«Seiihor. — Lendo-se em junta d'este tribunal urna minuta para a 

«consulta a que se procede em observancia do regio aviso de 25 de 

afevereiro deste anno, sobre as- pretenjoes do doutor Joaquim Rodri- 

*giies Miiagres, a respeito da lou9a de sua invenySo, eu me escu- 

«sei de a subscrever, por nSo ter side presente a delibera9sìo, e 

aiiem ter visto os papeis relati vos a este negocio, os quaes depois 

«me foram remettidos, e os tenho agora examinado. Para methor 

«me instruir da materia, me dirigi pessoalmente a Real Fabrica da 

«Louya do Rato, onde observei, nao so as loujas da nova inven- 

c<^^o, fabricadas pelo dito inventor, mas tambem aquellas que até 

aagora se tem costumado fabricar naquella Fabrica; vi os fornos, aa 

teasas de laboratorio, os armazens, e todo o edificio. regio aviso 

cuianda que a Real Junta consulte sobre tudo o que Ihe parecer, 

cremettendo-lhe as consultas da direc9ào da Fabrica das Sedas sobre 

«este objecto, as respostas e exames propostos e praticados, e a 

«informatilo do desembargador José Bonifacio de Andrada, sobre a 

«qual se mandou ao administrador da Fabrica da Louga e ao guarda- 

«livros da Fabrica da Seda que respondessem; e estes, em suas res- 

cpostas, propSem diversas duvidas, nSo so na parte economica, util ou 

«dispendiosa, mas tambera na theoria da materia. Requeiro, para mais 

»Beguramente ajuizar, que de novo se mande ouvir aquelle mesmo 

«ministro informante, sobre o que accresceu ou se duvidou nas respos- 

«tas, e mais papeis que, depois da sua informa9^o, se tem ajuntado, 

a dando* se vista a final ao conselheiro procurador fiscal, que deve 

«responder, para, em vista de tudo, eu poder formar o meu voto com 

aaquelle conhecimento que se requer. Lisboa, 26 de agosto de 1813 = 

t Manuel da Silva Franco». 

O tribunal n^ assentiu, nem podia assentir, a semelhante propo- 
8Ì950, porque, achando-se este negocio multo recommendado por Vossa 
Alteza Real, e mandado expedir sem perda de tempo, pelos avisos da 
Secretaria d'Estado dos Negocios do Reino, de 25 de maio e 30 de 
junho do corrente anno, era assàz visivel que, da nova informa9So, 
estemporaneamente pedida, longe de se apurar conhecimento da ver- 
dade, deveriam sómente resultar novas demoras, calculos aerios sobre 



174 O Asscsemjìj>Vj Fùmic^^ct» 



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f. ,- T-r .:. . .. 'Air-. i^kUi }--:.,- c%al.^],» «i/ ;i ln^liistrador da Fabrica dt- 

• ìi^yy. i.'iL yr.'-n *!.' :nv-:.: r òi* e». va I.^..a, «.a do desembargaòur 
il;.: fTZLSi.Lt'^: e l^o cirL^a ù«e s^ làzer LvULTel a ^xigcncia de premio. 

«A j-rl:ii*rira rt'ii.u:.era«;à'> d»^ inveni-r e*tà no interesàe publieo, e 
«do tstaà». Verin.-aàu ti^i^, miiica o b-^ci e:*iadlo pjde recear a rtcum- 
«prL-a 'la in>iiilrì '':Lt'ia du £«jbt:rano pelus seos trabdUios e ideas. U 
«0/4'r di* -oire de outra B«»rle. ou hLu lem a generosidade do pairiw- 

• lirAiMO^ ou pr'/^:ede por ^'^tas n^tn*»» lib^raes. Nàu entro na questàu 
«>K; é do iiiteresée do E:^t«tJo o esiabtrlccimt^cto das fabricas por conta 
«da fazenda real. ii«:m lut: couiptrte n este logar u deàenTolvimento Ais 
«uiaxiinaii da atitlimetica poliiica sobre um ponto lào delicado. OqiK 
«ru^; moétra a exp^.ri^ncia é qoe eilas d«jrescein nas mlos dos partìcu- 
«lar^;», quando tem a bem eutendida protec9JU) do governo. Guiado por 
cesta p^ri^ua-sào, e eiugindo-nie ao negocio que se nos manda consul- 
f tar, direi que entt^Ddo, segundo as minhas escassas luzes em materia 
«tao importante. Coneta-me, pela fé do administrador da Fabrica da 
cl^uya do Rato, e por informayòe3 que proeurei, que este estabeleci- 
«mento, no seu estado to»co, em que se ligura, dà Incros ao £stado^ 



* *Nào fi pOHsivel — diz José Accursio das Neves — calcular os lucros ou 
piirdiì» qw, a Keal Fabrica de Louca do Rato tem dado desde o seu principio, 
por eanh;i da coufusSo da etfcripturafào, e falla de liquida9ucs em algmis tenii»os. 
Tf.iìÌKf Ulna nota, extraliida Da Coutadoiia da Direceào, da qual consta que, desde 
22 de ,lu Ilio de 178>s, ifcto é, des^de a installaeao da Direceào actual, até 31 de 

JJezeiJibro de 1«12, deu lucro de 19:632^119 réis Concorreu muitopara 

a proHi^eridade da Fabrica, tieste periodo, a economici e regularidade coni que era 
regida pelo administrador Joào Anastacio Botelho. Desde entao, comefou a dar 
p<r<laH, nao »ó porque se consumiu muito dinheiro em inuteis cxperiencias e ten- 
tati va», rnas taxiib(;ui por motivos, que alterarao e desorganizarao o seu reginn^n 
econoruii^o ; e nào entrarci nestos motivos, porque poderia offender vivos e defun- 
ctoH. Kbtou pcrsuadido de que, bem administrada, a fabrica póde ainda susteiitar-se 
com vautagemo. 06. eU,, pp. 247 e 246. 



O Archeologo Portugoés 175 

«As fabricas nào utilisam tanto pelo alto pre§o das suas obras de 

«luxo, corno pelo quantidade das vendas, e extracySo dos seus arte- 

«factos. As fabricas de primeira necessidade, a que todos cLegam pelo 

«baixo prego dos seus productos, quando estao acreditadas na opiniào 

<do publicOj téem urna sahida prompta, e fazem o seu interesse pela 

« multìplicidade dos pequenos ganhos, que nao tardam a realisar os 

aeapìtaes da sua lundayào. Urna fabriea, por exemplo, de louga ordina- 

«ria demanda poucos fundos, mas vende a sua fazenda sem demora; 

«ganha pouco, absoiutamente fatando; mas ganha muito, poj-que os 

«seus ganhos sSo proporcionaes aos fundos, e porque os multiplica 

«muitas vezes. Uma fabriea de porcelana ou de faianga superior, 

a pelo contrario, pede grandes avangos e vende pouco, porque so os 

«compradores opulentos podem consumir as suas obras. Ainda que 

<iOs ganhos das suas vendas sejam grandes, nào podem resistir ao 

aempate dos fundos, porque sào poucos, nem, por conseguinte, utili- 

«sar o emprehendedor. Foi assim que a Inglaterra, conseguindo a 

«introduc9ào da sua louya de pò de pedra em Franga, e admittindo as 

«porcelanas d'està, Ihe deu um grande golpe neste artigo, porque, por 

6 cada servigo de porcelana franceza que se gastava em Inglaterra, 

aiam milhares d'elles de pò de pedra para Franga. A està, pelo seu 

«baixo prego, todos chegavam; àquella, so a riqueza dos grandes. 

«Applicando estas nogoes ao negocio, sou de parecer que a insti- 
«tuigào da Fabriea do Rato se nào deve alterar na qualidade da bua 
alouga, porque é certa a sua extracgào, e conhecido o proveito d'este 
I estabelecimento ; porque teda a alteragào ou mudanga iria entender 
«com gesto do publico, e maior numero de consumidores, industria 
«dos seus operarios, e necessidade talvez d'outros novos, o que sup- 
ap5e novas despezas e interrupgSo de trabalhos, perdendo-se imme- 
«diatamente lucros certos por ganhos duvidosos, a que se nSo deve 
«arriscar a fazenda real. Nào digo, por iste, que està Fabriea nSo 
«deve cuidar de todos os melos de economia, e de perfeigào d'essa 
«mesma qualidade de sua louga; mas, para isso, nào é preciso entre- 
«gar-se cegamente ao regimen d'um ehamado inventor, que tao afin- 
«cadamente esconde os seus processos, que nào dà nenhuma garantia 
«pelo sucesso da sua descoberta, e que, segundo a informagào do 
cadministrador, jà viu mallogradas as suas tentativas no estabeleci- 
«mento que projectou em Castello Picào, — sorte a que nào deve 
«expor-se a Fabriea do Rato, porque a sua ruina nào seria facil repa- 
«rar-se ; muito mais quando, sem dependencia de segredos, bastam os 
«progressos conhecidos da arte para levar a sua louga a perfeigào de 
eque é susceptivel a sua qualidade. 



17G O Arciikologo Portugués 

aNSo desfago, comtudo, na invengao do doutor Milagrcs, porqn- 
«nào tenho conhecimentos chimicos, nein elle a tem descoberto; mas. 
«nein pelos pre90s, nem pela qualidade, de que ìnformam os peritu> 
«expertos, Ihe vejo as vantagens que elle agigauta, e é por iato quc 
«me cmnpre julgar. 

«Se elle se contenta com a quarta parte do ganho da sua einpreza. 
«quc tanto abona, parece-me que seria mais prudente e acertad»' 
ceder- Ihe todos os seus proveitos, outorgar-lhe um privilegio por 
«tempo indelinido ou limitado, e que Sua Alteza Real Ihe concedesse 
«as isen9oes que fossem compativeis com a natureza do seu estabele- 
«cimcnto, sem comprometter a permanencia da Fabrica do Rato nem 
«onerar ou expor a fazenda real -a um project© que pode ger sobre- 
«maneira prejudicial. 

«Nào Ihe faltarfto, d'està fórma, socios que Ihe adiantem fundos. 
«ficando a seu cargo, persuadidos de interesses reaes, que é o estimalo 
«que sempre anima a semelhantes especulagdes. A Fabrica lleal da 
«Seda, a cujo pezo se iria por està nova empreza, nao me consta que 
«esteja no melhor estado de prosperidade ; os seus capitaes téem 
«applicajSes enormes para as ferrarias e minas de carvào de pedra. 
acujus resultados ignoro, e nSo sSLo da minha competencia. 

«As cncommendas que a corte tem pedido do Rio de Janeiro sào 
«de grande importancia. Tudo isto tko l'undos que Ihe faltam para a 
«sua labora9ao, e que necessariamente a devem. restringir nos seus 
«trabalhos, de que depende a sua subsistencia. Carregar aste estabe- 
«lecimento com novas despezas e applicajòes, sera nào so augmenUr 
«OS meios da sua decadencia, mas expol-o a nao poder aviar as 
«encommendas de Sua Alteza Keal, no que se deve por o maior 
«empenho e cuidado. 

«À vista, pois, d'estas observa9oes, penso que sSo indeferiveis os 
«requerimentos do doutor Milagres por conta da fazenda real, que, 
«alias, é digno da protec9ào do governo, emprehendendo a fabrica 
«à sua custa, e de alguma sociedade particular, para quem sejam 
ctodas as suas utilidades. 

«Este é meu parecer, que dou por escripto, para se incorporar 
«na consulta. Sua Alteza Keal determinarà o que for do seu agrado. 
«Lisboa, 13 de setembro de lSVò. = Antonio José da Motta. 

A vista de tudo o que fica exposto, e em conformidade com os 
sentimentos dos deputados informantes, parece à Real Junta que. 
nao havendo na Fabrica do Rato, nem as commodidades, nem as 
officinas, que se requerem para nella se manufacturarem, ao mesmo 
tempo, a louga antiga e a moderna da nova invenjSo do doutur 



Archeologo Portugués 177 

Milagres, seria contra toda a razSo arruinar e extinguìr urna manu- 
factiira que tem a acceita9ào do povo e um prompto consumo, com 
interesse permanente da real fazenda, para tentar estabelecimento 
de um fabrico duvidoso e contingente, tanto nos seus lucros comò 
na sua acceitagSo, n^o sendo compativeis com o estado dos cofres 
que administra a direc9Xo da Real Fabrica das Sedas os avan90s 
e fornecimentos necessarios para semelhantes empresas ; que, se a 
inven93lo de que se trata é, na realidade, digna e capaz de produzir 
grandes vantagens, pode o inventor fazer este estabelecimento por 
sua conta propria, ou procurar socios, que nuncafaltam, principalmente 
no estado actual dos tempos, em que a reducgSo do commercio offe- 
rece aos capitalistas multo poucos meios para o gyro dos seus cabe- 
daes ; e escusa repartir essas vantagens com a fazenda real, exigindo 
com antecipajSo ordenados, gra9as e mercès, pois so podem compe- 
tir-lhe as que se acham conoedidas pelo alvarà de 28 de abril de 
1809*, com as quaes deve prosperar a sua manufactura, se. ella se 
apresentar ao pubiico com aquelle merecimento de que o mesmo 
publico é sempre o juiz mais imparcial. 

Vessa Alteza Real, porém, sobre tudo mandarà o que fór servido. 

Real Junta do Commercio, em 28 de setembro de 1813. 

Liv. 37.« de Eegisto (1813-1814), fl. 75 v a 86 v. 



* O alvarà, com for9a de lei, de 28 de Abril de 1809 ezimfa de direitos de 
entrada as materias-primas empregadas em qualquer manufactura, perdoando 
tambem os direitos a que porventura fossem obrigados os generos e prodiiC9Òe8 
nacionaes adquiridos por fabricantes para consumo das suas iudnstrias ; — isen- 
tava todas as manufacturas portuguesas de direitos de exportafSo ; e as do reìno, 
de direitos de entrada no Brasil e nos outros dominios de Portugal ; — determi- 
nava que 08 fardamentos do exercito fossem comprados às nossas fabricas ; — 
estabelecia que se moderasse cuidadosamente o nùmero de recrutas nos logares 
onde se reconhecesse que a agricultura e as indastrias careciam de bra90s; — 
ordenava que da loteria nacioual do estado se applicassem annualmente sessenta 
mil cruzados, corno dom gratuito, a favor das industrias que mais necessitassem 
de tal soccorro, particularizando as de la, algodfto, seda, ferro e 890; — concedia 
privilegio czclusivo por quatorze annos, aos inventores ou introductores de machi- 
nas e processos industriaes ; — e, finalmente, com o intuito de promover desen- 
volvimento da inarinha mercante, estatuia que pagassem apenas metade dos 
direitos fìxados, em todas as alfandegas portuguesas, os generos e materias-primas 
de que pudessem carecer os donos de novos navios para a construc^ào e arma9ao 
d'elles, uma vez que transporte d'esses artigos houvesse eido feito em embar- 
ca9oe8 nacionaes. 



178 Archeologo Portugués 



tJm numisma portugrués 

O meu amìgo Dr. A. C. posane um numisma interessante debaìxo 
de difFerentes pontos de vista, que julgo inedito, e cuja descrip^acK 
que gentilmente me foi concedido publicar, é a seguinte : 





ALF-DEI-QRA-REX- Cortando a legenda e uma circum- 
ferencia de trafo continuo, que a acompanha inferiormente, cruz equi- 
latera! cantonada no primeiro e terceiro quadrantes por estrella de 
cinco raios, e no segundo e quarto por crescente. 

Keverso. — PORTUG AL ALG ARDII Dentro do circulo, 
limitado por circumferencia de trajo contìnuo, as quinas com cìdco 
arruellas dispostas em aspa nos escudetes. 

Peso 16,5 grftos. 

E de bolhSo com grande propor9So de cobre. NSo parece ser jeton, 
e evidentemente nSo é ensaio monetario. Tem todo os caracteristicos 
de ter sido moeda corrente. 



Reconhecendo a impossibilidade da determina9&o exacta dos di- 
nheiros dos AfFonsos da primeira dynastia, e nSo attrìbuindo a 
D. Affonso li typo algum dos conhecidos, afastando-se das classifi- 
cafSes dos numismatas, que anteriormente trataram do assumpto, e 
ainda da por elle proprio adoptada na sua Detcription des monnaies, 
médaillea et autrea objets d'art concemant Vhistoire portugaùe du tra- 
vati — Eocposition Universdle de 1867 à Paris, attribue o meu antigo 
mostre e amigo Sr. A. C. Teixeira de AragSo (Descripgào geral e hù- 
torica das mx>edas eunhadas com o nome dos reis, regentes e governa- 
dores de Portugal) todos os dinkeiros em que o nome de D. Affonso 
està estampado por extenso, e em que o monarcha se intitula apenas 
rei de Portugal, a D. Aflfonso III, classificando comò de D. AflFonso IV 
todos aquelles em que o nome do imperante està escripto em abrevia- 
tura, e é designado corno rei de Portugal e do Algarve, mostrando, aleni 
d'isto, as lettras das legendas uma transÌ92o para a aUema maiuscula- 



O Archeologo Poktugués 179 

Posto que se nfto se fundamente em bases indiscutivelmente solidas, 
por isso qne, recome^ando a cunhagem da nova moeda de D. Affonso III 
em 1 de Abril de 1270 (documento transcripto de Viterbo por Aragfto, 
ob. cit.j I, p. 344), nJo repugna acreditar que pudesse ser alterada a 
legenda, variar o caracter da lettra, e ainda accrescentar-se ao titulo 
•le rei de Portugal, o do Algarve, completamente sujeito ao dominio 
portugués havia alguns annos jà, quando de mais a mais nos docu- 
raentos se observa que desde 1268 P. Afifonso III se intitula Rex 
PortugcUiae et Algarbii (AragRo, ob. cit., i, p. 163), é forfoso confes- 
sar que a hypothese, em que assenta a determinasse dos differentes 
typoB dos dinheiros de D. AfFonso III e IV, proposta pelo meu amigo 
I)r. Teixeira de AragSlo, foi sagazmente estabelecida, e racionalmente 
deduzida^ e que nXo póde ser rejeitada sem que prova alguma positiva 
a invalide. 

Admittida pois a cUs8Ìfica9%o dos dinheiros por elle adoptada, 
attendendo à designasao de Affonso rei de Portugal e do Algarve, 
ao nùmero e disposi^So das arruellas nos escudetes das quinas, ao 
typo e mais caracteres e sobretudo à fórma da lettra das legendas 
— allema maitiscula, — e afastada por absurda a hypothese da sua 
cunhagem ser coeva de D. Affonso V, so póde o numisma objecto 
d'està nota, ser attribuido a D. Affonso IV, apesar das grandes diffe- 
renjas existentes entro o seu typo e os descriptos na Descripgào geral 
e historica das moedas cunhadas com o nome dos reis, regentes e gover- 
nadores de Portugal, do Sr. Aragio, l, pp. 170 e 171. 

E porém um typo completamente novo, o que nSo repugna admit- 
tir-se, vendo-se o que FernSo Lopes, na Chronica de D. Fernando, 
citado pelo Sr. Arag%o (ob. cit., i, p. 171), diz à cérca dos differentes 
dinheiros, mandados cunhar por D. Affonso IV. 

Sera um dinheiro novo, ou dinheiro Alfonsim, visto que tanto so 
distingue dos outros, que seriam os dinheiros velhos? 

Os competentes que decidam. 



Se o numisma de que se trata ó na realidade um dinheiro, e per- 
tence à epocha de D. Affonso IV, comò parece indiscutivel, do seu 
descobrimento, deduzem-se, entro outras, as seguintes interessantes 
conclusoes : 

a) A epocha do comè9o do emprègo, nas legendas monetarias, da 
formula Dei gratia Rex, que se suppunha ser a do reinado de D. Fer- 
nando, tem de ser recuada para o tempo de D. Affonso IV; 



180 O Archeologo Portugués 

b) Igaal conclus&o se deve admittir com reIa9So ao emprègo da lettra 
allemà maiuscvia nas mesmas legendas, o que alias parece confirmado 
pelo uso d'estes caracteres, observado nos sellos de D. AflFonso IV*; 

e) Como consequencia das duas antecedentes : no unico tjpo de 
moedas conliecido, e attrìbuido a D. Fedro I, em cujas legendas nio 
é empregada a letra aUernà maiusculaj nem a formula Dei grada Bex, 
sera liyao mais correcta ler D, onde o desejo de possuir um exemplar 
raro faz ler P, reintegrando D. Dinìs na posse d'aquillo, com que 
muitos querem brindar D. Fedro. 

E està eonclu8%o nada tem de estranha porque a yerdade é qae, 
em dezenas de dinheiros attribuidos a D. Fedro I, e mesmo no dese- 
nhado na Est. Ili, do tomo i, da obra do meu amigo Dr. Aragio, 
muitos numismatas tem visto D e nSo P no caracter, representativo 
do nome do Rei, quando despreoccupadamente os tem estudado. 

Lisboa, Janeiro de 1898. 

Manoel F. de Vargas 



<0s restos da humanidade s2o cinzas sagradas de grKo respeitoi. 

Fr. Manobl do Cbhaculo, Sisenando marti/r e Befa ma patria, 18(X>, 
Ms. da Bibliotheca Pùblica de Evora (dedicatoria). 



Antas do oonoelho de Alijó 

(Ofir. O Àrtk, Poh., u, 864) 

Paraflta 

A regifto dolmenica que vamos descrever muito succintamente, e 
mais com o fim de registar as riquezas archeologicas do concelho de 
Alijó, do que de apresentar um traballio completo, é depois da do 
concelho de Villa Fouca de Aguiar, para que chamou a attendo dos 
competentes o Rev.** P.« José Raphael Rodrigues, a mais rica do àis- 
tricto de Villa Real. 



* Um exemplar da moeda de D. Dinis que o Sr. Aragfio descreve na ob. di., i. 
p. 166, com n.o 1, e de cuja authenticidade duvida (tomo i, p. 167) foi encon- 
trado em Trancoso ha poucos annos. A lettra das legendas d'este typo é a— 
aUemà maiu9eula. 



O Archeologo Portugués 181 

Com firn de facilitar o reconhecimento das antas que podem dar 
algnmas reliquias de antigos tempos, no mappa jiinto vSo ìndicadas 
com signaes as antas j& exploradas, as por explorar e as completa- 
mentes destruidas. 

Nas exploradas nfto se fizeram trabalhos senSo nas crjptas ou ca- 
maras, e nfto se tocou nem nas galerias nem nos tumulos, a nSo ser 
noe pontos em que se atacaram os esteios para abrir o recinto formado 
por esteSy com o firn de tornar mais rapida a limpeza da camara. 

Todas as antas conhecidas no termo de Parafita formam quatro 
grupos: o 1.^ composto de duas apenas^ situadas na ribeira; o 2.® na 
veiga de Parafita, o mais importante ; o 3.® no monte ao poente e sul 
da veiga, e continuo a està; o 4.^ no monte do Cardo, ao poente da 
veiga. 

l.<* grnpo 

Ao lado esquerdo do caminho vicinai de Parafita para Jurjaes, a 
distancia de 1 kilometro de Parafita, no sitio denominado Cabe90 do 
Bique, encoutram-se duas antas, distantes urna da outra uns 50 me- 
tros. A primeira, indo de Parafita, é constituida por ciuco esteios, de 
dimensSes, iguaes às da maior parte das antas da regiSo, faltando 
para a camara ostar completa um esteio e a tampa. 

Està anta apresenta ainda parte da galeria orientada de NO. para 
SE., parte do tumulus, e dista do caminho uns 10 metros, e da 
estrada real de Villa Real a Mirandella 1:500 metros. 

A segunda, que dista da antecedente 60 metros, formada por uma 
mamoa de 10 metros de diametro, era constituida por seis esteios, 
dos quaes falta um, e por uma galeria dirigida NOE. a SE., comò 
a da primeira. 

Nenhuma das antas resistiu aos roubadores de thesouros. 

É naturai que haja mais antas neste ponto, mas nSo nos foi pos- 

sivel procurà-las. 

2.« grnpo 

A primeira vez que fomos esaminar as madorras ou inadoma», 
comò Ihes chamam os povos de Parafita e vizinhos d'estes, encontrà- 
mos quatorze antas, todas mais ou menos devassadas, e duas quasi 
destruidas por causa dos trabalhos da cultura do centeio. 

Ao visitante apresenta- se-lhe, logo que chega ao alto da veiga, o 
espectaculo de dois grandes ajuntamentos de terra e pedras meudas, 
cobertas de tojo, fetos e queirogas, — as madomaè, tendo a pequenas 
distancias outros ajuntamentos de menores dimensSes, ainda que gran- 
des, comparados com as mamoas de outros pontos do districto. 



182 O Archeologo Portugués 

Ab madomas estSto sìtuadas na parte maÌB elevada da veiga, e 
numa posigSo tal; que dominam os terrenos accidentados de nascente, 
sul e poente, descobrindo-se, pertanto, a moitos kilometros, dos con- 
celhos de Alijó, Mur§a e Villa Keal. 

Seguindo na descrip92o rapida das antas d'este grnpo a sua dis- 
posijfto na carta chorpgraphica junta, encontra-se : 

A) Ad lado direito do caminho da Gargossa, que se dirige de Pa- 
rafita para o Populo, com a parte da mamoa que fica voltada para 
o norte e nascente, cortada pelo trilho dos carros, urna anta das 
maiores da regiSlo, a qual era constìtuida por cito esteios, dos quaes 
dois estSo tombadoB, tres faltam e tres estSo em pé, solidamente 
firmados, com urna inclinafllo para o centro da crypta de 45 gmus. 

Tanto OS esteios tombados, corno os que estSo em pé, sSo dos 
maiores que temos encontrado, sendo a sua altura de 2"", 70, a espes- 
sura de 0'",35 a (^,40 e a largura de 1™,85. 

NSo se encontra a tampa nem a galeria, que parece estar intacta, 
em razSo da mamoa ter side atacada pelos lados de N. e SOE., e 
que tem a orientagào commum na regimo. 

Apesar de nSo ser completa a explora^lto da camara, por nXo ter 
side possivel remover um dos monolithos tombados para dentro d'ella, 
pudemos colher: 

1.^ Uma frecha de silex negra, perfeitamente conservada e de 
lima fórma que nRo eneontramos na obra de Estacio da Veiga^ tendo 
de comprimente 0",045, de espessura na parte mais grossa 0",007, de 
largura na parte mais larga 0'°,27. (D^esta frecha vae um desenho 
feito com todo o rigor pelo professor livre de desenho e meu amigo e 
companheiro nas exploragoes, Guilhermino Gomes, a quem devo este 
servÌ90 e muitos outros da mesma especie. (Pig. 1). 

2.® Um fragmento de uma serra de silex branca, de 0'",04 de 
comprimente, de 0",28 de largura e 0™,003 de espessura na parte 
mais grossa, tendo uma das faces lisa e a outra com duas facetas re- 
gulares e os bordos com dentes bem visiveis. 

3." Um machado (ou formfto de dois gumes?) de schisto ardosiano 
cinzento, tendo de comprimente 0'",180, de largura na extremidade mais 
larga O'^jOSO, e 0",035 na mais estreita e CP,53 na parte mais espessa, 
apresentando duas faces oppostas perfeitamente polidas e desengros- 
sadas de maneira que fonnam um ellipsoide, e na extremidade mais 
larga um gume afiadissimo e de fórma arqueada, e na parte mais es- 
treita outra superficie convexa, que parece ter side cortante tambem, 
mas que se encontra com tres depressòes multo fundas e irregulares, 
devidas a fracturas nSo recentes, e duas outras faces perpendiculares 



O Archeologo Portugués 183 

em teda a extensSo às primeiras, por polir, menos em alguns centi- 
metros na extreraidade menos larga, unica parte do instrumento com- 
pletamente polido, notando-se ainda quo uma d'estas duas faces tem 
lima curvatura naturai bem pronunciada (Fig. 2). 

4.° Uma goiva de 0",22 de comprimento, de 0",055 de diametro,- 
de fórma cjlindrica, de schisto amarellado, unicamente polido na parte 
cortante. 

5.^ Uma enxó de schisto acinzentado, com algumas manchas ama- 
relladas nas duas faces, em fórma de pyramide truncada, de 0™,097 
de comprimento, de 0'°,045 de largura na parte cortante e 0'",010 na 
cxtremidade opposta, de 0*^,15 de espessura, sendo a faceta cortante 
feita à custa da face superior, e sendo a liga9So dos bordos com as 
faces da enxó um angulo recto. 

6.® Um machado truncado (ou formSo?) de pedra igual à do obje- 
cto descripto no n.** 3.°, tendo actualmente de comprimento 0™,150 e 
0™,005 de largura, e na parte mais espessa 0''*,045 de uma fórma in- 
teìramente semelhantc à d'aquelle. 

7.° Um instrumento de schisto, de cor igual à dos n.*^* 3.® e 6.®, 
de fórma de uma pyramide pentagonal truncada, pouco regular, a nSo 
ser em duas faces, que foram desengrossadas e polidas de modo que 
dUo um instrumento com uma das faces da parte cortante de fórma 
convexa, parecendo que a face opposta a està era plana e que houve 
uma fractura que a tornou, comò se ve actualmente, concava, ou que 
havia primitivamente uma coneavidade naturai de quo se serviu o fa- 
bricante para formar uma goiva, sendo certo que, se o instrumento 
era machado, oste tinha o gnme com uma face convexa e outra con- 
cava ou plana, e, se era goiva, està n%o tinha a parte concava do gume 
polida, limitando-se o fabricante a polir com todo o cuidado o ter90 
inferior das duas faces, que a cima dissemos serem regulares, o ter9o 
inferior de uma das lateraes, parte da peripheria da extremidade es- 
treita e as partes salientes do corpo do instrumento. (Fig. 3). 

8.® Uma faca forte de silex branca, de 0",180 de comprimento, de 
0°^,039 de largura na parte mais larga e 0"",005 de espessura, com uma 
face plana e outra com tres facetas com ondulaySes bem pronunciadas, 
n3Lo terminando em penta nas extremidades, e de bordos cortantes. 
9." Uma faca forte, com uma das faces lisa e outra com duas fa- 
cetas de ondula95e8 mais fundas, do que as do n.° 8.*^, de 0",160 de 
comprimento, de 0",032 de largura e 0™,008 de espessura com as ex- 
tremidades da mesma largura que o corpo. 

10.* Outra faca de silex, de 0™,190 de comprimento, de 0",033 
de largura e 0,007 de espessura, a mais perfeita das tres, com uma 



184 Archeologo Pobtugués 

das faces lisa e a Outra eom tres facetas quasi lisas e de bordoB cor- 
tantes. 

11.® Um espheroide de quartzo, de 0"',100 de diametro, seni si- 
gnal de ter sido polido, mostrando pelo contrario vestigios de fractu- 
ras em mùitos ponto», podendo ser um percutor ou arma. 

12.® Um fragmento de um prisma de schisto acinzentado, com 
manchas avermelhadas em varios pontos, quadrilatero, de faces poli- 
das, de angulos abatidos talvez pelo attrito, parecendo ter sido pillLo 
de gral ou bumidor, de 0'°,015 de altura e 0",07 de largo, 

13.® Um espheroide de schisto ardosiano, de c6r mais carregada 
do que a dos outros instrumentos, de 0™,110 de diametro, nSo polido, 
a nSo ser em dois pontos oppostos que se prestam a poder iser agar- 
rado por elles, o qual póde ser um percutor ou um desengrossador. 

14.® Um parallelipipedo irregular, de schisto ardosiano, azulado, 
de 0",120, no maior comprimente, de 0"*,057 na maior largura, com 
duas depressSes angulares a todo o comprimente das faces mais lar- 
gas, nSo se encontrando senSo numa das extremidades signal evi- 
dente de ter servido de alisador. 

15.® Dois crystaes de rocha de seis faces, tendo um de compri- 
mento O^jOSS, de largura 0",035, e outro de 0™,073 de comprimente 
e 0^,033 de largura. 

16.® Varios fragmentes de louga mal cozida, de 0",004 de espes- 
sura, formados todos menos um, que é de argilla vermelha, por ar- 
gilla negra que fórma uma camada centrai coberta por outras duas de 
c8r acinzentada. 

17,® Duas pedrinhas de quartzo (?) de fórma elliptica, tendo a 
maior de comprimente 0'",035 e de largura 0",027, e a mais pequena 
0™,038 de comprimente e 0™,028 de largura, cujos fins ignoramos. 

18.® Varios peda90s de carvSo vegetai de o6r multo escura. 

Passando às antas que estSo situadas ao longo da estrada do Po- 
pulo para Àsnella, a maior ou menor distancia, mas muito proximas 
todas, come se póde ver na carta chorographica junta, encontra-se : 

B) Uma anta completamente destruida pelos trabalhos agricolas^ 
da qual resta apenas uma elevagSo do terreno com a configura9So da 
mamoa. 

(7) Restos de uma mam6a e um esteio de pequenas dimensoes, 
meio caido. 

D) Um grande tumulo de 16 a 18 metros de diametro, com sete 
monolithos descobertos pela extremidade superior, com a crypta 
aberta. 



O Archeologo Portugùés 185 

J5) Outro tumulo ainda maior do que o antecedente, com oito gran- 
des monolithos nas condiyoes dos do n.° 3.®, inadorna do Fiolhoso, de- 
vassado, assim corno o outro. 

F) Urna mamoa de 8 a 9 metros de diametro, sem tampa e com 
OS esteios à vista pelo extremidade Buperior. 

O) A iiì,adonia grande, com um diametro de 30 metros approxi- 
madamente, 4 a 4,5 de alto acima do terreno adjacente. 

Este tumulo foi atacado na primavera de 1896 pelos habitantes de 
Parafita, levados pelas esperangas de descobrirem thesouros encanta- 
doa pelos Mouros. 

Trabalhou com grande enthusiasmo o povo todo durante més e 
melo de baixo da direc9ao do regedor da freguesia, e com o traballio 
de cento e tantos jomaes conseguìram abrir um corte de 1",50 de 
largura, de 14 a 15 metros de comprimente, come9ando na periphe- 
ria do tumuhis e terminando no centro na direc^So de SE. a NOE., 
desviando-se muito da orienta9ao das galerias das antas d'està regimo 
dolmenica. 

Como fructo d'estes trabalhos n8o encontraram senSo : 
«) Um pilJo de gral ou a pedra de triturar grSo hos moinhos pri- 
mitìvos, que o regedor baptizou com o nome de martello e que con- 
servava em seu poder, corno um objecto de valor incalculavel, da 
fórma de um cylindro de secjSo elliptica de 0'",110 de altura e 0*",060 
de largura no eixo maior, e 0'",040 no menor, liso principalmente numa 
das faces que parece ser a que pelo attrito na mó trituraria os grSos 
dos cereaes, e que se apresenta bastante gasta. 

b) Uma pedra de granito, de grSo um pouco grosso, de 0",48 de 
comprimente, de 0",4(X) de largura e C^jlS de espessura, excavada 
numa das faces em resultado do attrito de corpos duros, parecendo 
uma das mós primitivas, pesando 85 kilogrammas. 

r) Uma fìada de pequenas lousas quasi iguaes/dìrigidas com uma 
pouco sensivel obliquidade da peripheria para o centro do tumulo e a 
grande profundidade no coi-te que era atravessado pela fiada de pe- 
dras. 

d) Uma camada de argilla de cor escura, que deu que pensar aos 
exploradores de Parafita. 

No centro do tumulo nSo se viu o menor vestigio de camara ou 
camaras, nem da galeria que, a existir, deixaram A direita os de Pa- 
rafila. Nem se obtiveram informagSes seguras à cérca da remo9So de 
qualquer pedra da madorna grande. 

Em vista do que observàmos e das informa93es discordes que nos 
deram, nào nos atrevemos a aflSrmar que o tumulo fosse explorado jà 



18G Archeologo Pobtuqués 

ha muitos annos pelos sonhadores com thesouros encantados e que 
destruissem o dolmen, aproveitando as pedras para construcgSes ou 
para alguma eira, nem a aventar a lembranfa de que a camara ou 
camaras e galeria estejam num nivel inferior ao da base actual do tu- 
mulo, e, portanto, ao do fundo do corte, lembran$a a que dà certo 
péso a circumstancìa de, a muito pequena distancia da madoma para 
lado do naBcente, se encontrarem duas antas devassadas, num ni- 
vel muito inferior ao do sopé do comoro formado pelo tumulo. 

So com trabalhos dispendiosos e dirigidos por pessoa competente 
se poderà resolver a difficuldade. 

E) Urna anta destruida de que se ve o locai da camara e num 
nivel muito inferior ao da madoma grande, ainda que distante d'està 
poucos metros, a nascente. 

F) Restos de outra anta nas mesmas condÌ93e8, e de qiie se ve 
um esteio tombado. 

G) Urna anta de dimensSes ordinarias, com seis esteios, dea quaes 
BÓ um se encontra direito, dando, quando se esplorava, um bello ma- 
chado pequeno, perfeitamente polido, de c6r esverdeada, espalmado, 
qual, assìm comò a goiva da anta {a), destruiram, segundo nos in- 
formam, pretendendo derretè-lo n'um forno para verem se contitìha 
curo ou prata! 

H) Segunda madoma grande, de dimensSes um pouco menores do 
que as do n.° 6.°, atacada uma direc9ao opposta à d'aquella, des- 
viandose igualmente da orienta5Ìo da galeria. Gastaram os explora- 
dores muitos dias e nada encontraram. ^ 

As reflexòes que se nos oflfereceram em rela98o a outra sito appli- 
caveis a està. 

1) Uma pequena anta, muito proxima à do n.° 10.® e de nivel 
muito inferior, sem que haja grande declive no terreno, com ciuco es- 
teios estendidos no ch!lo e sem mamoa. 

J) Restos da mamoa de uma pequena anta, de que se ve a ca- 
vidade em que estava a camara no mesmo nivel em rela92o à do 
n.° 10.*^, que a anterior. 

K) Um pequeno dolmen, com uma mamoa de 6 a 7 metros de 
diametro, consti tuido por sete esteios de 2",30 de alto, 0",040 de 
largo e 0™,020 de espessura, formando uma camara tSo estreita que 
nSo deixava moverse à vontade um trabalhador dentro d'ella. 

Arrancados dois esteios e limpa a camara, verificou-se: 

a) Que a galeria de fracas propor93eB, em hai*moma com as do 
dolmen, era formada à entrada da camara por duas lousas de granito 
que faziam um angulo de vertice para fora e abertura para o lado da 



O Archeologo PoRTrouÉs 187 

camara, galeria qne a disto deixaria entrar um homem deitado e so- 
bre cujas loiisas assentaram dois esteios de menores dimensSes do que 
OS outros. 

b) Que fimdo da prypta era dividido horizontalmento por urna 
lousa de granito, da largura da camara e de 0™,1 de espessura, em 
dois compartimentos desiguaes, comejando o maior na lousa e termi- 
nando no vertice do dolmen e o menor comprehendendo o espajo en- 
tro a lousa e o fundo do dolmen (O^jS a 0°',35). 

Està divis&o na camara é a primeira que vimos, e parece-nos que 
representa duas epochas multo differentes no fabrico dos instrumen- 
tos nella encontradcs, e, portante, nas inhuma98e8 nella efFectuadas. 

Somos levados a està hjpothèse pela considerafSo de que na di- 
visSo superior se encontrou uma pequena lousa de granito, com pro- 
vàs evidentes de que o fabricante jà era um artista^ e duas facas de 
silex muito perfeitas, ao passo que na divisSo inferior uma enxó nSo 
tem nada mais polido do que a parte cortante e uma saliencia na ex- 
tremidade opposta a està, assim corno o pouco ou nenhum polido dos 
demais instrumentos menos um. 

Os objectos encontrados nesta anta, jà devassada e som tampa, 
foram : 

Na divisào superioi*: 

1.^ Uma lousa de granito de grXo meudo, de fórma quadrilatera, de 
0",280 de comprimente, de 0'",240 de largura e de 0™,04 de maior 
espessura no bordo mais grosso e O^jOS no bordo menos grosso, apre- 
sentando em ambas as faces ujia depressalo bastante fiinda da fórma 
de um circuito imperfeito, num dos bordos quatro cortes, abrangendo 
teda a espessura da pedra e no bordo opposto a este duas chanfra- 
duras profundas aos lados de uma saliencia de fórma de trapezio que 
podia entrar num cabo de madeira para se servirem do instrumento 
para fins que nSo é facil imaginar. 

D'està pedra vae desenho feito pelo sr. Guilhermino Gomes, e 
milito exacto, em que se nota uma falba na pedra, resultante de uma 
quebradura feita em Parafita, depoìs de tirada da anta. (Fig. 4). 

2.° Uma faca de silex muito perfeita, com uma das faces plana e 
lisa, com a opposta de tres facetas muito lisas e terminada em penta 
obliqua muito cortante, assim comò os bordos, tendo de comprimente 
O",085, de largura O'^jOlS e de espessura O^jOOS. 

3.° Tres fragmentos de uma faca que devia ter muito comprimente 
e, emquanto a fórma e perfeÌ92Lo, igual à anterior, quebrada na ceca- 
siSlo da explora9Ko e de que se perdeu um fragmento, que falta para 
se poder reconsti tuir soldando os fragmentos. 



188 O Archeologo Poetdquès 

4.® Um fragmento de pedra avèrmelhada qae nos parece de quartzo 
vermeiho e que póde ser um polidor, tendo de espessura 0"j013, de 
largura 0°*,03 e de comprimento 0",04. 

Na diviato inferior: 

5.° Urna enxó de schisto cinzento, de 0'",130 de comprimento, de 
0™,045 de largura e 0'",020 de espessura, apresentando urna das fa- 
ces, a do lado da faceta cortante, concava, e a opposta convexa, de 
bordos perpendiculares às faces e apenas alisados naa saliencias, sendo 
a faceta cortante feita à custa da face anterior e do feitio das enxós 
actuaes e muito afiada. 

6.® Um machado em fórma de uma pyramide quadrilateravel, 
truncada, tendo por base um parallelogrammo, de gume afiadissimo, 
em arco de circulo, sendo a parte cortante feita pelo desengrossa- 
mento das duas faces, seguindo a diagonal do parallelogrammo, i^ 
se encontrando polido senSo na extremidade cortante e tendo de 
comprimento 0'°,160, de largura 0",050 e de espessura 0^,035. 

7.^ Um polidor de schisto ardosiano, de fórma de ama pyramide 
de base quadrilatera, truncada, muito irregular, e polido mais ou me- 
nos nas quatro faces apenas, tendo de altura 0"^,090, de largura na 
base inferior 0™,090 e de espessura O^.OSO. 

8.® Um fragmento de um cylindro de 860980 elliptica, que póde 
ter sido polidor, omeleta ou desengrossador, tendo o comprimento 
d'aquelle 0'°,070, de largura O^OGO e de espessura 0°»,023, e tendo 
parte da superficie opposta à fractura pouco polida. 

9.^ Seis pequenos crystaes de rocha hexagonaes, todos de peque- 
nas dimensòes. 

10.° Uma pequena lasca cortante de silex branca. 

11.*^ Um caco de fórma de um quadrado de 0",025 de lado nas 
condi^Ses dos cacos da anta A> 

12.® Um bello machado de silex de dimensSes diminutas, perfei- 
tamente polido (fig. 5), que nos parece ter caido da divismo superior. 

13.® Uma lasca cortante de quartzo yermelho, durissima. 

L) Uma anta das grandes d'este grupo, com uma mamoa de 16 
metros de diametro, com uma camara das maiores que temos encon- 
trado, formada por cito grandes monolithos, todos de pé menos um, 
que està estendido dentro, e sem tampa. 

Menciona-se està anta neste grupo, apesar de estar mais proxima 
da estrada do Populo para Alfarella, por ter a sua sède na veiga assim 
comò todos OS outros d'este grupo, os quaes na carta chorographica 
deviam ficar mais proximos do que vSo indicados, e todos dentro da 
planicie, que se ve bem na carta. 



Archeologo Pobtuguès 189 



8.<» grapo 

Entrain neste grupo apenas quatro antas que nSo foram explora- 
das por nós. SHo todas pequenas, jà nào tem mesa nenhuma d'ellas 
e no cimo das mamoas apontam as extremidades dos esteios. 

4.° grupo 

EstSo localizadas todas as antas d'este grupo no monte do Cario, 
a pequena dist^ncia da estrada que vae do Populo a Alfarella, e ne- 
nhuma estava intacta. 

£ quasi certo que o nùmero de antas é muito superior ao das que 
vaiQOs indicar. 

NSo nos foi possivel procurà-las por falta de tempo, mas suppo^ 
moB que hSo de apparecer, porque continua o terreno em circumstan- 
cias iguaes por muito kilometros, e ao longo d'està estrada que se pro- 
loBga até Villa-Pouca-de-Aguiar appareceram as que em tempo foram 
por n«8 mencionadas comò pertencente ao conceiho de Villa-Pouca-de- 
Aguiar. {Arch. Pori, n, 81 sqq.). 

Esquerda da estrada. 

A) Restos de uma mamoa com a deproBsSo no centro correspon- 
dente & camara^ cujas pedras foram empregadas por lavradores para 
fazer paredes. 

B) Uma anta reduzida a dois esteios, de dìmensSes medias, e & 
mamoa. 

C) Uma anta com cito monolithos grandes, de galeria orientada 
corno as outras, mamoa de 10 metros de diametro, dando os instru- 
mentos seguintes. 

1.® Um raspador de quartzo de 0",09 comprimente, de 0",075 de 
largura e de 0'",025 de espessura no bordo mais grosso, da fórma dos 
raspadores communs. 

2.^ Uma meia esphera de granito de 0°,075 de diametro, sem ser 
polida na face convexa e muito pouco lisa na face plana; 

3.® Uma pedra de mó de granito (?), de fórma de cylindro elli- 
ptico, com extremidades convexas, de 0™,110 de altura e 0",060 no 
eixo maior da ellipse, tendo na parte da superficie muito gasta pelo 
attrito, ao que parece. 

4.^ Uma pedra aparda9ada, de grande dureza, da fórma quasi de 
um rim, sondo perfeitamente polida nas duas faces e no bordo conve- 
xo, e por polir no bordo opposto ao convexo, de 0^,110 de compri- 
mente, de CP,075 de largura e CK",05 de espessura. 



190 Archeologo Portugués 

N2o no8 é faci! presumif o que seria està pedra que póde ter ser- 
vido de desengrossador, percutor ou alisador, ou talvez seria um eim- 
ples nucleo que nSo chegasse a ter a fórma de um instrumento de- 
finido. 

A facilidade de poder ser seguro pelo bordo por polir faz auppor 
que fosse um polidor e nSo percutor, por nfto apresentar pontas fra- 
cturadas em toda a superficie polida. 

D) Uma anta constituida por monolithos de grandes dimeneSes, 
principalmente em largura, de mamoa muito desfeita e de galena 
sem porta nem capa a cobri-la^ que apresenta digno de men(2o o se- 
rem as suas paredes curvilineas em vez de rectilineas, facto que so 
observàmos neutra anta do concelho de Villa Real^ que a seu tempo 
descrevemos com outras do concelho. 

Està anta forneceu-nos : 

1.^ Um instrumento de schisto ardosiano cinzento, que, att^dendo 
às dimensSes, parece mais um formio muito imperfeito do qne um 
machado. Tem a fórma de uma piramide de secgfto rectangular, com 
a extremidade mais larga de O'^yiMO de largura, cortante^ formada a 
custa das duas faces que foram desengrossadas a pequena distancia 
do gume e dos bordos, sondo muito pouco polida està extremidade, 
assim comò a opposta, que parece ter side fracturada em varios pon- 
tos pelo uso. 

As dimensSes d'este tosco instrumento sSo: 0",188 de altura, 
0^,045 largura na parte mais t^arga, 0°',020 de largura na parte mais 
estreita, 0™,030 de espessura no corpo e O^jOlS na extremidade mais 
estreita e que póde ter side cortante. 

2.^ Um espheroide de quartzo de C^jOO de diametro, de superfi- 
cie com pequenas facetas irregulares e por polir, póde ser um percu- 
tor ou arma de guerra. 

3.^ Ciuco crystaes de rocha, todos bexagonaeS; distinguindose 
dos outros que sSo pequenos em que tem de comprimente 0",085 e 
de espessura 0™,02. 

4.° Uma pedra irregular, aproximando-se na fórma de um prisma 
de quatro faces, com duas polidas mais ou menos e duas asperas e 
fracturadas, de schisto ardosiano azul, de 0",075 de altura, 0",Q5 de 
largura e 0°*,027 de espessura, que póde ter side um desengrossador 
ou polidor. 

E) Uma pequena anta reduzida a um pequeno esteio, de mamoa 
quasi destruida de todo e sem galeria. 

F) Uma anta coni dois esteios de dimensSes superiores às da ul- 
tima, e com a mamoa no mesmo estado. 



Archeologo Portugués 101 

G) Urna anta destraida, de quc resta apenas a cavidade em que 
esteve a camara e parte da mamoa. 

U) Urna anta de esteios, de 1™,80, dos quaes existem quatro tle 
pé e tres tombados, dando-se a circumstancia de n%o ser arredondada 
e OS esteios do lado da porta, em logar de serem ìmbricados, apre- 
sentarein a dÌ8posÌ9So h H • 

£9ta anta n^ se torna notavel so pela disposiySo dos esteios, mas 
ainda por dois instrumentos que n2lo vimos ainda neutra, e de qii^j 
vamos apresentar a descrip9S[o rapida, e o desenho: 

1.° Um cylindro de secf^o circular, de urna pedra dura que se nlLù 
classifica à primeira vista, de cor anegrada de 0",050 de alto e 0"',4() 
do diametro, com urna extremidade, de fórma hemispherica perfeita- 
mente polida, de cor amarellada e com brilho notavel, e a outra cor- 
tada circularmente até 0",007 de profundidade, com urna especie de 
mamraillo de 0^,023 de diametro, tambem polido e brilhante, da 
mesma cor, instrumento que parece ter servido para triturar mutc- 
rias corantes em algum gral de pequenas dimensoes. (Fig. 6). 

2.^ Outro instrumento de fórma de urna piramide de base rectt-^o- 
gular, troncada, com urna face plana e outra convexa, do bordos liga- 
dos às faces em angulos rectos, 'furado na extremidade mais estreita^ 
mostrando o buraco que a pedra foi atacada por ambas as faces para 
a feitura d'este, e apresentando no meio da face convexa um suKo 
quasi semi-circular de lado a lado, de 0™,015 de largura e 0",075 de 
profundidade, muito polido e com brilho no fundo e em parte dos 
lados, pareceodo devido ao attrito de corpos duros. 

A altura da pedra, quo faz lembrar à primeira vista um péso de 
barro de que usavam os romanos, é de 0™,080, a largura de 0'^/)45 
e a maior espessura de 0'",030. Pela coi* parece este instrumento de 
schisto, comò os da maior parte dos outros, e nào sabemos o que s^ja, 
nem até se sera da mesma epocha dos outros. (Fig. 7). 

I) Uma anta com tres esteios apenas, faltando os outros, agnini 
comò a mesa, 'q que deu : 

1.® Um machado de schisto ardosiano azulado, espalmado, de fór- 
ma de uma piramide rectangular, de bordos por polir, assim comò as 
faces, excepto nas duas extremidades, das quaes na mais larga era a 
faceta cortante formada pelo desengrossamento de ambas as facLs^ 
tendo de altura 0",10, de largura na parte mais larga 0"*,050 e de 
espessura 0'°,025. 

Era um bonito machado com os bordos desengrossados, de m^nlu 
a formarem uma ellipse truncada na extremidade opposta à parte ei>r- 
tante. 



r 



192 Archeologo Portugués 

2.^ Dois pequenos cacos da mesma subsfiancia das descriplosi tua^ 
multo mais grossos. . 

3.** Um fragmento de schisto ardosiano, que póde ter aldo um tm* 
pador, de 0"^,077 de comprimento, O^jOSO de largura na parte mais 
larga, de 0'",008 de altura, terminando numa ponta cortaote sem ti- 
gnai de ser polida. 

4.^ Espheroide de schisto ardosiano, de 0™,90 de diametro, de su- 
perficie escabrosa e por polir, que póde ter side um percutor ou arma 
de guerra. 

5.^ Um fragmento de um instrumento de schisto ardosiano^ do 
fórma prismatico-quadrangular, de duas faces polidas e de^m^r'^-r- - 
das numa das extremidades pelo attrito e com duas irregulares e evi- 
dentemente resultantes da fractura de instrumento volumoso ; tendo o 
fragmento de altura 0^,080 e de largura (r,030. 

6.^ Uma lasca de silex da fórma pyramidal de sec(3o quadrangu- 
lar, que póde ter sido um perfurador, muito gasto na ponta e que na 
base termina por uma aresta cortante muito aguda. 

7.^ Uma pequena pedra da fórma de um dente molar de uma bó 
raiz, de cor de pinhSo. 

8.® Um espheroide de schisto ardosiano de O'^jOSò no maior com- 
primento e 0"*,07 na maior largura, sem o menor slgnal de ter sido 
polido, e que póde ter sido um percutor ou arma de guerra. 

9.® Um pequeno fragmento de um instrumento polido de cor ne- 
gra, tendo fragmento a fórma de um parallelipipedo com tres fsuies 
polidas. 

K) Uma pequena mamoa apenas. 

L) Uma pequena mamoa à direita do caminho que vae do Populo 
a Àlfarella. 

M) Uma mamoa apenas, e pequena. 

N) O mesmo. 

0) mesmo. 

P) mesmo. 

A falta de tempo e de conhecimentos para uma explora9So mais 
completa reduzem este trabaiho a uma simples noticia e a chamar a 
atten$ào dos competentes para uma regimo dolmenica que, apesar de 
muito devassada, ainda assim é digna da atten9So dos homens da 
Boiencia. 

Villa Real de Tras-os-Montes, 27 de Mar9o de 1898. 

Henrique Botelho. 



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ARCnttEOLOGO PORTUGUÉS 193 



O territorio de «Anegia» 

Entre os annos de 875 e de 1090 encontra-se numerosas vezea 
citado nos diplomas dos Poriugalicie Monumenta Historica o territorio 
de Anegia, tSo cedo desapparecido, que mal vestigios temos d'elle mm 
seculos posteriores, estando esses mesmos poucos restos aniquilados 
tSo completamente nos nossos dias, que o nome de Anegia, que o ei a 
tambem da capital da rcgi3o, a custo pdde ser ìdentiiìcado com a 
moderna povoa9ao de Eja. 

Antes de entrar na exposÌ9Slo da linha divisoria do territorio de 
Anegia e das raz8es que militam em favor da localiza(SU) d'està pò- 
v^oajSo em E}a, é necessario fazer algumas considera(3es geraes sa- 
bre territorios e sobre a difficuldade que ha em determinar a frou- 
teira precisa d'elles. 

Os nomes de divisSes administrativas empregadas naquelles toin- 
pos, no interior da parte meridional da Galliza e septentrional da 
Lusitania, er?to os de territorium e terra, e em gran menor, quanto d 
frequencia, o de civitas, os quaes nomes com o tempo vierio a *ser 
substituidos pela denomina9So de conceiho {concilium) ou assembJeia 
em que se reuniam os grandes proprietarios das villas para resolverem 
as qnestSes que tocitvam aos interesses da respectiva regiSo. E nota- 
vel que muitos dos modernos concelhos e outros jà extinctos corres- 
pondem a antigos territorios e terras. 

É tal, porém, a confusalo que se encontra nos documentos citadog, 
na sua maioria de origem ecclesiastica, que, na parte que diz respeito 
aos limites dos territorios, nXo é raro encontrar^ num pequeno e8pai,^o 
de tempo, uma villa pertencente a varios territorios. Portante, quando 
se--tem em vista a reconstituÌ9SLo de determinado territorio, nSo nos 
devemos importar com o facto de as povoajSes que fazem parte d'elle, 
tambem se encontrarem dentro d'outros territorios. N%o é agora a 
occasi&o propria para tentar explicar este facto tSo geral. 

Assim se determinam os limites do territorio de Anegia, apesar 
de que outros territorios Ih'os disputavam. Tinha elle uma superfioitì 
razoavel e come9ando na parte superior do rio Ferreira conglobava o 
curso inferior dos rios Scusa e Tamega, depois passando o Douro ìa 
terminar a cérca de metade do rio Paiva, jà em piena Beira. Ex- 
pondo com mais minuciosidade, a fronteira de Anegia principiava nas 
proximidades do Ferreira, a cima alguma cousa de Vandoma, passava 
depois por Marecos e SoalhSLes e d'aqui descia até Sande, no Douro ^ 
por onde se alongava até Foz-do-Sousa, e entrando por este rio che- 

18 



,Ì94 O ASCHEOLOGO POETUGUÉ8 

gava até à confluencia do Ferreira, qual subia até ao tal ponto in- 
determinado onde come^&mos. Para àquem do Douro era milito pouco 
consideravel territorio de Anegia que comprehendia curso do Sar- 
doira -em teda a sua extens&O; parte do rio Paiva até Alvarenga, e 
.incluia ainda Villa Meli, na freguesia de Eapadanedo, e Beai. 

Dentro d'este perimetro encontravam-se as localidades importantes 
de Anegia e Aratrus (castro), alem dos mosteiros de Cette, Pa5o-de 
Sousa e Pendorada (Alpendurada) e da posiySo estrategica do castro 
do Vandoma*. Aratrus nio é hoje povoa5ao nenhuma; mas sim o 
nome de um monte que se encontra na especie de peninsula formada 
pelo Douro e Tamega. 

Em 1758 ainda se encontravam nelle algumas ruinas, que hoje por 
informajSo que tenho nSo sSo visiveis. Gonjunctamente apparece-nos 
a noticia de uma civitàs de Bemviver que se deve identificar com Ara- 
trus ^. Este nome de civitas so se póde entender pelo sentido antigo 
da palavra e n&o pelo de cidade que d'elle se originou phonetieamente. 
E eflFectivamente croio nunca ter existido uma povoa9ao exclusiva- 
mente cbamada Bemviver; nSo obstante assim se denominar, até 
multo porto de nós, um concelho que tinba a sua sède em Arìz (?). 
No norte de Portugal encontram-se ainda alguns concelhos cm que se 
dSo estas anomalias, denotando assim terem^se talvez foimado ex- 
pontaneamente. Em todo o caso póde considerar-se este concelho comò 
o ultimo resto do territorio de Anegia. As raz5es que se podem dar 
para a identificaf&o de Anegia em Eja sSLo de duas especies:.geogra- 
phicas e phoneticas. A razSo geograpbica diz-nos que no valle de 
Anegia estava a villa de Banius que sr. Gama Barros identificou 
com Santa Eulalia de Banho, existente no valle do Tamega.: sendo 
assim, Anegia estava junto d'este rio. E nSLo ostava fundada na pro- 
pria margem do rio, porque um documento falla-nos no porto civiiatis 
Anegie. A estas duas condÌ93es obedece a BÌtua9Sto da moderna fre- 
guesia de Eja. Quanto à razfto phonetica, este nome deriva-se facil- 
mente de Anegia por intermedio de Aeg{a,*Aeg{a ou *Ahegia e depois 
Hega (= Heja ou Eja) comò vem nas inquirÌ98es de 1258^. Ainda 



^ Tanto este nome corno o anterior de Cette -nfto tem rela^ào com as povoa- 
9068 francesas homonjmas. 

2 Corrobora iato a existencia em 1123 de um Caatellum nomine Bene vivere. 
Vid. DisserL, Ch. e Crit,, t. i, p. 247, l.« ed. de 1810. 

^ Port. Mon. Eist., p. 587. Verdade é que se encontra na epoca romana 
nome proprio de mulher Heia {Corp, Inscr. Lat., 11, p. 723), que nadà porém tera 
com este. 



L 



O Archeologo Pobtugués 195 

hoje é yulgar dizer-se a Eja, que a linguagem litteraria confundiu 
com o artigo, pronnneiando-se 8Ìmplezmente Eja. 

Cortavam o temtorio de Anegia oa rios Ferreira, Sonsa e Faiva, 
o primeiro servindo de divisoria do territorio de Portucale (com a 
sede em Cale, Golia ou Gaia) ; e ainda outros menores corno o Caval- 
ium, o do LadrSes, o Sardoira, etc. Douro dividia em duas partes 
desigaaes o territorio, ficando a parte maior na provincia ou comarca 
de Cntre*Douro-e-Minho e a menor na da Beira. Tamega corria, 
no seu curso inferior, pelo territorio, e servia nos tempoe das mais 
antigas InquirÌ95es de fronteira orientai à comarca do Minho, corno 
ainda hoje serve de divisoria aos concelhos de Penafiel e Marco-de- 
Canaveses. 

As montanhas mais importantes eram as de OrdintB, Petrosdlo, 
Genestaciolo, e Monte Muro. 

O territorio de Anegia està hoje dividido principalmente entro os 
concelhos de Penafiel e Marco-de-Canaveses, e na parte meridional 
divide-se entro os concelhos de Cinfàes, Castello-de-Paiva e Arouca 
pertencentes aos districtos beirSes de Aveiro {Alaveiro) e Viseu. 

Trafando num mappa os limites que se encontraram para o terri- 
torio da Anegia, nota-se que a capital d'elle ficava em excellente pò- 
8Ì9S0 e tal que, pela proximidade dos rios Douro, Tamega, Ladroes, 
Paiva, Sardoira e outros, os quaes todos provavelmente tinham pro- 
fundidade superior & que hoje tem, e corriam através de campos cober- 
tos de espessa vegeta9So e onde vi via numerosa popula98o, facil e 
commodamente se podia chegar aos extremos limite^ da sua peripheria. 
Os conventos de S. Pedro de Rebordanus ou Cotte, Pa9o-de-Sou8a e 
Pendorada davam-lhe certa importancia espiritual, e devido a elles 
podemos hoje alcan9ar um pequeno conhecimento d'aquelles tempos 
remotos com estudo dos documentos dos seus cartorios. A nobreza 
ou a colleotividade dos proprietarios agricolas era energica, e pertencia 
à robusta ra9a dos homens de Riba-Douro, que tanto lidaram pela sua 
independencia, nSo sendo banalmente que nome de Portugal, primi- 
tivamente dado ao territorio em volta da foz do Douro, se extendeu 
gradualmente até à foz do velho Odiana. 

Uma outra denomina9So parece ter tido territorio de Anegia e 
era a de Inter ambos riwdos (Douro e Tamega) comò se le na Disser- 
tagào XIX, de JoSo Pedro Ribeiro, onde se falla de Femam Mendez, 
pretor (alcaide) d'elle ^ Hoje a freguesia de Entre-Rios, onde ha impor* 



^ Disserta^ Chr<moloffiea$ e Hietarioas, t v, p. d5, 2.« ed. de 1896. 



196 Akcheologo Portugués 

tantes aguas thermaes que talvez fossem o assento princìpal do culto 
do deus celtico Tameohngìis, està annexa a freguesia de £Ja. 

Nem a historia, nem sequer a lenda explicam corno se formou o 
territorio de Anegia. Àpenas os nobiliarìos contam que D. Mouinho 
Viegas, Gasco, desembarcou em tempos remotos na foz do Douro 
com um exercito de vasconyos *, e, repellindo os mouros, chegou até 
Tamega. E d'està epoca que se tem pretendido, sem fundamenio de 
especiè nenbuma, datar a funda^Slo de certas povoa^Ses taes corno 
Vandoma, Cette, Bésteiros, etc. Croio que ainda hoje existe na tra- 
dÌ9So popular o echo das pretendidas lutas eiftre os vasconsos e os 
mouros. 



Do antigo toponomastico da Lusitania e da Galliza muito ponco 
passou através das vicissitudes v&rias que aquellas provincias soffre- 
ram. Tirando algumas cidades episcopaes e rios, raro sera o nome 
moderno que se possa enlafar até epocas anteriores à chamada recon- 
quista cfaristS. sentimento de liga$llo com o passado estava tSo redu- 
zido depois das invasSes dos povos do norte da Europa e dos orien- 
taes, e as necessidades que a poyoa9So diminuida sentia eram em tao 
pouco nùmero, que os grandes quadros de civiliza^fto que o povo 
romano deixàra, nSo podendo ser preenchidos pelas ra^as que o fiub- 
stituiram, cairam naturalmente no olvido e com elles as suas denomi- 
na$8es. Restou apenas, collocando à parte a vida religiosa, o cultivo 
da terra com as suas modestas industrias; dos aggregados de habita- 
95es que ella exigia sain a villa, no sentido moderno da palavra. 

Cada villa tinha geralmente a denomina9S[o do seu proprietario ; 
e BÓ fazendo o cstudo da origem da propriedade immobiliaria em Por- 
tugal se poderà averiguar quando os nomes dos proprietarios se co- 
me9aram a fixar, sondo conservados pelas gera98eB seguintes. Esaes 
nomes, precedidos da designa9&o da qualidade do predio rustico, es- 
tavam grammaticalmente no caso latino (e germanico) que denotava a 
posse. Com o correr dos tempos, e parallelamente aodesenvolvimento 
da linguagem, foram-se transformando aquelles nomes de maneira tal 
que alguns se tomaram inteiramente desoonhecidos. 



1 D. Moninho Viegas, o Gasco (e nJo Gasto)^ é o tronco da familia dos Vas- 
conce^os. Como gasco é fórma parallela de basco ou vascongo torna-se multo pro- 
vavel a hypothese da deriva^ào de Vasconcellos de Vascongo, Jo^o Fedro Ribeiro, 
Dissertagdes, t fv, parte u, p. 31, nSo acredita no desembarque dos Gascoes. 



Archeoloqo Portuoués 197 

Nos documentos que serviram ^ra o estudo dos limites do terri- 
torio de Anegia resaltam certas villas às quaes se consegue achar o 
proprietario que ihes deu o seu proprio nome, sendo obvio que um 
raesmo nome proprio podia ser usado por muitos individuos, e que so 
com muito cuidado se poderà proceder à identifica$%o d'estes nomes 
com qualquer personagem historico. 

A maioria dos nome3 de povoa^Ses que provém de nomes proprios 
tem a sua origem no genitivo ; havendo^ porem, um pequeno grupo 
que representa o nominativo e o accusativo. Podem-se dividir em qua- 
tro ^classes as duas duzias de nomes que possnimos. 

1.* Nominativo: Marecus e Maurdli^. — Creio serem nomina tivos; 
conservam-se hoje com as formas Marecos e Maurdles. Na Beira existe 
a forma Mareco. 

•2.* Accusativo. — Apenas Oerontio que jà hoje nSo existe provavel- 
mente. Era o nome de um dos ultimos generaes romanos da Peninsuia. 

3.* Oenitiìjo em -anis. — Fandilanes e Suylanes, Està definitivamente 
estabelecido que os nomes proprios godos terminados em a tinham o 
seu genitivo em ania^. Os nomes proprios sfto Fondila e Stmila^. 
Deram Fandlnhaes e Soalhaes. De FajUa, Kintila e Vimara forma- 
ram-se os genitivos FaJUanis, Kintilanis e Vimaranis, que se transfor- 
maram em Fajiàes, Quintiàes e Ouimaràes. 

4.* Oenitivo em -i. — Temos Abulin e Mandin que deram Aboim e 
Mandim. SSo genitivos de Abtdinus e Mandinus. Fredumir (Fredu- 
mil) gen. de Fredumirus. Bandi e Mexiti, genitivos de Sandus e Ma- 
xiius ^, deram Sande e Meixide. Ranosendi (Rosem) e Ranusindi (Re- 
sende) sfto fórmas diflferentes do mesmo nome. Alarici^ (Ariz), Ascarizi 
(Escariz), Loderiz (Luriz) e Toderiz (Touriz) sfto genitivos respecti- 
vamente de Alaricua, Ascarictta, Leodericus e Theodoricus, Nos geniti- 
vos em { estfto comprehendidos os em ii comò Losidii (Lusim) genitivo 
de Losidim, Ordonii de Ordonius que deu populaimente o accusativo 
Ordonho em vez de Oronhe e Valerli^ de Valerius que deu Beire (?). 



^ Pori. Mon, Hist, Dipi, el Oh., p. 36, anno 951, urna testemunha chamada 
Marecus; e a p. 32, anno 946, outra chamida MaurtUt, 

* D'Arbois de Jubainville, Étudt tur la dédinaison dea noma proprts dona la 
langua franque à Vépoque mérovingiennef Bibliothèque de l'Ecole dea Chartes, 
XXXI (1871), p. 343. 

5 PorL Mon, Htat., passim, 

* Id., p. 36, testemunha em 951. 

5 Pronuncia-se com a aberto por ser contraesse de dois axi. 

* Eate mesmo nome deu tambem Ver. Cfr. Arch. Pori., iii, 139 e J. Fedro 
Ribeiro, Disaertagdea, t* iv, parte ii, p. 30 da 1.* ed. de 1829. 



198 Archeologo Pobtugués 

D'estes nomea so Lusidius, VSerius e Gerontins sSo romanos com 
certeza. Ha ainda alguns nomes que parecem ser de individuos ; mas 
esses ficam para ìnyestiga9Se8 posteriores. 



Para facilitar o estiido do territorio de Anegia juntei aqui um in- 
dico toponomastico com as identifica98e8 que julguei possiveis. As 
obras auxiliares para este firn consistiram na Chorographia Moderna do 
Reino de Portugal, de Baptista, e nas «Memorias parochiaes» colligi- 
das no chamado Diccìonario Oeographico, manuscrito do Archivo Na- 
cional. Està ultima obra é a unica que pode dar indica^Slo abundante 
dos accidentes saturaes ; pois o mappa da direc9So dos servi^os geode- 
sicos e topographicos, sendo de utilidade preciosa, devido à escala 
ainda grande de -n^^, nem sempre dà os nomes dos regatos e monta- 
nhas que £s ve^es variam de freguesia para fregnesia. 

O Sr. Gama Barros, no tomo u da HUtoria da administragaOj eie, , 
num appendice, tratou tambem da localiza^So de varias povoagSes, 
algumas das quaes ySo adeante identificadas da mesma fórma. 

Em seguida ySo os extractos dos documentos publicados nos I^or- 
tugaliae Monumenta Hiatorica que dizem respeito ao territorio de 
Anegia. 

E no final vem a còpia de extractos das «Memorias parochiaes de 
1758 1, que tem rela9So com o assumpto tratado. 

1. Toponomastieo 

Abnlin (Villa). Aboim na freguesia de S. Miguel de Kebordosa, 
concelho de Paredes. Genitivo de Abolinvs (Abolino, testemìinha em 
974). Anno 985. 

Acinito. Variantes : AciuetOy Aziueto. Azevido ou Azevedo na fre- 
guesia de Santa Marinh'a do Real, concelho de A ronca. Annos 1024, 
1060 e 1062. 

Afauones (Arrugio). Rogato, affluente do Tamega, que atravessa a 
freguesia de S. Paio de Pavoes. Anno 1068. 

AgpeUa? Annos 1024, 1060 e 1062. 

Alarda. Rio Arda, affluente do Douro. Anno 1024 e 1062. 

Alarici (Villa). Variantes : Alarizi, Alariz. Freguesia de S. Mar- 
tinho de Ariz. Annos 1046, 1066, 1078, 1094 e 1097. 

Aleste. Rio Este no territorio de Braga. Anno 1077. 

Alungates (Mons)? Na serra de Lusim, Anno 1087, 



AbcheoIìOgo Portugués 199^ 



Alvareiiga (Villa). Freguesia de Santa Cruz de Alvarenga, conce- 
Iho de Arouca. Anno 952. 

Anegia (Civitas, urbis, villa). Freguesia de Santa Maria de Eja^ 
concelho de Penafiel. 

Para facilitar um estudo sobre està povoa^So, reiino aqui as phra- 
ses ein que se faz men9%o de Anegia, aproximando o mais possivel as 
expressSes identìcas. 

Territorio Anegia, 875, 982 (?), 1043, 1046, 1054, 1056, 1067, 
1068, 1080, 1081^ 1085, 1086 (2 vezes), 1087 (4 vezes). 

Territorio Aneia, 985, 1047, 1077. 

Territorio Anega, 1097. 

Territorio Annegia, 1061. 

Territorio Anegie, «82, 964, 994, 1071 (2 vezes), 4079, 1087,^1090. 

Territorio Aneiie, 1045. 

Territorio urbis Anega, 1024 (?). 

Territorio urbis Anegie, 1062. 

Territorio portucalense, urbis Anegia, 1060, 1080. 

Territorio varganense, urbis Anegie, 952. 

Urbis Anegia, territorio portucalense, 1090, 1091 (2 vezes). 

Orbis Anegie, territorio portucalense, 1089. 

Orbe Anegie et territorio portucalense, 1073. 

Orbe Anegia, territorio portucalense, 1082, 1085. 

Urbis'Anegie, 989. 

». . .porto ciuitatis anegia, i . . » 922. 

Villa de Anegia, 1059. • 

Valle Anegia, 1047. 
Variantes e declinafSlo: 

Anega, Anege, (1071). 

Anegia, Anegie. 

Aneia, Aneiie. 

Annegia. . ' 

Arato (Villar) ? Anno* 952. 

Àratras (Alpe, mons, civitas, castro). Monte de S. Tiago de Ara- 
dos na confluencia dos rios Tamega e Doiro. As pbrases em que nos 
apparece sSLo as seguintes: 

Subtus mons aratros, 1076, 1085 (2 vezes) 1086 (2 vezes), 1087, 
1094, 1100. 

Subtus mons arntrus, 1078, 1079, 1087, 1088, 1089, 1090. 

Subtus mons aradros, 1068, 1097. 

Subtus mons aradrus, 1074. 

Subtus montes aratros, 1046. 



200 Abcheologo Portugués 

SubtuB mons aratris^ 1098. 

Subtus mons aratrum, 1100. 

Subtus monte de Aratro, 1100. 

SubtuB monte de Aradua^ 982 (?). 

Subtus mons kastro Aratros, 1046. 

Subtus alpe mons Aratrus, 1071. 

Subtus alpe mons et civitas Aratros, 1073. 

Ad radicem mentis Aratri, 1090 (?). 

Ad radice mentis Aratri, 1065, 1092 (?), 1096. 

Ad radice mentis Aratri, 1080, 1090 (2 vezes), 1091 (2 vezea). 

Ad radice Aratri mentis, 1094. 

Ad radice alpe Aratros, 1059. 

Ad radize mentis Aratri, 1091. 

Erga montem Aratrum, 1099. 

Erga Castrum de Aratro, 1099. 
Variantes e declina9So : 

Aratros, Aradros. 

Aratris. 

Aratrum. 

Aratri. 

Aratro. 

Aregos. Freguesia de S. Remilo de Aregos, concelho de Resende. 
Anno 1080. 

Ascarizi (Villa). Variante : Ascariz. Escariz na freguesia de S. Mar- 
tinho de Lagares, concelho de Penafiel. Anno 985 e 1077. 

Asperon (Mons). Variante : Asperonis (genitivo de Asperoì). Serra 
do EsporSo nas freguesias de Villa-Boa-do-Bispo' e Perosello. Aspro 
na freguesia de S. Rom&o de ViUa-Cova-de-Vez-de-Aviz. Ambas no 
concelho de Penafiel. Annos 1079, 1080 e 1092. 

Asturianos (Villa) ? Anno 952. 

Auterio. Outeiro, na freguesia de S. JoSo de Alpendurada. Anno 
1096. 

Bahoeiras. Bafoeiras, na freguesia de S. RomSo de Aregos. Anno 
1080. 

Baiam (Terra de). Concelho de Baite. Anno 1066. 

Balestarios (Villa, Sancto Cosmato de — ). Freguesia de S. Cosmo 
de Bèsteiros, concelho de Paredes. Anno 985 e 1077. 

Banins (Villa, Eglesia Sancta Maria). Sr. Gama Barros, ffw- 
toria da Administra^ em Portugal, li, p. 331 diz ser hoje a fregue- 
sia de Santa Eulalia. J. Pedro Ribeiro, Dissertatesi v, 121 (2.' ed. 
de 1896) suspeitava que fosse Santa Maria de Penha-Longa. O unico 



Archeologo Portugués 201 

texto que possuimoB dizia estar Banius no valle de Anegia, com a iden- 
tifica9So d'està povoa^So em Eja, confirma-se a asser9ÌLo do Sr. Gama 
BarroB. Anno 1047. 

Bauzas (Villar). Bou9a8, na freguesia de Santa Cruz de Alvaren- 
ga. Anno 922. 

Bendoma (Mons). Variante: Benidoma. Freguesia de Santa Eula- 
lia de Vandoma, no concelho de Paredes. Annos 985 e 1077. 

Benuiuer (Terra, civitas). Variante: Benuiber. Concelho de Bem- 
viver extincto cm 1852. Annos 1066 e 1068. 

Bestontia (Ribulo, riu). Variantes: Bet^toììza, Bestionzi. Rio Bes- 
tan^a affluente do Douro. Annos 1076, 1083 e 1090. 

Cabanas Lougas (Villar). Na freguesia de Santa Cruz de Alva- 
renga. Anno 952. 

GabauelJas (Villa, villar). Variantes : Cabanelas, Capanelas, Capa- 
nellas, Capannellas, Kapannellas. Ao pé de Ordonho, ignoro o nome 
moderno. Annos 1047, 10G5, 1068, 1073, 1076, 1082, 1085, 1086 
(2 vezes), 1087 e IIOCL 

Gampaniana (Sancti Christofori dc^. Freguesia de Santa Maria 
de CampanhS, concelho do Porto. Anno 1077. 

Gampelana (Mons). Freguesia do Santo André de CampeS, conce- 
lho de Villa Real. Anno 1091. 

Gannas (Villa). Antiga freguesia de S. Thomé de Cannas, faoje 

annexa à de S. Miguel de Rans, concelho de Penafiel. Anno 1087. 

Canpo (Sancto Ihoanne de). Alguma das freguesias de nome 

Campo, existentes no concelho de Santo Thyrso ou no de Vallongo 

com outros oragos. Anno 1077. 

Castro. Na freguesia de Santa Marinha de Real, concelho de Cas- 
tello -de-Pai va. Annos 1024 e 1062. 

Castro de Boi (Mons). Crasto-de-Boi é urna montanha de 609 
metros de altura que fica entro as freguesias de Rosem e Paredes de 
Viadores. Anno 1085. 

CastiH) Malo. Ficava di8cun*ente rìbulo Oudia que é um affluente 
do Tamega e passa por Marco-de-Canareses. Anno 1090. 

Caualones (Villa). CavalhSes, na freguesia de Santa Maria e Santo 
André de Villa-Boa -do-Bispo. Anno 1086. 

Caualuno (Amnis, ribulo, arrugio). Variantes: Cavalluno, Kaua- 
luna, Cavallunono. O rio Cavallum, affluente do rio Scusa onde se 
lanja em Irivo (Eribo). Annos 882, 1043, 1087 e 1088. 

Cebrario (Amnis, arrugio). Variante: Ztbrarioa. Parece ser um 
affluente do Cavallum que se Ihe junta no sitio chamado Zibreu. An- 
nos 882 e 1087. 



202 Archeologo Portuguès 

Celgaiia (Villa). SalgSo por CelgSo ou 9*'S^^) ^^ freguesia de 
S. Miguel de Rana. Anno 1087. 

Cercatelo. Serquidello (Cerquidello), na freguesia de S. Martinho 
de Espiunca (Spelunca), concelho de Arouca. Anno 1060. 

Ginfianes (Villa). V^riantes: Cinfanes, Cimphanes, Freg. de S. JoHo 
Baptista de SinfSes (ou m^WiOv Cinfàea). Annos 1070, 1076 e 1083. 

Gomplentes (Villa). Variante: Comprentes, Complentes, na fre- 
guesia do Salvador de Magrellos. Annos 1085 e 1089. 

Goucella (Villa). Concellas, na freguesia de Santa Maria de Pe- 
nha Longo. Anno 1081. 

Conzella (Villa). Concella, na freguesia de S. Tiago de PiSes. 
Anno 995. 

Coraxes (Villa). Freguesia de Santa Maria de Coreixas, conceHio 
de Penafiel. Anno 1088. 

Cornado (Sanati Felicis). Qualquer das freguesias de Coronado. 
S. Mamede ou S. RomSo, concelho de Santo Thyrso. Anno 1077. 

Gotes (Villa). Codes, na freguesia de S. Martinho de Riode-Moi- 
nhos, concelho de Penafiel. Anno 1056. 

Gouas (Villa). ? Anno 1068. 

Ghristonal (Villa). Variante: Crestotial. CristovSo, na freguesia 
de S. Martinho de Sande. Annos 1066 e 1087. 

duina (Termino de — ). Variante: Coma. Cunha, na freguesia de 
S. Martinho de Fornellos. Annos 1083 e 1087. 

Durio (Ainnis, fluraen, fluuio, riuulo). Formas diversas: Dario, 
982, 1046, 1047, 1059, 1060, 1061, 1065, 1067, 1068 (2 vezes), 
1071, J073, 1076, 1085 (2 vezes), 1086 (2 vezes), 1087, 1089, 1090 
(2 vezes), 1091 (3 vezes), 1092, 1094, 1096, 1098, 1099 (2 vezes) 
1100 (2 vezes). 

Eiras (Mons). Monte Deiras, no concelho de Marco-de-Cariavezes. 
Annos 1068 e 1099. 

Fandilanes (Villa). FandinhSes, na freguesia de S. Clemente de 
Pa90s-de-Gaiolo. Anno 1054. 

Feberos (Villa). Febros, na freguesia de S. Thomé de BitarSes. 
Anno 985. 

Ferrarla (Sancto André de — ). Freguesia de S. Fedro de Fer- 
reira, concelho de Pa9os-de-Ferreira? Annos 985 e 1077. 

Ferrarla (Territorio). Concelho de Pajos-de-Ferreira. Anno 1091. 

Fiqaeireto (Villa). Figueiredo, na freguesia de S. Martinho de 
Moimenta. Anno 1089. 

Fonte Tincta. Fonte Tinta, na freguesia de Santa Cruz de AlvA- 
renga. Anno 952. 



O Archeologo Portugués 203 

Fomellos. Freguesia de S. Martinho de Fornellos, concellio de 
Cinfìies. Anno 1080. 

Foruos (Villa), lìa freguesia de S. Martinho de Rio-de-Moinhos. 
Annos 982, 1066 o 1089. 

Foze de Sousa. Freguesia de S. Jo5o da Foz-do-Sousa, coneelho 
de Grondomar. Anno 985. 

Fredumir. Variante : Frednmil. Na freguesia de S. Marinha de 
Real. Annos 1024 e 1062. 

Galiegos. Freguesia do Salvador de Gallegos, coneelho de Pena- 
fiel. Anno 1087. 

Gallina (Riuulo, riu). Freguesia de S. Miguel de Rio-de-Galli- 
nhas. Annos 875, 1066 e 1080. 

Gauaiio (Mons). ? Anno 952. 

Genestaeolo (Mons). Variantes: Genestaxo, Oenestazo, Oenesta- 
zolo. Gestago, no coneelho de BaiSo? Annos 875, 1054, 1067, 1068, 
1087 e 1099. 

Geroutio (Territorio). antigo coneelho do Aregos? Anno 1076. 

Gustodias (Mons) ? Arino 1045. 

Inter Ambos Rios. Variante: Ontrambos Ribulos. Freguesia de 
S. Miguel de Entre-Ambos-os-Rios, coneelho de Penafiel. Annos 1066 
e 1068. 

Lacunelas (Mons). Variante : Lagonella. Proximo de Ariz ; o nome 
moderno desconhe9o-o. Annos 1078 e 1094. 

Lamas (Villa). Na freguesia de Salvador de Gallegos. Anno 1087. 

Latrones (Arrugiu, riu). Variante: Latrom. O Rio de LadrSes, 
affluente do Tamega. Annos 1079 e 1086. 

Lauridosa (Villa). Lardosa, entro o Cavallum e o Ceurario. Anno 
882. 

Lebor (Mons). Proximo de Losim, o nome moderno desconhejo-o. 
Anno 1097. 

Leoruani (Villa). UrbSo ou OrvSo, na freguesia de S. Maria de 
Tarouquella. Anno 995. 

Loderiz (Villa). Variantes: Leoderiz, Loiriz. Luriz na freguesia 
de S. JoSo de Alpendurada. Annos 1080, 1085, 1086, 1088 e 1090. 

Losidi (Villa). Variante: Losii. Freguesia de S. JoRo Baptista de 
Lusim, coneelho de Penafiel. Annos 1092 e 1097. 

Lotouario (Villa). Ladueiro, na freguesia de S. Martinho de Sande. 
Anno 1068. 

LozeJlo? Anno 1065. 

Labazim (Sancto Petro de—). ? Anno 1077. 



204 Abcheologq Pobtugdés 

Ifacenaria. Maceeira, na freguesia de S. Martinho de Fomellos. 
Anno 1080. 

M agrelos (Portella de — ). Freguesia do Salvador de Magrelios. 
Annos 1068 e 1089. 

Maudim. Na freguesia de S. Martinho de Lagares^ concelho de 
Penafiel. Anno 1077. 

Maniozellos (Villa), Freguesia de S. Mamede de ManhunceUos, 
concelho de Marcode-Canavezeff. Anno 1066. 

Marecus (Villa). Freguesia de Santo André de Mareeos, conce- 
lho de Penafiel. Anno 1043. 

Maskiuata (Villa). Freguesia de S. Tiago de Mesquinhata, conce- 
lho de Baiao. Anno 1066. 

Maurelli. Freguesia de Santa Maria de Maurelles. Anno 1080. 

Maureiiti (Mons). Mourinte, na freguesia de Santa Clara do Tor- 
rSo. Anno 1080 e 1086. 

Mensa (Mons). Na serra de Losim? Anno 1092. 

Mexitì (Portella). Meixide, na freguesia de S. Maria e Sant-o An- 
dré de Villa-Boa-do-Bispo. Anno 1087. 

Monimenta. Freguesia de S. Martinho de Moimenta, concelho de 
Sinfies. Anno 1076. 

Mons Muro. Monte-Muro. Annos 1076, 1083, 1087 e 1090. 

Moraria (Sancto Jeorgio de — ). A freguezia do Salvador de Mo- 
reira, concelho da Maia? Anno 1077. 

Mouro. Monte-Muro? Anno 1074. 

Muro. Muro-Velho em Santa Maria de Maurelles? Anno 1085. 

Nespereira (Villa). Freguesia de Santa Marinha de Nespereira, 
concelho de SinfSes. Anno 952. 

Nugaria. Freguesia de S. ChristovSo de Nogueira, concelho de 
Sinfàes. Anno 1024 e 1062. 

Oletrianus (Rasale, villa). Variante :]Uldrianos, Freguesia de Santo 
EstevSo de OldrSos ou OldrSes, concelho de Penafiel. Annos 1085 e 
1086. 

Ordines (Mons). Variante : Ordinis. Ordins, na freguesia de S. Mar- 
tinho de Lagares, concelho de Penafiel. Annos 994, 1071, 1079, 1086 
e 1088. 

Ordonii (Villa). Variantes : Ordoni, Ordonie. Ordonho, na fregue- 
zia de S. JoSo Baptist» de Alpendurada. Annos 1068, 1070, 1073, 
1076, 1082, 1086, 1087, 1089 e 1094. 

Ortigosa (Mons, villa). Na freguesia de Santa Leocadia de Tra- 
vanca, concelho de Sinfìies. Annos 1076, 1083 e 1087. 

Ortiqueira (Mons). ? Anno 1083. 



O Abcheologo Pobtugués 205 

Onelia (Ribulo). Rio da Ovelha, affluente do Tamega. Anno 1090. 
Palaioues (Sancii Jacobi Apostoli de — ). Fregiiesia de S. Tiago 
de PiSes, concelho de Sinfftes. Anno 1087. 

Palatio (Villa). Pa90, na freguesia de Villa-Cova-de-Vez-de-Aviz ? 
Anno 1079. 

Palaciolo. Pagò. 

l.« Palaciolo. ? Anno 1059. 
2.*^ Palaciolo. ? Anno 1090. 
3.° Paianolo. ? Anno 952. 

4.® Palaciolo. Variantes: PalaciolìiSj Palacioli. Freguesia do 
Salvador de Pajo-de-Sousa, concelho de Penafiel. Annos 994, 1071, 
1087 e 1088. 

Palacios (Villa). ? Anno 1090. 

Pannouiarum (Terrio). Concelho de Panoias, depois de Villa Real. 
Anno 1091. 

Parada. ? Anno 952. 
Paradella. ? Anno 985. 
PardelJos. ? Anno 985. 

Parìetes (Villa). VarianteF : Parietis, Paretes. Paredes, junto de 
Luriz. Annos 1085, 1086 e 1088. 

Paula (Riuulo). Rio Paiva. Annos 952, 989, 1024, 1062, 1076, 
1083, 1087 e 1090. 

Pausada. Pousada, na freguesia de S. ChristovSo de Espadanedo, 
concelho de SinfSes. Anno 1090. 
Pausata (Villa). ? Anno 1085. 
Pausatas. Pousadas. 

l.<^ Em S. Martinho de Sande? Anno 1059. 
2.** Em Santa Maria de Eja? Anno de 1059. 
Penafidel de Kanas. Concelho de Penafiel. Anno 1047. 
Penalonga (Mons). Freguesia de Santa Maria de Penha-Longa. 
Anno 1068. 

Pendorata. Freguesia de S. JoSo Baptista de Alpendurada. Anno 
1096. 

Pera (Villa)? Anno 985. 

Petrosello (Mons). Variante : Petroselo. Freguesia de Santa Maria 
de Perosello, concelho de Penafiel. Annos 882, 1043 e 1056. 

Portugaleilse (Territorio, diocesis, ecclesia). Variantes: Poì-fuka- 
lensis, PoHugaUmis. Annos 1060, 1073, 1074, 1079, 1080, 1082, 
1085 a 1091, 1094, 1098 a 1100. 

Quintana. QuintSl, na freguesia de Santa Maria de Maurelles. 
Anno 1080. 



20G O Archeologo Pobtugués 

QaintaneJla (Villa). Quintella, na freguesia de Villa-Cova-de-Vez- 
de-Aviz. Anno 1087. 

Ranosendi (Santa Maria de — ). Freguesia de Santa Maria de 
Rosem. Anno 1066. 

Ranusiudi (Villa). Resende, na freguesia de S. JoSo da Foz-do- 
Sousa. Anno 985. 

Rial (Villa). Freguesia de Santa Marinha de Real, conceUio de 
Castello-de-Paiva. Annos 1024, 1060, 1061 e 1062. 

Ribulo Mayor ou Ria Haior (Arrugiu). Rio Maior, pequeno af- 
fluente do Douro. Annos 1068 e 1087. 

Ria de Galliuas. Rio-de-Gallinhas. Anno 1080. 

Robordanos (Villa). Nome antigo da freguesia de S. Fedro de 
Cette, concelho de Paredes. Anno 1077. 

Sancta Christina.? Annos 1024 e 1062. 

Santa Logritia. Santa Lucrecia, concelho de Braga. Anno 1077. 

Sancta Marine (Ecclesia de — ) Santa Maria de Figueiras, conce- 
lho de Penafiel? Anno 922. 

Sancta Saaiua (Ecclesia de — ). Santa Sabina, na freguesia de 
S. JoSo do Alpendurada. Annos 1059 e 1068. 

Sancto Ghristophoro. ? Anno 1085. 

Sancto Feiize (Villa). Sanfins, na freguesia de S. Tiago de Piàes. 
Anno 1076. 

Sancto Martino (Villa). Freguesia de S. Martinho da Varzea do 
Douro? Anno 964. 

Sancto Petro. S. Pedro, na freguesia de Nossa Senhora do So- 
brado, concelho de Castello-de-Paiva. Annos 1024, 1060 e 1062. 

Sancto Salvatore (Terra). Vaiìantes: Sancto Scdbatore, Sancto 
Saluator. julgado de S. Salvador comprehendia no seculo xiv (/«- 
quiri^des da Beira e Alem Douro) so a freguesia de S. ChristovSo de 
Nogueira. Annos 1024, 1062 e 1070. 

Sandi (Villa). Freguesia de S. Martinho de Sande. Annos 1059, 
1066, 1085 e 1096. 

Sardoria (Ribulo, valle). Variante : Sardoira. Rio Sardoira. An- 
nos 989, 1024, 1045, 1060, 1061 e 1062. 

Sardoiriola (Villa). Qualquer das daas freguesias de Sardoira, 
concelho de Castello-de-Paiva. Anno 1045. 

Sausa (Fluuio, ribulo). Variantes : Saussa, Sauza, Sause. Rio Scusa 
Annos 985, 994, IOTI, 1077, 1087, 1088 e 1090. 

Sause (Territorio). Concelho de Aguiar-de-Soasa. Anno 1091. 
Sautelo. ? Anno 952. 



O Archeologo Portugués 207 

Santo (Villa). Souto, na freguesia de S. Martinho de Rio-de-Moi- 
nhos, concelho de Penafiel? Anno 1080. 

Serra Sicca (Mons). Variantes : Serra Sica, Sera Sicka. Serra da 
Freita? Annos 989, 1024, 1060, 1061 e 1062. 

Silva Scura. Freguesia de S. JoSo Baptista da Silva Escura, con- 
celho da Maia. Anno 1077. 

Sonosello (Villa). Variante: Senosdo. Freguesia de Santo Andrò 
de Sosello, concelho de Sinftles. Anno 1047 e 1074. 

Sonoso (Riuulo)? Multo mais ao sul do sitio em que estava collo- 
cado Sonoso, e corno aflBuente do Paiva, existe um rio que Uie rcn'- 
responde plioneticamente chamado Sonzo. Anno 995. 

Superato (Villa). Sobrado, na freguesia de S. Martinho de Ariz, 
Anno 1094. 

Suylaues (Villa de — ). Freguesia de S. Martinho de Soalhfìca. 
Anno 875. 

Tamega (Alueo, flumen, fluuio, riuulo). Rio Tamega. Variautca; 
Tameca, 1046. 
Tamica, 1094. 
Tamicam, 1088. 

Tamice, 1068, 1073, 1082, 1085, 1086, 1087, 1089, 1097 e 1KK.L 
Tamize, 1047, 1056, 1065, 1078, 1079, 1080, 1085, 109k. 
Tamige, 1068. 
Tamiga, 982, 1090. 
Tamega, 1092. 
Tarantella (Villa). Freguesia de Santa Maria da Tarouquella, con- 
celho de SinfSes. Anno 995. 

Tauolado (Villa). Freguesia de Salvador de Taboado, concelho dt* 
Marco-de-Canavezes. Anno 1066. 

Toderiz. Touriz, na freguesia de S. Fedro de Paraiso, conctilho 
de Castello-de-Paiva. Anno 1060. 

Ualbono (Sancto Johanne de — ). Valbom e S. JoSlo, na freguesia 
de S. Chris tovXo de Nogueira, concelho de SinfSes. Anno 1080. 

llaleìri (Villa). Freguesia de S. Miguel de Beire, concelho du Pa- 
redes. Anno 1077. 

Uallinas (Santi Saturnio de — ) Valinhos, na freguesia de San Kos 
de Ferreira. Anno 1077. 

Uallongo (Sancto Mamete et S. Bartolamei). Freguesia de S. Ma- 
mede de Vallongo. Anno 1077. 

Uargano (Mons, territorio)? Annos 995 e 1083. 
Uarganeuse (Territorio). ? Anno 952. 



208 O Archeologo Pobtugués 

llarzena (Villa). Varzea, na freguesia de S. Miguel de Bairros. 
Anno 989. 

Uentosela (Villa). Variantes: UentuseUa. Ventosellas, na fregue- 
sia de S. Jollo de Alpendurada. Annos 1066 e 1068. 

«yiulfus* (Villa). ? Anno 1071. 

Villa Goya. Freguesia de S. RomSo de Villa-Cova-de-Vez-de- 
Aviz? Anno 1079. 

Villa M aiore. Villa Maior, na freguesia de Santa Marinha de For- 
nos. Anno 1070. 

Villa Mediana. Villa MeS, na freguesia de EscamarXo, concelho de 
Sinfàes. Anno 952. 

Villa Seti. Villacete ou ViUassete, na freguesia de S. Joao Baptista 
de Alpendurada. Anno 1100. 

Vilare de Ceruos. Villar-de-Cervos ouVillar-de-Servos, na freguesia 
de Santa Cruz de Alvarenga. Anno 952. 

Villela (Villa). Na freguesia de S. Vicente do Pinheiro, concelho de 
Penafiel? Anno 1079. 

Vimenario (Villa). Vimieiro, na freguesia de S. Martinho de Sande. 
Annos 995, 1067, 1090 e 1099. 



2. Extractos doe «Portugaliae Honumenta Uistorlea» 

875. e Baselice Santi Martini Episcopi, que est fundata in 

Villa de Suylanes, subtus mons Qenestaxo, secus rivulum de Gallina, 
et flumen Dorio, territonio Anegiai. (P. 5). 

882. « baselica fumdamus in uilla quod uocitant lauridosa 

inter duas annes kaualuno et cebrario subtus monte petroselo terri- 
torio anegie*». (P. 6). 

922. e et in ipso concilio dedit lucidius uimarani uillas et 

ecclesias ad ipsum monasterium in ripa de ipso dorio a porto ciuita- 
tis anegia ecclesiam sancte marine cum suos dextros integros uel de- 
bito ubi tamica intrat in dorio ad integra». (P. 16). 



1 De VUiulfi deriva-se Guilhufe, nome de urna freguesia situada ao norie do 
sitio em que està villa devia existir. 

1 £ um dos poucos erros typographicos que se encontrSo na collec9ao do 
Portugaliae Monumenta, Emendo aqui pondo em legar de anegrie a fórma anegicj 
conforme indica a correc^So a lapis existente no exemplar em uso no Archivo 
Nacional. Como se sabe, a sec9ao dos Diplomaia et Chartae nSo concluiu, hi- 
tando-lhe portanto os indices e as correc95e8 typographicas. 



Archeologo Pobtugués 209 

952. e uilla qae uocitant aluarenga terrìtorib uargan^nse 

urbis anegie in ipsa uilla et in uilare. arato xvi media, et in 

fonte tincta de vi' vn* media et de uilare de ceruos de vi* vii* me- 
dia, et de uilar de cabanaa longas de Vi* vn* media, et de parada de 
VI VII media, et de sautelo de vi vn media, et de uilar de bauzas de 

VI vn integra et diuident ipsas uillas oum uilla de nespereira 

et cum uilla de asturìanos et de palatiolo et per segus riuulo pania»» 
(P. 37). 

952. e uilla mea propria que est territorio anegie uocitata 

uilla mediana subtus monte gauano inter duos amneB uno fluuio durii 
et alio ribulo quod dicunt pania». (P. 38). 

964. e in uila de sancto martino teridorio anegie inter duiru 

et tamiga». (P. 54). 

982 (?) e in uilla fornos et habe iacentia inter tamiga et 

durio subtus monte de aradus territorio anegia». (P. 82). 

985. e Hic Bunt uilas prenominadas abulin ferrarla balesta- 

rios feberos ascarizi pardeloB id sunt ipsas uilaB prenominadas 

ranusindi et eglesia uogabulo Bancto ioane que eBt sida in foze de 
sauza et uilla de paradella et uilla de pera. Et sunt ipsaB uilas iam 
saprà nominadas subtus mentis bendoma terridorio anemia discurrente 
ribulo sauza». (P. 91). 

989. < in ualle sardoria urbis anegie ribulo pania suptus 

monte serra sicca. et aue iazentia in uilla uarzena ad uado caual- 

lar in sisonzini comò diuide per lonba de rompesakus et 

inde in area que fuit de gondiuado et in uillar de eigumediade inde 

ad illa frecta et feret in pelagu negro » (P. 98). 

994. e . . . . , in uilla Palacioli, subtus mons Ordines, discurrentem 
rivulo Sausa, territorio Anegie». (P. 104). 

995 (?) e uilla quos uocitant uimenario qui est subtus monte 

uargano discorente riuolo Bonoso prope flumen duiro et diuidet 

ipsa uilla cum uilla de taraukella et cum uilla leoruani (?) et cum 
uilla de conzella et inde per media uena de agua de duiro et cum 
titulello piscarias nassarios rizarios». (P. 108). 

1024 (?) e inter pania et alarda terridorio urbis anega subtus 

mons serra sica discurremte ribulo sardoria (?) et ipsa uila rial in 

lego predicto castro et alio castro et fredumir in uarcena 

donega et in agrela et in aciuito et sancta Christina et sancto salba- 

tore et nugaria et sancti petri et in alios logares » (P. 158). 

1043. e in uilla que uocidant marecus subtus mons petroselo 

discoremte ribulo caualuno teredorio anegia » (P. 198). 

1045. e in uila quos uocidant sardoiriola discurentem ribulo 

u 



210 ArCHEOLOQO POBtDGUÉS 

sardoira teridoirò aneiie Babtus mona gustodias abe iacentia in loco 
predi cto sardoirola». (P. 212). 

1046. e ..... in uilla alarizi inter duo flumina durio et tameca 
territorio anegia «ubtns mons kastro aratros». (P. 213). 

1047. e eglesia uogauolo sancta maria dinoxitur in oilla ba- 

nius in nalle anegia et auet iacentia inter duas flumes durio et ta 
mize » (P. 218). « penafidel de kanas. . . ^ . » (P. 219). 

1047. a in oilla capanelas et in senoselo subtus mon 

tee aratros territorio aneia didcurrentis flumen dori > (P. 219). 

1054. e in uilla fandilanes Bubtus mons genestasolum discur- 

rente riuulo dorii terridorio anegia». (P. 238). 

Ì056. < in uilla quos uocitant uilla cotes (?) subtus mone pe- 

trosello territorio anegia prope riuulo tamize». (P. 243). 

1059. < in sancto iohanne ad radice alpe aratros discurrente 

ribulo durio * (P. 257). 

1059. « unta sandi. ambae illas pausatas que fuerunt de 

illas sorores et ecclesia sancti martini episcopi, et in uilla palaciolo i^ 
pausata integra et de illa ecclesia uocabulo sancta sauìna medietate 
integra. Et in uilla de anegia ni®* pausatas integras cum prestatìoni- 

bus suis quomodo illas concessit ille preposito domne todoredo 

et ipsas pausadas cum suas piscarias in durio » (P. 26 1 in Jlne). 

1060. e ..... in uilla rial territorio portugalense urbis anegia su- 
btus mons serra sicca discurrente riuulo sàrdorìa et durio ..... de 
nugaria et de sancto petro et de toderìz et de cercetelo et de aziueto 
et de agrella». (P. 266). 

1061. « in uilla rial teridorìum annegia subtus mons sera 

sikca discuremtem ribulo sardoria flumen durio». (P.. 268). 

1062. a inter Paiua et Alarda, territorio Vrbis Anegie, su- 
btus mons serra Sicca, discurrente rivulo Sardoira, et ipsa Villa Rial 

in loco predicto Castro, et alio Castro, et Fredamil, sic in Var- 

cena Denega, et in Agrela, et in Aciueto, et S. Christina, et S. Sai- 
uatorè. et Nugaria. et S. Petri, » (P. 270). 

1065. € logum inter durium et tamize prope durium ad ra- 

dix mons aradus iuxta lozello uillar que uocitant capanellas » 

(P. 281). 

1065. « ad sancti ioannis babtiste que est fondato in ripa 

durio ad radice mentis aratri». (P. 282). 

1066. « et in terra de benuiuer medietate de ordoni et uen te- 
sela quomodo exparte de outranbos ribulos usque in alariz 

et in sandi uilla crestoual et uilla maniozellos. et sancta maria 

de ranosendi medietate et uilla fomos de sandi in gallina mea 



O Arobeoloqo Pobtugcés 211; 

portione ab integro, et in terra de baian uilla tauolado et uilU mas- 
kinata » (P. 283). 

1067. e in uilla uimenario subtus mona genestasa segiis 

flamine durio terre torio anegia. . #. . » (P. 285). ' 

1068. i sancti iohannis babtiete iuitta lituo durio pfope 

flumen Tamige subtus mons aradros iuxta uilla ordini et <»ibanel- 

las et de ecclesia u(^abulo sancta Sauina térda integra. . ; . vi» 

(P. 290). ' ' 

1068. f et cedarunt ilio in catena in illa zibitas bèmuibef" 

per manum de ipse sagione framila. • . ..in uilla quo uocitant lotona- 
rio subtus mons genestac'olo sancta maria suubermondpenalongadis- 
curens per ribulo mayore in flumen dorio». (P. 295). 

1068. e. ...'• uilla ordoni. ... .uilla nomine uentusella et de' co- 

uas intee n^* fiuuios durio et tamice que se exparte de intér 

ambos rios per ipso arugio et uadit per ipso flt^uio durio etfèriivillo 
ua^o et uadit per illa portela de magrelos et inde per ipeo arugio de 
afauones et descendet in ipso riuulo tainìcel . .*. .subtus mon& «ùraè 
territorio anegia discurrente. flumen- durio»* (P. 296). 

1070. € et uilla ordoni qui dedit ad monnino benegas. .... 

et in terra sancti saluator uilla cinfanes ....«» (P. 304)^ 

1071. « ad aulam baselice sancti iohannis^ . • * r in uilla quos 

uocitant uiliulfus subtus alpe móns aratrus disourrente flumihis durio 
territorium anegie. .... » (P. 307). 

1071. e. . . . .Basellica esse fundata dignoscitur in ualle predicto 
Palatiolo subtus mons Ordines discurrente ribulo saudsa territorio 
Anegie Anege discurrente flumen Dorio». (P. 308), . 

1073. « .' . . . ibaseligà esse cérnitur. iuxta litus durio prope flumen 
tamice subtus alpe mons et ciuitas aratros.logo predicto iuxta uilla 
ordoni et kapannellas orbe anegie et territorium portugalense. . • . .» 
(P. 312). 

1074. « quorum Baselice £fundata est in uilla ordoni subtiis 

mona aradrus riuulo Dorio territorio portugialense in loco 

predicto uilla sonosello uooabùlo sancti andree appostoli que est ffim- 
data subtus mouro secus fflumen durio territorio laméncensse». (P. 315). 

1076. e . . . . iin uilla quos uocitant monìmenta. .... et ipeas uillàs 
de sancto felize in pania subtus juons ortigosa disourrente arrogiu 
territorio gerontio » (P. 327). 

1076. f ..... ad aulani badilicé . , . • . iohannis bàbtiste que aitum est 

uilla nuncupata ordoni et capanellas in ripa flumen durio subtus 

mons aratros et abent ipsas hereditates iacentias in uilla ciinpEanes 
subtus mons muro discurrente ribulo bestioXLii (?) ^ .... » (P. 328). 



212 O Aboheologo Pobtugués 

1077. i baseliga esse cerni tur in ailla robordanos ' quos no- 

citant sancti petri sabtus mons benidoma discarrente rìbtdo sausa ter- 
ritorio anela. . . • .uilla ascariz sancto cofimato (?) de balestarioe 

mediatate de sancto andre de ferrarla medìatate de Bancto saturnio 
de uallinas et sancto namete de uallongo ab integro et sancto barto- 
lame! de uallongo ab integro et sancti christofori de canpaniana ubi 
dlcent de reltinto ab Integro et sancti fellcis de comado ab integro et 
mea ratione de acisterio de silua scura ab Integro et mediatate de 
sancto Ihoanne de canpo et mediatate de sancto petro de lubazim et 

tertia de sancto leorgio de moraria». e uilla ualelri^ . . . .bales- 

tarios mandlm ecclesia de ferrar! sancta logritia que 

est in riba de aleste > (P. 330). 

1078. e basiliga esse uldetur Inter bis alaei durio et tamize 

subtus mons aratrus in uilla alarizi subtus mons lagonella dia- 

currente in fluuio tamize •. (P. 340). 

1079. € basilica fundata est in ripa durio subtus mons ara- 
trus in uiUa palatio Sìibtua mons asperonis discurrente in fluuio 

tamize territorio portacalensis » (P. 344). 

1079. < in uilla quos uocitant uillacoua uilla quos noci- 

tant uillela subtus mons ordines discurrente arrugìo latrom terri- 

dorio anegie » (P. 346). 

1080. € baseliga est fundata in ripa durio a radice mentis 

aratri territorio portukalensis urbis anegia in macenarìa i^ ka- 

sal et in fomellos i° kasal et in riu de gallinas i^ kasal in Illa quintana 
in maurelli i^ kasal in aregos in bahoeiras i° kasal et in sancto iohanne 
de ualbono » (P. 349). 

1080. e de meo patre leoderigu et habet ipsa hereditate ia- 

concia Inter durio et tamize in loco predicto leoderiz subtus mons 
maurenti discurrente tamicei. (P. 355). 

1080. e in uilla quos uocitant sauto subtus mons asperonis 

discurrente in fluuio tamize territorio anegiai. (P. 356). 

1081. e in ulta concela sutos mons eiras tiratorìum 

anegia discurrentem rluulo flumen dorio » (P. 362). 

1082. € basilice esse cernitur subtus mons aratros discurrente 

bis aluei durio et fluuius tamlce quod est fundatus in loco predicto in 
uilla capannellas luxta uilla ordoni orbe anegia territorio portagalen- 
sis>. (P. 366). 

1083. e in uilla quos uocitant clnfianes (?) ad Illa portella 



^ «Monasterio Cetensi, in uilla de BebordSos sito». 



Abgheologo Pobtugués 213 

ìusta kararea que uadi prò ad ria de bestonza et eum sua ra- 

tiene de Illa aqua de vi feria » (P. 369). 

1083. e in uilla qaos uocitant ortigosa a radice montìs orti- 

queira subtus mona muro territorio uargano discurrente riuulo pania 
et sparte se cum termino de cuina » (P. 372). 

1085. e uilla pausata insta sancto christoforo in uilla com- 

prentes (?) subtus muro discurente durio » (P. 380). 

1085. « in uilla quos uocitant sandi et est ipsa uilla in 

sandi territorio* anegia subtus mons castro de boi discurrente fluuius 
durio et tamize»- (P. 385). 

1085 (?) e in uilla parietis et loer subtus mons aratros 

inter bis aluei durio et tamize». (P. 387). 

1085. e kasale de oletrianus » (P. 388). 

1085. e basilico esse cemitnr subtus mons aratros discur- 
rente bis aluei durio et tamice insta uilla capanellas orbe anegia 

territorio portugalensis et habet ipsa hereditate iacentia in uilla con- 
plentes in flumina piscarias > (P. 389). 

1086. e et in ipso loderiz et in paretes et habent 

iacentia ipsas hereditates ubi iam diximus inter durio tamice subtus 
mons manrenti discurrente riuolo tamice territorio anegia». (P. 391). 

1086. « inter bis aluei durio et tamice prope ordonie iuxta 

uilla capanellas subtus mons aratros territorio portugalensis facio tes- 
tatione de uilla mea propria que abeo inter uldrianos et ordinis subtus 

mons ordinis discurrente riu de latrones territorio anegia > 

(P. 396). 

1086. e uocitant ipsa uilla caualones ad aulam basilico 

sancti iohannis babtista est iuxta uilla cabanelas prope ordoni 

inter bis aluei dorio tamice territorio portugalensis subtus mons ara- 
tros discurrente fluuius durici. (P. 398). 

1087. « in locO; que dicitur Palaciolo, subtus mons Ordinis 

amnis, discurrente ribulo Sausa, Territorio Anegie est ipsa he- 
reditate de GallegOB in villa, qui dicitur Lamas » (P. 405). 

1087. < baselica fundata est in ripa durio subtus mons ara- 

truB inter durio et tamice territorio anegia discurrente in ribulo du- 
rio in uilla quos uocitant ortigosa territorio anegia subtus mons 

muro discurrente ribulo pania in uilla fiqueireto et in illa 

coìna et de ipsa ecclesia uocabulo sancti iocobi apostoli de pa- 

laiones » (P. 409). 

1087. e in uilla quos uocitant chrìstoual ad radice de ipsa 

portella de mexiti subtus mons genestazo territorio anegia discurrente 
arrugio riu maior » (P. 412). 



3tà G AbCHEOLOGO £òSTUGlUÉS 

1087. f ......in uilla ordonli iuatà capannellas subtufi mone ara- 

tros discurrente bis abiei durio et tamice territorio ane^a m 

•óillas quds uocitant celgana et cannas et qulntanella subtiis mons 
ahiugates discurrente arrugios zébrarioa et caaallttnonQ (né) tenv 
torio portugalensis». (P. 413).. 

/ 1088* f ;. . . . .in loco qui dicitur Palatiolus, circa montem Ordinis, 
contra faciem aquiionis, Territorio Portugalensia, secas fluviom San- 

jsè. ««\ .in ùiHa de CorAxes, circa riiulum de Cavàlluno et inter 

flumen Burium et.Tamicam in villa Parieles et in villa Teodérifi' 
hereditate^ quam ibi gauavimus de Teoderago. . ^ • .» (P. 426). 

1089. e baselica . esse cernitur insta litua durio prope tamice 

subtus mons aratrus discurrente flumen durio. orbis iinegie territorio 
portugalensis inter durio et tamice in loco predicto quo uoci- 
tant fomos a radice aratri mentis ubi diuide cordoni et. conprentes et 
.magrel. . . . . » (P. 431)* 

1090. €. . . .ad sancti iohannis babtiste qid est a radice mentis 
aratri in uilla loiriz • (P. .438). 

1090. « ad auiam baselice sancti iohannis babtiste que est 

fondato ripat durio subtus mons aratrus territorio portugalensis ..... 
pausadÀ inter pauià et bestontia subtus mons muro discurente in 

•pania. . . ; .et inter tainiga et sausa uilla palacios et.palaciolo.. 

•et inter gallina et ouelia mea ratione de uilla maior t (P. 438). 

1090 {?). < .... .ad radioem mentis aratri ,....» (P. 441). 
. . Ìj0.90. e . . . . tìn territorio anegie subtus mons castro malo dis- 
currente ribulo ouelia » (P. 442). 

1090. e .... . in ripa durio a radice tnontiis aratri .discurrente in 
'flumen durio urbis anegia territòrio portugalensis. ... .in loco pre- 
dicto uimenario » (P. 443). 

1091. e in riba durio ad radize mentis aratri. discuremtiB 

.flumen durio urbis anegia territorio portugalensis, ....,>. (P* .447). 

: lOKl.' ........... ih ripa durio. a radice mentis aratri discurrente in 

flumen durio urbis . anegii territorio pprtugalensis territórip 

-sanse et territorio ferraria". ... , » (P. 460). 

1091. « . . . . in. ripa dtirio a Uadioe mentis aratri urbis anegia ter- 
ritorio • portugalensis . . . . , in terriò pannoniarum subtup mons 

campelana. . . . . b (P. 455). .... 

1092. « . . . , . est :in uilla losidi qui est subtua mons menaia ^t as- 
peron (?) prope ripa tamega » (P. 464).. 



* Deve aer Leoderin. 



ABCHBdtOGO FOBTUOUÉft Sit> 

" ■ I 11 . B «1 .WI i Ufi 

1092 (?). e ad aula Bancti ioànnis babtiBte que est fundatQ 

ad radice montis aratri in ripa dariot,. (P. 467). ; ; jì 

1094. t ad sancti iohannis babtiste de ripa durio va. radica 

«rratri montis » (P. 477). ..•,,..-.; 

1094. <. . • . .et monasterio sancti iohannis qui est fundata int^r 
fliimen durio et ribuio tamica subtus mons aratros iuxta uilla qtte 
uocitant ordoni». (P. 481). 

1094. e e in uilla superato cognomento alariz subius mons 

lacu'nelas discurrente. riuulo tamice territorio portugalensis aeccle- 
aie». (P. 483). ./ 

1096. e in ìHo aauterio ad radice montis aratri discorrente 

ribulo durio ...... (P. 499). 

1096. € et concedimus sancto iohannis de ponderata tereiam 

partem de ecclesia sancti Martini desandi totamintegramv. (P. 499). 

1097. € in uilla quos uocitant alarizi subtus mons ar4dros 

discHrrente riuulo tamice » (P. 512). 

1097. € in uilla losii et habet iacentia subtus mons 

lebor discurrente ribulo tamice. territorio anega». (P. 514). 

1098. 4 baseliga fundata est in ripa durio subtus mons ara- 
tris Jnter durio et tamize territorio portugalenses». (P. 527). 

1099. t . . . . .altari sancti iohannis babtiste in loco predicto 

ia litore fluminis durio erga montem aratrum; . . . .» (P. 539). 

1099. e in uilla uimeneiro riha flumen durio subtus mons 

eiras terredorio portugalense» . (P. 540). . . 

1099. < Monasterio sancti Iohannis babtiste cuius ecclesia 

scita est secus flumen Durii territorio et diocense Portucalensis eccle- 
sie erga Castrum de aratro » (P. 543). 

1100. € in uilla quos uocitant cabanellas subtus mo&s ara- 
tro discurrente ribulo durio territorio portugalensis » (P. 545). 

1100. e cenobii sancti iohannis babtiste quod est situm secus 

flumen durii subtus monte de aratro ». (P. 554). , 

1100. e ... ...in uilla seti subtus mons aratimm discurrente ribulo 

4urio de alia parte tamice territorio portugalense». (P. 558). 

8. Extraetos das «Memorias Paroelilaes de 1758» 

a) 8. JoSo BaptiBta de Alpendorada 

«A igreja desta freguezia he a do Mosteyro o qual nam tem ve- 
zinho algum imediato, està oste cituado nas raizes do Monte chàmado 
vulgarmente de Arados cuja domina9am e tradÌ9am^ antiga mostra ser 
habita9am dos Àrabios de cuia.9Ìdade ainda no mais aito do Monte 



^ìt O ARCHEOLeeO POBTUéUÉS 

06 encontram abundantes vestig^oB, em cujo cume altisBuno, se acha 
a parede de huma capela que dìzem e lembra aos moradores desta 
terra- ter por patrono a Santo Thiago e no primeiro de Majo aeiidiam 
a ella com voto varias freguezias, e antigamente 8e fazia no mesmo 
citiò huma feira e do mesmo citio se discobrem para alg&as partes a 
distancia de dez ou quinze. legoas. A igreja foi alenantada de nouo 
auerà trinta annos a muderna terà de largo corenta palmos e sento e 
sincoenta de comprimento. (FI. 339). 

Fodera o Dom Abbade do Mosteiro escolher qualquer escriuam 
para os seos prazos e papeis e seram obrigados a vir a audiencias e 
Buspensam pelo Dom Abbade ficàram tambem Buspènsos no Concelho 
e outroB muntos mais privilegios e izen98Ì8 que const&o do famozo 
Cartono foram concedidas ao Mosteiro cuja fundagam se atribae ao 
Seruo de Deos Velino, Presbitero de Sauina-r-na era de 1065, e foi 
edeficado por reuela9]lo Divina que com eloquente ainda que muda 
retorica de luzes Milagrosas o persuadio e Ihe inspirou taia alentos 
sem temer das feras que habitauam o Monte penetrou o mais intrior 
do cittio naqueles tempos formidavel e descobrindo felismente o te- 
zouro de reliquias ueyo a preceuer com jubilos o misterio de tam ram 
mirauilha que uerem$e no bosque borrendo brilhantes fonomenos 

Elegèram padroeiro ao Munto Ilustre Munio ou Muninho Viegas 
neto do fundador do Convento de Uila Boa do Bispo, sobrinho dos 
de Trauanca e Arnoya, tio do famozo Egas Moniz que bonra o Jfos- 
teiro de Passos de Souza da Ordem Benedictinai ^ 



b) 8. Martinho de Arli 

cHe oste monte de Santiago de Arados, aquelle cUevado de t^ira, 
que fica servindo de rebu90 a està Igreja de Sam Martinho de Aris, 
com distancia de meyo quarto de Legoa, confinando com ella, pella 
parte do Sul ; da mesma Igreja se vai subindo pouco a pouco, com 
augmento n&o dezabrido, sem que de repente se termine a eminencia 
de sua altura; rellatando nesta instancia ser oste monte e outros pe- 
quenos de inconsideravel nome serem pouco abundantes de cassa e 
desta s&o — coelhos, Lebres, Perdizes e outras aues que por multo 
ordinarias nSo refiro ; tornando porem a nesso ponto digo foi — 

Este aquelle monte que servio de Capa, là no principio da liber- 



^ Memoria do Vigario de Pendorada, Fr. JoHo de Nossa Senhora do Hlar< 
Diociùtiario Oeographieo, t. xxviii, fi. 741. 



O ABCHEOLOeK) POBTUGUÉS 217 

dàde,'ao8 Barbaros mouros que nelle se esconderSo, quando perce- 
gaidos do valerozo Moninho Viegas, nas batalhas que Ihe deo em 
Villa boa do Bispo : nelle repousados (por tempo de bum mès) forSo 
valerosamente pelo mesmo CapitSo acometidos ; com tal ventura deste 
e prìcipicipio (aie) daquelles^ que lego se derSo por obrigados a lar- 
gar com monte, a mesma vida. 

Neste monte se conservavfto ainda alguns monumentos que por razSo 
dos tempoB, e outros mais principios, se achSo prostradamente demo- 
lidos. No qual tambem se erigio bua Ermida de Santiago (talvés em 
louvor de gra9as assim comò là em Villa Boa o Cappìtfto Moninbo 
Viegas) a qual ja hoje nSo tem mais que o ser cadaver nesta terra 
demolida; conservandosse a sua Imagem na Igreja do Salvador de 
Magrellos. Deste se divizfto varias fi*eguezia8 do Bispado de Lamego, 
corno tambem do nesso bispado. Com a mesma^ em distancia de meja 
legoa se percebem os despenhados rulnores do rio Tamega, que tendo 
o seo nascimento là no Reino da Galiza, entra por Chaves, em Por- 
tagal, em arrebatados passos, thè chegar a dar o ser, com o rio Douro 
a Entreambos os rios donde hermanados partem dar os ultimos alen- 
tos, noe bra$os do mar Oceano, o que mais larga e distintamente po- 
derSo dizer os R/°' Parochos daquellas parocfaìaes vizinhangas»^ 

o> Santa Maria da SUa 

e Està està freguezia em a Provincia interenence de entro Douro 
e Minho, deleitoza e verde, Bispado do Porto^ Comarca e termo do 
Porto, freguezia de Santa Maria da Eja* 

Tem secenta e seis vezinhos, tem pessoas de bum e outro sexo 
duzentas e trinta e cito. Està cituada em sitio alto saudavel e apra- 
zivel delle se nfto descobre povoa98o algua so alguas freguezia s Al- 
deanas se avistam desta. Està està Parrochia dentro da mesma fre- 
guezia tem sinco lugares a saber: o lugar de Eja onde a Parrochia 
està cituada — o lugar da Boi de Baixo — o lugar da Boi de Sima — 
o lugar de Ameyxedo — o lugar de Cazalperro. 

seu Of ago he Nossa Senhora da Asump^So etc. 

O Parrocho he Reitor da aprezenta9So do Reuerendo Cabbido da 
Santa Sé Cathedral do Porto podece renunciar dandolhe de congrua 
trinta mil reis e por elle mandar lavar a roupa da fabrica dois mil 



^ Memoria do Abbade de Arìz, Francisco Antonio de Almeida, Dkcwnario 
GeographieOf t. iy, fl. 50Ì. 



218 Abcheologo Porthoués 

rei8 e terra pera orta que tambem nella seinea milho e collie viaho 
quecom todon os proes e percalsos poderà fazer adplurimum seteiU 
^il reis e para o Reverèndo Cabbido anda A Renda, a dizimarìae 
lenito e trinta mil reie e o mesmo Reverendo Cabbido he obrigado a 
iabriqna da CapelU mor e samchrestia ^ Rezidencia. 

A (ermidà) da glorioza Santa Luzia Virgem. Martir tem saa roma- 
gem a primeira oitaVa da Pascoa e nese dia comoorre multa gente 
que nXo tem numero e por està Santa obra Deos muitos.milagres; a 
do gloriozo Santo Amaro Abbade tem sua romagem a quinee de Ja- 
neiro e por eete Santo obra Deos tSobem muìtos milagree. 
' Os frutOB que ob moradores desta freguezia recplhem he milham, 
eenteyo, vinho, àzeite, eastanha e fruta, mas de tudo que nSo chega 
:para o sustento dos moradores della, que para averem de .pasar està 
mizeranel uida ob transportam de outras. 

Estam Bujeitos as Justisas da Cidade do* Porto Capital do Bispado 
x^oiao tambem ao Corregedor da Comarca estando com correisam 
aberta na uilla de Airifana de Souza, e tambem neste Concelho ha 
bum ouvidor que serue anualmente e nSo Julga senam até bum Cru- 
"zado eletto pelle -senado da Camera do Porto cabeja desta comarca. 

>Nam tem Correyo mas eàm se oerue do Correyo da uilla de Arri- 
fana de Souza que desta freguezia là dista duas legoas e chega o 
Correyo a dita uilla a quinta feira. Dista està freguezia a Cidade do 
Porto Capital do Bispado seis legoas e a Cidade de Lisboa Capital 
do reino e amporio do Mutido sincoenta*e coatro Legoas* 

Ha nesta freguezia - entre o Ingar de Araeyxedo « Cazalperro. 
Nascem posto que nSo copiozas arojoS de agoa stdfuria medecinal a 
Tarias infirmidades. Chainace ó monte ém que confina està freguezia 
Mozinho. -, 

Principia oste monte na freguezia de Aguiar de Souza e acaba no 
principio de Pasos de Souza ambos deste Bispado e Provincia poderi 
ter de comprido duas legoas de hSa a outra e de largo meya pouco 
mais ou menos bua e ou^a couza. 

O fruto que produs este monte mais principal he carqueja e toje. 
NSo he pouoada. 
- He està serra de temperamento frio. 

Neste monte pastam bois, vacas, Bestas^ ouelhas, cabras, coelhos, 
perdizes, Lebres, Aguias ribeiraa, por acazo algiìa rial, Lobos, ra- 
pozas, toirons, Martas, fuinhas, por acazo algum jabali. 

Nesta freguezia nSo nasce rio algum nem por ella pasa so sim na 
repartiaSo della pasa hu ribeiro quo me dizem Ihe chamam Pego Ne- 
gro nem eu Ihe soube outro nome dés que estou nesta freguesia o 



O ABGHEÒLeMK) PORTUGUÉS 219 

I — .. — ■ ■■ ■ — — ■ -■■ ■ I ■ r . .. . ■ . ■ - - 1 -1 

qoal ribeìra me dizem principia no lugar donde chamam a Salgaam ^ 
e. mie .dizem he fregdezia da Cabe9a Santa do mesmo Biapado e pro- 
vincia e que ahi nasce no tal lugar. : 

'Esìe ribeiro nSa cria mais de peixes do que escaloB e algumas in- 
guias e nam.em muita abundancia. 

liSte ribeiro morre no ^arebatado rio Tamaga no citio onde cha- 
mam- Pen$08, lugar em que nelle entra. Este ribeiro tem muinhosdé 
muer pam, negreiros e alveiros; masin&o nosverans (ver9e«) cecoft 
por faltar a agoa» ^. 

d>.S. Salvador de MagreUoB 

cTém està fregoezia hi!a iierra a que chftm&o Monte de Àrados, 
terra inculta, tém muytos penedos grandes, matos com àbundancia ; 
ainda que dizein em algum tempo se cultivava parte deste monte, 
pellas costa» e fraldas delle de milho alvo, e senteyo; he abundante 
de pasto», ahondepastto gados vacuns^ bestas, cabras, e ovelhas: — 
he abundante de.ca9a, corno vem a saber, perdizes, coelhos e lebres. — 
He este monte d^vasso, e de pasto comum/ ainda que a propriedade 
-he dos Lanradores circumvezinhos por terem nelle suas sortes demar- 
eadas. Portense deste monte a «està mìnha freguezia pelle nascente, e 
a outra ametade péllos mais ventos thè o norte, portense aos Lanra- 
dores de Sam JoSo da Pendarada, aos da freguezia de Barn Miguel 
de Mattòs, de sam Payo de Favoens, e os de Sam Martinho de Ariz. 
Tem este monte de comprido de Norte a Sul hum quarto de le- 
goa, e em redondo meya Legoa principia na freguezia de Ariz, e 
acaba no de Sain Jollo da Pendorada. 

KSò tem este. monte bra^os alguns, por estar cercado das fregue- 
zias numeradas. .... 

Deste monte nSo nacem Rios alguns, so sim alguas fontanheyras 
de que se utilizzo os Lanradores para cultura de suas faldas. 

Neste monte nSo ha villas alguas, bó sìm, nas faldàs do ditto monte 
ha alguns Lugares das freguezias nomeadas no interrogatorio primei- 
ro ; -a saber do nascente o lugar de Magrellos de Sima desta mesma 
freguezia, do Sul o lugar de Santa Chrestina, freguezia de Pendora- 
da ; dò pòente hum Lugar das Cazàs Kovas da ditta freguezia da Pen- 
dorada; e do Norte com o lugar de Requim e lugar da Samo9a, que 



1 Em latim : Celgàna. 

z Memòria do Beìtor Jerònimo Gaetano de Affonseea Carneiro, Dieeicmario 
GeographieOj t. ziy, fl. 19. 



220 Archeologo PoBTUcmÉs 

bSo da freguezia de Sam Payo e Ariz. No alto deste monte està hSa 
PlaDicie que terà de Largo do Norte ao sul sincoenta passos^ e do 
nascente ao poente dezoy to : desta planicie se descobre para todas as 
quatro partes dò mundo mtiytas terras com distancia qae se nSo pode 
bem ajuizar. No alto cacumem deste monte ha tradÌ9So muyto antiga, 
que nàquelle tempo habitavSo os Mouros, e daquella planicid faziio 
fortaléza, e ainda hoje se devizSo huns vestìgios pollo poente dos mu- 
ros da sua fortaleza. No mais alto deste monte, se edificou hna ca- 
polla pellos moradores desta freguezia^ e nella colocar&o ao glorioso 
Sam Tiago major, e na mesma se venerou muytos annos; nio se- 
mente pellos vezinhos desta freguezia de Magrellos, mas sim tamb^n 
pellos das freguezias adjàcentes comò her%o Sam Martinho de Arìz, 
Villa Boa do Bispo, Sam Payo de Favoero, e Sam Joam da Pendo- 
rada, com votto muyto antigo, adonde no primeyro dia das Ladainhas 
de Mayo, se ajuntav2o todos os parochos destas com seus fregaezeS; 
com suas cruzes todos juntos^ com muyto mais povo devoto, se orde- 
nava bua procìsJlo, e se cantava bua Ladainba dos Santos fereal, 
dando tres voltas ao redor da Capella; feita està ae^So de grassas, se 
cantava na mesma Capella biia missa, por bum dos Parocbos mencio- 
nados por giro, principiando primeyro pelle Parocbo desta freguezia. 
Ha treze para catorze annos, se aroinou està Capella, e pella sua 
roina se foy com solenidade buscar o santo apostoUo, e se colocoa 
nesta Igreja no aitar mayor comò se dice no enterrogatorio setìmo 
etc»^ 

e) EtenUt Giara do Torrio 

«Està freguezia comò se dice be conto que comprebende o Lngar 
do do Torram, Termo do concelbo de Bomuiuer, o Lugar de Boaro, 
termo do concelbo de Payua e Bispado de Lamego a Rua de Entre Am- 
bos OS Bios concelbo de Penafiel o Lugar de lugueiros e outras al- 
deyas deminutas que todas tem os vezinbos sobreditosi^. 

f> 8. ICartlnho daVarsea-do-Donro 

«No citio cbamado do Castello, no meyo da freguezia, entre o Rio 
Paiua no rio Douro e neste sitio està bum outeiro Rodendo de ponta 



^ Memoria do abbade de Magrellos, FranciBCO de Sousa Manuel, Dieeionario 
Geographico, t xxii, fi. 210. 

2 Memoria do Cara JoSo Teizeira Nones, DiceUmario Gfeogrt^ioo, t zxzvi, 
fl. 607. 



O Archeologo Pobtugués 221 

aguda o coal he bum penedo cujo outeiro cerca o Rio Douro, e o Rio 
Paiaa juntamente, principalmente de imbemo, nunca chegoa este ou- 
teiro a ser cuberto dos Rios, em inchente aigama delles ; no dito ou- 
teiro esteve algum dia huma Capelia de S. Fedro e inda hoje ha bes- 
tigios della; nelle sé acham alguns bestigios de abitasois antigas. Este 
outeiro fica situado entro os dois rios a parte do sul e no comselho 
de S. Fina comarca de Lamego e antre os dois Rios à parte do na- 
cente estam algumas terras que sam desta freguezia de Sam Martinho 
de Varzia do Douro e do Bispado do Porto : e emquanto hào sicular 
gobema nellas a juBtÌ9a do conselho de S. Fins: de sorte que fica 
està freguezia situada em tres comselhos. A igreja e o corpo da fre- 
guezia no Comgeiho de Bembiuer, comarca do Porto; hum braso no 
comcelho de Paiua; otro no de Sanfins, comarca de Lamego, mas 
teda do Bispado do Porto. (FI. 593). 

O Lugar de Bitetos asima Referido aomde, està a capelia de 
S. Bernardo, he um dos milhores portos que tem o rio Douro nelle 
ha varios barcos que todas as somanas bam ha sidade do Porto lebar 
fazendas de vinhos, Azeite, Lenhas, fructas e de todo o genero de 
fazendas que as terras dam de si. A està Ribeira bem embarcar pe- 
Boas de varios com9elhos ; e o sam de Bemviber, Tobias, Canabezes, 
e Marco, Villa de S. Gon9alo dAmarante que dista coatro Legoas e 
8uas yezinhan9as lebando e trazendo todo o genero de fazendas para 
a combibencia destes Pobos e comersios de varias pesoas de negosio 
que tem nas ditas terras, nos barcos desta Ribeira se conduzem as 
maiores fazendas para a feira de S. Miguel que se faz no couto de 
Esoamarfto nas margens (do) dito Rio, e do Rio Paiua, e para a feira 
do etc. ; e todas as fazendas que bem da sidade do Porto e bam para 
a dita sidade da refenda Igreja embarcam nos ditos Barcos de Vite- 
tos desta minha freguezia de S. Martinho de Varzia do Douro. 

Nos pasais desta Igreja se descobre vestigios de lascas de pedras 
miudas bem labradas, e tem aparesido varias colunas de pedra fina 
bem labrada com seus capiteis com diferentes labouros, bastantes pias 
que mostram serbirem de Pilois e mos piquenas, muito tijoUo, e al- 
gumas tijellas, pratos e algumas panellas tudo de barro bermelho» ^ 

Pedro a. de Azevedo. 



1 Memoria do abbade de S. Martinho da Varzea-do-Douro, Antonio Correa 
Pega Borges, Diecionarto Geographioo, t xxziz, fl. 596. 



222 O Abcheologo Pobtugùés 



Proteogao dada pelos Oovémos, oorporagdes ofAoiftes 
e Institutos soientiflcos à Aroheologla 

11. ÀntlgnldadeB do Malhorea 

Em 1895-1896 encontraram-se importantes antìgnidades no campo 
de Son Corrò, em Cortìng, na ilha de Malhorea, — 'Umas da epocha 
romana, outras da preromana: s2o cabegas de animaes, feitas de bronze, 
iCBuvres absolument uhiqnesi, muitos vasos de argilla, lampadas n> 
manas, etc. ; ao todo setenta e cinco objectos. 

Pouco tempo depois do descobrimento, o Museu Nacional de Ma- 
drid adquiriu oste objectos, por intervenjlo do Presidente de Cbnselho 
de Ministros de Hespanha, o Sr^ D. Antonio Cànovas. 

(Vid. Revue dts Unimrsités du Midi, III, 110-112, artigo do Sr. D. J. Ba- 

món Mélida). 

12. Mnsen Àreheologleo Nadonal de Madrid 

Este Museu, que oomefou modestamente em 1867, augmentou a 
ponto de em 1895 ser preciso destinar-lhe 28 salas no Palacio das 
Bibliothecas e Museus de Madrid. Tanto os archeologos corno os go- 
vemos do vizinho reino se tem esmerado em dotar o seu paia com um 
estabelecimento tio importante corno este. 

O Museu divìde-se em quatro grandes sec9Ses: 1) prehistorìa e anti- 
guidade (egypcia, orientai, iberica, grega, e romana); 2) idade-média 
e tempos modernos; 3) numismatica e dactylographia; 4) etfanogra- 
plùa, — e a bibliotheca especial do Museu. 

(Vid. Revue des UniversUés du Midi, UI, 114--115). 



18, Balnas de ItaUea (arredores de Serllfaa) 

<0n y est re^u aujourd'hui par deux gardes que la Còmmission 
des Monuments j a installés et qui ont à leur charge la conservation 
des ruines». G. Bonsor, in Revue Archéologiquej 1898, p. 6. 



Ao passo que iste succede em Sevilha, succede em Portugal o 
seguinte, para nSo citar por agora senSo tres exemplos : 



Archeologo PoBTOCfuÉs 223 

1) Ao pé de Faro, em Mìlreu, ha umas thetrnas romaiias, quo 
ainda ha pouco eram notabìlissìmas por causa dos mosaicos que as 
revestiam, mas que dia a dia est2o sendo devastadas por quanta gente 
là vae. Quasi póde dizer-se que ninguem visita o Algarve que nfto 
traga de Milreu um pedajo de mosaico arrancado das thermas! 
guarda que là està, e os seus antecessores, mereciam ser processados, 
tantos sSo os estragos que tem causado à sciencia archeologica! As 
auctoridades respectivas nunca se importaram, que eu saiba, de salvar 
e adquirir estas ruinas. Se tivéssem sido aproveitadas, nSo so seriam 
bello monumento, que se visitarla com summo agrado e proveito, mas 
constituiriam documento de amor da civiIiza93o; assim servem apenas 
de nos envergonharem! 

2) De fronte -de Setubal estSLo meias soterradas num areial as 
ruinas de urna povoagSo, ainda com paredes de casas em pé, rèstos 
de thermas, piscinas, e urna quantidade inaudita de objecto& meudos, 
que o rio Sado, comò bom e diligente explorador, se vae encarregando 
de por a descoberto (cf. Arch. Port.j ili, 156, etc.). Apesar de 
vàrias tentativas avulsas que se tem feito para se éxplorarem conve- 
nientemente taes ruinas, nunca se tomou a peito fazer por Urna ve« 
està obra meritoria, scientifica e patriotica! 

3) Ao pé de Villa-Real de Tras-os-Montes, em Panoias, ha uma 
importante estaj&o romana. Por mais de uma vez, n-0 Arch. Pori., I, 
271, e m, 58 e 177, tenho levado o assumpto às estajSes competentes, 
e mostrado a necessidade de as resguardar e conservar. Ninguem me 
ouve. E comtudo o camartello do aldefto analphabeto continua no seu 
trabalho de destruir successivamente o que ainda resta dos preciosos 
monumentos ! 

J. L. DE V. 



Estudos sobre Troia de Setubal 

7. Fragmentos de inscrip^es romanas 

Em poder do meu amigo o Sr« Màrques da Costa, illustrado capitSo 
de ca9adores 1, de Setubal, vi dois fragmentos de inscripfSes romanas 
achados por elle em 1897 nos areaes de Troia, os quaes passo a 
descrever : . ' . 



224 



O Abchbologo Pobtugués 



1.® fragmento (inscripfXo funeraria): 




V. 
V. 
V. 
V. 
V. 



T. 



1. 

2. LA Deve ser tenniiia9&o de um nome, talvez feminÌBO. 

3. XXX;ouXXXe tantos (annos). 

4. OtAlUiì 

5. ìlAtert M cabla perfeitamente. Talvez mater, e dìo 
matrij pois a pessoa fallecida tinha so 30 ou 30 e tantos annos. 

Neutra in8crip98o (vid. Arch, Pori., i, 56-68) lè-se tambem 
Galla; mas iste nSo é raz&o para que aqui se leia o mesmo nome. 

Numa placa de mannore branco: a-ft == 0™,15; 6-c = 0",095; 
espessura da placa = 0^^,013; altura das lettras 0°',015. 

Parece que se trata de urna mSe que consagrou à memoria de sea 
filho ou filha de 30, ou 30 e tantos, annos uma estela funeraria. 



2.^ fragmento : 



a 



V. 1 V PATRf. 

V. 2. ? 

Noma placa de marmore negro: or-b = 0'',084; c-d = CjOSS; 
espessura da placa = 0",017 ; altura das lettras = 0",02. 
Talvez tambem seja iuBcrìpfSo funeraria. 

J. L. DE V. 



O Abcheolooo Portugués 225 



Um problema numismatico 

Na Descripgào geral e historica das Tiioedaa cunhadas em nome dos 
reis, regentes e govemadoi'es de Portugalj do Sr. Dr. A. C. Teixeira 
de Aragao, està estampada de pp. 420-426 do tomo ii a Estatistica 
das moedas de ouro, prata, coòre e bronze para o continente do reino, 
ilhas dos Agores e Madeira, no periodo que vae de 1752 a 1876. 

Este valiosissimo documento para a hietoria da moeda em Porta- 
gai, datado de 1 de Julho de 1873, talvez por erro typographico, visto 
apresentar dados que abrangem até ao anno de 1876, é assignado pelo, 
ent2o, director da Casa da Moeda de Lisboa, Sr. D. José de Saldanha 
Oliveira e Scusa. 

E pois um documento officiai, e corno tal deve merecer teda a 
confìan9a, devendo acceitar-se comò verdadeiro que nos annos indi- 
cados na Estatistica, e sé nesses, {Descripgào geral e historica da^ 
moedas, etc., p. 436) se tivesse cunhado moeda na officina monetaria 
de Lisboa, e nas quantidades e especies là indicadas. A ser assim ha, 
porém, um ponto obscuro que conviria esclarecer. 

A Estatistica diz que nos annos de 1754 a 1768, ambos inclusive, 
senSo cunhou moeda de prata na officina de Lisboa, tendo recome9ado 
a cunhagem, interrompida em 1753, so em 1769; no emtanto eu possuo 
as moedas de prata que constam do seguinte quadro : 

2 typos differentes; um com JOSEPHUS e outro com lOSEPHUS. 
2 cunhos variados com pequenas differen^as. 

2 idem, idem. 
4 idem, idem. 

3 idem, idem, havendo dois typos: um com JOSEPHUS t outro 
com lOSEPHUS. 

2 cunhos variados com pequenas differen^as. 

4 idehi, idem. 
1 idem, idem. 

NSo sondo, comò n&o sSo, falsas estas moedas, que ali&s sfto vul- 
gares, nXo sondo tambem ensaios monetarios, e sondo indiscutivel a 
verdade officiai dos dados da Estatistica, a exìstencia de taes numis- 
mas so se póde esplicar por qualquer das tres hypotheses seguintes : 

a) Terem sido cunhados em officina differente da de Lisboa. Mas 
corno em Portugal n&o consta que naquella epocha existisse outra, 
so poderiam ter sido cunhadas no Brasil. Mas onde? Kenhuma das 
moedas tem marca monetaria, e nem Julius Meili, no seu excellente 

16 



Valor 


DaU 


480 


1762 


» 


1763 


9 


1766 


» 


1768 


240 


1762 


j» 


1766 


» 


1767 


» 


1768 



226 O Archeologo Pobtuguìs 

livro Dos Brdsilianùche Geldwessen, diz nada, qae possa aactorizar 
tal opinìSo. 

b) Terem as xoatrizes sido effectivamente feitas nos annos qae u 
moedas indicam, mas nSo se ter procedido à cunhagem d'estas senio 
em 1769. Està hypothese parece acceitavel, porque, tendo a cnnhagm 
da prata, indicada na Estatistica, sido de 86:241|ji210 réis nos dois 
annos de 1752 e 1753, foi em 1769 de 694:468i9870 réis, bucando 
em seguida em 1770 a 77:736^000 réis e em 1771 a 2:124i5720 réis, 
sendo de notar que desde 1752 a 1808 em anno algom foi attingidà 
aqueila cifra de 694:468^91870 réis. 

e) Ter-se cunhado moeda de prata nos oa nalguns dos annos 
comprehendidos no periodo de 1754 a 1768, mas so se ter feito em 
1769 a liquidagSo e escriptura93o do trabalho execntado. Està hjpo- 
these é tXo acceitavel comò a antecedente. 

Qaal das tres sera porém a verdadeira? 

Lisboa, Agosto de 1898. 

Manoel F. de Vargas. 



A lenda ooimbrfi da freira das mfios cortadas 

Uni epltaphlo em rersos leonlnog 

Em livro manuscripto, hoje existente na RepartÌ9&o de Fazends 
do districto de Coimbra, SecySo dos Conventos Supprimidos, e que 
nontros tempos pertenceu ao cartorio do mosteiro de Cellas, arrabaldes 
da mesma cidade, lé-se urna introdac9&o historica, escripta no meado 
do sec. xvn por Fr. Bernardo da AssumpfSo, da qual transcrevo o 
trecho segointe: 

«No anno de mil trezentos, e trinta foy eleita {ahbadessa d'edt 
mosteiro) D5na Maria Fernandez Religiosa de estremada virtude : no 
capitulo em hu% pedra branca està hu& memoria saa ja ta8 gastaik, 
que se na8 pode ler cousa, que faja sentido, nem coUigir o discurso 
de sua vida : Ha tradita? que a està senhora louvandolhe as mXos as 
cortara, e recolhendose à yella miraculosamente Ihe foraS restìtuidas: 
Caso ta8 raro, que duuido eu succeder outro semelh%te : Na8 forao os 
annos de sua Prelazia mujtos, por que ja no anno de mil trezentos, e 
quarenta se acha escritura em qu Donna Domingas Estenez que Ihe 
succedeo na Prelazia ouue sentenca centra El Bey de dous casaes na 
LousaS: Tambem os annos desta Prelada foraS breues, por quanto no 



O Archeologo Poetugués 227 

anno de mil trezentos, e quarenta, e tres se vem escrituraB de D8na 
Tareja Remondo, de gente Nobilissima daquelles teinpos, e no anno 
segainte fez troca, e escambo com El Rey Dom Dinis »*. 

Um secolo depois (1744) de iste haver side escripto, foi publicado 
o tomo IV do Agiologia hiaitano, e nelle, a p. 517, disse D. Antonio 
Gaetano de Sousa, ao dia 11 de Agosto: 

e No Mosteiro de Cellas de Coimbra se conserva a memoria de 
D. Maria Fernandes, eleita Abbadessa deste Reli^oso Mosteiro, no 
anno de 1330, pessoa de abalizada virtude, em que o desprezo de si 
mesma, foy taS abatido, que Ihe parecia ser obrigada a se aniquilar 
ao mais profondo da humildade, na8 querendo houvesse consa nella, 
quo merecesse louvor. Consta por tradÌ9a8 daquella Casa, que por 
hom Prelado daquella Diocesi Ihe louvar as mftos de bem feitas, as 
cortara logo, e recolhendo-se à cella afflicta Ihe foraS restituidas por 
intercessaS de Nossa Senhora: merecerìa a sua fervorosa devo9a8 à 
Virgem este singular favor, que o seu indiscreto zelo Ihe fez obrar ; 
porém corno Deos ve os coragSes, e por elles costuma retribuir, sondo 
occulto aos perspicazes olhos dos criticos, as causas porque obra, sem 
que queira sirvaS de esemplo semelhantes resolugSes». 

E a p. 518 do mesmo tomo, em Commentario ao refendo dia 11 de 
Agosto, acrescénta: 

cNo Mosteiro de Cellas de Coimbra, se conserva huma antiga 
tradÌ9a3 do caso refendo, que se continua com huma pintura, que no 
Claastro est&, onde se ve pintado este successo, verdadeiramente 

estranho, mas na3 novo, acreditado de Aoihores de boa nota^ 

Desta sorte, nada tem de ìmpwsivel o caso da Madre D. Maria 

Fernandes, Abbadeesa de Cellas, cujas memorias chegaS até o anno 
de 1340. 1^0 Capitulo daquella Casa se conserva em huma pedra hum 
Letreiro do seu tempo, mas taS gasto, que jà se na8 póde formar 
sentido do que contém. O refendo tiràmos das Memorias m.s. que 
deste Mosteiro se nos mandaraS». 



1 CeUaa — Index da Fazenda (n.° 44), fl. iv v. 

^ Segaem-se cita9oe8 de algons AA., que referem casos semelhantes. Nesta 
parte D. Antonio Gaetano de Sousa quiz refìitar, ao que parece, a opiniSo aven- 
tada por Fr. Bernardo da As8ump9So no trecho inedito que acabo de publicar : 
Ccuo tao rarOf que duvido eu tucceier attero aemelhàte. 



228 O Archeologo Pobtugués 



A lapide a que se referem estas noticias està hoje depositada do 
Museu de Antiguidades eonfiado à guarda da SecySo de Archeologìa 
do Instituto de Coimbra. Parece realmente que nesta pedra ha refe- 
rencia à lenda, consignada por varìos AA., da freira das mios corUdas. 

Mede a refenda lapide 0™,62 de altura X 0",51 de largura. Ha 
nella, i esquerda do espectador, urna larga margem de alto a haìxo, 
sem inscrip^So, onde se vi^em dois ediculos pouco profundos, um sobre 
o outro. No superior destaca em baixo relevo urna freira de joelhos. 
mSios erguìdas, nas quaìs Ihe pega a Virgem, que tem o Menino ao 
collo ; no inferior està esculpido da mesma fórma um bispo revestido 
in pontificalibus, O resto da pedra é occupado por extensa inscnp^So. 

Toda a lapide foi dourada, e as lettras cheias de massa ou betume 
prete, de que ainda restam alguns yestigios insignìficantes. 

Um rapido exame revela-nos à primeira vista que està lapide foi 
esculpida no sec. xrv. Tanto o caracter da esculptura, corno a fóraa 
das lettras nSo deixam dùvidas no nesso espirito. 

Haverà nesta pedra referencia ao miraculoso e estupendo successo? 
Se porventura a houver, temos aqui um dos casos, alias nio mnito 
raros, de uma lenda foimada ainda em vida ou lego depois da morte 
da pessoa a quem se refere, 

A esculptura marinai nada nos diz, posto que estejamos certos 
de que foi nella que se originou a lenda. A Virgem, pegando nas maos 
da freira ajoelhada, tanto póde estar a unir-lh'as aos bragos, donde 
houvessem side decepadas, comò a convidà-la a erguer-se ao ceu, para 
receber o premio das suas virtudes ; o bispo, se póde representar o que 
Ihe gabou as mSos, tambem póde significar o santo especial patrono 
da freira. 

Resta-nos a inscrip^fto: mas està encontramo4a no meado do 
sec. xvn ja taS gaataday que se naZ pode lev covsa, que faqa sentidó. 

Em todo caso bom é tentar decifrà-la. 



O paciente e conscencioso archeologo Ayres de Campos, traba- 
Ihando sobre um calco tirado por outro notavel archeologo conim- 
bricense, Pereira Coutinho, prior da Sé-Velha, conseguiu ler alguma 
cousa, interpretando comtudo mal vàrias passagens. Eis o que elle 
publicou : 



Abcheologo Pobtugdés 229 

cSepuIchral de outra religiosa, talvez abbadessa, do dicto mosteiro 
de Ceilas de Coimbra . . . com tantas falhas e mutilagdes que so, p mal, 
jjodemos decifrar as seguintes palavras: 

LÀVDABILIS : . . . .NEDICTA : 

VIRGINEIS : . . .IME i HONORIS ; 

POS .... ANCILL A : DNI : VENERABILIS ILLA i 

CÉT : SACR : SACROS • NVMOS : DONAVIT. . . 

CLARVIT : HEC : VNA : QVASI SOL : ET : LVCIDA : LVNA : 

VIRTVTV : DONIS : I i CLAVSTRO • RELIGIONIS 

TOTV SACTORVM: 

SIC : I : AVRORA : RVTILET : LVX • ORTA : DIEI • 
SIC : SVPER : ASTRA i NITET : HEC : SAC : SPÒSA : DIEI : 
lAM : CAPIT : HOC : TVMVLV : CELESTIS : AM0RI3 i 
»i 

Com pacìencia e algum traballio consegui ler a inscripgSo toda, 
sem vislumbre de dùvida na sua leitara. Està bastante gasta em 
partes, mas nSlo tem mutilagSes; a unica falba que nella se encontra 
de um simples D na 4.* linha facilmente se suppre. 

E um elogio, em phrases largamente encomiasticas, feito à vir- 
tuosa abbadessa D. Maria Fernandez, terminando pela data da sua 
morte, Nfto exerceu o abbadessado ató à era de 1340, comò se tem 
supposto; falleceu a 27 de Novembre da era 1338 (A. D. 1300) 
segundo refere a inscrìp$2lo. A respeito do córte e pegamento das 
mSos nada se diz, comò era de esperar. 

D'onde se ve que a lenda, que certamente" nasceu da esculptura 
marginai d'està lapide, e que se suppunha ser confirmada pela attes- 
tajSo do successo feita na inscrip9ao coeva, que nella se divisa, tem 
em seu apoio unica e esclusivamente uma interpretaySo errada da 
refenda esculptura. 



1 Catalogo do8 objeetos existentes no Museu de Archeologia do InstUvto de 
Coimbra a cargo da Sec^ào de Archeologia do mevrao Jn$tittUOf Supplemento i, 
p. 30 e seg. 



230 



ÀBCHEOLOGO POBTUQUÉS 



Eia a traDscrip9Xo fidelissima do epitaphio que hoje sae a Inme 
pela primeira yez : 



Ediado eom a 
Yirgem, o Me- 
Mitiotufreira. 



HIC : DEVOTA : DO ì lACET : ABBATISA : 8EPVLTA i 
QVA : AVA : COLLAVDAT : BOITAS i ET : GttA : MI^TA i 
M0RIB9 •: EXIMIA : YGO : FVIT : I8TA : MABIA : 
F*nLiI i DCA i LAYDABILIS \ ET • BNEDICTA ■ 
VOINEIS : SOCIATA : CHORS : lA : CYLME : HONORIS : 
PO01DET ': ANCILLA ; DNI : YEMERABILIS i ILLA • 
INT' : BACR' i 8ACR08 : MYM*OB : DNAR' : 
CLARYTT : HEC 5 YNA ì Q8I : SOL : 7 5 LYCIDA : LYNA : 
VTYTV •: D0NI8 : T : CLAYST • RELIQIONIS = 
TOTV ; 8CA : CHOR l PACIT • ABBATISA ■ D'OORYM I 
sic : I 5 AYRORA : RVTILAT ■ LYX • ORTA :' DIBI l 
SIC i 8YP' i AST : NITET : HEC : 8AC i SPOSA : dTeI I 
lAM : CAPIT : HEC ! CYMYLY I CELE8TIS l AMORIS l 
QYB t BNB : VGINEI i 8ERYAY : CLAYST ': FYDORIS : 
HYl9 : XPE : P'CET : P' : NB ? Q'SVM9 j AVDI : 
NOSQ' : TVE : SÌP' : FACIAT • ÌtÌD'E l LAYDI i 
ANOS : SI i lYNGAS 1 TER i DENIS ; MILLE l T*CÌTIS 1 
ADIVCTI8 : OCTO • PATET ; ERA : T : MORIETIS ; 
iSYP* i ACCEDAS ! Q'NIA : LYX 5 ANTE : KL'S ; 
QYA : MORTE : SYBUT : QNTA i D'CEBRIS : ERAT 



Que deve ler-se: 



Hic denota Domino iacet abhatissa aepulta, 
Quam sua collavdat bonitas, et gratia multa, 
Moribus eximia virgo fuit ista Maria 
Femandi dieta, laudabilis et benedieta, 
Virgineia sodata choris, iam cuJmen honoris 
Possidet ancilla Domini venerabilis illa. 
Inter sacrarum sacros numeros Domnanim 
Claruit haec una, quasi sol et lucida luna. 



Archeologo Poetugués 231 



Virtutum donis, in claustro religionia, 
Totum sancta chorum facit abbatùsa decorum. 
Sicut in aurora rutUat lux orta diei. 
Sic super astra nitet haec sa^ra sponsa dìei *. 
I lam capii haec cumvlum coelestis amoris, 

Quae bene virginei seruauU claustrum pudoris, 
Huius, Christe, precet^ prò nobis quaesumus audi, 
Nosqvs tua£ semper faciat intendere lattài, 
Annos si iungas ter denis miUe trecentis 
Adiunctis odo, patet era tibi morierUis; 
Insuper accendasi quoniam lu^ ante kalendas. 
Qua mortem subiit, quinta decembris erat. 



Antonio de Vasconcellos. 



O castello de S. Mlgmel-o-AnJo 

Male al^ns achados 

£m urna nota do artigo que, sobre o castello de S. Miguel-o-Anjo, 
de Azere (Arcoe-de-Valdevez), foi publicado n-0 Archeologo Portu- 
guis, I, 161, referia eu a circumstancia de existirem ainda no alto 
d'esse castro as ruinas de urna capella, que f&ra da inyoca98o de 
S. Miguel. 

A minha curiosidade, em um caso d'estes, sentia-se estimulada 
pela miragem de importantes achados que a capella de um castro e 
com aquelle appellido, poderia muito bem reservar ao meu enthusiasmo 
de incipiente pesquisador de antigualhas (Veja-se Arch. Pori., 1,^3 e 
II, 137). 

Mas por firn, se nSo foi absolutamente esteril o traballio de reme- 
xer naquellas modestas ruinas, tambem é infelizmente certo que ellas 
nXo sepultavam o que eu sònhàra por alli. Os que, ha dezenas de 



^ Sic. Deverìa estar Dei (?). 

* Sic. Creio que o esculptor, por erro, gravcQ P*CET em vez de P'CES 
(preoes). 



232 Abcheologo Pobtuoués 

annos; desde a profanafSo da capella, lìberrimamente saqnearam as 
quatro pobres paredeS; so delinquiram no pouco conceito em que ti- 
yeram algumas dae pedras que, corno todas as outras, apenas Ihes ser- 
vìriam afìnal para os socalcos ensdssos dos seus campos. Se ainda a 
capella permanecesse em pé quando visite! o lagar, teria eu perpe- 
trado de ama so vez a mesma demolÌ9fto que os rudes layradores; 
masy com tal delieto, eiT teria merecido um pouco mais & archeologia 
do que elles ao amparo e defesa das suas terras. 

O que encontrei) que pouco é pois, vou dizé-lo rapidamente. 

Em primeiro lugar, nfto pùde, pelas pesquisas a que procedi, es- 
tabelecer rela9%o alguma enire as ruinas sobreviventes da ermida 
christS e yestigios de algum anterior tempio pagSo, que corcasse o 
castro. Foi o principal desengano que soffri. VerificaTa-se apenas que, 
nos alicerces que ainda exìstiam das quatro paredes da capella, ti- 
nham entrado pedras pertencentes às construc95es castrejas. Para a 
cria9So cu reconstruc92lo da ermida christS haviam-se aproveitado, 
alem de alguns materiaes de origem diversa e extranha, outros que 
foram entre-colhidos alli mesmo nas habita98es que enchiam o an- 
tigo castro. Eram identieos aos que ainda hoje d'ellas se retiram, na 
fórma, nas dimensSes, no appareiho e no genero do granito. 

O n.^ 5, por esemplo, da gravura que acompailha este artigo, re- 
conhece-se ter sido um juntoiro pertencente a alguma d'essas arcb&i- 
cas habita93eB ; é inconfundivel pela perfeÌ9fto das arestas e da esqua- 
dria*. 

Esses alicerces eram porém reconstruc9&o antiga dentro j& da 
epoca christS, pois que por soleira da unica porta da ermida fui en- 
centrar uma pedra que havia jà servido de tranqueiro de anterior 
portada. Tinham-na voltado com a face para a terra ; uma das ares- 
tas era cita vada. As ruinas jà eram pois ruinas de ruinas^. 



^ Como essas, appareceram algumas outras pedras, que provocavam aos jor- 
naleiros està exclamagao : — Q^e pedras tao lavradinhas ! 

Realmente hoje vAo se dà appareiho a pedras de tRo diminutas dimensòes ; 
seu maior comprimeli to era de 0",45. Na gravura nào se ve bem nitidamente 
o n.» 5. 

2 Se houve ou nSlo continuidade na success&o dos cultos professados no alto 
do castro pela popula^ilo autochtone e, havendo solu^ào, qual o periodo que 
ella durou, sao questòes que me ficaram sem resposta no scio d^aquellaa ruinas 

Na base do castro estendem-se umas magnificas terras aonde se formou una 
parochia e erìgiu a igreja de GieUa (antig. GuieUa), Num ponto d*c8saa terras 
ha um lugar denominado Cèrca^ aonde apparecem vestigios identicoa aoe dos 



O Archeologo Pobtuoués 233 

Nik) encontrei nem me constou que tìvesse alli sido encontrada 
in8crìp9So alguma. 

A pedra designada na gravura com o n.^ 2 é^ ao parecer, o fra- 
gra ento do fnste de urna columna^ de sec^So ellyptica. Foi encontrado 
no alicerce da capella e, embora nSo possa eu determinar a sua pri- 
mitiva proveniencia, o que parece certo, à vista da natureza do seu 
granito e genero de lavor com que foi apparelhada, é que pertenceu 
a edificio coevo do castro. 

Na espessura da parede appareciam tambem tijolos de rebordo em 
pedafos. 

A ermida media, pelos alicerces, 6,50 K4,50. A porta olhava ao 
Poente. 



Verificada a penuria archeologica dos restos da capellinha de 
S. Miguel, passei a sondar o monte em outros pontos. Muitos entu- 
Ilìos das primitivas habita9Ses castrejas, mas raros vestigios de tro9os 
de paredes circulares. Tudo destruido. 

Objectos dignos de men9fto os seguintes: 

— Dois pequenos bronzes em pessimo estado, dos quaes um ape- 
nas poude ser reconhecido pelo meu amigo Leite de Vasconcellos comò 
um antoniniano do seculo in*; 



castros romanizados, comò tijolos, alguns objectos de pedra que foram instru 
mentos de trabalho, fustes de columnas, ctc. Tanto a coDsagra9So de urna er- 
mida ao culto christilo no alto do monte póde ter sido facto casual multo poste- 
rior ao abandono do castro e descimento da popuIa9So, corno necessidade ou 
conveniencia da chrÌ8tianiza9ào de algum uso cultual arreigado nas tradÌ9oes 
do povo.. 

£ curioso que ainda até ha poucos annos a Camai*a Municipal dos Arcos la 
annualmente em festiva cavalhada à igreja de AzerCy aonde hoje se encontra a 
imagem que foi da capella do castro situado nos limites d^esta parochia. 

A posteridade qucro deixar aqui urna generosa preven9lLo. Ha nas proximi- 
dades da villa um alto (415 metros) a que chamam o Castello de Ifio Frio, aonde 
foi outr'ora um castro. Alguns bons rapazes lembraram-se este verSlo (1898) de 
ergiier 14 urna ermida, para attrahir forasteiros, e dar-lhe a invoca9&o de àV 
lUiora do Castello. O estio tem corride sécco para mal da agricultura ; pois a Se- 
nhora j4 deu chuva quando Ihe fizeram a primeira procissSo. Està consagrada 1 

Yào 14 agora os viudouros ai*cheologos entroncar o culto da Senhora do Cas- 
tello na longinqua raiz pre-romana do pristino culto 

^ Nas primeiras explora95e8 d'este castro, as moedas encontradas perteu- 
ciam a inlperadores do seculo i (Veja-se Arch. Port, i, 169). 



234 Abcheologo Pobtuou£s 

— Dois peda908 infonnes de bronze, multo oxidado e alterado, qne 
parecem ser escorias de fundÌ9&o ou talvez resto de objectos destrm- 
dos nalgum incendio ^ ; 

— Um fragmento duvidoso de clauus, de ferro ; 

— Um peda90 de tijolo com a estampa das patas de um quadru- 
pede, talvez da especie suina ; 

— O curioso bordo de um vaso de foiba, talvez de cobre. Esse 
bordo era encanudado, iste é, a sua aresta desenvolvia-se numa linba 
sinuosa, em qq qq qq contiguos e deitados ao redor do vaso; 

— A pedra n.® 3 da gravura, nas ruinas de urna habitagSo circa- 
lar. É ama pequena pedra tosca, de mais de palmo, com urna £eìc6 
mal apparelbada e sensivelmente plana, tendo ao centro ama fossasi- 
nha ou pequena ezcava^lLo. Na Citania ou em Sabroso appareceram 
d'estas pedras, coUocadas ao centro das casotas redondas. Pareciam 
ter servido nas habitaySes de aapata a algum poste centrai (Cfr. 
Cartailbac^ Les àgea préhistorisques, p. 275); 

— n.° 7 da gravura é urna pedra cujo destino nSo posso con- 
jecturar. É um fragmento comò que de pequena mó ^ ; nanca pò- 
rem o devera ter side, porque a pedra é muito molle, desaggregavel 
e grosseira. A face visivel na gravura é concava no sentido de ver- 
tice inferior à esquerda, nSo lisa mas cortada de grosseiros snlcos, 
mal definidos, convergindo com pouca regularidade. 



^ Em determinadas circumstancias, achados d'asta ordem podem ser indi- 
cios de US08 fuuerarios ; nada porem, nas pesquisas que fiz, me aactorizaria tal 
interpreta^ào por absoluta carencia de outros elementos concomitantes e neces- 
sarios. (Veja-se Arch. PorL, i, 328). 

2 Nào desejo perder a occasiSo de me referir a urna verdadeira pe^a de 
mó que encontrei neutro castro do meu conceiho, chamado o Alto do Modorrào. 
À figura aqui junta dà o córte d'essa mola pelo eixo do cylindro. £ corno se ve, 




de faces symetricas, o que parece indicar aproveitamento alternativo das daa& 
Em cada vertice tem urna fossazinha indicada por pontos no desenho. 



O Archeologo Poetugués 235 

Seria assim na sua fórma primitiva o objecto ou teria 8Ìdo poste- 
riormente damnificado? Terà tido o mesmo uso das pedras que em 
8 eguida descrevo?* 

— As pedras n.°* 1, 4 e 6, igualmente provenientes de entulhos 
superficiaes, as quaes pareeem ter servido^ à falta de melhor expli- 
ca9lto, de polidores ou moedores fixos^. n.° 1 é evidentemente um 
grande e duro seixo rolado, cuja fórma e dureza se aproveitaram. 
Na face usada, estfto essas pedras mais ou menos puidas e concavas, 




Flg. 1 

denotando o attento exame d'essa superficie terem ellas servido para 
desbaste de outro objecto num movimento continuado^ de repetido 
vaivem. Os vestigìos d'essa ac^o tem analogia com os que deixou na 
superficie das mós o movimento rotatorio de uma pe9a sobre a outra. 

Para que serviriam afinal estas pedras? No jomal que se publicou 
no Porto, denominado Renascenga (1879), escreveu o Sr. Martins Sar- 
mento um Eatudo acerca das excavagoes de Sàbroso, no qual, em nota 
(p. 120, nota 3) o eminente archeologo se refere a umas pedras en- 
contradas em Sabroso, que parecem ser analogas a estas de Azere. 

Que de encontro à superficie concava d'estas pedras era compri- 
mido, em constante movimento de vaivem, outro corpo duro, talvez 



^ Do dolmen ou orca dos Amiaes (Arch, Pori., ni, 111, n.» 77) recolheu o 
Sr. Leite de Vasconcellos uma pedra semelhante k de Azere e da mesma natu- 
reza desaggregavel, pois que a vi no Museu Ethnologico. Na orca dos Juncaes 
(ibid.f p. 110) outra da mesma natureza, fórma e dimensòes. 

2 Devo observar que no castro da Azere nunca encontrei camadas de en- 
tulhos que pudessem ter interpreta^ào chronologica corno em Sabroso (Veja-se 
jomal Renatcen^^ Porto, 1879, p. 120; artigo do Sr. Martins Sarmento). 



236 O Archeologo Portuoués 

pedra^ e porventura bronze ^^ parece evìdenciar-se dos vestigios que 
esse trabaiho deixoa na superficie do granito^. Se entra esses dois 
corpos duros era ou nSo trabalhado qualqiier producto agrìcola, come 
grSos, é ó que nSo ouso asseverar, mas nSo rejeito em absoluto. 

— n.® 8 da gravura é um fragmento de pedra analoga &s des- 
criptas antecedentemente, mas de supei*ficìe convexa e nSo concava. 
É este fragmento que me faz suppòr que estas pedras serviriam tam- 
bem para triturar um producto qualquer. Quem sabe mesmo se al- 
guma materia cerante?^ 

— Varios fragmentos de seixos rolados tendo tido um uso indeter- 
minavel ^. 

— Alem d'estas pedras, recolhi tambem um caco, em que a orna- 
menta(£o me parece ter notavel feÌ9So primitiva. 



1 Nào poderiam ser verdadeiras pedras de amolarf Ou o fio dos grossos 
instrunientos de bronze s6 seria obtido pela martelagem? 

2 No Muscu Ethnologico Portngués, percorrendo-se os achados trazidos pelo 
Sr. Leìte de Vasconcellos das suas explora^oes na Beira em 1896, encontram-se 
pedras analogas achadas em orcas beiroas e a que o redactor d*esta revista 
coiisigna identico uso. Silo as referidas no Arch, Fort., iii, pp. 109, 110, 111 e 125 
com 08 n." 68, 70, 73, 74, 75 e 77. 

Do Casttllo de Praganga (castro pre-romano) vieram para o mesmo Museu 
pedras ìgaaes. 

3 A proposito d^estes polidores (reputados taes até mais seguro esclareci- 
meato do problema) occorre-me lembrar que, nas primeiras explora^òea que fiz 
neste mesmo castro, vieram-me umas peqnenas pedras polidas de gneÌMs, de qoe 
dei desenho de um fragmento em o n.° 7 da ^g. 3 a p. 173 do Arch. Poti., x, 
e que me pareceram polidores ou afiadores, especialmente destinados a peque- 
uos objectos de metal. Ainda entào um homem meu conhecido me contou qae 
assentava numa d^cssas pedras, encontradas num castro, a sua navalha de barba. 

^ Nunca julguei estes seixos caracteristicos de nenhum periodo lithico. 
Mas é innegavei que a abundancia dos d'essa especie nos castros preromanos e 
romanizados denota principalmente a rustieidade e atraso dos seus povoadores. 
Creio estar, portanto, de accordo està maneira de pensar aliés j4 expressa no 
Arch. Pori., i, pp. 172 e 175 com as judiciosas observa^des do consagrado archeo- 
logo, o Sr. Santos Rocha, no Arch, Port, i, 264. 

Em todo o caso, os objectos de pedra que Sabroso forneceu, tem, ao qae 
parece, outro caracter." (Veja Renascen^a, 1879, p. 120). 

Vem aqui a pélo estas palavras de Evans em Les àgts de la Pierre^ a p. 12 : 
«il est probable que, dans les parties les plus pauvres et les plus inaccessibles 
du pays, on continua a se servir de la pierre ponr bien des usages ordinaires, 
longtemps après que le bronze et peut-étre méme le fer étfuent devenus nsuels 
dans les districts les plus riches et les plus civiUsés». Insiste Evana nas mes- 
mas ideias desde p. 138, e mais particul armento a p. 146. 



O Archeologo Portugués 



237 



Propendo a crer que o vaso a que pertenceu o pequeno fragmento 
que possilo, foi feito à roda; pelo menos nSo vejo com sufficiente ni- 
tìdez signaes que caracterizem uin trabalho absolutamente primevo, 
sondo todavia de notar que, no resto do vaso que se perdeu, pode- 
riam os vestigios do fabrico estar mais perceptiveis do que no caco 
que exhumei. 

Em todo caso o desenho tHo caracteristico, feito com pequena 
espatula ou estylete, leva-me a julgar o vaso que ornamentava comò 




Flg. 8 



producto da industria indigena pre-romana no seu caracter, embora 
co-romano na sua chronologia ^. Representa-o na fig. 2. 

Mais um objecto recolhido neste castro de que desejo dar noticia. 

É um grosso annel ou argola de bronzo muito oxidada. É de cir- 
cuito fechado, medindo pelo diametro exterior 0",036. A sua grossura 
nSo é bem uniforme, medindo desde 0",003 a 0™,005. 



^ Cito em meu abono a auctorizada opinilo do benemerito archeologo, 
Santos Rocha ; veja-se Arch. Pori., i, 263 e ii, 68. 

Nesta mesma publica9So e volume a p. 214 vem desenhado um caco neoli- 
thico, cuja ornamentammo é muito semelhante à do de Azere, embora d'cste crasto 
ea possua varios exemplares em que ìnterveiu a roda e em que a ornamenta9So 
tambem nào dista muito d'aquella a que me refiro. Procurarci dar em gravura, 
com mais nitidez, os principaes deecnbos da ceramica do castro de S. Miguel. 

Aproveito a occasiSo para deixar aqui exarado o meu reconhecimento pelas 
generosas referencias que tSo illustre archeologo comò é o sr. Santos Rocha fez 
a minha modesta noticia sobre o referido castro, publicada no Arch, Port.^ i, 161. 



238 O Archeologo Pobtugués 

Ha no Maseu Ethnologico argolas identicas provenientes de cas- 
tros; Mertola tem là um exemplar, e até o castello de Pragaa9a deu 
urna d^essas pequenas argolas, que està no mesmo museu. 

Para outro artigo deixo a descrip9&o de urna pia aberta na rocha, 
dentro de limites d'este castro. 

F. Alves Pebeira. 



Vestigios archeoloKioos dos arredores de Viseu 

Junto à capella de S. Pedro da Escalca, nos snburbios da cidade 
de Viseu, encontràmos bastantes fragmentos de telhas de rebordo 
e tijolos, assim corno um pondus, perfeitamente conservado, e com 
marca. 

Estes vestigios apparecèm num pinhal e em um terreno cultìvado 
junto d'este. Informaram-nos que quando preparavam o terreno tinham 
encontrado mais alguns pondera^ pedras com lettras, e até urna pia de 
granito. 

Nós vimos junto do pinhal algumàs pedras com yestigios de traba- 
Iho, que tambem sairam de là. 

Dentro do recinto murado da Cava de Viriate deparou-se-nos um 
unico fragmento de telha de rebordo. Inscrìp93es, informaram-nos 
que havia là urna, mas, nSo obstante o havermo-la procuradJ), nSo a 
achàmos. 

Deram-nos noticia que ao nascente de Viseu, junto de Fragosella 
de Baixo, existiam num campo bastantes fragmentos de telbas e tijolos, 
e que là tinha apparecido tambem uma inscrip^So. No loc^ ee cos- 
tuma dizer o seguinte annexim, commum, mutaiis mutandis, a outras 
terras da provincia da Beira: 

Entre o Vérigo e o Rapadoiro, 

Ha urna grada e um cambSo de oiro. 

« 
É digno de nota a designagSo que o povo d'està regiSo dà aos 

machados neolithicos, que guarda comò amuletos. Ao passo que em 

outros lugares se Ihes chama pedras de rato, coriscos, perigos, etc., 

aqui taes instrumentos tem o nome de pedras de peqonha, e quando 

cae algum raio diz-se que caiu uma pegonha. 

Viseu, Junho de 1898. 

A. MeSQUITA de FlGUElBEDO. 



O Abcheologo Pobtuouéb 239 



Bibliograpliia 

Revista de Guimabaes, xv-3, Julho de 1898. 

Contém de interesse archeologico os seguintes artigos : 
Materiaea para a archeologia do concelho de Gruimaràes, por F. Mar- 
tina Sarmento (noticias archeologicas k cérca das freguesias de Gan- 
darella, Nespereira, S. Martinho do Conde, Moreira de Conegos, Lor- 
dello, Gardizella e Gondar, e do Monte da Senhora ou da Santa); 
Catalogo das moedas e medalhas portuguesas existentes iia collecgao da 
Sociedade Martins Sarmento, por Oliveira Guimarftes. 

A p. 105 publica o Sr. Martins Sarmento a estranha nota* que 
aqui transcrevo na integra: 

«No Archeologo portuguez, ii, pag. 255, faz-me o snr. José 

Leite de Vasconcellos a seguìnte obserya9So: «Escreve o snr. Sar- 
mento a pag. 165, nota: «Segundo Strabon e outros ò deus principal 
dos nossos antepassados era Marte». Como o snr. Sarmento tira d'està 
affirma9£o uma deduc9So historica, notarci que, se tem em vista o 
que diz Estrabio no liv. II, ni, 7, este nSo diz que Marte era o prin- 
cipal Deus dos Lusitanos, mas o seguinte: (os Lusitanos) sacrificam 
a Ares (= Marte) um bode e os prisioneiros de guerra e cavallos (cavai' 
lo8 provavelmente tambem de guerra). D'entre os muitos deuses dos 
Lusitanos, EstrabSo falla especi^mente de um (que identificou com 
Ares), por ter colhido a respeito d'elle informa98es cìrcumstanciadas». 

No correr da sua observa9So e antes de chegar ao commentario 
do texto straboniano, ia imaginando que o snr. José Leite se dispunha 
a corrigir que, se eu ctive em vista aquelle texto», poderia affirmar 
apenas que o deus equiparado a Ares = Marte, era um dos principaes 
deuses dos nossos antepassados e nfto o principal, e dispunha-me 
tambem a replicar que o meu amavel censor estava a cantar fora do 
cdro', porque, se eu tivesse unicamente em vista o citado texto de 



1 Digo estranha, porque tenho sempre mantide com o Sr. Sarmento rela9Òe8 
cordiaes, e em diversos Hytos meus e periodicos Ihe tenho dado sobejas provas 
de conBÌdera9So, embora iato nSo signifique que eu, quando a occaeiSo se offe- 
recer, deize de Ihe discutir, na maior independencia scientifica, as opinioes com 
que me nSo conforme. 

* [SalYO seja!]. 



240 Archeologo Fortuqués 

Strabon, nao esoreveria t segando Strabon e outros»*. Lido o oominen- 
tarìo, vi que estive a piqué de tornar a serio ama facecia^. Opina o 
snr. José Leite que do texto de Strabon se póde sómente deduzìr qne 
o geographo indentificou com Area = Marte o deus lusitano, por ter 
colhido a respeito d'elle informa9oes circumstanciadas ^ ; o facto de o 
identificar com um deus, que tinha no pantheon grégo e no pantheon 
romano um logar preeminente, nEo nos auctorisa a inferir que occupa 
um logar identico no pantheon lusitano *. NSo é evidente que o snr. José 
Leite està a brincar com Strabon^?» 



Ora aqui tem os leitores comò a uma critica, baseada em factos, 
se póde responder com uma galhofa. Ou em assumptos ethnologicos 
Sr. Francisco Martins fosse outro que nSo gostasse de fazer de 
vez em quando passar por infalliveis as suas theorias! 

J. L. DE V. 



* [Mas, se o Sr. Sarmento escreve «Strabao e outros», està claro qne asse- 
vera que Estrabào, pela sua parte, diz que o deus principal dos nonsos aatepas- 
sados era Marte. Comtudo Estrabao nao diz tal cousa : diz o que no texto a cima 
se ve, e que d'elle transladci. Nao fuja da questSo o Sr. Sarmento ! illustre 
archeolop^o vimaranense affirma uma cousa, — isto é, que, segundo Estrabao. 
Marte era o principal deus dos nossos antepassados — ; e Estrabao 
affirma outra muito diversa, — isto é, que Ares (= Marte) era um dos deoses 
dos Lusitanos. Entre ser um dos deuses, e ser o deus principal 
ha grande differen9a, e isto mesmo envolve diversidade de concep^ao religiosa. 
Jà se ve pois quem é que canta fora do còrof]. 

2 [O Sr. Sarmento sabe perfeitamente que eu em assumptos scienti£cos 
nJto costumo jamais soccorrer-me de fiacecias. Para que vem, pois, desvirtuar a 
questSo?]. 

' [Eu nSo emprégo o adverbio sómente, comò se ve no trecho que o Sr. Sar- 
mento tr anse re ve d-0 Archeologo. NSo cardemos fora do còro!. . .]. 

* [É manifesto o sophisma. Sr. Sarmento reconhece que se equivocou, e 
por isso agora jà nao falla em deus principal, mas em deus qoe tem no pantheon 
um lugar preeminerde. Se assim se tivesse expressado primeiro, talvez eu nao Ihe 
viesse à mao. Mas elle disse bem claro : «Segundo Strabao e outros, o deus prin- 
cipal dos nossos antepassados era Marte». Isto é ìnexacto, quanto a Estrabao. 
geographo grego nao diz tal cousa!]. 

5 [Das notas precedentes resulta claramente quem é que brinca, e quem ó 
que canta fora do caro. Sr. Sarmento, no caler do seu arrazoado, inverte os 
papeis I]. 



O Archeòlogo Portugués 241 

Dois machados de bronze 

(Nota addenda ao artigo publicado n-0 Arch. Port, iv, 88) 

Em Setembro do corrente anno (1898) foi-me oflferecido outro 
machado de bronze do mesmo typo dos de Tavora. Provém do con- 
celho de Ponte da Barca, ignorando eu ainda a natureza do sitio em 
que foì encontrado por um homem do Auditor. 

Jà nfto tem senXo os resto das aselhas, que Ihe foram quebradas, 
bem corno parte do cabo ou punho. Tem pequenaer difFeren9as dos de 
Tavora; maior desenvolvimento das canelluras, cujo vSto mede 0",025, 
e as tres nervuras parallelas bem accentuadas de cada lado. No estado 
em que ficou, conta de comprimente 0™,243 e pesa 970 grammas. 
As faces do gume s2lo asymetricas corno nos de Tavora. Este tem 
0™,16 de comprimente desde o resalto das canelluras até ao fio. Pa- 
rece estar novo. 

F. Alves Pereira. 



AoquisìQQes do Museu Ethnologico Portugués 

129. Adquìri por compra os segnintes objectos de ferro antigos: 

a) uma esphera do mosteiro de Alcoba9a; 

ò) uma mola de funda; 

e) uma balan9a portuguesa, talvez do sec. xviii ; 

d) cince chaves de feitio especial; 

e) cito espelhos de porta ou escudetes ornamentados, sendo tres 
provldos de uma cruz, e um d'estes com uma inscrip98o religiosa, 
datada do anno de 1720; 

f) duas tranquetas de porta; 

g) uma fechadura de arca, com ferrolho; 
h) quatro cadeados; 

i) uma colleira de c%o de gado ; 

j) uma fechadura de arca e sua chave. 

150. O Sr. Hanoel Vieira Natividade ofFereceu-me : 

a) um amuleto de cerai encastoado ; 

h) um coUar de sabugueiro, que serve de amuleto. 

16 



242 Akcheologo Portugués 

151. Adquiri por compra: 

a) um carimbo (de correlo ?) antigo com o nome de ALCOBACA : 

h) outro com a marca de =30 = ; 

e) outro com a marca de =40 = ; 

à) dez pesos de tear cordiformes, um de pedra, muito ornamen- 
tado, um de gesso, e os outros de lou(a, sendo alguns modemos, e 
outros aiìtigos. 

e) urna travéssa da antiga fàbrica de loufa do Juncal;- 

f) um prato, da mesma fàbrica ; 

g) quatro pratos pequenos, de louja, que parece serem da mesma 
fàbrica ; 

ìi) um tinteiro do mesmo typo de lou5a indicado em g; 

i) dois tinteiros de lou^a da antiga fàbrica das Caldas da Bainba : 

j) uma jarra da antiga fàbrica do Juncal; 

k) um buie da mesma fàbrica ; 

l) uma recartiUia de cortar massa; 

m) tres pi3es de laranjeira (ethnographia moderna). 

132. Sr. José Gallado ofFereceu-me para o Museu: 

a) um pondus de barro romano achado na esta9So luso-romana do 
Lagar, ao pé do Juncal; 

b) um clavus e uma folha de ferro de faca, da mesma procedencia; 
e) um instrumento de pedra polido, de Andao; 

d) um auspiro para cheirar tabaco. 

153. Adquiri para o Museu, por compra: 

a) um machado de pedra, da Cumeira, ao pé de Aljubarrota; 

b) dois ditos, da Corredoura, ao pé do Porto-de-Mós ; 

e) um dito de Porto-de-Mós. 

154. Offereceram-me vàrias pessoas: 

a) um macbado de pedra polida, do campo das Abertas (Porto- 
de-Mós); 

b) quatro, de Aljubarrota; 

e) outro, da Corredoura (Porto-de-Mós). 

138. Sr. José Seraphim Pei'eira dos Reis offerecea-me cinco 
machados de pedra polida. 

156. Adquiri, por compra, dois instrumentos de pedra polida, ào 
Villar (concelho do Cadaval), tendo um fórma de sacho. 



O Aeqheologo Portugués 243 

157. Rev.^° Manoel Rodrigues da Veiga^ prior do Villar (con- 
celho do Cadaval), oflFereceu-me : 

a) um machado de pedra polida; 

b) uma antiga cabeceira de sepultura, de pedra, com esculpturas. 

158. Adquìri, por compra, tres instrumentos de pedra polida, 
acLados no concelho do Cadaval. 

139. Sr. Joào Antonio da Silva ofFereceu-me um instrumento 
de pedra polida. 

110. Sr. Joaquim Gaetano da Silva offereceu-me dois instru' 
mentos de pedra polida. 

141. Sr. Ghaves, professor na Vermelha, offereceu-me dois 
inBtrumentos de pedra polida. 

142. Adquiri, por compra, um pequeno cofre antigo de tartaruga, 
marchetado et oprata. 

145. Sr. Joaqnim Gamillo Pereira Soares^ do Bombarral, offe- 
receu-me um instrumento de pedra polida. 



Numa excursSo que em 21 e 22 de Janeiro de 1898 fiz pelo 
Algarve obtive para o Museu os segùintes objectos : 

144. Um instrumento neolithico, a parte metallica de um fuso 
romano^ e um vaso de barro romano, — objectos achados no «castello» 
de Reguengos de Monsaraz. Offereceu-me estes objectos o Sr. Dr. Fedro 
Manoel Nogueira. 

14{>. Uma alcofinha, um «Lcapacho de abanar ao fogon, e uma 
colhér de madeira. Industria popular algarvia. Objectos obtidos por 
compra. 

140. Um chujo de ajo das ultimas guerras civis. 

147. Dois anneis antigos, um de prata, outro de cobre (partido). 
Obtidos por compra. 



244 O Archeologo Pobtugués 



148. O Sr. Antonio Maria Garcia Junior ofFereceu-me : 
a) doze instrumentos neolithicos; 

ò) duas contas prehistoricas ; 

e) dezasete fragmentos ceramicos (alguns com orQamenta(2o); 

d) um percutor de pedra; 

e) quatro fragmentos de instrumentos de cobre ou bronzo; 

f) urna pequenina ta(a ornamentada; 

g) um pondtis de barro romano, e um fragmento de barro romano 
coQi ornatos. 

149. Adquiri por compra: sete instrumentos neolithicos. 

150. Sr. José do Nascimento Pereira offereceu-me um ìnstru- 
mento neolithico. 

li>l. Sr. Julio Maximo Pereira offereceu-me: 

a) um antigo sello pendente (de chumbo) ; 

b) uma mola manuaria romana (de pedra), achada na sua proprie- 
dade das Bojigas, arredores do Cadaval, a qual fica porto de locaes 
em que tenho encontrado outras antigualhas romanas. 

162. Sr. Iguacio Verissimo de Azevedo offereceu-me tres instru- 
mentos neolithicos. 

163. O Sr. Capitao Honorato Alfredo Estrella offereceu-me um 
instrumento neolithico. 

184. Sr. Jaime Lei te Pereira de Mollo offereceu-me ciuco instru- 
mentos neolithicos e tres pondera romanos de barro. 

155. Sr. Francisco Guilherme de Castro offereceu-me um espe- 
Iho antigo de fechadura de porta. 

156. Sr. GarvalhSo Novaes, professor do Lyceu Nacional de 
Leiria, offereceu-me quatro denarios da Republica Romana achados 
em Monsanto e arredores, concelho de Idanha-a-Nova (Beira-Baìxa), 
e um dinheiro de D. Fernando. — Dos pruneiros falla- se n-0 Archeo- 
Ugo Poriugues, IV, 79. 



L 



k 



Archeologo Pobtugués 245 

187. O Sr. Luis Gaspar Portella offereceu ao Museii varios davi 
de ferro, um pondus de barro e urna fibula de cobre ou bronze, — 
tudo da epocha romana. 

158. Rev.'^® P.® José Augusto Tavares offereceu ao Museu 
varios fragmentos de figuras que representam porcos do typo dos 
berroes de pedra transmontanos. 

159. O Sr. D. José Ramon Mélida, conservador do Miiseu Archeo- 
logico de Madrid, enviou-me reproducQoes de gesso dos fragmentos de 
dnas placas prehistoricas ornamentadas com figuras humanas, prove- 
nientes da provincia de Càceres, e analogas às de que fallo nas Rdi- 
gtdes da Lusitania, i, 164-165. 

160. Sr. José iVascimento Coelho offereceu-me um instrumento 
neolithico, encontrado porto de Torres -Vedras. 

161. Sr. Sergio Gago offereceu-me urna balan9a antiga. 

J. L. DE V. 



Extractos archeologicos 
das cMemorias parochiaes de 1758]> 

210. Fio (Entre-Douro-e-Minlio) 

DunM 

aOs fructos da terra sam milho tudo exceliente em rezam da 

fertilidade da terra; mas muyto pouco porque a mayor parte do lemite 
se acha areado por estar vizinho ao Mar, que as lan9a fora em abun- 
dancia tanta que tem quazi sumergido a freguezia e comò ella he porto 
do Mar e a mayor parte de seus moradores sam Pescadores, etc.» 
(Tomo XV, fl. 109). 

211. Faro (Algarre) 

Forte destmldo polo mar 

Freguesia de Nassa Senhora. — e 6 o forte de Armena que 

antes de se acabar Ihe comeo o mar o pavimento, e se arruinou a grande 
parte da obra, que estava feita, ficando inutili. (Tomo xv, fl. 151Ì 



246 Akcheologo Portugués 



212. FavOes (Entre-Doaro-c-Minho) 

Pontes 

« e entrando (o rio Tamega) por Portugal vem devedìndo a 

vila de Chaves em duas partes onde de huma para a outra tem huma 
famoza ponte de pedra de cantarla ; entrando jà com suas agoas a fé- 
char as portas do Keyno e desendo pelas beiras de Barroso vem dar 
ao lugar de Caués onde reprime a sua furia pelos sincos arcos da in- 
signe ponte de pedra de cantarla que tem no meyo huma coluna com 
letreiros que dizem alguna hestoricos, contem as memorias de Lou- 
renjo Guimam e exemplo de santidade e dando volta pela grande 
serra de Amilo decantada pelo asento que nela fes Decio Junio Bruto 
coando quis conquistar a antigua cidade da Cinania donde hoje se de- 
riva Cidadelhe, donde vem para o lugar de Mondim de Basto, onde 
tem outra ponte de cantaria com tres arcos de grande altura que al- 
guns dizem e querem fose obra de Trajano, porem o mais certo he 
que Sam Gon9alo a levantou no tempo em que naquele sitio pa9avSlo 
barcos, de que inda hoje sam testemunhas nas margens do tal rio os 
vestigios das prizSis deles, pois na fabrica selebrada obrou o santo 
famozos Milagres de que tratXo varios Autores comò o Flos Santo- 
rum : E pé da mesma ponte tem duas azenhas de moer pam : e de- 
sendo legoa e meia distante desta vila resebe os cachSes do Rio da 
Leuiada do qual Bdutiau (Bluteau) com alguns mais, dizem ser bum 
dos boqueiroes do Inferno por alguns sussessos que do tal sitio se con- 
tam e com o acrecimo destes cachSis se ingro9a o curso do Tamega 
que chegando a Rua de Canauezes sitio onde a Raynha Dona Mafal- 
da, filha de El Rey Dom Sancho, que de muntos Autores conta ser o 
primeiro de Portugal, mandou fazer huma grande ponte de sinco ar- 
cos, com agudos cortamares, e bem feitas Ameyas ; e no meyo dela 
bum cruzeiro de pedra com bum letreiro em que se lia a era em que 
fora feita o quoal me consta a poucos tempos cahira no Rio, donde se 
nSo pode tirar por mais deligencias que fizerSo^. (Tomo xv, fl. 191). 

218. Feira (Beira) 

InscrìpfócB portnguosaB 

«He toda (a igreja do Convento do Espirito Santo) de jaspes e 
marmores lavrados de obra Dorica, tem embebidos deus tumalos (sic) 
de alabastros brancos vermelfaos e negros bum da parte do Evange- 
Iho com està InscripySo : 



Archeologo Poetdgués 247 

SEPULTURA DE DOM MANOEL PEREYRA 
TERCEYRO CONDE DA FEYRA, E DO NOME 
SEGUNDO FILHO DO CONDE DOM DIOGO 
PEREYRA E DA CONDEgA DONA BRITES 
DE MENEZES FILHA DE D. JOÀO DE NO- 
RONHA, IRMAO DO PRIMEYRO MARQUES 
DE VILLA REAL, E DE DONA JOANA DE 
CASTRO, CONDEQA E SENHORA DO MON- 
SANTO. FALECEO A QUATRO DE OUTUBRO 
DE MIL QUINHENTOS SINCOENTA E DOIS. 
SEPULTOU SE NA PAROCHEA DE SÀO NI- 
COLAO COM SUA MULHER DONA IZABEL 
DE CASTRO DONDE SE TRESLADOU PARA 
ESTE MOSTEYRO. 

Outro da parte da Epistola em igual correspondencia com o Epi- 
taphio seguiate: 

SEPULTURA DE DOM DIOGO FORJAZ 
QUARTO CONDE DA FEYRA, FILHO DO 
CONDE DOM MANOEL PEREYRA E DE 
DONA IZABEL DE CASTR0,F1LHA DE 
DOM JOÀO DE MENEZES, CONDE DE TAROUCA 
PRIOR DO CRATO, E DE SUA MOLHER DONA 
JOANNA DE VILHENA, FOY CAZADO COM DONA 
ANNA DE MENEZES, FILHA DO REGEDOR JOR- 
GE DA SYLVA E AMBOS OS PRIMEYROS FUN- 
DADORES DESTE MOSTEYRO ; LANSARAO A 
PRIMEYRA FEDRA DA IGREJA EM HUM {sic) 
ANNO DE MIL QUINHENTOS E SECENTA. 

No pavimento està hum carneyro honde se enterrSo os lUustrissi- 
mos descendentes daquella caza, o Cruzeiro coinresponde na grandeza 
a Capella mor, neste se ve hua sepultura do Padre Rodrigo da Ma- 
dre de Deos, filho dos Condes da Feyra Dom Manoel Pereyra e Dona 
Izabel de Castro, a qual sepultura tem o seguinte Epitaphio : 

AQUI JAZ MUYTO REVERENDO PADRE 
RODRIGO DA MADRE DE DEOS, FILHO DO 
CONDE DOM MANOEL PEREYRA E DA CON- 
DEgA DONA IZABEL DE CASTRO, QUAL 
SENDO PREGADOR, E DE MISSA SE RECOLHEO 



248 Archeologo Portugués 

EM VILLAR DE FRADES, E TOMOU HABITO 
DOS PADRES DE SAO JOÀO EVANGELISTA E 
NELLE MORREO ESTANDO POR EMQUEZIDOR 
EM LISBOA. FALECEO NO CASTELLO DA 
FEYRÀ A SEIS DE MAYO DE MIL E QUI- 
NHENTOS E SINCOENTA E TRES. CONDE 
SEU IRMÀO LHE MANDOU FAZER ESTÀ SE- 
PULTURA.» 

{Tom. xr, fl. 201 e seg.) 

Noticiozo apendU dna couzas menos verocimeis: 

«Ha memorias por manus escnttis que està villa oii o Territorio 
della fora a antiga cidade fundafSo de El Rey Brigo de que nSo acha- 
mo8 autentica noticia mais do que o nome Lacumbrica que significa 
està villa.» 

«A tomada deste Castello aos Mouros so anda nas tradi98is do 
vulgo, o qual asevera que o primeyro Conde da Feyra intentando 
conseguir a terra e Posse do Castello e do Titullo por industria pren- 
derà hvi cam que era fiel guarda de todo elle a qual falta foy muito 
sentida de seus senhores, e que tendo-o huns poucos de dias sem co- 
rner ajustara o dia do assalto para a manhan do dia vinte e quatro de 
Junho, dia festivo por ser do Baptista, e que levando o Cam atado, e 
faminto em quanto a sentinella da porta chamada da TrayySo por isto 
mesmo se detivesse em o festejo do achado cam e sua fiel companhia, 
podiSo entrar repentinamente e asenhorearem-se do Castello, corno 
fizerSo, e por està causa se diz ficara a obrigaySo de hirem todos os 
homens que tem servido e servem a republica a S. JoSo dà Madeyra 
ou a S. Jo2Lo de Ver da sorte que dissemos asima e que por està ra- 
zSo Ihe chamSo a Sina». (Tomo xv, fl. 218). 

214. Felgrnelras (Tras-os-Montes) 

Mlnas de ferro 

« e nesta serra (de Roboredo) para a parte desta freguezia 

ha umas minas adonde se tirava aatiguamente pedra de que se fazia 
ferro e avera trinta annos que se deixou de se fazer». (Tom. xv, 
ff. 250). 

215. Ferrelra de Atos (Beira) 

Ctdade de «Barapla» 

tEsta villa do Castello de Ferreira foi antigamente Cidade cha-, 
mada Rarapia e praga de armas pellos annos de 146 antes do Nasci- 



Archeologo Poetugués 249 

mento de Christo Senhor Nosso e neste tempo nella esteve de refresco 
o Imperador ou famozo Cappitam Viriate havendo alcanfado a meme- 
ravel batalha da Cava de Vizeu do Pretor romano Cayo Vigidio». 
(^Tomo XV, fl. 349). 

216* FerrelrOs (Belra) 

Castello de Monros.— MoedM.— Sepaltnras de Monros 

<Nem tambem tem muros, nem pra9a de armas e bó està defronte 
hum monte que hoje està agricultado de Olivais que se domina Cas- 
tello aonde dizem que habitaram os Mouros, e nelle se acham alguns 
vestigios ajnda de Castello e juncto e pelle fando delle pasa huma ri- 
beyra chamada Rio Dinha bastantemente caudaloza de jnverno e em 
todo o tèmpo fragoza. E ha tambem memoria que em os tempos an- 
tìgos se achavam algumas moedas com cava sem se poderem conhe- 
eer que nam lembra a ■ memoria dos viventes. E no firn e defromte 
desta freguezia està defromte do dito Castello outro monte que se do- 
mina da Torre acnde se acham algumas sepulturas que dizem que fo- 
ram do tempo que habitaram os Mouros». (Tomo xv, fl. 369). 

817. Ferreiros (Entre-Douro-e-Mlnho) 

Torre dot Vaflconcellos.— Ponte do Porto 

cNo lugar de Vasconcellos aonde se ach&o as ruinas situadas de 
hum grande Castello ou torre onde foi o solar da Uustrissima famìlia 
dos Vasconcellos deste rejno està huma capella da invocasam de 
Sancta Luzia que ha tradisam vulgar fora sagrada e se acha com os 
signais nas pedras em forma de Crux que costumSto ter as tais Igreias 
sagradas ; costumalo vir em romaria a està cappella pelle natal e suas 
oytabas beijando as'tais pedras com a tradieSo de alcansarena indul- 
gencias, etc.» (Tomo xv, fl. 376). 

« outro Rio a que chamSo Rio de Homem e daqui pera 

bayxo toma outro nome e Ihe chamSfo o Rio do Prado tornando o nome 
de huma pequena navogaySo digo povoa92to por onde passa o mesmo 
toma humà ponte multo bem feita que fica porto do mesmo pousado e 
d'aquy vay ter a villa de Barcellos que dista daqui perto de sinco le- 
goas e emtra no mar por junto da villa de Fam. Tenho dito na cor- 
rente do Rio desta Freguezia e falando pera sima se achaua a sele- 
brada Ponte do Porto que dizem fora feita pellos Romanos da cellebre 
e curiosa alquitatura (architectura)it , (Tomo xv, fl. 378). 



250 Archeologo Pobtugués 



218. Fervenza (Entre-Doaro-e-Minho) 

Castello de Celorlco 

aNam em ella muros antes bem fracas paredes somente em os 
confins da freguezia de Arnoja ha bum Castello antigo situado na im- 
minencia de bum monte cujos muros estan arruinados posto que mos- 
tram vestigios de pra9a: mas o Castello ainda rezistente as ruinas 
cbamasse o Castello de Celorico de que a villa velba tomou o nome 
a villa do Castello, bou a villa de Freyxiejro por se mudar para o 
tal sitio». (Tomo xv, fl. 396). 

219. Fiaes (Belra) 

SepalturM «mourlscits» 

Freguesia de Santa Maria. Commenda da Feira. — tAlguas anti- 
guidades se descobrem nesta freguesia comò s^ as scguintes : No sitio 
da Capella da Senbora da Concey9%o de que se faz memsam no in- 
terrogatorio 13 se tem por virozimel ser povoafSLo de Mouros; por- 
que se acbSlo pedagos de paredes de cantaria; muito tijolo, e muita 
cinza e carvoes indicios de cozinbas. Algum dinheiro de cobre com 
figuras e outros crateresf cujos letreiros se nSo persebem e tambem 
se acbou buma moeda de curo do tamanbo de bua de dezaseis tost5es. 

Tambem se descobrem em outro oiteiro defronte da dita Capela 
enterrados debaxo da terra altura de dous palmos vai-ias panellas e 
salgadeiras de barro vermelbo, tapadas todas com louzas de pedra, 
todas com seus letreiros ao paresser de letra mourisea e dentro das 
tais panellas ossos e carvSes, metais sem se saber que metal seja, pois 
tudo se acba quazi gasto ; e dentro em algims destes vazos se acbavSo 
copos de feytio de calis, e em bum dia se descobrirSo mais de cin- 
coenta vazos destes, de que boje nSo ba nenbuns pois se quebraràof. 
(Tomo XV, 11. 411). 

220. Fiaens-do-Blo (Entre-Douro-e-Mlnlio) 

Mlnas de oaro 

«Dizem ba nesta Lomba de Fiais bum outeiro que vulgarmente 
se cbama os Laraas do Durai, ba ali minas de ouro e acabbam com 
esti* vulgar provervio — no oural de Barrozo bà munto ouro podero- 
so ^. (Tomo XV, fl. 419). 



Aecheoloqo Portugués 251 



221. Flguelra (Tras-os-Montes) 

RuinaA do8 Mouros 

«NEo ha terra murada. Nem pra9a de armas e so sim na fraga 
que fica por cima da freguesia de que jà se fes men9SLo se descobrem 
huns vestigios de muralhas e fortalezas, que he tradiySo serem do 
tempo doB sarracenos, mas estas ao presente se achSo de tiido quasi 
arminados». (Tomo xv, fl. 453). 

222, Flfrueir^do (Eatre-Doiiro-e*Minho) 

Estrada da Geira —Ponte do Porto 

«Como està freguezia està situada em huma planicie sem que por 
nenhuma parte dela a circunde serra notavel, nam a coiza nesta parte 
digna de especial memoria. Parece-me, que por eia fariam seu cami- 
nho 08 Romanos descendo da sua celebrada estrada da Geira ou Gerez : 
por se finalizarem os vestigios desta em pouca distancia da mesma 
freguesia; pelo qual caminho vinham as coortes daquele Imperio & 
conquista de Braga Augusta; por ficar mais abreviada a mesma es- 
trada^ e em melhor direitura à Ponte do Porto, que Ihe franqueava 
a passagem do Cavado, e é uma das antiquissimas estructuras dos 
inesmos Romanos, comò consta de alguas inscrisoens gravadas nesta 
Ponte, que aqui nam descrevo, por conjeturar o nam deixard de fazer 
o Rd.*^ Abade de Peruzelo, em cujos limites se acha». (Tomo xv, 
fl. 479). 

228* Ferrelra (Entre-Douro-e-Minho) 

Citania 

Freguesia de S. Fedro Fins. — «Ha no destricto desta freguezia 
huma serra chamada de Sam Romam na coal ha ainda alguns vesti- 
gios de que foi nella huma Cidade de Mouros a que dizem se cha- 
maya a Cidade de Citania, couza piqucna no mais alto della e inda 
tem vestigios de ser murada a roda». (Tomo xv, fl. 528). 

224. Fiolhoso (Tras-os-Montes) 

Castello da Saldanha 

«No distrito desta freguesia e no lemite do lugar do Cadaval a 
parte do sul coasi contigu ao dito lugar dois tiros de mosquete se 
acha hum castello derribado com sua muralha e centra muralha e 
seus fossos purem tudo arruinado so em partes concerva alguns pe- 
da90s de parede de cantaria de pedra de gram grossa e mostra ser 



252 O Archeologo Portugués 

fortificayam grande em oitro (sic) tempo e cbamam a aste castello o 
Castello da Saldanha». (Tomo xv, fl. 540). 

225. Folhada (Entre-Dooro-e-Hlnho) 

Sepoltaru — Cidade do ChilU — Dolmen 

cEm sytio chamado Cazal de Padre, que fica porto desta Tgreja ; 
e por sima do Lugar do Barrai fazendo varìos labradores do Lugar 
de Traba^o huas tapadas acharam na altura deilas muitos e grandes 
alicerces de edificios antigos e nestas muitos tijollos muìto grossos e 
inda alguns inteiros, e em o plano daquelle sytio forSo descubertas 
muitas covas abertas em o saubro («ic), e outras em fragas ao pare- 
cer de sepulturas de gente o quo nam sey fosse so o ter ouvido a 
alguas pe8soas antiguas que ouue nesta freguezia, que o dito sytio 
fora povoagSo de Mouros e outros dizem que aly se chamava a Ci- 
dade de Chylii e pelas vizinban9as deste mesmo sytio se tem tirado 
alguns Thezouros». (Tomo xv, fl. 506). 

cMenos sey que haja em toda està serra (da Abobereira) algiia 
mina de metal, posto que tenho reparado em algus cavoucos e fo^os 
que nella tenho visto me dizem foram feytos em discnbrimento de 
minas e sey mais haver adiante da chamada Fonte do Mei em bua 
planicia grande perto da estrada biia cova com porta arteficialmente 
de muytas pedras enteyras ao redor e por sima cobertas com bua 
grande fraga, a quoal nSo poderiam mover vinte homens de hoje e 
tem sua porta por onde se entra para a concavidade onde podem ca- 
ber mais de vinte bomens e dam a està cova o appellido de Cova 
dos LadrSes». (Tomo xv. fl. 609). 

226. Folhadosa (Belra) 

Serra da Esirella 

«Ha pois contigua a està terra em distancia de buma legoa hiia 
serra iminente e muito dilatada que se compoem de Penbascos, vales, 
fontes, arvores cbamada Serra da Estrella, e na mayor iminehcia 
della se acba bu marmore muito alto e da mayor corpulencia onde se 
v§ gravada biia Estrella emtalbada no mesmo marmorea Ha tradÌ92o 
fora obra do grande Veriatto no tempo que apascentavSo seus gados 
nos valles e campinas da mesma serra». (Toino xv, fl. 621). 



^ autor da memoria cita isto comò tradÌ9ào. 



Archeologo Pobtugués 253 

227. Fonte Arcada (Entre-Douro-e-Minho) 

Fojos 

«Tem no morrò ou Outeiro qiie fica e està junto ao Cruzeiro de 
Fonte Podre e corre para o lugar de Quinta que he da freguezia da 
Sobereira dois fojos altos que se Ihe n%o descobre o fundo.nem nunca 
se doube a sua altura donde aparecem algumas pedras pretas em 
forma de rescaldo de ferreiros e diz algum do vulgo que serico anti- 
camente ruinas de ferro i. (Tomo xvi, fi. 655). 

228. Fontello (Beira) 

Cidade do8 Mouros. — Campo de NaBantu v 

cNo cume da dita serra {de S. Domingos) està a Ermida do fai- 
lagroso Sam Domingos aonde se fas a romagem que ia uaj declarada 
no numero catorze, desta Ermida se descobrem muytas terras que 
contando do sul para o Norte sam mais de quinze legoas ; faz muitos 
milagres ; he advogado para os cazados que nam tem filhos ; advogado 
contra as trevoadas ; advogado para defen9am dos Animaes. — anti- 
camente hera cidade dos Mouros;.e ainda hoje se acham os licerces 
dos muros com que estava cercuitada: e nas raizes da dita serra fica 
o campo que chamam Nazanus; aonde os nossos catholicos deram 
hua grande Batalha aos MouroS; e com Victoria. Creyo Campo nas 
historias se acha escrito Campo Nazareno que delle tomou o nome 
Nazareno e asim hoie se chama que terà em roda hum coarto da le- 
goa; e he todo desta dita villa». (Tomo xvi, fl. 703). 

P£DRoA. DE Azevedo. 



Notlcias vàrias 

1* Musea Municlpal de Bragan^^a 

Tem side muitissimo falado e igualmente elogiado o novo Museu 
municipal d'està cidade ; é comò a ordem do dia permanente d'està 
briosa praja de guerra. 

As damas e os cavalheiros, os sabios e as pessoas circumspectas, 
08 avaros e os prodigos de luz intellectual n&o tem outra discussSo, 
nem outro apreciar e elogiar que nSo seja o Museu Municipale mui 



254 O Aecheoloqo Portugués 

principalmente desde que o bf. Bispo d'està diocese o honrou com a 
sua presenta e sobre elle escreveu e publicou urna circular ao clero 
parochial de sua jurisdic9ào^ com data de 15 de Outubro ultimo, e na 
qual enaltece os dotes de cora9So e qualidades religiosas do consenra- 
dor d'aquelle estabelecimento, ou antes instituÌ92o, cuja existencia é 
devida aos e8for908 do sr. Albino Lopo, Tenente de Ca9adore8 3. 

Este brioso officiai foi encarregado da direc9&o da carreira de 
tirO; estabelecida nos suburbios d'està cidade, bavera dois annos, e, 
ao mesmo tenopo que se desempenhava d'esse servÌ90, come90u por 
fazer pesquisas nos estuarios do rio Ferven9a, de que Ihe resultou 
accumular tal quantidade de fosseis que com elles vae organizando 
material para urna collec9!to essencialmente paleontologica. 

A sec9ao destinada no Museu aos estudos pre-historicos achase 
quasi completamente installada, e de tal fórma, que bem parece um 
modelo de 8Ìstematiza93io scientifica, por isso que por ella se pode se- 
guir o estudo das difierentes phases por que pasSuu o homem nos pri- 
meiros tempos da sua existencia. 

Presentemente o sr. Lopo cuida das investiga93e8 do estuario do 
rio Sabor, junto a Rabal, depois tenciona estudar a necropole miran- 
desa, desde os Castros de Coelhoso a Aldeia Nova, passando por An- 
gueira e Picote^ com cujos achados conta organizar outro museu, la 
para nordeste d'està provincia, talvez junto à Sé de Miranda.=H. 

(De urna correspondencia de Bragan9a, com data de 8 de Dezembro de 
1897, para o Primeiro de Janeiro). 

2. Sestos romanos em Sinfftes 

«Nas excava98e8 a que se anda procedendo para a construcg^o 
do lan9o de estrada de Arcella a Tarouquella, na freguesia de Pi2es, 
do concelho de SinfSes, tem apparecido muitos vestigios de edifica93es 
antigas, carvao vegetai, cinza, restos de Ìou9a e peda90s de tijolo 
muito semelhante à telha actualmente existente, chamada francesa». 

(0 Secuh, de 16 de Julho de 1898). 

8. A Igreja de Cette 

«Informa*nos um nesso amigo, que amea9a imminente mina a 
igreja parochial de Cette, no concelho de Paredes, que foi edificada 
no anno de 875 da era christH, e que é considerada monumento 
nacional. 



O Archeologo Portugués 255 

A respectiva junta de parochia officiou ao sr. governador civil 
do districto, expondo o estado lamentavel em que se acha aquella 
igreja». 

(O Seculo, de 19 do Mar90 de 1898). 

4. Descobrimento archeoloirlco 

«Urna commissXo da Sociedade Archeologica d'està cidade, com- 
posta do seu presidente Dr. Antonio dos Santos Rocha, e dos socios 
Dr. Joaquim Jardim, Annibal de. Brito e Rev/'^ P.® José Joaquim 
Nunes, encetoii a explora9ao de urna grande caverna, situada no 
valle do Alqueve, proximo da Povoa do Bordallo, nos arredores de 
Coimbra. 

Os trabalhos deram o melhor resultado, sendo descobertas doze 
sepulturas, onde se encontraram outros tantos esqneletos, que datam 
da idade da pedra, e differentes objectos de valor archeologico, corno 
pontas de settas, machados de pedra, facas de silex, etc., etc. 

Nesta caverna existe ainda urna galeria ou corredor estreito que 
communica com urna camara larga, onde nio foi ainda possivel pene- 
trar pela difficuldade e estreiteza da passagem. Vae porém tentar-se 
alargà-la, e ver se é possivel que o ar circule no interior da camara mais 
livremente, para, sem perigo, se poderem continuar as explorajSes. 

O resultado obtido é jà de alta importancia scientifica». 

(Da Gazeta da Figueira, n.» 672, dd 20 de Julho de 1898). 

6. Excursfio areheoloirica 

a A excursSo emprehendida pela Sociedade Archeologica da Figueira 
à Serra do Cabo Mondego, no dia 28 de Setembro ultimo, deu um 
resultado muito importante. 

A explorafao do Cabego da Mamoinha, a 200 metros aproxima- 
damente para E. do Casal da Serra, combinada com a que se havia 
feito anteriormente na Marna do Furo e no Feital, para O. do mesmo 
Casal, provou de modo irrefragavel que a grande necropole neolithica 
nSo occupa sómente a cumiada septentrional da Serra, desde as alturas 
da Capella de Santo Amaro até ao Casal de S. Bento, na freguesia 
de Maiorca, mas se ramifica de 0. para E. pela cumiada meridional, 
até refendo Cabejo, 



256 . Archeologo Poetugués 

Seguindo agora a linha dos monumentos, a contar d'este ultimo 
ponto para 0. e depois para o NE. e E. pela comiada septentrional, 
temos ama extensSo superior a 12 kilometros! 

Parece ser està a mais vasta necropole da idade da pedra, qae até 
ao presente se tem descoberto e estndado em Portugal». 

{Gazeta da Figueiraj n.» 693, de 1 de Outubro de 1898). 

P. Belchior da Cruz. 



En*a.tas e a;ddita.inei:ito 

Ezoorsao aroheologrioa ao Snl de Portugal 

Pag. 109, 1. 4: adeante de — quatro hastes — accrescente-se : eque 
figura a pianta do pé», e passe-se a chamada da nota para a p. 108, 
1. 14, a seguir a ramo vet'tical. 

Pag. 118, l. 12: em vbz de — «ec. ii da Era CTirista — leìa-se: 
csec. II antes da Era Christftp. 

Pag.^120, 1. 20: em vez de — Degebe — leia-se: «Odiege». 

Pag. 124: na nota (que em vez de ser numerada com *, o deve 
ser com *) accrescente-se: «A inscrìp92o foi alem d'issò publicada nas 
Inscriptiones Hispaniae Christiana^ de E. Hiibner, n.® 10, e nos Car- 
mina Latiìia epigraphica de F. Biicheler, Leipzig 1897, n.® 920». 

Pag. 131: nota 1, na parte 1.* da traduc9Ìo, leia-se, em vez 
de — goveimador da provincia Narboviense^ etc. — , o seguinte: gover- 
nador da provincia da Gallia Narhonense, pretor eleito, [fallecido] de 
46 annos. 

Pag. 134, 1. 27: em vez de — publicada — leia-se: cmdìcada». 



Ichnographla parolai daa oonatruogoea Inso-romanas 
de Milreu (Estoi,— Algarve) 

Na pag. 160, 1. 30-32, deve ler-se: «sepulturas reservadas em o^, 
j etc., claesijicadae (eacerdotaes?) em o, e classicas (episcopaesf) 
em m" ? 



VOL. IV 



OUT. A DEZEMBRO DE 1898 N."' 10 A 12 



/ 



ARCHEOLOGO 



jr 




COLLEC^iO ILLUSTRADA DE MATERIAES E NOTICIAS 



PUBLICADA PELO 



MUSEU ETHNOLOGICO PORTUGUÉS 




Veterum volvens monumenta virorum 



LISBOA 

IMPRENSA NACIONAL 

1898 



STj:Kfl::Kfl:-AJRio 

Damiao de Goes. 
Numismatica. 

InSCRIP^AO latina de MeLGA^O do SECULO XIII. 
BlBLIOGRAPHIA. 

Sociedade Archeologica da Figueira. 
«Castello» de Guifues. 
Um ensaio monetario de corre, 
noticias varias. 

Noticias antigas SOBRE ARCHE0IX)GIA. 
ÀNTIGUALHAS ROMANAS DO AlGARVE. 

Numismatica a^oriana. 

DlSCURSO DE inaugurammo DO MUSEU DE CeNACULO. 

Errata. 

Objectos romanos do Alemtejo. 

Insculpturas em rocha em castros de Val-de-Vez, ou varios 

penedos com pias 
a re8peit0 de conimbriga. 

NoTÌCIAS ARCHEOLOGICAS DOS SECUI^OS XVII E XVIII. 

Cimo da Villa da Castanheira (concelho de Chaves). 

PROTECglO DADA PELOS GOVERNOS, CORPORA90ES OFFICIAES E InSTI- 

TUT08 SCIENTIFICOS A ARCHEOLOGIA. 
EXTRACTOS ARCHEOLOGICOS DAS «MeMORIAS PAROCHIAES DE 1758». 

Olaria luso-romana em S. Bartholomeq de Castro-Marim. 

A CÉRCA DO ARTIGO SOBRE DaMIAO DE GOES. 

Dolmen do Espirito Santo d'Arca. 
inscrip9ào romana dos arredores de l1sboa. 

VeSTIGIOS ARCHEOLOGICOS DE BaBE. 

Cruzado de D. Joao III. 

EstUDOS SOBRE TrOIA DE SeTUBAL. 



Este fasciculo vae illustrado com 23 estampas. 



ARCHEOLOGO P0RTUGUÉ8 



GOLLECgiO ILLUSTRADA DE HATERIAES E lOTICIiS 

PDBLICADA PBLO 

MUSEU ETHNOLOGICO PORTUGUÈS 



VOL. IV OUTUBRO A DEZEMBRO DE 1898 Nr 10 A 12 



Damifto de Ooes 

(Carta ao Redactor à-0 Archeologo Portuguit) 

. . . Sr. — Na prìmeira pag^a do n.^ 1, do Voi. iv, da sua apre- 
ciada pnblicagSo apparecen nm artìgo, firmado pelo Sr. Joaquim de 
Vasconcellos, que se refere, na maxima parte, ao que tenho publicado 
sobre Damilo de Goes e, pertanto, sobre a igreja da Varzea em 
Alemqner. A lingoagem empregada e o estylo geral do artigo, que 
em tudo destoam da critica sèria e leal que um sabio de longa data 
deve fazer do traballio de um modesto curioso, revellam um rancor 
pessoal que me dava o dir'rito de responder em termos iguaes, e o 
facto de V. entender \de materia d'aquella ordem nSo é alheia k 
indole à-0 Archeologo visto que a publicou, auctorizava-me a exi^r- 
Ihe espago sufficieuvC para me defender pela mesma fórma. Desisto 
d'esse direito, porque tenho outro campo ao meu dispdr aonde posso 
tratar do assumpto desafogadamente, e porque prezo de mais as 
pa^nas d-0 Archeologo para as fazer descer à posteridade enxova- 
Ihadas com polemicas d'este genero. 

Mas OS desenhos e o artigo contém, a par de noticias valiosissimas, 
erros graves e omissSes que é necessario corrigir e preencher quanto 
antes, para que nSo passem a outras obras. 

Quanto aos desenhos, exactamente comò a mim cabe-me a respon- 
sabilidade moral de ter dado publicidade aos trabalhos de dois profes- 
sores, que, erradamente, me mereciam toda a confianga, a V. , Sr. 
Redactor, cabe igual responsabilidade pelos desenhos do Sr. Vascon- 
cellos; portante envio-lhe uma photographia que, embora nSo seja 
perfeita, sera sufficiente para a verìficagEo da verdade do que passo 
a expdr. 

17 



258 Archeologo Portugués 

Comegando pelo escudo de Damì2o de Goes, creio que V. con- 
cordarà que a cabeja de vitella, com lingua de palmo, do desenho do 
Sr. Vasconcellos mui pouco se assemellia ao leSo crescente e rompente 
que esculptor lavrou. Por baixo d'elle a bella foiba recortada està 
transformada em urna especie de turbante, a que o Sr. Vasconcdl» 
cbama rodete, de panno, de duas cores, enrolado em helice. O dnMi 
que no originai, e conforme as regras da armarla, està quasi de petSi 
voltado para a esquerda de quem o ve, foi, pelo Sr. VasconoelItìS^ 
coUocado de frente ; e bem pouca semelhanga tem com a pedra. O fi»* 
moso e finamente estylizado paquife, cuja folhagem de lavor arcliaìett 
se espraia lateralmente e attinge igual altura com o timbre, desem 
murcho e mesquinho, com largura demasiadamente acanbada. A grar 
ciosa facha pela qual o escudo fica dependurado do elmo, pasaandl» 
por argoUas de diverso feitib, nfto està là; mas, em troca, temos doas 
pontas em baixo, insertas gratuitamente. A té as quademas nSo slo. 
do feitio das da lapide. 

A carranca do brasEo de D. Joanna de Hargem nSo pecca pela 
semelhan^a. Em vez do resto satanico e o olhar feroz do origliai» 
dirigido para o chfto, temos a physionomia risonha de uin demoiM 
alegre, cujo sorriso nÌo foi modificado pelo facto de Ihe terem anaai*. 
cado dois grandes dentes, provavelmente porque o artista deu-lhe, coi 
compensa9&o, duas orelhas descommunaes, que o originai nSo abooik 
Pebalde procuro na pedra as pontas viradas da correia; d2o as mek^^ 
A collocaglo dos dizeres é uma desgraja! O ornato ao pé da palavci 
BVRCH està quebrado no originai. No quartel superior da direitadfl^ 
escudo, as barras recortadas superiores estSlo invertidas; pois deViam 
ter tres dentes para cima e dois para baixo, e serem recaadaa patt 
a direita do espectador, tanto quanto bastasse para a ave poder estar 
em pé no primeiro dente da barra inferior. Na casa inferior da diróln 
do escudo a ave delineada aprumada e de frente, com o bico erg 
devia estar um tanto de perfil, com a perna esquerda estendida 
que espreguifando-se, e com o bico tocando na aza direita parec^d» 
catar-se. 

Dirà Sr. Vasconcellos que estes erros nSo merecem reparo i mM 
nlo posso concordar. Li algures a opinilo de um erudito e escraptt» 
losissimo investigador que «um escudo de familia é um doctuuento 
bistorico de primeira ordem», e deve, corno tal, haver teda a cauteUa 
em reproduzi-lo ; mas alem d'isso, as dimensoes em que elle desenhoa 
estes escudos permittiam teda a clareza nos pormenores, e toda a exa- 
ctidSo ; sobre tudo quando se tratava de tirar o argueiro do olbo do 
vizinho. 




O Archeologo Portugués 



259 




260 O Archeologo Portugués 

Agora as iascripfSes : 

Por um d'estes acasos tao frequentes qaanto singulares, se eu deixei 
escapar dola erros no epitaphio, e o desenhador os reprodaziu no seu 
trabalho, igual numero escapou ao Sr. Vasconcellos na sua transcri- 
pjSLo do letreiro da campa. Tanto na versXo a p. 8 d-0 Archeologo, 
corno na de p. 12, copiou «pontiiicis» emlugar de «pontì/icis», e em 
ambas coUocou «deoopt-max», tudo junto, no meio da prìjneira 
linha, quando deo està no come90, OPT no meio e max no fini da 
linha, exactamente comò se ve na p. 12 ao alto das duas tradac(5es, 
que, visto serem tjo imperfeitas, nSo merecia a pena ter publicado. 
A pontuagUo, embora muito admissivel, està bem longe de ser a da 
inscripyEo. 

De passagem direi que no jornai a que o distincto archeologo se 
refere, a palavra ioaknae n2o foi impressa sem o primeiro a, nem 
cdeliberou» se imprimiu «deiiberou»; o que alias seria de pouca 
importancia, se o critico fosse leal. 

NSo me admirava que DamiSlo de Goes chamasse crypta k modesta 
cova, carneiro ou jazigo, cujas escassas dimensSes a propria campa 
està denunciando, emquanto o illustre auctor da Archeologia Artìstica, 
xu, 41 , me afSan9aya que o mesmo DamiSo cbamarajazt^o à lapide do 
seu epitaphio (h. m. h. n. s.: Hoc monumentum haeres non seguitar — 
^e&ìQ jazigo n&o passa aos herdeiros»); mas agora que o mesmo auctor 
me diz que a responsabilidade de tSo absurda classifica^So lem de 
ficar a cargo de ignoto terceiro, confesso que prefiro crer que Goes 
querìa dizer capella e nSo crypta na inscrip9%o da sua campa. 

A proposito das lettras que rematam o epitaphio, direi que nunca 
me passou pela mente a dùvida de que as ultimas tres linhas nao 
fossem do auctor do epitaphio : 

a) porque em seguida à palavra illa ha uma virgula (inedita) que 
nunca foi ponto; 

b) porque o feitio da lettra é absolutamente igual à das que a 
antecede ; 

e) porque, acceitando a decifrajlo do Sr. Vasconcellos, nìnguem, 
senio padroeiro primitivo da capella, teria o direito de prohibìr que 
OS seus herdeiros ahi fossem enterrados, sobretudo depois de ter con- 
tratado por escriptura, e feito declaragào na inscripsio da campa em 
sentìdo contrario. 

E provavel que o P.* Cruz nlo copiasse o epitaphiq da propria 
lapide ; porque, se assim fizesse, teria, sem dùvida, copiado a inscri- 
p(So da campa, que estava entUo visivel. 



O Archeologo Portugués 261 

Como curiosidade direi que o prior daVarzea, na informa^ào que 
deu, em 1758, para o Diccionario ChorographicOj manuscrito, que està 
na Torre do Tombe, reproduziu correctamente o texto do epitaphio, 
e omittiu as cinco lettras finaes ; mas nem por isso penso que ainda là 
nao estavam no meado do seculo passado. 

Quanto a omiss5es : 

E devéras para lamentar que um estudo tao brilhante e tfto repleto 
de novidades, corno é este ensaio de chronologia da igreja da Varzea, 
nlo ficasse completo com a reproducgfto das outras inscripjSes que 
havia no corpo do edificio, e que, provavelmente, nSo tornarlo a 
apparecer. Segundo o sabio auctor, é a primeira tentativa que se faz 
em Portugal, e as primeiras tentativas, quer sejam do Sr. Vascon- 
cellos, quer minhas, hao de sair sempre um pouco imperfeitas. Teria 
side tEo utiLa sua versao do epitaphio do tal Pedre (ou Fedro) Annes ; 
ou do de Francisco Lopes (Aquijaz Francisco Lopes^juiz dos orphàos 
que fot d'està villa e sua mulher Branca Gomes de Lima [ou Limi] e 
seu^filho Manoel Gomes que està campa mandou por e tem nesta igreja 
tres missas para sempre corneo do seu testamento se vera), casado, ao 
que parece, com a tia materna de DamiSo de Goes; e o do prior 
Gon9alo Vaz, amigo do chronista. 

Mas, apesar dos erros graves e omissSes que acabo de apontar, é 
certo que o artigo de que se trata traz, corno todos podem ver, noti- 
cias importantes, pelas quaes aquelles a quem o assumpto interessar 
devem ficar gratos. 

O curiosissimo facto de se enterrar Fedro Annes em 1539 e nSo 
Ihe edificarem capella sebre os seus restos senào em 1560, merece 
toda a attengSo. A data de 1554 (inedita) no pulpito que, provavel- 
mente, jà deixou de existir, é um apontamento historico de subido 
valor.'A data dos azulejos, 1714 (inedita), nSo so é preciosa por 
marcar uma epocha, mas ainda mais comò prova da abnega92Lo do 
illustre escriptor que, divulgando-a, teve de confessar um erro jà 
commettido que, com justa razEo, considera desculpavel, porque os 
erros e faltas docile tem uma desculpa que a todos abrange. 

Fara mim rei vindice o descobrimento de um azulejo que escapou 
ao Sr. Vasconcellos e aos obreiros, e que ainda està assente na parede. 
Representa uma formosa argoUa de bahu (inedita), de pintura mara- 
vìlhosamente exacta. 

Sou, etc. 

GUILHERME J. e. HeNRIQUES. 



262 O Archeologo Portdgués 



Numismatica 
MoneUrlo de Ceoaculo 

Por curiosa estractamos do Diario * do grande Arcebispo Cena- 
culo està noticia da origem do monetario, que oe Franceses Ihe fouba- 
ram em 1808: 

«Para novo monetario, depois que mandei o meu antigo para a 
Bibliotheca Publica de Lisboa no principio de Janeiro d'este anno de 
noventa e outo. 

Dos restos que achei em a confusfto da casa: da boa porgilo qoe 
me enviou e trouxe D. Manoel de Vilhena, e de ontros do Minho, 
Algarve, Bìsp/® e da Provincia se compSe a nova coliec(3o neste dia 
7 de Agosto, mesmo anno de noventa e outo, das seguintes: 

Quarenta e seis, godas. 

D. Sancho I, urna. 

D..Affonso IV, urna. 

D. JoXo III, S. Vicente, urna. 

Nero e Aggripina, urna. 

Moiras, tres. 

Medalhas da Estatua equestre do Sr. D. José, uma. 

Da Academia real das Sciencias, uma. 

Um annel com gravura em pedra fina. 

Praia 
Quinze, disparadas. 
Oitenta romanas, raras. 
Mais quarenta e uma romanas. 
Cento e sessanta e cito portuguezas. 
Vinte medalhoes portuguezes. 
Gito portuguezas, de liga. 
Moiras, cincoenta e duas. 
Dois anneis, moiros. 
Outro annel mais. 

Vinte e tres moiras, romanas e portuguezas. 
Vinte e seis mais, varias. 
Nellas ha raras e boas. 



1 Ms. da Bibliotheca Publica de Evora. 



O Archeologo Portugués 263 

Cohre 

Desconhecidas, gregas, portugaezas, moiras, coloniaes e dispara- 
das, ao todo mil oitocentas quarenta e sete. 
Mais de colonias, desesete. 
Romanas, cento e urna. 
Miscellanea, trinta e nove. 
Portuguezas, quarenta e urna. 
Mais dozentas e sessenta e sete, disparadas. 

No dia 16 de Novembre accrescentarei as seguintes deste armo de 
1798: 

De cobre 52. 

De metal 2. 

De Prata 26. 

De oiro 2. 

E um colar de oiro. 

No dia 11 de Abril de 1801 accrescentei as seguintes: 

De oiro 2. 

De prata 32 em que entra a do Porto e urna de Vitelio. 

De metal corintio uma. 

De cobre quarenta e duas. 

No dia 31 de Agosto de 1801 accrescentei as seguintes: 
Uma de oiro, e um annel com cadeia, tudo de oiro. 
Doze de prata. 
Desoito de cobre». 

D, Fr. M. do Cenaculo> 



Tal é comèdo do monetario que os Franceses roubaram ao grande 
coUeccionador, em 1808. 

Se até 1801 se elevava por estes apontamentos originaes a umh 
2700 moedas: quantas nSo adquiriria mais o Prelado até 1808? (Jraiìde 
numero, de certo. Das de cobre, nio roubadas, ainda hoje tem ituiìIus 
a Bibliotheca de Evora. 

A. F. Barata. 



264 O Archeologo Portugués 



InsoripQSo latina de Melgago do sec. XTTT 

illustre collaborador d-0 Archeologo, Sr. Engenheiro ManoelF. 
Vargas, teve a bondade de me enviar ha tempos a photographìa de 
urna inscripyao qiie existe nas muralhas de Melgajo, à direita da porta 
que olha para NO-, photograpliia que se reproduz na estampa jonta*. 

A inscrip9SL0 occupa tres pedras de granito, e consta de eìnco linhas 
e um tergo. Os caracteres sSo muito claros, e estSlo gravados profon- 
damente. Eis as dimens5es das pedras. 

l.a_im^600X0V10; 

2.«^_0",945X0",345; 

3.*— 1°»X0™,345. 

A altura das lettras oscilla entre 0",06 e O^^jOO. 

Tendo eu pedido ao Sr. Vargas um artigo sobre està inscrip$&o« 
desculpou-se-rae com a sua modestia, e encarregou-me a mim de o 
escrever. Mas que posso eu fazer mais do que o que elle farla? 

A inscripfSo é comò se segue (desfago as abreviaturas) : 

1. In tenpore domini regia Alfonsi 

Portugalie, magister Fernandus con- 

posuit mtirun istun; era MOCCI, 

Martinus Gongalvizj castellarius 
5. Domini regia, circundavit hanc villan 

in ac parte. 

Consta pois de duas partes distinctas, que constituem urna uni<.*a 
inscripjEo, corno se ve do facto de na segunda parte estar so domini 
regie, sem o nome, por jà estar escrito na primeira. 

Apresentarei algumas observajSes sobre o texto. 

Nas terminagòes de syllabas ha sempre n, mesmo quando o uso 
pedia m (tenpore, murun, etc). Em ac por hac, nio se empregou A. 
Emprega-se istun por hunc, segundo o uso medieval. Ka 4.* linha, a 
segunda palavra parece-me acabar em -"z, e nSo em -i, por isso escrevi 
Gongalviz, que é bom portugués archaico ; mas tambem nJo destoaria 
da praxe dos antigos documentos Gongalvi; de Gongalviz veiu a 
moderna fórma Gongalves, que mais correctamente deveria escre- 
ver-se com z, isto é, Gongalvez» O verbo circundavit por circumdedit 



* Foi tirada pelo photographo-amador o Sr. C. H. Ivens. 



Archeologo Poktucués 



265 




266 Archeologo Portugcés 

é barbarismo analogico. Quanto a Portugalie = Portugaliae, na 2.* 
linha, é outro barbarismo analogico, mas infelizmente maito osado; a 
fórma legitima aqai seria Portugalis. 

A tradacfSo é : 

No tempo d'el-rei D. Affondo, de Portugal, era de 1301, o mestre 
Fernando consertou este muro. Martinho Gongalves, castelleiro à^el-rei 
no880 senhor, cercou de muros a villa neste ponto *. 

A era de 1301 corresponde o anno de 1263, reinado de D. Af- 
fonso III. 

Em algumas das pedras que rodeiam a inscrip^fto vèem-se diversos 
signaes, que representam as marcas dos pedreiros, corno isto é vulgar 
nos maros e edifica95e8 antigas, — uso que jà data da epocha roinana. 

J. L. DE V. 



Bibliographia 
Revue belge de Numismatique, 1898, 2.^ fasciculo. 

A p. 241 dà nesso esclarecido coUaborador e confrade o Sr. A. de 
Witte urna noticia à cérca do livro do Sr. Santos LeitSo inlitulado Me- 
dalhas e comlecoragdes portuguesas e estrangeiras referentes a Portugcd^ 
Porto 1897. 

* 

Hans Gadow, In Northern Spain, London, Adans & Charles 
Black, 1897. 

NSo tenho presente este livro, mas numa noticia que do mesmo 

publicou Sr. E. Hiibner na Deutsche Litteraturzeitung, de 20 de 

Agosto de 1898, vejo que o A. d elle, depois de dar rela9So de alguns 

dolmens da provincia de Alava (p. 281 sqq.), traz um mappa synoptico 

dos dolmens e outras reliquias prehistoricas, tanto de Hespanha, corno 

de Portugal (p. 298), postoqne o Sr. Hiibner accrescente que esse 

mappa é certamente defeituoso. — Ao Sr. Hiibner agradejo o ter-me 

enviado um exemplar da sua noticia. 

J. L. de V. 



* Traduzi compxmere por consertar, porque na lìaguagem do N. de Portugal 
o verbo eompoe tem aquella significa9So. A cérca de castelleiro vid. o Vocabulario 
de Bluteau, s. v. 



O Archeologo Portugués 267 



Sooiedade Aroheologica da Figueira 

Està Sociedade*, fundada ha meses na Figueira da Foz, por inicia- 
tiva do infatigavel pesquisador e benemerito conservador do Musea 
Municipal d'està cidade, Sr. Dr. Antonio dos Santos Rpcha, realizou 
jà dnas sess5es plenarias, a primeira em 19 de Mar9o do corrente anno, 
e a segiinda em 24 de Outubro ultimo, apresentando alguns dos seus 
socios communica^Ses interessantes sobre os assumptos que sfto objecto 
de estudo da nova Sociedade. 

Primeira sessio 

Nesta sess&o foram presentes e lidas as seguintes communica$8es : 

Do presidente da Sociedade, Sr. Dr. Santos Rocha: Novos vestigios 
romanos fio valle infeHor do Mondego e immediaqdes ; Estaqào luso- 
romana da Caverna do Bacelinho, na serra de Alvaiazere; Vestigios 
da epocha do bronze em Alvaiazere; Primeiros vestigios da epocha do 
cobre nas immedia^des da Figueira; Mohiliario neolithico disperso no 
valle inferior do Mondego e immediagdes a E, do concelho da Figueira; 
ArcainJuis do Seixo e da Sobreda. 

Do socio, Sr. Dr. Antonio A. Duarte da Silva: As moedas reco- 
Ihidas nas sepulturas no sitio da Egreja velha, no Negrots, 

Do socio, Sr. Francisco Ferreira de Loureiro: Um azulejo do 
secvlo XVII. 

Do socio, Sr. Augusto Goltz de Carvalho: Signa^s gravados em 
lages. 

Do socio, Sr. Fedro Fernandes Thomas: In^cripgdes e emblemas 
existentes nos sinos das igrejas do concelho da Figueira, 

Segnnda gessSo 

Nesta sessSo foram presentes e lidas as seguintes communica^Ses : 

Do Sr. Dr. Santos Rocha: Estagào humana da Formosdka; Novo 
vestigio da epocha do cobre nas vizinhangas da Figueira; Estagào 
neolithica da Ereira; A caverna dos Alqueves, suburbios de Coimbra. 



1 Vid. Arch, Port., iv, 93. 



268 Archeologo Portugdés 

• 

Do socio, Sr. Jolo dos Santos Pereira Jardim, apresentada pela 
presidente Sr. Dr. Santos Rocha: Notaa ethnographicas sabre os sélva- 
gens de Timor, 

Do socio, Sr. Franco y Losano, professor de Badajoz: Nota sabre 
aigumas Tiachas e outros objectos metallicos do Museu de Badajoz. Està 
communica^So foi apresentada pelo Sr. Dr. Santos Rocha, que a prece- 
deu de aigumas considera95es sobre a fórma das hachas, apresentando 
exemplares das mesmas fórmas, existentes no Museu da Figaeira. 

Do socio, Sr. Francisco Ferreira de Loureiro: Fragmento de 
vidraga pintada com esmalte, pi'oveniente do meste irò da Batalha. 

Do socio, Sr. Augusto Goltz de Carvaiho: Amuletos de Buarcos. 

Do socio, Sr. Fedro Fernandes Thomas: Epigraphia do concdho 
da Figueira. 

Todas as communicagSes foram acompanhadas de expIicafSes dadas 
pelo Sr. Dr. Santos Rocha, com o firn de aclarar as differentes questoes 
tratadas, e demonstrar qual a sua importancia para o estudo da pre- 
historia. 

^ssim, a communicafSo do Sr. Jardim, sobre os selvagens de 
Timor, em que se descrevem nitidamente os usos e costumes dos 
indigenas d'aquella nossa possess^o, tem muita importancia para o 
estudo comparativo das prìmeiras idades da humanidade, pois ha 
muitos pontos de contacto entre a vida do homem prehistorico e a 
dos selvagens da actualidade, especialmente os da Oceania, rebeldes 
mais possivel à influencia europeia. E por causa d'esses pontos de 
contacto que no Museu Municipal d'està cidade ha uma sala de Com- 
PARA^AO, logo a seguir às secgoes Prehistorica e PROTOfflSTORiCA. 

A communicajEo sobre os amuletos de Buarcos, tambem é multo 
interessante. Nos ennumerados pelo Sr. Goltz ha um interessantissimo 
que consiste em duas figuras, uma na altitude de matar a outra, usado 
para desejar mal a alguem; este amuleto é de panno. Sobre està 
communica9So foram trocadas vàrias observa^oes e explicajoes, e pelo 
presidente foram apresentados dois amuletos africanos, pertencentes 
à collec9fto do Museu da Figueira. Um d'elles, é de ferro, em fórma 
de chapeu de sol, e serve para fallar com a alma, outro, é um 
pente de madeira, tendo na parte superior duas figuras humanas, na 
attitude de conversarem uma com ^a outra, e que é usado pelo dos 
irmaos gemeos sobrevivente, afim de que o espirito do defunto Ihe nao 
foga mal. Explicou depois o Sr. Rocha que a trepanafSo que o homem 
primitivo praticava nos mortos era com o fim de fazer amuletos com as 
rodelas do cranio ; e isto ainda actualmente se usa, pois Bellucci, por 
occasilo do Congresso de 1880, em Lisboa, citou amuletos formados do 



O Archeologo Portugués 269 

rodeias cranianas, usados pelos epìlepticos na Ombria (Italia). Tambem 
foi presente na sessfto a coUecyào de amnletos portugueses offerecida 
a Sociedad^ pelo director d-0 Archeologo Portuguea, e socio honorario 
da mesma, o Sr. J. Leite de Vasconcellos, que no seu livro intitulado 
Rdigides da Ludtania, i, p. Ili sqq., tem um extenso capitalo sobre 
amnletos, onde, a proposito dos prehistoricos que se encontram em 
Portugal, apresenta uma theoria geral dos amnletos, urna classificagSo 
e uso d'estes, e dà noticia de muitos dos tempos antigos e modernos; 
no mesmo livro, p. 170 sqq., falla o mesmo A. à cèrea da trepana^So 
prehistorica e dos amuletos cranianos, representando pela gravura, 
um encontrado por elle no Alemtejo, e depositado agora no Museu 
Etimologico Portugués. 

Aos assistentes foram patentes os objectos colhidos nas explora- 
fSes que a Sociedade, embora com poucos meses de existencìa, jà tem 
emprehendìdo e levado a cabo. Essas explora^Ses, foram as seguintes, 
diri^das pelo Sr. Dr. Santos Eocha, e em que tomaram parte varios 
socios : 

Caverna dos Alqueves, suburbios de Coimbra, explorada em Julho 
do corrente anno, e onde foram encontrados doze esqueletos; pela 
posijSo vè-se que os respectivos corpos foram inhumados de cocoras. 
Nella recolheu-se o seguinte: uma brecha ossifera com todos os ossos 
bem nitidos, para se poderem estudar; varios fragmentos de cera- 
mica; varios objectos de silex e de osso, etc. 

Estagào romana da Fomioaelha, explorada em Setembro do cor- 
rente anno, e onde foram recolhidos estes objectos: um grande peda(o 
do bojo de um dolium; um peda90 do bojo de outro vaso de menores 
dimens5es (aeria?); um escopro (scalprum faòrile); um péso de tear 
(jpondus)] um grande fragmento de uma patera; varios fragmentos 
de outros vasos, etc. 

Eatagào neolUhica da Ereira, onde foram colhidos alguns ma- 
chados. 

Varios dolmens na Serra do Cabo Mondego. 



A collec9&o dos objectos pertencentes k Sociedade, e que se acha 
depositada no Museu Municipal d'està cidade, é jà importante e inte- 
ressante. 

Num dolmen ultimamente explorado na citada Serra foi encontrado 
um vaso antigo, fragmentado, sobre o entulho do remeximento em 
«pocbas remotas, e lego por baixo da camada vegetai. 



270 O Archeologo Portugués 

Sobre este achado reproduzimos neutra parte uina noticia inserta 
na Gazeùa da Figueira, de 9 de Novembre d'este anno. 

Como se ve, a Sociedade ArcLeologica da Figueira, na sua curta 
existencia, tem-se jà manifestado sufficientemente, sondo de esperar 
que continue perseverante no fim que se propòs. 

Figueira, Novembre de 1898. 

P. Belchior da Cruz. 



O < Castèllo» de Guifdes 

Entro Leja da Palmeira e a pequena povoa9%o de Guif8es (eon- 
celho de Boujas) fica um monte com vesti^os de edificajoes antigas, 
qual entra na categoria dos castros. 

Um documento do sec. xi, citado porVelho de Barbosa nsi. Memo- 
ria kistorica do mosteiro de Lega chamada do Balio, Porto 1852, 
refere-se a este monte, a p. 75, dizendo: «subtus Castro Gueifones». 

Estive em GuifSes em 1880 ; o Sr. Martins Sarmento tambem là 
tinha estado. Pelo que elle e eu encontràmos, vè-se que lia em Gui- 
fSes, comò em muitos outros castros, vestigios de duas civiliza(oes : 
uma pre-romana, outra romana. A pre-romana revela-se nSo so no 
systema goral da povoa9llo, mas no apparecimento de instrumentos 
da idade da pedra polida, e de fragmentos de vasos de barro com 
omamenta9lo multo simplez, em linhas curvas irregulares. A romana 
revela-se no apparecimento de telhas de rebordo, de ceramica mar- 
cada e de um péso de barro. 

Na estampa junta represento, segundo o desenho do Sr. Henrìqne 
Loureiro, em metade da grandeza naturai, um péso de barro, e um 
fragmento ceramico, que eu trouxe de Guifoes, e que hoje tenho no 
Museu Etimologico Portugués. péso (pondus) é arredondado em 
baixo, e quasi plano em cima, e tem aos lados dois orificios que nSo 
communicam entro si: fig. 1, (visto com inclinajSo); fig. 1-a^ con- 
tórno de uma das faces princìpaes; fig. 1-J^ contórno de um dos 
lados. fragmento ceramico pertence, segundo parece, a um tijolo 
(later): contém uma lettra digitai, D ou P, mais provavelmente P; 
s2o frequentes lettras d'estas em ladrilhos romanos. 

Ao fundo do monte havia um pequeno monumento feito de tijolo, 
talvez f5rno; foi neste monumento que encontrei o tijolo. Pelo monte 
apparecem mós de moinho-de-mfto, analogas is que se tem encontrado 
em Sabroso, na Citania e noutras esta(8es lusitanicas. 



Archeologo Portugués 271 

Na citada obra de Velho de Barbosa diz-se que em 1850 se des- 
cobrira no monte, na raiz de um carvalho, «urna garrafa de vidro, de 
boca mui larga, e d'urna figura totalmente diflferente das actuaes»*. 
O A. mais nada adeanta, perdendo-se em infundadas considerafSes a 
respeito da origem grega e celtica de GuifSes. 

Os povos da localìdade attribuem, jà se ve, estas ruinas aos 
Mouros. Colhi a tal proposito algumas tradÌ93es ; cfr. Pantheon, 
p. 36, nota. 

A pronùncia popular do nome do monte é Castello, e nao Castèllo; 
pelo menos assim ouvi a diversas pessoas. 

* 

Jà depois de escrito e composto na imprensa o que precede^ recebi 
do meu amigo e antigo condiscipulo Dr. Ribeiro Fortes Junior duas 
cartas, d'onde extràio as seguintes noticias sobre GuìfSes. 

«Ergue-se a collina, vulgarmente conhecida pela denomina^So de 
Castèllo, junto do rio Le9a, num pender rapido e escabroso; pelo 
lado do Sul seguem-se-lhe outras na direc9ao da cidade do Porto. Na 
encosta distinguem-se evidentes vestigios de fortificajSes, que, comò 
em todos os castros luso-romanos, serrirìam para auxiliar a defesa 
naturai da povoagio, que noutros tempos assentava no planalto da 
collina. 

NSo faltam por estas paragens as lendas de mouras encantadas, 
que habitarìam aquelles sitios. 

Por quasi teda a collina afloram à superficie do terreno innumeros 
fragmentos de ceramica com accentuado cunho luso-romano. Apanhei 
alguns, que sem contestagSLo devem ser restos de tegvlae, de imbrices, 
de tijolos e de vasos diversos. A argilla empregada na sua factura, 
de pasta em geral grosseira, é de cdr multo varìada. Usariam os 
habitantes do castro das argillas refractarìas, brancas e cinzentas, e 
das argillas jigulinas. 

(^ caco mais curioso que apanhei devia ter pertencido a um vaso 
de largo bojo e tamanho consideravel ; a julgar pelo raio das curvas 
que apresenta no sentido da largura e da altura, e pela espessura 
(0™,08), poderia ter side de um dolium vinarium ou olearìum. 



« Memoria, p. 75.— Cf. tambem Arch. Pati., iv, 320. 



272 Archeologo Portugués 

E de barro cinzento e grosseiro, em que se torna evidente o emprogo 
da roda de oleiro; apresenta vestigios de iim inducto Instroso e negro, 
especie de vidrado, e de urna omamenta^So grosseira, gravada na 
pasta, a qual consistiria em um tra90 cìrcumdante e por baixo series 
de circumferencias concentricas dispostas alternadamente em linhas 
parallelas ao trafo. 

So urna expIora92o cuidadosa poderia fixar a natareza d'este castro. 
Parece que jà se fez uma tentativa fructuosa, snspensa nXo sei porque 
ordem de motivos. 

Seria, pois, util que no teu prestantissimo Archeologo Portugués 
chamasses a atten$fto para està esta9So archeologica, que, corno as 
suas congeneres, deve fomecer preciosos elementos para a proto- 
historia». 



«Addito as minhas informaySes sobre o castro de GuifSes, suppondo 
que as tenhas ainda mais deficientes, o que n&o é muito presumivel. 

A par da ceramica grosseira de que fallei, apanham-se destro90s 
menores de vasos ornamentados, de barro finissimo. 

A argilla d'estes é vermelha, cinzenta e esbranquiyada; cobre-a 
exterior e interiormente um polido perfeito. Apparece com frequencia 
a omamenta92[o de espiras jà gravada, jà em relévo corno num caco 
que possuo. Num fragmento de pequeno vaso os ornatos sSo muito 
curiosos, de traballio complicado e ao mesmo tempo muito gracioso: 
devia ser um vaso de luxo. • 

Alguns desenbos sSo executados evidentemente com penta ou esty- 
lete; e a cozedura de teda a ceramica é, em regra, completa em teda 
a espessura, apparecendo incompleta e limitada às superficìes extemas 
num pequenissimo numero de fragmentos. 

O insignificante numero de objectos que conservo em meu poder 
fi>ram apanhados ao acaso. Ainda assim fazem suppor que uma explo- 
rafSo rigorosa fomeceria importantes elementos de estudo. 

Parece-me poder até affirmar desde jà que os castrenses de GuifSes 
eram um povo adeantado em civiliza92o, em rela98es commerciaes 
com outros centros, a julgar pela variedade e superior qualidade das 
ar^Uas empregadas no fabrico de alguma ceramica que as vizinlian9as 
do castro nJo podia fomecer. 

E cedo para classificar està estafXo archeolopca; supponho, porém, 
que nio errarà quem a classificar de luso-romana^ . 

J. L. DE V. 



PUBLIC Llblv.A.Kl 



^WrOONOATJON». 



O. Archeologo Portugués 



273 



Um ensaio monetario de oobre 

A moeda cuja gravura apresentamos existe na nossa coUecs&o e 
conserva-se & fior do cunho. E, sem dùvida, um ensaio, inedito, e urna 
novidade interessante, pela fórma comò o seu valor é designado, fórma 
nnìca e orinai, para nào dizermos extravagante, na numismatica, 
antiga ou moderna. 

De accfìrdo com a opinilo do distincto numismata portuense 
Dr. Fedro Augusto Dias, julgamos que està moeda seria destinada 
a ter curso nas ìlhas dos A9ores. 

Na legislagSo monetaria do reinado de D. Maria I n2o encontràmos 
allasSo alguma a este valor de 40 réis, nem a estatistica dos metaes 
amoedados na Casa da Moeda de Lisboa accusa semelhante novidade. 




Admittamos, pois, que seria destinada ao archipelago a9oriano, 
porque a sua gravura é a mesma das moedas de cobre que em tal 
reinado foram cunhadas para aquellas ilhas. exemplar pesa 33^,05, 
ou 661 graos, e tem a espessura de 0",002, certamente porque o disco 
metallico aproveitado para o ensaio nXo era apropriado ao duplo vintem 
e, destituido de justo calculo, serviu comò poderia servir outro qualquer, 
de menor péso e diametro. Parece-nos que assim deveria ter succedido, 
nEo obstante a divergencia de pesos que se encontra entre dois exem- 
plares de 20 réis ajorianos, existentes na nossa collec9So, um dos 
quaes, com o millesimo de 1795, pesa 13*^,65, e o outro, cunhado 
em 1796, accusa 8^,70. Taes irregularidades de pesos, que sSo pouco 
vulgares na numismatica continental entre as cunhagens de cobre 
realizadas no seculo passado, mostram apenas a precipitammo que 
houve no lavramento das primeiras emissSes para os Amores, comò 

18 



274 Archeologo Poktugués 

parece depreliender-se do alvarà de 8 de Janeiro de 1 795, motivado 
pela falta de numerario portugués nestas ilhas, em que abimdava a 
moeda estrangeira, quasi toda informe, cerceada ou falsa. 

Quando se tratou da emissSo de 1798, evidenceia-se que houve o 
pensamento de criar urna moeda que, pelo peso, espessura e designa- 
9S0 do valor, equivalesse a dois vintens, gravador entendeu que 
devia tambem criar algo de novidade, bem visivel, e, assim, indicou 
o valor XX) eni vez de XL, designaflo romana, mais apropriada ao 
campo da moeda, jà adoptada desde tempo de D. JoXo Vnas moedas 
de igual valor que em Lisboa foram cunhadas para o Brasai. A fan- 
tasia do artista nJo mereceu a approva9ao superior, ao que parece, e 
a moeda nSo foi emittida. 

Este ensaio monetario, ou amostra, tem excessiva raridade. Apenas 
conhecemos mais tres outros exemplares, iguaes, a saber : o 1 .® Da 
collec9ao de Sua Magestade; 2.° descrito no catalogo da coUec^So 
que pertenceu a Eduardo Luis Ferreira do Canno, sob o n,** 780; e 
o 3.® na collecfSo ainda intacta, do fallecido numismata José OUegario 
SimSes da Silva, sendo este exemplar o mesmo que figurou, sob 
n.° 1102, no extincto monetario do Dr. Adelino Arthur da Silveira 
Finto, cujos exemplares foram vendidos a retalho em 1892, na maxima 
parte à hon marche^ por um ferrageiro, arvorado em numismata. Està 
preciosidade monetaria foi entao vendida por 800 réis, escandalosa- 
mente, no dizer de varios numismatas, que chegaram tarde perante 
ferrageiro emerito. 

Maxoel Joaquim de Campos. 



Noticias vàrias 

1. Explora^Oes da Soeledade Archeologica da Figueira da Foz 

a) Na Serra da Boa-Viagem 

«Como ha dias noticiàmos, està aggi'emia§So, proseguindo ìnfatiga- 
velmente nos seus trabalhos, continuou as explora95es na Serra da 
Boa-Viagem, em tempo alli iniciadas e desenvolvidas com tanto exito 
pelo distincto archeologo Sr. Dr. Santos Roclia, actual presidente da 
Sociedade, e os resultados bastantes animadores, até hoje obtidos, sSo 
de molde para poder completar-se a explorajào d'aquella re^So, que 
tantos elementos interessantes de estudo tem fowiecido. 



O Archeologo Portugués 275 

A 200 metros para 0. do dolmen da Marna do Furo, nas vizi- 
nhangas de Santo Amaro da Serra, descobriram-se ruìnas de uma 
cabana, com alguns fragmentos de louja da epocha romana, traba- 
Ihada & mSo. 

Em um dos contrafortes septentrionaes da Serra, a OSO. de 
Quiaios, encontraram-se as ruinas de um novo dolmen. Sobre o entu- 
Iho do monuménto existiam os fragmentos de um vaso de fórma ovoide, 
trabalhado à mìo, pertencente ao typo da refenda lou9a. Estavam 
apenas cobertos por uma camada de terra vegetai. Iato confirma o 
facto, jà assignàlado e comprovado por numerosas observaijSes, de 
que muitos dolmens da grande necropole foram profanados pelos lusi- 
tanos durante o dominio romano. . 

A O. da pyramide geodesica de 1.* classe de Buarcos, proximo 
da estrada de Quiaios, descobriram-se os alicerces de uma casa, feita 
com alvenaria secca, da epocha de D. JoSo III». 

(Gazeta da Figueira, n.« 703, de 9 de Novembre de 1898). 
b> Em Montemór-o-VeUio 

«Proseguindo no louvavel empenho de desenvolver quanto possivel 
as suas exploragoes, no intuito de obter novos elementos de estudo, 
juntando materiaes tendentes a esclarecer algumas das quest5es de 
que està Sociedade se occupa, tem continuado ultimamente os traba- 
Ihos em differentes pontos em que se assignalem vestigios de antigui- 
dades dignas de serem examinadas. 

No sitio da capella de Nossa Senhora do Desterro, em Montemór-o- 
Velho, junto às ruinas da villa romana que alli existem, foi reconhe- 
cida uma necropole, que parece ser a que se prolonga por de baixo 
dos pavimentos de mosaico do edificio romano, e que deve ser ante- 
rior a este. As moedas recolhidas nessas ruinas alcanjam o sec. IV 
da nossa era, e por conseguinte a necropole deve ser menos antiga. 

As sepulturas agora descobertas s2o duas, do typo das que se 
encontram em diversas estajoes mortuarias do Algarve. Pertencem 
provavelmente a escravos indigenas. 

Na Serra do Cabo Mondego, por indicajSes do Sr. Jorge Brar 
court, foi reconhecida uma grande caverna, no sitio denominado dos 
CovSes; e em seguida explorada a primeira galeria, que se encontra 
k direita, 4uando se desco da entrada principal. Encontraram-se ossos 
de javali e alguns outros que parecem humanos, mas que ainda nfto 
puderam ser estudados devidamente. A caverna tem galerias com 
mais de 30 metros de extens3to, em diversos niveis e direcySes, e 



276 * O Archeologo Portugués 

desce a profundezas ainda desconhecidas, onde as lozes se mantem 
com difBcoIdade e onde o pavimento està em lama». 

(Gazeta da Figueira, n.«» 706, de 19 de Novembre de 1898). 



vaso acima mencionado, encontrado no dolmen do Prazo, foi 
restaurado quasi por completo, e depositado no Museu Munìcìpal d'està 
cidade. 

Tambem foram recolhidos no mesmo estabelecimento um cranio 
incompleto e algims ossos longos, de ama das sepnlturas Inso-romanas 
acima mencionadas. Algumas das moedas romanas alli encontradas 
estSo na coUec^ilo do mencionado Museu, tendo o nesso amigo A. 
Mezquita de Figueiredo algumas, por elle mesmo alli recolhidas no 
presente anno. Quanto aos ossos trazidos da caverna, nada se poude 
fazer sobre elles, por virem muito fragmentados. 

2. Caga onde nascea Bocagre 

A proposito do artigo publicado com aquelle titulo n-0 Arch, 
Pori., I, 176, transcreve-se aqui d-0 Bimano, de 22 de Janeiro de 
1898, a notlcia seguinte : 

cEm cumprimento da deliberammo tomada sob proposta do Sr. ve- 
reador Egreja, foram coUocados na casa da escola publica da rua de 
S. Domingos o retrato do insigne poeta Bocage, nascido na dita casa, 
e do Visconde de Bartissol, que a adquiriu e offertou generosamente 
ao municipio. 

retrato do Bocage ó reproducjlo executada pelo habil pintor 
setubalense Sr. Augusto Flamengo. 

Na mesma casa foi collocada uma lapide com inscrip^So comme- 
morativa das circumstancias a que nos referimos, as quaes dlU> valor 
bistorico àquelle modesto edificio». 

P. Belchior da Cruz. 



cTodo homem deve è està obrigado a conservar as memorias 
que seos antepassados Ihe deixàrSLo cuidadosos, se as quiser conbecer, 
imitar e bonrar». 

Diecurso da inattgurofdo do Museu de Cenaculo [por Fr. JosA Lovbek^o 
DO Valle], Ms. da livraria do Sr. Visconde da Esperan^a. 



O Archeologo Portugués 277 



Notloias antigas sobre archeologia 

a) Moedas visigoticas descobertas no Minho. 

«Descobrìose na Provincia do Minho hum ihesonro de medallias 
de ouro dos Reys Godos Chindasuindo & Becesuindo, das quaes se 
mandàr&o alguas à Academia Portugueza, que suspendeo as suas 
assembieas aie 21 do mez de AbriU. 

{Qazeta de Lisboa Occidental, de 10 de Mar^o de 1718). 



b) Sqpuliuras no monte de Pomheiro, (W pé de Guimaràes, 

€ Braga, 9 de Margo. — No monte de Pombeyro Qegoa & meya 
distante da Villa de GuimarSes] o qual os Romanos conhecérSo com 
o nome de Colombino, & os moradores sempre chamàrSo vulgarmente 
o Monte Santo, pela tradirlo immemorial de haver padecido nelle 
martyrio a gloriosa Santa Quiteria, se achava arruinada huma Capella 
dedicada a S. Pedro, onde se venerava com grande devo9ao a Imagem 
da mesma Santa, que ha tres annos continua a fazer muytos, & grande 
mìlagres neste destrito, & querendo reedificalla com as muytas esmo- 
las, & offertas com que tem concorrido os seus devotos, se deu prin- 
cipio & obra no primeyro de Marjo, & comejando a abrirse os alicer- 
ces, se deu em hua sepultura formada de pedras, a que chamSo louzas, 
dentro da qual se achàrSlo os ossos de hum corpo humano, & conti- 
nuando a obra se forSo descobrindo porto de trinta sepulturas seme- 
Ihantes, nas quaes se vir&o os ossos organizados na sua naturai forma- 
tura ainda com dentes, & entre elles alguns conhecidamente de mulheres. 
Hontem se achou a de hum homem de notavel estatura, cujo tumulo 
estava argamassado de barro, ainda que toscamente, & ao seu lado 
direyto outro de palmo & meyo de comprido, & hum de largo, onde 
estava huma so cabe(a de mulher sem nenhuma terra, corno se ach&o 
alguns dos outros, & todos cubertos com campas das mesmas pedras 
louzas, & toscas. Inferese que està cabe^a seja a da Santa, & os ossos 
dos outros tumulos, os dos companheyros, que com ella forSo marty- 
rizados no mesmo sitio ha mil & seiscentos annos. Deose parte ao 
Arcebispo Primaz, que ordenou lego se puzessem editaes, & se pas- 
sassem ordens, para que em todo o seu Arcebispado se fizessem preces 
a Deos, nesso Senhor, para que se digne mostrar com alguns prodi- 



278 Archeologo Portuodés 

» 

gios a certeza, determinando ir fazer pessoalmente o exame, com a 
solemnidade que o direyto Canonico dispoem»*. 

{Gazeta de Lisboa Occidental, de 23 de Mar^o de 1719). 

e) Inscripqào romaìia na Ameixoeira, 

€ Lisboa. — Era huma terra contigua a azinhaga, que vay do lugar 

da Ameixoeira para o da torre do Lumear, termo desta Cidade, per- 

tencente ao morgado de Antonio Sanches de Noronha, se descobrio 

huma pedra do tempo dos Romanos, que estava metida quatro palmos 

& meyo debayxo da terra. He de quatro faces todas lavradas de 

escoda, & cada huma de quatro palmos & meyo de largura, & oyto 

& meyo de comprimente. Tem no alto huma abertura em quadro de 

hum palmo de profundo, & dentro desta outra mais profunda em figura 

redonda de altura de dous dedos, com seu releyxo, onde parece ostava 

encayxado algum busto, ou urna; & tem em huma das faces està 

inscrip9&o : 

DM- 

Q : JULIO MAXIMO 

CAI NEPOTI • AFR .... 

ORATORI 

Q: JULIUS MAXIMUS 

TER FILIO PIISSIMO 

DC-J 

(Gazeta de Lisboa Occidental, de 22 de FeTereiro de 1720). 

d) Descobrimentoa varios de antigualhas. 

e Com as novas ordens, que S. Mag. passou a favor da Academia 
Real, se tem descuberto em varias partes do Reyno muytas inscrì- 
P93es, columnas, & vestigios de edificios antigos, de que atégora se 
nSo tinha noticia, & de que se mandSo copias, & debuxos; & nos 



^ Sobre este assumpto publicou em 1803 o P.« Francisco do Nascimento 
Silyeira um pequeuo livro de 133 paginas intitulado Pombeiro Interamnense iUia- 
trado pelo martyrio, e Milagres da Preclariscima Virgem Santa Quiteria, etc. 
valor historico é nullo ; dà, porém, algumas noticias archeologicas deBconhecidas. 

* Corrigida e publicada pelo Sr. E. Hfibner no Corp. Inscr. Lat^ ii, 35i 
Acuiia tinha razSo. 



O Archeologo Portugués 279 

Cartorios muytos documentos curìosos, & importantes, de que vSo 
chegando os treslados2>. 

{Oazeia de Lisboa Occidtntaly de 29 de Maio de 1721). 

e) Inscripgdes romanas sobre a Idanha. 

f Doutor Manoel Pereira da Sylva Leal, oppositor na Universi- 
dade de Coimbra, a quem tocSo as memorias do Bispado da Guarda, 
expoz (na Academia Beai da Historia) que havendo lido mais de cem 
Autores, Hespanhoes, & Estrangeiros, & 22 inBcrip9oens Romanas que 
fallfto na Idanha, que antigamente foy a sede daquelle Diecesi, tinha 
entendido que fora Colonia, & Municipio fundada pelos Roman os». 

{Gazeta de Lisboa Occidental, de 24 de Julho de 1721). 

f) Inscripgào christa encontrada em Braga. 

«No principio do mez de Setembro deste anno, querendo guarne- 
cerse de estuque a parede da Igreja Cathedràl, & Primacial de Braga, 
se descobrio sobre a porta que vay para o claustro junto k pia baptis- 
mal, huma pedra quadrada, chea de letras com muytas abreviagoens, 
as quaes Pedro da Cunha de Souto Mayor, Cavalleiro da Ordem de 
Christo, & Alcayde mór daquella Cidade, Academico Provincial da 
Academia Real da Historia, mandou alimpar da cai, de que estava 
cuberta & copiar fielmente na forma seguinte : 

ERIT 
PRESVLIS HVIVS, SECVLS 
MEMORANDA FVTVRIS S» 
SEDIS ET ANTIQVI MAGNANIMOS PIE 
PRIMATES, VETERES REPARATQVIS MAGIOR CVI 
RVGASO MATERIANNO SINT8tÈRÀ^0E 
ERA o86, QVINGENTESSIMA PRIMA o» 

Por està inscrip9%o parece que faltSo na pedra algumas regras, 
que ihe dari^o formai sentido, & pela era de 501. que (reduzida a 
anno de Christo) corresponde ao de 463. se póde en tender, que o Pre- 
lado de que ella falla seria Idacio, que consta havello sido daquella 



' Para facilidade typograpliica dcsdobrei as siglas e outros BÌguaes de abre- 
viatura. A 5.* linha nSo enteudi. 



280 O Archeologo Pobtugués 

Igreja no mesmo tempo, & fazer grandes obras na sua Sé. Da oatra 
parte da parede, em correspondencia desta pedra, se descobrìo ontra 
com bum Escudo de Armas, que se ilKo puderSo conhecer por estarem 
picadas pelos oficiaes que rebocàrào a parede; & se entendeo que 
seriSo as Armas do mesmo Prelado, porém corno o uso da armarìa 
nXo estava ainda estabelecido no mundo, nem o esteve até o decimo 
seculo da era de Chris to, se tem por certo que sera de outro Prelado 
ainda mais moderno». 

(Gazeta de Lisboa Occidental, de 26 de Novembre de 1722). 

Pedro a. de Azevedo. 



Antiguallias romanas do Algarve 

1. «Cla?i8» (de Salir) 

Representa a figura uma clavis, de cobre, de 0",65 de compri- 
mento. 




Foi encontrada na freguesia de Salir, concelho de Loulé, dentro 
de uma sepultura. 

Como està, tenho visto vàrias outras apparecidas no Algarve e 
Alemtejo, do que concino que nSo sSo raras là. 



O Archeologo Poetugués 281 

À cérca de outras antiguidades de Salir publicarei urna noticia 
nam dos proxìmos numeros d-0 Archeologo Portaguès, 

2. oFttsos» (de Àleootim) 

A figura representa a parte metallica (bronze) de um fusus, que 
foi encontrado no Montinho das Larangeiràs, fregaesia e concelho de 



Alcoutim, numas ruinas exploradas em 1876, creio que por Estacio 
da Veiga. Tem de comprimento 0^,117. 

Fusi analogos a este tem-se encontrado em vàrìas localidades do 
Sul do reino. 

8. «Àcos» (de Alcontlm) 

Na figura precedente representa-se o fragmento de urna cums (alfi- 
nete) de osso, encontrada no referido sitio do Montinho das Laran- 
geiras e na mesma occasiSLo. Està acvs poderia ter servido para segu- 
rar o cabetlo (cuivs camcUoris ou crinalis), O costume de segurar o 
Gabello com alfinetes é ainda hoje vulgar entre nós. 



Tenho visto muitas d'estas e semelhantes curns, achadas ao Sul do 
Tejo. 



Os desenhos sobre que se fizeram estas gravuras foram-me envia- 
dos pelo Sr. A. de P. Serpa, que me deu tambem as informafòes 
respectivas às circumstancias dos achados. Keceba pois os meus 
agradecimentos. 

J. L. DE V. 



282 O ArcheoIìOGO Portuguès 



Numismatica a^oriana 

Na Acta das sessdes da Socìedade Francesa de Kumismatica, de 
4 de Dezembro de 1897 lé-se o seguinte: 

<M. P. Bordeaux appelle Tattention des membres de la Société 
sur une question concernant la numismatìque coloniale. 

M. E. Zay, dans son Histoire monétaire des Colonies franqcdsa, 
éditée en 1892, énonce à la page 200, que, pendant la monarchie de 
Juillet, différentes monnaies espagnoles, anglaises et fran$aises fìirent 
frappées d'un poingon rond contenant les lettres G P surmontées 
d'une couronne royale fermée. II donne sous son n° 15 le dessin d'une 
pièce anglaise portant cette contremarque. Il ajoute que cette empreinte 
aurait été apposée à la Guadeloupe de 1830 à 1870 et il croit que les 
lettres G P auraient figure les lettres principales du nom de Tile. 

M. Bordeaux fait remarquer que M. Zay, soucieux de ne laisser 
subsìster aucune indication erronee dans son ouvrage, a été le premier 
à Tengager à faire la lumière sur ce point. 

M. Nunes da Silva, agent consulaire de Franco à Saint-Michel 
des Afores, et ensuite M. Leite de Vasconcellos, directeur du Musée 
ethnologique de Portugal, et professeur de numismatique a la Biblio- 
thèque nationale de Lisbonne, ont fourni sur cette contremarque des 
indications tellement précises qu'il ne peut plus exister maintenant 
le moindre doute sur sa véritable interprétation. 

Antérieurement à 1887, la circulation monétaire des Iles Agores 
se composait de pièces espagnoles, anglaises, fran9aises et portugaises, 
émises depuis 80 ou 100 ans, auxquelles cours legai était attribué. 
Des industriels peu scrupuleux profitèrent de cette situation pour 
importer d'Fspagne de nombreuses pièces fausses de différents types. 
Pour remédier à cet état de choses, le Gouvemement portugais, par 
un décret du 4 mars 1887, défendit Timportation des monnaies étran- 
gère telles que celles en cours. 

Deux autres décrets rendus qaelques jours après, les 31 mars et 
18 mai 1887, prescrivirent que les espèces des différents pays étran- 
gers circulant alors aux A9ore8 seraient remises aux mains des agents 
de rÉtat. Ces demiers étaient chargés d'y apposer une contremarque 
et de rendre ensuite les monnaies aindi poin(onnées soit à leurs prece- 
dents détenteurs, soit à la circulation. Les mèmes édits décidèrent que 
les caisses publiques ne recevraient plus en paiement au cours legai 
que les monnaies marquées de cette fagon. 



O Archeologo Portugués 283 

La contremarque dont il était question dans le décret du 31 mars 
1887, se composa des deux lettres G P signifiant: O(overno) Pi^ortu- 
gues) surmontées d*une couronne royale, le tout renfermé dans un 
petit cercle. Les poin9ons et les coins de cette contremarque existent 
a rilòtel des monnaies de Lisbonne, où M. de Vasconcellos a bien 
voulu les identifier avec Tempreinte soumise. 

Une loi du 3 aoùt 1887 autorisa une émission tant de ce numé- 
raire poinfonné que d'espèces portugaises du type courant pour arri- 
ver à remplacer peu à peu les monnaies qui seraient retirées de la 
circulation. 



M. Bordeaux présente une pièce de 5 fr. de la première Répu- 
blique fran9aise, deux piastres espagnoles de Charles IV de 1793 et 
de 1895, un réal de Philippe V de 1731, provenant de sa coUection 
et qui portent la contremarque dont le dessin se trouve ci-dessu% 

Les pièces ainsi poinyonnées doivent donc étre retirées dorénavant 
de la sèrie coloniale fran9aise. EUes ne peuvent plus figurer que dans 
la sèrie portugaise comme monnaies coloniales frappèes d'une contre- 
marque aux Ajores en 1887». 

( Vid. a respectiva Acta, p. lxh-lxiv, appensa à Btvue NumismcUique, 4.* serie, 

t. 1). 



Discurso da inaugurasse do Museu de Cenaculo 
em Beja em 1791 

Na lìvraria do Sr. Visconde da Esperan9a, na quinta dà Manisola, 
arredores de Evora, existe um manuscrito (n.® -j|), assim indicado no 
Catalogo dos principaes manuscritos da mesma livraria, Evora 1897, 
p. 9: «Ora9ao do Museu, dita em 15 de Mar90 de 1791 parante 



284 O Archeologo Poetugués 

D. Fr. Manoel do Cenaculo, na inaugurafSo do Museu Cenaculo 
Pacense, funda9%o do grande homem. AxLonyino». 

Tendo eu manifestado ao Sr. Visconde da Esperanja desejos de ler 
e extractar o refendo manuscrito, S. Ex.^ accedeu do melhor modo a 
elles, e para esse firn estive na Manisola em 21 de Agosto de 1898. 
N2lo so ahi fiz d'este ms. os extractos que julguei convenientes, mas 
tive ensejo de ver algumas preciosidades da livraria do Sr. Visconde e 
as suas ùltimas acquisifSes archeologicas ; alem d'isso S. Ex.^ levona 
sua amabilidade a ir-me mostrar pessoalmente a célèbre fonte qae foi 
construida por André de Resende, o patriarcha dos estudos archeolo- 
gicos em Portugal no sec. xvi, fonte que com o terreno correspon- 
dente està hoje encorporada na vasta propriedade da Manisola^. 
Passei um dia magnifico, cheio de encantos bibliographicos e archeo- 
logicos, real9ados de mais a mais pela cativante affabilidade que o 
Sr. Visconde tem sempre para os seus hospedes. Nesta visita acompa- 
nhou-me tambemo Sr. A. F. Barata, que às cousas do nosso passado 
consagra grande sympathia, revelada em numerosos escritos. 

Vou fallar agora especialmente do manuscrito que se refere ao 
Museu, e apresentar o summàrio da leitura a que nelle procedi. 

O ms. é em papel ordinario, in-folio, de 20 pags. n%o numeradas, 
com um pedajo de papel coUado na p. 3 por causa de um apontamento 
que A. quis intercalar no texto. Contém muitas emendas, o que 
prova que nos achamos deante do originai do discurso, e nSo deante 
de urna còpia. 

^om quanto o discurso nào esteja assignado, attribuo-o sem hesi- 
ta9%o à penna de Fr. José de S. Lourenfo do Valle, amigo dedicado 
e collaborador de Cenaculo. Levam-me a està attribuiamo as v&rìas 
allusSes que no discurso se léem a estudos particulares de Fr. José 
de S. Lourenjo do Valle, estudos que conhejo por varios trabalbos, 
uns impressos, outros manuscritos, que existem na Bibliotheca Pàblica 
Eborense, e que por vezes tenho compulsado. Tanto quanto pude 
julgar de memoria, pois nào tive presentes na mesma occasiio, para 
OS comparar, os papeis que existem na Bibliotheca Pùblica e o que 
existe na do Sr. Visconde, pareceu-me tambem ser urna sé a lettra 
d'aquelles papeis e a d'este. 

Museu que Cenaculo fundou em Beja, quando bispo d'està 
diocese, continha nSo so objectos archeologicos, mas exemplares de 
ethnographia selvagem moderna, e productos de história naturai. 



1 Cf. Arch. Port, iv, 123, nota. 



O ÀBCHEOLOGO PORTDGUÉS 285 



D'isto resta ainda alguma cousa no Museu de Evora. O bispo resolveu 
abrir o Museu de Beja ao pùblico; a inaugura9So fez-se com solemni- 
dade, assistìndo o proprio prelado, e muitas outras pessoas. 

O discorso da inaugura9So, reeitado, corno digo, por Fr. José de 
S. Louren90 do Valle, continha, alem dos respectivos admìniculos de 
todo discarso rhetoricamente bem organìzado (exordio, epilogo, eie.), 
daas partes principaes: urna, sobre a importancia da archeologia; 
outra, sobre a da história naturai. . 



O orador preoccupa-se sobre tudo com a primeira parte, e come9a 
por discorrer do proveito do estudo da antiguidade sagrada e profana. 

Importancia de um Museu archeologico em geral: celle me 

representa nas inscrip98es profanas a erudÌ9So das lingoas, a 

história dos seculos passados, e a notlcia da fabula». 

Considera9%o que aos monumentos davam os Hebreus: o tempio 
de Jerusalem, as tàboas da lei, etc. 

«E se da Palestina nos transportamos à Grecia, que toda està, à 
imita9So d'aquella, hera um museo : que magnificencia de escholas em 
Athenas ! » 

Passa aos Romanos, de quem falla por alto. 

Atten95o que em tempos mais modernos prestavam à archeologia 
voltos notaveis, corno Carlos IV, os Medicis, Paulo II, Clemente XIV; 
a epigraphia na Universidade de Turim; a livraria da Universidade 
de Sena. 

DefinÌ9%o de um museu : «Essas pedras quebradas, dinheiros piza- 
dos, letras desconhecidas, e pe9as desenterradas sSo preciosos meios 
que, conhecendo-08 vós, sabereis o muito que se ignora» [sic], «O 
estudo do Museo he bua disposÌ9So para qudquer homem ser com- 
pletamente sabio. HSa raridade deve preparar o animo para outra 
rarìdade». 

Exalta a Cenaculo, por ser o prìmeiro que em Portugal offereceu ao 
pùblico um museu, tendo de vàrìas partes do mundo alcan9ado cousas 
curiosas, e desenterrado no nesso pais vàrias raridades, para com 
tudo iste ministrar aos investigadores materia de estudo. 

O Museu de Cenaculo é descrito nestas palavras, que o orador 
dirige aos seus onvintes: 

< J& vos parece ver idolos mudos ler as antigas inscrÌ95e8^ 

Ter umas, ver gigantescos peda908 de colossos cuja perfeiySo faz 



286 O Archeologo Portugués 



saudoso desejo dos restos qiie nSo aparecem, entender medalhas, e 
contemplar pejas esquisitas na arte, admirar as diversas producjSea 
da natureza, sua forja ligada na perturbaflo dos monstros, e sua 
belleza na ordem perfeita». 

Desenvolve este ponto, soccorrendo-se sobretudo da epigraphia: 

<Hum homem le urna in8crip98o phenicia ou grega, conhece um 
testemunho, e ouve bua voz que mudamente Ihe brada que, alem de 
ser verdadeira a sua antigua existencia, he aquillo que ha de mais 
mysterioso e occulto nos livros sagrados na ordem humana refenda 
a cousas divinas». — Quem conhece dos manuscrìtos da Bibliotheea de 
Evora as predilecgSes de Fr. José de S. Lourenjo do Valle pelo phe- 
nicio e pelo grego, ve aqui o homem ! Jà neutro ponto do discurso elle 
tem uma allusa pessoal; dirige-se a Cenaculo, e diz: cdesde o tempo 
em que estudei as linguas orientaes no seu collegio de Jesus». Os seus 
escritos, existentes na refenda Bibliotheea, est&o por vezes salpicados 
nXo so de grego, mas de hebraico. NSo ha pois dùvida que o discurso 
é d'elle. 

Continuenios com os nossos extractos. orador, que està, corno 
digo, soccorrendo-se da epigraphia para demonstrar o valor da archeo- 
logia, falla agora, com especial cuidado, das in8crip95e8 ibericas do 
Campo de Ourique *, que elle interpretou a seu modo, e traduziu, — qual 
outro JoSo Bonanfa em tempos modernos. Eis aqui mais uma impor- 
tante allusao pessoal: «Para mostrar dignamente este ponto, me vejo 
percizado a servirme da minha experiencia* . Ora Fr. José de S. Lou- 
renfo é que havia estudado primeiro OvStas inscrip^Ses, comò consta 
dos documentos que se acham na Bibliotheea de Evora, e que contém 
uma extraordinaria interpreta§2lo das mesmas. O orador considerava 
hebraico corno pae de todas as lingoas, do mesmo modo que JoSo 
Bonan^a considera o portugués comò anterior ao latim. Estes dola 
visionarios eram, a respeito de philologia, dignos um do outro, com 
a differenza que Fr. José de S. Lourenfo alguns servijos prestou a 
sciencia, pois colligiu varios materiaes em primeira mao. Fallando 
ainda das inscrip9oes de Ourique, diz com eflFeito o orador: taqui 
descubro a lingoa santa em diversos caracteres» (!). 

Após estas considerazoes pobre as inscrip5oe8 de Ourique, em 
que orador se detem, para fazer valer a sua obra exegetica, passa 
a commemorar, embora summariamente, a importancia archeologica 
da cidade de Beja. 



* Vid. sobre ellaa Hilbner, Monumenta linguat Ibericae, p. 191 sqq. 



Archeologo Portuguès 287 

Assenta em seguìda a utilidade do conhecìmento da fàbula, e em 
geral da litteratura classica, para com isso confirmar «santas verdades 
dà relìgiSo christà». 

Anàlyse succinta das inscripjSes sepulcraes do Paganismo, onde 
jà «se ve arraiar a luz da immortalidade da alma». martyrio dos 
santos revelado pela epigraphia. 

Chegado ao firn da primeira parte do seu discurso, remata-a d'està 
maneira : 

«Eu bem sei que a S. Ex.* [Cenaculo] se deve ha muito tempo 
o onvir retumbar com respeito o nome da Antiguidade no Alemtejo. 
As suas diligencias fazem admìra9^o na Europa, e queira Deos que 
todos se inflammem em a descobrir attentamente sem que os detenhaS 
intere9adas inten95es, que com sinistros pretextos soffocao grande 
honra de Portugal e esplendor da religiao». 



Depois de ter tratado da archeologia, diz que devia tratar da 
importancia do estudo da historia naturai, que constitue a segunda 
secyào do Museu, mas accrescenta que nSo póde ir alem do que Cena- 
culo escreveu numa obra sua, e por isso traslada d'ella um pequeno 
trecho, a que junta consideraySes de pouco péso. 

Fecha o discurso, resumindo a importancia do estudo da archeo- 
logia e da historia naturai, representadas no Museu. 

* * 

O discurso està bastante descosido, nào prima pela elegancia ora- 
toria; e orador, sem se preoccupar muito com enaltecer o alcance 
dos estudos da archeologia, que torna o homem solidario com o pas- 
sado, e dos estudos da historia naturai, que marca o lugar d'elle na 
cadeìa dos seres, e Ihe dà no^ào mais nitida de si mesmo e do universo, 
esfor9a-se sobretudo por glorificar a Igreja, e a pessoa de Cenaculo. 
Aìnda assim, attentas as circumstancias em que este discurso foi 
pronunciado, nos fins do sec. xviii, e em Beja, alguma significa9ao 
tem' na historia do nesso modesto movimento archeologico; por isso 
fiz d'elle resumé precedente. 

Receba mais uma vez o Sr. Visconde da Esperan9a os meus 
agradecimentos pela liberdade com que me facultou o exame do 
curioso manuscrito. 

J. L. DE V. 



288 O Archeologo Portugués 



Na nota a p. 196 do meu artigo territorio de lAnegia^u deve 
ler-se o seguinte: «D. Moninho Viegas, o Oasco (e nÌo Gasto), é o 
tronco da familia dos Coelhos». E nXo: «D. Moninho Viegas, o Grctsco 
(e nSo Gasto)^ é o tronco da familia dos Vasconcellos». 

Fedro A. de Azevedo. 



Objectos romanos do Alemtejo 

(Carta ao redactor d-0 Archeologo Portuguit) 

. . . Sr. — Possuindo algons objectos da epocha romana, e lem- 
brando-me de que talvez V. deseje tornà-los conhecidos, tomo a 
liberdade de enviar a V. algiins desenhos d'aquelles que, pela sua 
originalidade e valor artistico, me pareceram dignos de publicidade. 
e que em seguida descrevo: 

Fig. 1. — Chave de ferro, elegante e muito bem trabalhada, encon- 
trada em Beja numa excavagSo conjunctamente com mais objectos 
romanos, mas estes sem importancia. 

Fig, 2 e 3. — Dois anneis de curo massigo encontrados nnma sepul- 
tura no Alemtejo, nSto se tendo podido averiguar o locai exacto onde 
foram encontrados. O annel da fig. 2 tem de péso 5«f,7 e gravado na 
pedra, de cor verde escuro, a figura de um guerreiro. Na fig. 2-a 
representa-se em maior tamanho a figura. O annel da fig. 3 tem ìgual- 
mente gravado numa pedra cdr de leite, com rebordo prete, a cabe^a 
de um bode, de perfei^ào e nitidez admiraveis. Tem de péso 5 gram- 
mas. Na fig. 3-a dà- se em maior tamanho a figura. 

Fig. 4. — Um brinco, tambem de curo, com o péso de l5,5. — 
A sua estranha fórma revela-nos a sua antiguìdade. NSo se prende a 
orelha comò os brincos vulgares. Um fio do mesmo brinco, corno a 
figura representa, uma vez desenrolado penetrava no orificio da orelha 
para se enrolar de novo, ficando assim seguro no seu lugar. 

Todos estes objectos, cujos desenhos Ihe envio, comò disse, foram 
fielmente copiados pelo habìl desenhador e aguarelista o Sr. Roque 
Gameiro, uma gloria da arte nacional, e com cuja amizade me honro. 

Sou, etc. 

JoAQum Henriques. 



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O Archeologo Pobtugués 289 



InsoTilpturas em roolia em oastros de Val-de-Vez, 
cu V8UÌ0S penedos oom pias 

As tres gravuras, que acompanham este artìgo, representam umas 
cavidades abertas em penedos de granito, proximos dois do castro de 
Azere, pertencente outro ao castro de Cabreiro, e ambos situados no 
concelho dos Arcos-de -Val-de-Vez. 

O penedo reproduzido na fig. 1, està em uma das abas das eminen- 
cias que se lìgam ao chamado castello de S. Miguel-o-Aryo, em Azere, 
ao qual jà me tenho referìdo nesta mesma rovista. 

Ao sitio chamam o Furto ^; é lugar apertado no fundo de duas 
encostas fronteiras, cnjos flancos se cortam numa linha de grande 
declive, marcada por um estreito córrego, por onde desco um escasso 
regatinho, humilde e bucolico, ensombrado de franzelhas (osmunda 
regalis) e avencas. Esse fio de àgoa vae passar a uns 15 metros de 
distancia do penedo em que està insculpida a jna^. 

A vegeta9&o das devesas mìnhotas, coando a luz quente do sol 
sobre aquelle rochedo, insensivelmente langa o espirito de quem, sendo 
attreìto a devaneios de cousas archaicas e mouras encantadas, vìsita 
o lugar, para as regioes ainda mysteriosas de longìnquo passado. 

A grande fossa, insculpida no penedo d que me refiro, occupa 
uma extremidade da pedra, hoje quasi nivelada com o solo, em conse- 
qnencia das erosSes de terras mais altas. A sua face superior é leve- 
mente convexa. A excavajSo nSo é geometricamente circular, porque 
o diametro varia de 0™,85 a 1 metro ; mas, aos" olhos desprevenidos 
do observador, parece representar um circulo perfeito. 

O fundo é perfeitamente continuo e^e uma concavidade apenas 
perceptivel, mas, em virtude do arredondado da face superior do 
penedo, a profundidade da fossa varia entro 0",20 e 0°*,32. Na parte 
mais proxima da borda do penedo abre para fora, ao nivel do fundo, 
por um rogo ou canal que, em razSo do seu proprio declive e da 
propositada encurvadura do mesmo fundo, daria completo escoamento 
a qualquer liquido que a pia pudesse center. 



i É està a pronuncia locai ; supponho porém que se deverà escrever PuUo^ 
corno (tUimo ({kriìmo)^juLgar (jurgar), osivi (azur), etc. 

2 Disse-mo o meu cicerone que d'esse regatinho, e de urna fonte que rebenta 
uns 100 metros a cima e qne nunca secca, fonte do tempo dos mouros, fallam os 
roteiroB. 

19 



290 O Archeologo PoRTuouÉs 

Este canal tem na entrada, sobre as paredes da fossa, a largura 
de 0",09, conservando-a até & distancia de 0",27. Aqui o seu lastro 
tem um rebaixo ou peqaeno degrau de O",03 ou 0",04 de altura. 
Acompanhando esse pequeno desnivelamento, as paredes do rego 
tambem foram respectìvamente alargadas, distanciando-se portanto 
mais uma da ontra, até à borda do penedo e extremidade do canal. 
A largura pois do canal, neste segundo trogo, é de 0™,17; e o seu oom- 
primento 0™,25. É preciso porém reparar na seguinte particularìdade. 

De cada lado do rego, sobre as suas paredes verticaes, e princi- 
palmente no seu proprio fundo, praticaram-se no granito, embora jà 
hoje mal accentuados por meio-gastos do tempo, uns estreitos rasgos 
ou sulcos contiguos ao resalto para a parte extema, os quaes denon- 
oiam com toda a clareza uma disposi^ìo adequada ao encaixe e mano- 
bra de uma adufa ou comporta^ que, fechando ahi o canal quando 
fosse mister, impedia temporariamente a siùda do liquido ou antes 
da massa que a fossa contivesse. N&o póde ser outra a explica^ao^» 

O rego termina, morre numa face da rocha quasi vertical a uns 
0",20 dochao^ 

Em redor da fossa, na aresta n£o ha resalto algum nem reb^uxo. 
No resto da fraga, que mede no seu maior diametro 4 metros, tambem 
nada mais se encontra de particular. 



1 Este mesmo systema de vedar um recinto é usado de Citania nos peqaeoos 
quinteiros das casas. Ahi eram cancellas ou tabuas que corriam nos rasgos ou 
calhes dos tranqueiros lateraes. Vid. Observagots à Citania de E. H4bner, por 
Martina Sannento, p* 13, nota 7. 

2 Mas evidentemente a veda^llo de um liquido puro por este sjstema nSo 
podia ser perfeita, nem j&mais o pudera ter side com granito aspero e gaihudo 
(granuloso) do penedo; entre as arestas da adufa de madeira e os rasgos da pedra 
ficavam pequenos intersticios que deixariam esvasiar o recipiente em pouco 
tempo. Ou entSo devemos convir em que essa cuba fòra feita para receber um 
corpo nfto liquido, mas simplesmente embebido de um liquido, do qual se proeu- 
rana separé-Io. 

' Para aproveitar pois o liquido, obstando a que escorresse inutilmente por 
essa face, seria preciso collocar no seu extremo uma bica de qualquer natureza 
que fosse. Ainda hoje nas nascentes pouco abundantes, en tenho visto, para 
inteiro aproveitamento da àgoa, collocar, a modo de bica saliente, uma simples 
foiba de arvore, com a conveniente consistencia, fblha que se arqneia em meia- 
canna. Fosse qual fosse o destino d'este recipiente, nSo tinha elle de certo sido 
excavado com tanta fadiga, senSo para cuidada utilizando do liquido que nelle 
se obtinha. Para isso, o remate do canal era de evidente imperfei^ào, o que em 
todo caso me suggere que seria transitoria e nfto continuada nem constante a 
opera^ao ali realizada e que o penedo ainda hoje conserva a sua primitiva 
situando. 



O Archeologo Portugués 291 

Naturalmente perguntei ao homem, que foi mostrar-me està pia^ 
qua! terìa sido o seu destino. Respondeu-me que aquUlo era do tempo 
do8 mouros e d'dhs fazerem ali o vinko; affirmava-se mais que ali, 
algures, houvera uma casa desde o principio do mando. E fez-me notar 
qae pela parte de cima se conheciam ainda vestigios de antigo cultivo; 
de facto, o terreno naturalmente deelivoso mostra ainda hoje os cortes 
das leiras abandonadas, aonde agora vegeta o matto e crescem os 
carvalhos. 

NSo fiquei eu sabendo mais nem melhor do que o meu rude cice- 
rone, depois de ter gasto algumas horas, que elle poupou, em folhear 
o que outros pudessem ter pensado e escripto sobre monumentos 
d'està natnreza. Mas se era vinho (ou azeite?) o que ali se fabricava, 




Flg. 1 



delicioso e raro nectar devia elle ser naquelles tempos, para compensar 
o insano traballio de excava9!lo d'aquelht fossa em granito da mais dura 
especie, talvez com instrumentos de apoucada resistencia! 

E comtudo estou hoje convencido, pelas razSes que exporei, de 
que acertada era, pelo menos para està fossa, a explica5ao que me 
fornecia a simpleza de um analphabeto, quem sabe se a inconsciente 
voz de uìna tradi$So . . . 



Continuando a pesquisar minuciosamente ò sitio, encontrei, à dis- 
tancia aproximada de 200 metros, pelo monte a cima, outra bacia 
cavada na rocha, mal esbogada apenas, da.qual o meu guia nem era 



292 O Archeologo Pobtugués 

conhecedor. O penedo em que està, pondura-se sobranceiro ao mesmo 
córrego, a que jà me referì. E urna excavafSo de fórma quasi rectan- 
galar, com os angalos internos arredondados, tendo de profundidade 
apenas O'^^Oò. Dos lados mede 1™,1 por 0^,95. Para a banda do nas- 
cente ha mn sulco da largura de 0™,1 e comprimente de C,17, o qua! 
principia na circumferencia d'està bacia, tendo ahi nm resalto de Cr,03 
e termina sobre uma face vertical do penedo, que mede a altura de 
(r,95. 

A um canto, a pedra mostra uma fenda que attinge um lado do 
recipiente e que, se n2o é posterìor à sua utilizarlo, devia ter sido 
causa do seu abandono^, porque escoaria qualquer liquido que elle 
contivesse. Era um penedo fòlgueado, segundo a expressSo do veiho 
lavrador, meu cicerone*. Està pequena excaya$2o estava pertanto 
tambem à borda do rochedo. 



Na àrea circumvizinha d'este castro de S. Miguel nSo ficam nisto 
as obras de insculptura em rocha. Vou dar conta de uma terceira pia, 
que é bem singular por ter um appendice de que as outras duas 
carecem. 

As excavagSes abertas neste grande rochedo constam: 1.**, de urna 
bacia, proximamente circular, de pouca profundidade; 2.**, de varios 
buraquinhos, para os quaes o meu octogenario cicerone so encontrou 
appellativo dentaddlas; 3.°, de uma fossa de base quadrangular, 
situada à borda do penedo e aberta por um dos lados maiores. 

Auxiliarei a descrip(2lo com o schema da fig. 2. 

1.° A pia circular foi muito pouco profundada, mas a inclinarSo do 
seu lastre é sensivel no sentido da caixa rectangular contigua, de fórma 
que embora naiguns pontos do seu circuito nSo haja resalto ou rebaixo 
fig. 2 (o, o), qualquer liquido tenderla naturalmente a reunir-se na 
fossa quadrangular. Nos pontos»o^ e e d, o rebaixo para a parte interna 
mede apenas 0'",05 e 0™,1. Este córte da rocha é evidentemente obra 
do homem, o mesmo nSo direi do designado pela minuscula e que é 
attribuivel a causas naturaes. Està desigualdade das paredes da exca- 
varSo relaciona-se com as asperezas da superficie da pedra. Os seos 



' £ vulgar encontrarem-Be penedos fendidos e ainda retalhados completa- 
mente pelos raìos. 

* Escrevo fblgueado ou melhor fblegueadoy porque 0Ì90 dizer : este penedo 
tem um fìlego; nSo folgo, que seria pronunciado f5rgo, corno fólga pronunci axn 
f&rga; bolso, borao, ete. Vid. p. 289, nota 1. 



O AttCHiSOLOGO POUTUGUÉS 



293 



dìametros A B e C D medem respectivamente 1",25 e l"",!?. Jà disse 
que està tina é cortada por urna das paredes vertioaes da caixa rectan- 
galar; as lettras P Q marcam a linha de contacio; nfto ha ahi vesti- 
gios de qualquer rego ou solco. 

2.^ Na superficie do penedo, superficie grosseiramente ch%, véem-se 
oinco buraquinhos, um so dos quaes està dentro da excavafSo circular. 



M 

m 



K 

• 




Pig. 2 



A figura indica a sua sìtua9So relativa. buraco K tem CK°,1 de pro- 
fundidade e 0",07 de diametro na b6ca. Dista 0™,30 do L, ouja fórma 
é semi-lunar e que me pareceu ser feito modernamente por cunha de 
a^o temperado, com que ainda ha poucos annos se despedajava a rocha, 
quando d'ella se pretendiam cantarias. O mesmo juizo fa$o do buraco I, 
cuja profundidade ó 0",05 e comprimente 0",14; oste acha-se dentro 
da excavasXo circular. A fossasinha M é circular; tem a profundidade 



294 O Abcheolooo Portuoués 

de 0",07 e o diametro de 0",05 e dista 1",45 de L, occupando com 
K a mesma linha recta. Falta o buraco N, qae foi aberto janto k pia; 
tem de fando CT,! e de diametro 0^,09. Em «/ ha um pequeno resalto 
qne me parece naturai. 

Confesso n&o perceber a rela^Xo entro as dnas excava^Ses e estas 
buraquinhag ou cupulas ainda exceptuando as duas que presumo serem 
modernas. Mas tambem nZo tenho argumentos para fundamentar a 
antiguidade das outras e relacioDip-las com as restantes insculpturas. 

3.^ A fossa quadrangular tem os dois angulos intemos arredon- 
dados; o fundo é um pouco concavo, de tal sorte que na linha g G g 
iìcou um bordo na pedra de O'^fiò de saliencia que limita pelo lado 
externo o fundo e liga inferiormente pelos pontos R e S && paredes 
testeiras E e F da, caixa. comprimente da excava(2o é 0",85; 
largura 0",33, e profundidade 0",20. Como se ve, està caixa tem 
apenas um lado maior e doia menores ; o quarto que seria R S nao 
existe, porque é ahi o desnivelamento do rochedo que mede de altura 
ao solo 1 metro. Està excavafSo é portante aberta pela parte superìor 
e por um dos lados, circumstancia que me embara^a sobre maneira 
qualquer supposifSo sobre o modo do seu aproveitamento. 



No concelho dos Arcos-de-Val-de-Vez conhe90 ainda outra pedra 
insculpida pelo homem e sitnada num castro ; representa-a a fig. 3 '. 



^ Outras de qne tenho notici a, a inda nào pude examinà-las *, nem mesmo sei 
se Bào aepulturas em rocha e a estas me nao refiro no presente artigo. Urna 
conhe90 de visu; mas consta-me que ha mais. Tem uma figura quasi geometri- 
camente rectangiilar e estÀ bem layrada. Mede no fundo de comprìmento 2*^, 
de largura na cabeceira 0",65, nos pés 0",60 e tem a profundidade de 0*,65. 
Na aresta d'està especie de caixa, que me parece ser uma sepultura, ha para a 
parte de dentro um rebaixo em todo o seu contorno, circumstancia indicativa de 
ter sido tapada com pedras ou lages que' ali se ajustavam. 

Em Panoias ha uma fraga com fossas semelhantes e com os mesmos rebaixos, 
mas alem d^estes ha um resalto em todo o circuito, comò para evitar a infiltra9lo 
das àgoas naquelles recintos, particularidade que nSo se dà naquella a qne me 
refiro. (Vid. Arch. Pori., ni, 58 e Memoria» de Argote^ p. 332. 

terreno aonde se encontra o enorme penedo em que ibi aberta aquella cavi- 
dade, é abundante em tijolos (cf. Arch. Pori., i, 9 e 189) e o povo refere que os 
gaUegos tem proclamado que a quinta dentro da qual se encontra o rochedo, està 
ladrilhada de ouro. (Estes ladrilhos de ouro sio talvez a desfigura^ao de mosaicos 
romanos, que alguem visse ; pensa isto a respeito de Vizelia o Sr. Martina Sar- 
mento. — ^Vid. RevUta de Guimaràe», 1884, p. 167). Aquelles cidadSos, nossos 



O Archeologo Portugués 



295 



Està ella situada dentro das muralhas do mais perfeito e completo ' 
castro, que possue o refendo concelho e que espero poder explorar 
um dia. 

E o Forte cUia Necessidades ou o Castro de Cabreiro, nome da 
freguesia. 




Fig. 3 



vizinhos, fazem por vezes em o nesso territorio algaras em nome de 8. Cjpriano, 
deixando (?) em determinados sitios covas, que a terra extraida nào enche depois; 
por estee factos sào mjsteriosameute olhados corno gente muito sabida em desen- 
cantamentos de riquezas. 

A Bepultura, a que me estou referindo de passagem nesta nota, servia, disse- 
ram-m*o, para as mouras amassarem o p&o, que depoifi iam cozer a uma casa 
(casa torreada de Aguià) tambem d'esse tempo (!), a qnal fica fironteira do outro 
lado do rio, passando as fomadas para là por meìo de uma corda suspensa sobre 
o valle e fixa nos dois poutos ! 

O poyo acha semelhan^a entre a cavidade descripta e uma masaeira ou 
amassadeira de pau, em que se amassa e leveda a farinha; d^aqui provém, creio 
eUf a orienta^ào da lenda. Na Escandinayia, as covinhas tambem serviam para 
moer a &rìnha (Vid. Heligiòea da Ltmiania, por J. Leite de Vasconcellos, i, 356). 

O penedo de Gondoriz (tal é o nome da freguesia) nao està em castro 
algum, mas nào longe ha um lugar de casas com esse appellìdo e a conveniente 
dÌ8po8Ì9So topographica. E, quanto a mim, um monumento bem diverso d'aquelle 
a que me refiro no texto (vid. Arch, Pori., i, 189 e Expedigào à Serra da 
Ettrelloy est ix). 

Està sepultura n2o tem orificio algum, corno as que menèiona Arch., i, 128. 



296 O Archeologo Portuguès 

Como se ve pela gravura, o receptaculo é muito menos profondo 
que em Azere, e a sua fórma é muito diversa. É rectaDgular e foi 
insculpido na parte superior de um penedo, que parece conservar-se 
ainda na sua primeira POSÌ9I0. 

O esvasiamento do recipiente fazia-se, nXo por um rego aberto 
comò em Azere, mas por um bueiro que perfurava granito. 



Tanto a minuciosa compara92Lo das gravuras que representam as 
pedras insculpidas de Azere e de Cabreiro, comò o conhecimento da 
situa9Xo relativa de todas ellas fazem-me propender espirito para a 
hypothese de que destino das cavidades de Azere nSo devera ter sido 
mesmo que o da de Cabreiro. 

Està encontra-se dentro de um castro circumdado de larguissiinas 
muralhas, verdadeiro ninho de aguia, vigiando um aloantilado desfila- 
deiro, que rio Vez percorre ao fundo, castro em que as casas circu- 
lares ou quadradas dos seus primitivos habitantes disputavam terreno 
a grupos desordenados de fragSes graniticos. 

A pia de Azere e as suas irm&s pertenciam, é verdade, tanto quanto 
se póde julgar, a um castro, que provavelmente nSo teve mais do que 
entrincheiramentos de troncos e terra, que «ùnda se denunciam, e n2o 
muralhas de robustos silbares, mas estavam um pouco aiastadas do 
nucleo da povoa92Lo, em terrenos que se ligam &s encostas do castro, 
talvez desproteg^das. 

Fosse qual fosse destino da pia de Cabreiro, parece que os 
castrejos a queriam bem dentro das suas cyclopicas muralhas, eom 
as quaes, talvez numa rapida bora de pavor e sobresalto, coroaram a 
crìsta de um monte, que alcandora sobre o leito fragoso e espumaute 
do Vez OS seus quasi 300 metros de ravina. 

Ao contrario, os habitantes de Azere, sitio menos serrano do que 
Cabreiro, que é ainda hoje montanha quasi erma e perdida num 
anfractuoso desvio da serra de Soajo, esses n%o julgaram necessario 
guardar no centro das suas obras de defesa e seguranga o perfei- 
tissimo trabalho que a fig. 1 representa e que hoje nos attesta a 
pertinacia dos que, provavelmente com imperfeita ferramenta, sabiam 
corno nós insculpir mais duro granito *. 



^ A aste respeito quero contar que ha pouco tempo vi e que me deixoa 
n2o direi marayilhado, mas algo reflexivo. Namas pedras de granito, jonto das 



O Archeologo Portugués 297 

Da sìtua^io dos penedos referentemente aos dois castros em que 
estayam, se póde inferir tambem, quanto a mim, nZo so a diversidade 
de destino, mas talvez até a desigaaldade de importancia que estes 
monumentos tiveram. Quem sabe se algumas das cavidades foram 
feitas tranquillamente em longas horas de paz e de prosperidade, 
para ntilidade material de urna poyoa9So trabalhadora e activa, que 
no 86tt pacifico labor agrìcola se alargava oonfiadamente do centro 
do seu castro para a terra chS; e alguma entra, mais tosca e imper- 
feita, representava comtudo a impo8Ì9So de um uso ou culto arreigàdo 
de que, nem em horas de aperto e vi^Iancia, uma popula^So alvoro- 
(ada e intransigente podia prescindir, pela sua importancia tradicional? 

Mera supposi^So para a mysterìosa jna de Cabreiro, mas hypothese 
racional e plausivel para as de Azere, comò procurarci demonstrar. 



As duas cavidades reproduzidas pelas fig. 1 e 3 tem apenas de 
commum a disposiate conveniente para o exgotamento de um corpo 
liquido; na de Azere é um rogo com adufa on pejadouro, na de Cabreiro 
um simples bueiro. 

O mais é tudo differente: — fórma da excavajSo, profundidade da 
fossa e situa9So relativa ao castro e ao solo circumjacente. 

A de Azere està poucos decimetros a cima do nivel do terreno ; 
a de Cabreiro foi insculpida num penedo elevado que faz parte de 
um d'estes grupos de fragas, vulgares nas regiSes do granito. 

O mais seguro juizo que posso formar sobre esses dois archaicos 
monumentos é a sua connexSo com os dois castros de Azere e de Ca- 
breiro ; ambos s&o contemporaneos d'essos dois nucloos de povoasSo, 
embora o de Azere me pare9a ter penetrado mais em tempos franca- 
mente historìcos. 

A escassez e rareza de casos analogos tomam o estudo compara- 
tivo quasi improficuo e nSo permittem que o raciocihio abandone o 
terreno vacillante das hypotheses mais ou menos plausiveis. É preciso 



quaes brincava tun paetorsinho, notei eu umas buraquinhas muito regularmente 
abertas. Mostrando-me um peqneno seixo de gneiss, dedarou-me o rapaz que era 
elle qnem se entretinha a fazé-las, com repetidas pancadas do seixo, emqaanto as 
vaccas pastavam. Quando um se inntilizava, substituia-o por outro novo. Uma 
das buraquinhas levara-lhe uma semana a ^er ! 



298 O Abcheoloqo Pobtugués 

ainda qne se reunam maitos mais elementos de estudo para respigar 
alguma conclusSo segura. 

Entretanto nSo deixarei de apresentar as considera^Ses qae ao 
meu espirito suggere a reflexfto sobre estes monumentos castrenses. 
Exponho-as assim k ponderaffto dos leitores d-0 Archeologo, mais 
competentes e mais experìmentados de qae eu. Em todo o caso, a 
mingua de elementos e dados comparativos obriga-me a formular os 
meus juizos com reserva. 



Se para a refenda pia de Azere, o caracter reli^oso parece qae 
deve ser fundamentalmente posto & banda ', para a de Cabreiro nZo 
encontro base solida em qae possa assentar qualquer joizo, a nlo ser 
o de Ihe recusar destino igual à de Azere, seja qual fòr o d'està*. 

É que me resulta da compara9&o de daas cavidades t2o dìfFerentes. 



1 Nfìnhum argiimento me compelle a acceitar para està tal ezplica^So, qae 
alias as poucas razoes qne dednzo no texto tambem repudiam. 

2 E comtudo encontrar-se-ia em y&rias obras a deserip^fto de recipieDt€« 
cavadoB na rocha, alguns dos quaes evidentemente tiveram nm destino religioso 
e que talvez pudessem ser invocados para anortear o espirito no eatado da pia 
de Cahreiro, 

Rougemont (Àge du branze, p. 56) cita ama pedra oscillante em Perros 
Gujrech que tem insculpida urna cavidade com o seu respectìvo bueiro e varios 
outros penedos errantes, estes porém com peqaenas fossas (ibid^ p 70). Dentro 
da grande anta de New-Grange appareceram doìs recipientes circalares de pedra, 
qae deyiam ter tido um uso funerario e cultual (vid. Let monumenU mégalUhiquta, 
par FerguBSon, trad. de Hamard, p. 217, e Rougemont, ob, ett, p. 378). O mesmo 
se viu em Lough-Crew (vid. Rougemont, ob. cit., p. 230). 

Nas AntigUedadea prekistoric€u y cdttcas de Galida, por Villa- Amil j Castro, 
vem citadas vàrias cavidades em rochedos, que pela deficientissima deseripcao 
do A. lembram as de Azere e Cabreiro e ignalmente estfto situadas em castros ; 
sSo as de Coto da Recadeira (p. 41) e Peila avaladoira (p. 51). 

O Sr. Martins Sarmento, na Remsta de Sciencias Naturaes e Sodaes, (voi. ni, 
p. 190) refere que no castro de S. Louren^o (Villa-ChU, B^rcellos) ha «ama pia 
refiindada num penedo a pouca distancia das ruinas e que està sempre chela de 
agua». £ pena que o eminente ethnographo calasse o que com tanta anctorìdade 
nos poderia dizer. 

N-0 Arch. Port., ii, 91, vem incompletamente refendo um tanque aborto no 
penbasco, isto no Alemtejo; do Donro (Resende) citam-se tambem pias redondas 
e quadradas, abertas na rocha (vid. Arch, Pori., i, 9). 

TerSo alguns d'estes recipientes no bueiro de despejo a disposi^fto que cara- 
cteriza uma das pias de Azere e que é, quanto a mim, o principal indicio o o 



O Archeologo Portugués 299 

Beferir-me-hei pois primeiramente a eeta^ 

A hjpothese qiie mais acertada parece é que essa fossa tinha um 
destino agricola ou mais restrictamente servirìa para alguma op6ra9So 
do fabrico do vinho ou do azeite. 

E é curioso que seja ainda està a interpretafXo popular, o que 
Ihe daria quasi fóros de tradìySo se a està precisasse ou pudesse eu 
recorrer*. 

Tambem nfto deixaram de apparecer nos entulhos das excava^Ses, 
que em 1893 fiz neste castro, muitos restos de dalia ou antes seriae. 
(Vid. Arch. Poh., i, 167: fig. 2, n.^ 19). 

Que raz5es me levam a preferir pois e^ta expIica9Zo? 

Prìmeiro, a fórma da cavidade e a do canal de exgoto. A dispo- 
SÌ920 do rego ou canal adequada para a adapta^fto de urna comporta 
ou corredÌ9a denota plausivelraente, que este recipiente devia conter 
urna massa d'onde se pudesse extrair, pela pressfto, um liquido num 
dado momento. Como a comporta nào ajustaria hermeticamente nas 
paredes do rasgo competente, em consequencia da granula92o do 
granito grosseiro^, é evidente que a pia n&o podia servir para depòsito, 
ainda temporario, de um liquido isolado. 



melhor argumento em favor da serventia agricola que Ihe aseigno? Nada se diz, 
mas é proyavel que particularidade alguma as distiuga. Sera desacerto alinhar 
pois estes factos ao lado da pia de Cabreirof 

Q^od est demonstrandnm, Maitas vezes me tem occorrido este pensamento : 
se Panoias nào tivesse por si as snas epigraphes, o que pensariam os archeologos 
de todos aquelles tdo variados recipientes? Seria talvez um mjsterio mais cer- 
rado que o segredo de Edipo. 

1 A proposito de cavidades, e para que me nào seja imputada confusSo, 
devo dizer que, nos altos fragues das serras, tenho eu encontcado algumas em 
que ha contornos helicoìdaes, muitas vezes insuladas, outras vezes conjugadas 
caprichosa e pittorescamente, as qnaes so tem que ver, segundo me parece, com 
OS geologos. SSo irmSs das que se véem no leito de rios ou correntes eaudalosas 
e das que produzem as geleiras, aonde as ha ou aonde as houve. Cito, por exemplo, 
o 9Ìno da moura (Gondoriz) que é dos mais curiosos exemplares dVste pbenomeno 
e que com mouraa creìo que s6 tem alguma cousa, desde que as verdadeiras se 
extinguiram cA. 

2 £ singular nSo ter este penedo ligada a elle alguma crendice popular e 
té -la o tal 8Ìno da moura, aonde ainda vi, quando o visitei, pingos de cera, prove- 
nientes da vela benta com que dias antes um reverendo presbjtero jnlgàra mais 
liturgico e efficaz fazer illuminar o seu latim para deseucantamento do thesouro. 

' Se o mesmo systema aìnda hoje se adopta no systema de irriga9ào e dis- 
tribuÌ9ao de àgoas para regas, é porque se trata de um liquido sempre corrente 
e constantemente renovado em grande abundancia, o que permìtte que se dcs- 
prezem as pequcnas cscorreduras das adufas. 



300 Archeologo Portugués 

A massa humida era naturalmente a uva ou a azeitona. A fórma 
da oavidade lembra o recipiente de um torculum. 

E n&o deve, creio eu, extranhar-se que, num humilde castro da 
Gallecia, venha encontrar-se um lagar singelo e rude ou sens vesti- 
gios, construido por um systema um pouco differente d'aquelle que 
se adoptava em outras regi<$es, ji em tudo senhoreadas por urna cìtì- 
liza(2o inteìramente romana. 

Assìm corno em Azere, apparece ceramica de um typo indigena, cas- 
trensci se assim o posso dizer, ao lado de outra de caracter ou mesmo 
de procedencia romana, que é de espantar que os castrejos de Azere 
prodazissem o seu preoioso nectar por um systema cuja disposigSo, 
muito provavelmente anterior ao advento dos seus conquistadores, 
nSo coincidia com o modelo mais generalizado nas regiSes civilizadas? 

Rich no seu Dici, des ani, rom, et grecq., s. v. Torcular, descreve 
o systema primitivamente empregado para espremer o baga90 da uva 
ou da azeitona. Constava simplesmente de um grande calhau e de urna 
alavanca adequada. Està servia para conservar erguido o calhau, em- 
quanto por baixo d'este eram amontoadas as uvas ; pelo proprio péso 
da pedra, talvez mesmo augmentado por urna ac^So conveniente da 
alavanca, se conseguia depois a espremedura da massa. 

])iz mais a baixo Rioh que posteriormente a este simples processo 
se ìntroduziu outro que consistia no emprégo de urna trave (prehun) 
fixa por um extremo (UngtdaJ, a qual podia descer pela outra extre- 
midade ligada a um cabrestante (sucula), sobre o espa90 fareaj aonde 
as uvas se accumulavam, talvez retidas em, ceiras ou fasquias (JUct" 
noe, regulae). 

NSo vejo em Azere vestigios da interven^So da trave d'està ùltima 
especie, com os respectivos accessorios do torctdarium de Gragnano. 
Mas creio facilmente que o systema de Azere representa um notavel 
aperfeijoamento do apparelho primevo, comò que um systema inter- 
mediario entre o mais rude e o posterior do cabrestante e cadernal. 

Se imaginarmos que o recipiente de Azere representa a area do 
lagar da Gragnano num processo porém de vinificasse mais simples 
do que esse, embora um pouco mais perfeito que o do baixo relevo 
do Museu de Napoles, pois que em Azere o pes vinaceum, em vez de 
ser amontoado e retido em Jiacinae, era esmagado numa prensa ou 
pia de granito, por cujo canai saia inferiormente so o liquido, ficando 
o pé ali detido pela adufa corrida a meio do rego, temos formulado 
urna hypothese que explica plausivelmente e som violencia o firn para 
que OS antigos habitantes do castro de Azere rasgaram uma oavidade 
d'aquellas dimensòes em durissimo granito. 



O Archeologo Portugués 301 



INas explora^Ses feitas pelo illustre archeologo da Figueira, o 
Sr. Santos Rocha, na freguesia de Bensafrim, appareceram restos 
de um torcularium, composto de urna area ou propriamente de um 
lagar e de una recipiente, alias nao descriptos em Rich e que parece 
corresponder à lagareta ainda usada no Minho, para a qual corria o 
sumo da uva e aonde este era colhido até às derradeiras gotas. 

Essa fossa circular faz-me lembrar a pia de Azere. Ambas sSo 
circulares e, se a de Bensafrim tem 0™,82 de diametro, a de Azere 
nSo differe muito, pois mede 0™,85 a 1 metro. Està é porém menos 
profonda*. 

Em Panoias, urna das fragas, que Argote suppSe ser um lagar 
e parece na verdade té-lo side, o liquido escorria de um torcular 
quadrado para urna pia circular, especie de lagareta. O rego do 
torcular parece pela gravura* ter urna disposifao singular, que alias 
se n%o adivinha pelo nada que Argote nos diz. liquido que està 
fossa pudesse center, era exgotado por meio de vasos, pois nJo tinha 
bueiro ou bica corno tem a de Bensafrim e de Azere 3. 



Falta ainda referir-me especialmente às outras duas insculpturas 
situadas nos terrenos adjacentes ao castello de S. Miguel-o-Anjo. 



1 Vid. Arch, Pori,, n, 66 e ifi, 82. 

2 Nada menos prove itoso e mais aDtiscientifico de que as gravar as com que 
Argote quis illustrar a sua obra e auxiliar as suas descrip9Òes. SSto feitas com 
um pedantismo artistico que, se obedecia à orienta9So esthetica do seculo, faltava 
de8fa9adamente às normas de urna reproduc9Slo fiel e verdadeira. 

£ triste que, se as insculpturas de Panoias estSo a perder-se, se perca 
tambem d'ellas urna representa9So exacta e rigorosa. 

3 Jà depois de escripta està noticia e mostrando eu casualmente o desenbo 
da &g. 1. a uma pessoa de idade avan9ada, me disse ella que em casa de seus 
avÓB^ se lembra de ter visto na adega uma lagareta tambem aberta na rocha e 
que ainda servia para a vinifica9&o. Era porém qnadrada. Na mesma rocha em 
plano Buperior & lagareta e aproveitando-se para laatro do lagar a horizontali- 
dade da lage, estavam collocados em quadro os silhares que o constituiam. 

Yae bem perto, dos tres modelos de torculum de Azere, àquelle systema de 
vinifica^ào, posso dizer, nosso contemporaneo ! Deve notar-se mais que em todos 
elles se aproveitou tambem a superficie mais ou menos lisa da rocha para uma 
prìmeira opera9ào do fabrico do vinho. 



302 O Archeologo Portuguès 

Urna d'ellas teve evidentemente nio bó destino, mas funcciona* 
mento identico, ao da que a fig. 1 representa. Ha apenas a dìfierenga 
da profìindidade da excaya$2Lo e da maior simplicidade do canal; é 
por assim dizer obra mais tosca; circumstancia està qne nIo destroe 
a analogia das duas fossas e do modo do sen aproveitamento. 

A outra, porém, a que corresponde k fig. 2, tem uma particula- 
ridade que a distingue notavelmente das duas outras, sobre que jà fiz 
as minhas considera$5es. 

Em todas tres existe uma excava^Io circular ou quasi cìrcnlar, 
proxima is bordas dos lajSes. E um ponto de contacto. Nesta porém 
ha uma seganda fossa quadrangular, aberta pelo lado extemo, mas 
que apesar d'isso, pela disposi(So curva do lastro, indica ter tambem 
servido a receber no fundo uma pequena quantidade de liquido que 
tivesse de ser extraido depois, talvez com pequenos vasos. 

Se destino d'estes dois ultimos monumentos era o mesmo qne o 
da fig. 1, fica obscura a serventia especial da cavidade quadran^lar 
que destaca dos outros o rochedo a que me estou referìndo. Que essa 
cavidade se destinava a recolher o liquido produzido sobre a face 
superior da pedra no ambito da bacia circular, n2Lo póde haver ddvida, 
embora a quantidade de liquido que ella pudesse center fosse insigni- 
ficante. Nos lados menores d'este pequeno receptaculo nXo ha ves- 
tigios de comporta ou cousa que o pare9a e que augmentasse a sua 
capacidade util. 

Mas é circumstancia que me fere o espirito, acharem-se estes tres 
monumentos numa pequena area de terreno, sobre as encostas fron- 
teiras de um mesmo convalle, a curtas distancias uns dos outros. 
Parece podér deduzir-se que o seu destino era identico, embora hoje 
nfto saibamos explicar cabalmente o funccionamento das suas partes. 
Junto dos rochedos insculpidos, ha vestigios bem patentes de antigas 
culturas; o terreno, que é declivoso, foi cortado de pequenas Imxts ou 
folhas de terra escalonadas, que ainda se conservam protegidas pelo 
matto que nellas cresce, D'aqui proveiu dizer-me o meu cicerone que 
aquillo jà fora cultivado e até corria que ali tinha sido a casa da 
quinta, de que hoje a singular devesa fazia parte. Mas seria ir 
demasiado longe pretender relacionar esses apagados vestigios com 
as insculpturas de que tenho tratado. 

Eu creio todavia que estes tres monumentos de Azere avangaram 
bastante pelos prìmeiros seculos da era chrìstS; vimos j4 que do castro 
sobranceiro ha um antoniniano do sec. iii. (Vid. Arch. Pori., tv, 
233). A existencia de tres monumentos similares, plausivelmente de 
uso agricola, t£o proximos entre si que o mais distanciado n2o se afas- 



O Archeologo Portugués 303 

tou 300 metros, parece ligar-se a um modo de ser social, pacificado 
e laborioso, com urna populaySo densa ^ e .urna cultura intensivamente 
explorada. 

Mais a baixo, mas ainda proximo e à vista do castro, vou en encon- 
trar, em lugar hoje assignalado com a denominammo de Cerca, vesti- 
gios de antiga povoamio cujos habitos se prendiam ainda aos da popu- 
la9fto castrense. Tijolos, restos de columnas e um fraginento de tosco 
instrumento de pedra, analogo aos do Castello, depararam-se-me em 
urna simplez pesquiza do locai. (Vid. Arch. Pori., rv, 232, nota 2). 

A pequenissima profìindidad^ das duas excavamSes circulares de 
qae me occupei ultimamente, a qual em uma nao passa de 0^,05 e 
na entra de 0^,1, tambem suggere a ideia de que ali se amontoava 
uma massa, d'onde escorrìa o liquido aproveitado. ou dìrectamente 
para um vaso através de um canal ou por intermedio do singular 
recipiente quadrangular de pedra, que caracteriza o rochedo da fig. 2. 

Nas circumstancias em que se apresenta o rochedo a que me tenho 
refendo, e dada comò muito provavel a explicaf&o que proponho para 
a pia da fig. 1, é tambem plausivel que identico ou analogo fosse o 
destino das inscnlpturas que assignalam aquella pedra, embora possa 
ficar incomprebendida a parte que tornava na operammo agrìcola a 
cavidade rectangular contigua ao receptaculo superìor, cavidade que 
para ser utilizavel, teria precisado da collocammo supplementar de uma 
pequena tàbua, no lado aborto. E vestigios d'esse accessorio bem os 
procurei, mas, ou nunca os houve, ou o tempo os expungiu da super- 
ficie do granito. 



D'està jà prodiga serie de consideramdes, se concine que s&o ainda 
escassos os dados que a histórìa e a ethnographia comparada fome- 
cem para o estudo do problema que nos impSem estes monumentos 
protohistoricos — as pias dos castellos de Azere e de Cabreiro. 

Era pois altamente proveitoso que se divulgassem reproducySes 
ou photocopias de monumentos analogos àquelles, acompanhadas de 
minuciosa descrìpyfto. 

Aos leitores d-0 Archeologo apresento o problema; os que tem 

acaso elementos para o esclarecer, prestam um valioso servilo & 

sciencia, dando fim a um indefenso silencio. 

Arcos, Agosto de 1898. 

F. Alves Pereira. 



1 SSo muito numerosoB os castros na regimo de que me occupo. 



304 O Archeologo Portugués 



A respeito de Conimbriga 

(Vid. OArch, Poh., ih, 145) 

8. Inserìpf lo romana 

Existe no Museu do Instituto de Coimbra, para onde foi levada 
pelo Sr. Dr. A. M. SimSes de Castro, que a adquirìu em Condeixa-a- 
Velha, urna interessante lapide calcarea, com lavores, em qne se le a 
segainte inscrip9&o, que com algum^ difficuldade decifrei: 

1. D M S 

RVFVS ET CALIO 

pL GALLIO AVt 

TO FRATRI PIFn 
5. aSSIMO ANN 

t;M XXVIII 
7. |>OSVIT 

Linha 1/0 D é de fórma barbara. Segue-se espa^o vazio. 

Linha 2.^ R é pouco claro. O C e o A est%o ligados, e aste 
nio tem tra^o horizontal. 

Linha 3.* A primeira lettra deve ser P, pois vè-se «ùnda urna som- 
bra. A segunda deve ser E, mas so se ve o que indico. Depois ha 
espa(o vazio. A lettra seguinte é mais G do que C. A ùltima deve 
ser I (percebe-se umà sombra). 

Linha 4.* A primeira linha deve ser T, pois com o tacto conheci 
tra(o horizontal. A penultima é E, ji em parte gasto. A ùltima é 
uma sombra de N. 

Linha 5.* A primeira lettra nEo se conhece, mas era sem dùvidaT. 
Depois do ultimo N ha espa90 vazio. 

Linha 6.^ O primeiro V é obscuro. As tres ultimas lettras da 
linha b,^ com as duas primeiras da segunda linha formam a palavra 
ANNVM (genetivo = annorum; cf. nummum = nummorum^ ^^Oj 
nSo podiam formar ANNORVM, porqae nSo cabiam as lettras OR. 

Linha 7.^ A primeira lettra é P sumido. No firn espa90 vazio. 

Leio pois : 

D. M. S. Rufus et Caliope OaUio Avito, frairi nientissimo, an- 
n(or)um XXVIII: posuit. 



O Archeologo Portcgués 305 

Apesar de os dedicantes serem dois, o verbo està no singalar: 
posuit (por posuerunt). Isto aconteceu por imperìcia do canteiro, que 
tinha na mente a fòrmula mais usuai posuit. E assim tambem que os 
nossos contos populares come9am por e Era urna vez», ainda que o 
sujeito logico de era esteja no plural. Nada dHsto admira em fórmulas 
jà consagradas pelo uso. 

TraducfXo : 

S agrado ao8 deuses Manes. Rufo e Calliope erigiram (este monu- 
mento) a seu amantissimo irmào Gallio AvitOj faUeddo de 28 annos 
de idade. 

Caliope por Calliope = Koùlióim (do th. de xdìHog e do de &{/, 
e de bella yoz») nSo se deve estranhar: ha outro exemplo numa 
inscripgSo da Hespanha: vid. Corp. Inscr. Lat., indice. Galliits é 
gentilicio que se encontra muitas vezes, nSo so na Peninsula, comò 
fora. 

Altura da lapide 0™,64 ; largura do corpo da lapide 0",17 ; altura 
do campo da inscrip9ao (^,19; altura das lettras 0",015 a (r,017. 

Alguns dos AA nSLo tem trafo horizontal. 

Merecia apenas que se publicasse uma photographia d'està lapide, 
por causa dos lavores que apresenta. 

Em Condeixa jA se tinha encontrado uma inscrip9So, — vid. Corp. 
Inscr. Lai., il, 367 — , em que figura um M. Gal(lius) Avitus, prova- 
velmente o mesmo que figura nesta, pelo que a inscrip9%o se toma 
duplamente interessante. 

4. Notas dirersas 

Dentro da muralha romana ha um locai, hoje agriculturado (terra 
de semeadura e olival), a que o povo chama Am^ina e Almedina, 
dizendo que era ahi e a cidade dos Moiros». Por là apparecem enter- 
rados muitos objectos romanos. A muralha tem num dos pontos ^^fiA 
de largura, neutro l'°,82. Um dos angulos da muralha chama-se Canto 
da Alcdgova. Aqui dou na fig. 1 a gravura de um dos angulos da 
muralha, ao Nascente^: 



^ Segando uma photographia do meu amigo e collaborador A. Mezqnita de 
Figueiredo, que tambem tirou a que servia para a fig. 2. 

20 



306 



O Abcheologo Poetugués 



A muralha é feita de pedras de diversos tamanhos, argamassada^ 
(cai e areia) ; estas em certos pontos estSLo ainda dispostas multo regu- 
larmente, umas sobre as outras, comò se ve nas figuras juntas. Inter- 
namente a muralha tem em certos pontos 1"',82 de altura; extenia- 
mente tem muito mais. Tanto do Norte, comò do Nascente e Sol, a 
muralha é bastante alta. Ao Nascente, em baixo, passa o rio dos 
Moirosj que sécca de verSo, mas que leva multa àgoa no inverno, 
formando mesmo cascatas em varios sitios do seu curso. Num dos 




Fig. 1 



angulos foi aproveitado para fazer parte da muralha um grande 
rochedo naturai, o que tambem se ve em alguns castellos medlevaes. 
Na fig. 2 offere90 aos leitores outra vista da muralha (Nascente), com 
OS seus contrafortes. 

No recinto murado encontram-se a cada passo lan90S de paredes 
e fragmentos de telhas. Ha vestigios evidentes de casas no immenso 
pedregulho, caqueirada (de tegulas, de amphoras, etc.) e paredes que 
se divisam em certos sitios. De um dos lan^os de paredes tome! as 
seguintes medldas: comprimente 9 metros, altura O'",^, — lan9ofeito 
igualmente de pedra com cai e areia. Abundam tambem multo as 



O Archeologo Portugués 



307 



pedras apparelhadas. Num ponto achei grande pedalo de opus Signi- 
num (cai, pedritas e pedajos de tijolo vermelho); disseram-me que 
«fojrrava urna tina com um pofo pequeno ao pé», e que j unto havia 
«telhas que parecia • consti tuirem um cano»: no fragmento de opus 
Signinum que vi nSo assentava mosaico, nem tinha assentado. 

Nio era raro apparecerem dentro do recinto sepulturas e ossadas. 
Num sitio vi um monte de ossos humanos. Aproveitaram-se alguns 
que foram conduzidos para o Museu de Anthropologia da Universi- 




Plg. 2 



dade. Foi junto de urna d'ellas que appareceu o pé de alabastro de 
que se falla n-0 Arch. PoH,, ili, 145. 

Segundo informajoes que colhi, havia ainda nas ruinas de uma 
das casas peda908 de estuque com pinturas. Isto é vulgar apparecer 
no Algarve e nas ruinas de Troia. 

Ao Nascente vè-se ainda uma grande parede com um cano, que 
em tempos antigos devia ter conduzido àgoa da fonte de Alcabideque *, 
de que se fallarà neutro numero d-0 Archeologo. 



* Num ms. dos fins do sec. xii, existente no Museu do Instituto, este nome 
tem a seguinte fórma : Alcahdtch. 



308 



O Archeologo Portugués 



Eis córte da parede com o cano : 




largura do cano (a-6) O^^Gl. Este cano parece que teve algom tempo 
arcos. 

Do lado em que o oppidum nfto tem valle ha vestigios de segunda 
ordem de muralha. 

Na occasi&o da mìnha vìsita, em 1 de Margo de 1897, achei mn 
asse muito (afado, e urna moeda arabe de cobre. O facto do appareci- 
mento da ultima moeda relacìona-se de algum modo com o onomastico 
locai: Almedina, Alcdgova, Alcabideque, palavras, as duas primeiras 
de origem arabe, a terceira com esse aspecto tambem. 

J. L. deV. 



Notioias aroheologioas dos seoulos XVn e XVm 



^Rda^io de hìias moedas que se acharcto. — Ào pe da serra de 
Montejunto, andando hS laurador chamado Martim Dominguez, mòra- 
dor no lugar de Canas laurando da parte do mar, descubrio cH o 
arado debaixo da terra bua Piramide de ladrilhos, dentro da qoal 
achou hu vaso major que meo azado cuberto c3 hu testo, e dentro 
delle huas moedas de cobre grossas mas piquenas c8 diuersos cunhos 
figuras e caras, e alguns caractheres que mal se entendiSo; e outras 
de curo e prata tambS c3 diuersos sinaes. £ no fondo hu cofresinho 
c3 fechadura jà ferrujenta, e comido do caruncho dentro do qual es- 
taua bua cadea piquena de curo delgada, e de mao feitio, e outra de 
prata mais grossa c8 bua medalha comò a palma da mXo, aberta ao 
burii, de bua parte hu bomS e bua mulher niis, e da outra hua figura 
c3 opa rogagante, e na cabega bua trunfa, e aos pes bua cobra, es- 
tava tambem bS vaso piqueno torneado c3 seu pe ja gastado, e em 
baixo bum papel jà quasi gastado c3 estas palavras escrittas nSo em 
letra muy antiga nS moderna mas que se deixa be ler e sSo estas : 



O Abcheologo Poetugdés 309 



Quando luce fruar altero sole 
Luna cadet; Lvsitania gemei; 
Hispania confundetur ; Italia devastahitur, 
Abstineto à loco. 

Quando sahir a luz enti outro tempo 
cahirà a lua; Portugal gemerà, 
em Hespanha, confusSo; e Italia 

se ha de assolar. 
Nào chegueis a este lugar^. 

(Archivo Nacional, Cod. 1109, fl. 296. Ms do Bec. zyii). 

€ Lisboa 7 de Julho. — Real Academia das Sciencias. — O P. Joa- 
quim de Foyos, da CongregafSo do Oratorio, leo huma Memoria ou 
Conjectaraa, sobre qual fora o tempo da fanda9So do Theatro Ro- 
mano, ultimamente descuberto na escavaySo da rua da Saudade, e so- 
bre qual fora o Imperador a quem o mesmo Theatro fora dedicado. 
N. B. O descubrimento do resto da Inscrip98o achada no refendo 
Theatro, deelarando ser Nero o Imperador a quem elle fora dedicado, 
confirmou em parte as Conjecturas do P. Foyos, que pelas suas refle- 
xSes criticas tinha assentado ser o mesmo Theatro dedicado a Nero 
ou a Caiigula. 

O Doutor Joào Fedro Ribeiro leo o extracto de algumas observa- 
98es sobre a Paleografia Portugueza. 

O P. José de Azevedo, da Congrega^So do Oratorio, leo huma 
Memoria àcerca de huma Medalha de Alexandre Magno, descuberta 
na escava5ao jà mencionada, e offerecida à Academia pelo seu Cor- 
respondente do numero Joaquim José da Costa e Sd. 

O P. Fr. Joaquim de S. Agobtinho leo o extracto de huma Memo- 
ria sobre as variedades que tem entre nós soffrido nos diversos Rei- 
nados a rela^^o entre os valores dos differentes metaes empregados 
na fabrica da nossa moeda. 

' O Desembargador JoSio Vidal da Costa e Sousa leo a traduc95o 
das Legendas de duas moedas Arabes; e da Inscrip9fto de hum annel 
tambem Arabe, que fora achado com huma das ditas moedas na es- 
cavagSo jÀ mencionada». 

(Segando Supplemento & Gaseta de Lisboa, n." zxvii, 7 de Juiho de 1798). 



^ Ninguem por certo acredita neste achado, e muito menos no papel quasi 
gasto com a prophecia nelle escripta. S2o numerosos estes pretendidos achados 
qua seryiam a certos fins. 



310 O Abchbologo Pobtugués 

•Lisboa. — Na excaTa9lo da ma de 8. Mameàe, jonto k da Sau- 
dade, perto do Castello desta Corte, coBtinaSo a descobrìr-se memo- 
rìas do antigo Theatro dedicado a Nero. Appareceo pois de novo 
earta Lapida com hama In8crip9So em partes com lacanas, e em par- 
tes gastada e comida dos seeulos, a qnal yem a ser ham padrSo, qne 
em obseqaio do mesmo Auffiugial, que erigio e dedìcoa iqaelle Impe- 
rador o Tablado e Orquestra do mencionado Theatro, levantàrXo al- 
guns lìbertos e pessoas da sua propria familia. Dar-se-ha supprida e 
traduzida por Luiz Antonio d'Azevedo, Professor Regio de Gramma- 
tica Latina, que, cheio de zelo pelas Antiguidades Romanas, a cora- 
municou, trabalhando actualmente n*uma Dissertasse sobre este as- 
sumpto. 

InscrìpsSo supprida: 

FLAMINI. AVGV8TALI. 

PERPETWO. 

CAIO. HEIO. CAII. LIBERTO. 

PRIMO 

CAIVS. HEIV8. PRIML LIBERTVS. 

NOTHVS. ET HEIA. 

PRIMI. LIBERTA. HELPI8. 

HEIA. NOTHA. SECVNDA. 

CAIVS. HEIV8. NOTHI. FILIVS. CALAGVRRITANV8. 

PRIMV8 CAIO. 

HEIA. NOTHL FILIA. CHELIDO. 

NEFriS. EIV8. NOTHI. PILIL CALAGVRRITANI. 

CAIVS. LAPHYRV8. NOTHL ALIVS. NEPOS». 

VersSo : 

A Caio Heio Primo, Flamine Augustal perpetuo, liberto de Caio, 
levantdrào este padrào Calo Heio Notho, liberto de Primo, e Heia Hel- 
pis, liberta de Primo ^ Heia Notha Secunda, Caio Heio naturai de Ca- 
lahorra, JUho de Notho, Primo Caiào, Heia Quetido, JUho de Notho, 
neta daqudle JUho de Notho naturai de Calahorra, Caio Làfyro outro 
neto de Notho. 

Ora, admittindo as abbreviaturas desta InscrìpsSo outras intelli- 
gencias, e combinasSes, adverte o mesmo Professor que so o sentido 
que seguio aqui, he o que elle tem por mais obvio, verdadeiro e ge- 



* Corp, Inaer. Lat., ii, n.<> 196. 



O Archeologo Portugués 311 

nuino, reservando para a sua Disserta99lOy em que ttrabalha ^, mostrar 
entre outras cousas que tambem poderia em lugar de Flamini sup- 
prir-se ou Sexéum-Viro, ou Magistro, vlndo-se a chamar a Caio Heio, 
cu Sextumviro Augusial, isto he, hum dos seis VarSes, Flamines, ou 
Sacerdotes Augiistcuts, ou ìieitor perpetuo do Collegio dos Augmtaes. 
Mostrarà tambem que as duas Estatuas quo allì apparecérào, sAo do 
Sileno, e nSo de Hercules 9, 

(Supplemento à Gazela de Lisboa, n,'* xlvii, 23 de Novembre de 1798). 

t Lisboa. — Nam.se tendo achado atégora na excavaySo da rua de 
S. Mamede perto do Castello desta cidade as ietras, que faltSo para 
completar sentido da Inscrip9%o, em que o Augustal Caio Heio de- 
dicou a Nero o Tablado e Orquestra do Theatro alli apparecido, 
comò jà se fez pAblica a outra dos Libertos, dar-se-ha tambem està 
Bupprida e traduzida pelo mesmo Professor Regio de Grammatica 
Latina, Luiz Antonio d^ Azevedo, que a communicou, supprìndo-a por 
outra Inscr]p92o achada nas Hespanhas, que vem em Muratori com a 
data do anno seguinte a ella. 

Inscrip9lio supprida: 

NERONL CLAVDIO. DIVI. CLAVDI. FILIO. GERMANICI. 

CAE8ARIS. NE- 

POTI TIBERI. CAESARIS. AVGVSTI. PRONEPOTI. 

DIVI AVGVSTI. 

ABNEPOTI. CAESARI. AVGVSTO. GERMANICI. PONTIFICI. 

MAXIMO. 

TRIBVNITIA. POTESTÀ! E. TERTIVM. IMPERATORI. 

TERTIVM. 

C0N8VLI. SECVMDVM. DESIGNATO. TERTIVM. 

PROSCAENIVM. ET. 

ORCHESTRAM CVM. ORNAMENTIS. FLAMEN. 

AVGVSTALIS. PERPE- 

TVVS. CAIVS. HEIV8. PRIMVS. DE. SVA. PECVNIA. 

FACIVNDAM. CV- 

RAVIT2. 



1 Pablicou-Be em 1815. A este proposito diz Dice. Bibl, de Innocencio, v, 
215: «É a unica memoria que ficou d'aquelle celebre monumento, cujas reliquias 
e fragmentos se deizaram perder de todo, ao que parece, pela proverbiai incuria 
com que estas cousas foram sempre tratadas entre nós». 

» N.o 183 do Corp. Inscr, Lat, 11. 



312 O AfiCHEOLOGO POBTUGUÉS 

Verslo: 

A Nero Claudio, JUho de Divo Claudio, neto de Germanico Cesar, 
bisneto de Tiberio Cesar Augusto, trtmeto de Divo Augusto, Cesar Au- 
gusto, vencedor dx>8 Germanos, Ponti/ice Maxima, gozando jd do poder 
Tribuntcio pela terceira vez, sendo Capitào General a tereeira, Consul 
a eegunda, eletto para o tornar a ser a terceira. Caio Heio Primo, 
Flamine Augustal perpetuo, fez erigir este Tablado, e Orquestra com 
OS mais omamentos competentes a sua custa, 

Sem fallar no maito que ha que dizer e explicar sobre està Inacri- 
P9S0, nSLo se dispensa o mencionado Professor de jà 4'aqui advertir 
qae demostrara pelos Fastos Consulares correetos, pela Historìa, e pela 
Arte de verificar as Datas que o anno do segundo Consulado do Nero, 
e terceiro do seu poder Tribunicio rem, segundo o escrutinio da mais 
exacta Chronologia, a cahir sem dùvida alguma, e com toda a eviden- 
-eia no anno 57 do Nascimento de Christo, e 810 da funda^So de 
Homa, vindo a ter de antiguidade ao presente a erecQSo do Tablado 
« Orquestra, de que se trata, 1742 annos». 

(Segundo Supplemento 4 Gazeta de Lisboa, n.^ vi, 9 de Fevereiro de 1799). 

. iAvisos, — Se alguem quizer comprar huma CoUecj^o de meda- 
Ihas e dinheiros antigòs, a qual consta de setecentas pe^as, entrando 
neste numero muitas d'Imperadores Romanos, de prata e cobre, falle 
com Distribuidor da Gazeta, Ignacio de Castro, qual dirà aonde 
se pode ver e ajustar». 

(Supplemento 4 Oazeta de Lisboa, n.° ti 11, 22 de Fevereiro de 1799). 

Fedro A. de Azevedo. 



Cimo da Villa da Castanlieira (oonoellio de Chaves) 

À noticia que d'està localidade traz Arch. Pori., in, 285, pode- 
mos hoje accrescentar a de um achado, num curral, de uma lapide 
votiva inedita que està no Museu e que tem a seguinte inscripsXo ^ : 



1 flato é: lOVI 0{ptima) M(aajtnio): Y(otum) M(crito) A(mmo) B{olvU). As 
curvas que se véem nas tres ultimas linhas sfto hederae distinguentes, isto é, 
signaes de separasse de palavras. — £ curioso que a inscrip9So nSo tenha 
nome do dedicante. — J. L. db V.]. 



O Archeologo Portugués 313 



'OV 1 
A) S 



É de granito grosseiro e tem 0",47 de altura, 0"*,28 de largura; 
o corpo das lettras regula por 0'",16. 

Segundo as informa^^es que me deu o meu illustrado amigo, capei- 
ISo militar e professor do Lyceu, P.® JoSo de Almeida Pessanha, a 
qnem devo a indica^So d'està lapide, ainda agora se ve no portai da 
capella de Santa Helena, em Santa Cruz da Castanheira, que esti 
secularizada e servindo de palheiro, urna pedra de granito grosseiro, 
de proximamente 1",40 de comprido e 0",40 de largura, com està 
inscripjSto : 

iOVSSOJ DEU TREJ.SCfiAA/ f ^ 
A-nAVt/ 

e numa casa està ^ : 






Outras informa^Ses obtive que me trouxeram no conhecimento de 
que no termo de Cimo da Villa ha vestigios de um importante castro 
no meio do qual se ve uma pequena capella dedicada a S. Sebasti&o; 



^ [Iste é : Edificata Deo M{<iximo) d(te) ? Ium(t) colenda^ h{a)eo domus sub 
imperio regis Sebastiani; cuiua Alvarus Vaz fuit prindpium 1569: — «Foi està casa 
dedicada ao Altissimo no 1.*" de Junho de 1569, no reinado de D. Sebastiào, por 
AlyaroVaz»: Die calendas é barbarismo latino; a fórma classica era: ealendis 
luniis. — J. L. dbV.J. 



314 O Archeologo Portuguès 

e qne um poaco desviada d'elle existe a igreja de S. JoXo, notavel 
pela sua archìtectura, pelos seus modilhSes, pela quantidade e varie- 
dade de figuras grotescas que assentam na sua cornija, o qae tado 
Ihe dà motivos para ser tida na conta de um dos monumentos mais 
antigos e màis curìosos e interessantes d'estes sitios, e para que devem 
convergir as atten93es da CommissSo dos Monumentos Nacionaes, 
tomando sobre a sua guarda e vigilancia està preciosa reliquia ar- 
chaica, que nos dizem, que entre a gente do povo, é considerada 
corno tendo servido de mesquita. 
Braganya, Dezembro de 1898. 

Albino Pereira Lopo. 



Proteco&o dada pelos Oovémos, oorporagOes officiaes 
e Institutos soientifloos i. Archeologia 

14. Mateo Imperiai Ottomano de Constantinopla 

«Le Musée imperiai ottoman est devenù rapidement, dans ces 
dernières années, gtàce à Tintelligente activitó de son directeur, 
Hamdy-Bey, Tun dea plus beaux de r£urope. Ses debuta furent 
modestes. Vera 1850, le grand-maitre de rartillerie, Fèthi Ahmed- 
Facha commenda à réunir quelques antiquités dans Téglise de Sainte- 
Irene. En 1875, la collection, qui avait grandi peu k peu, fut transpor- 
tée, par les soins du miniatre de Tlnstruction publique, Soubhi-Pacha, 
dans le Kiosque aux faì'ences (Tchinili-Kioak), Tun dea plua purs 
chefs-d'oeuvre de Tarchiteoture ottomane. Après les fouiiles retentis- 
aantes que son Exc. Hamdy-Bey exécuta, de 1887 à 1888, dans la 
nécropole royale de Sidon, les salles du Tchinili-Kiosk devinrent trop 
petites pour contenir les merveilleux trésors que Tbeureux surinten- 
dant des Beaux-Arts avait exhuméa. On bàtit alora, en face du kioaque 
aux faiences, un vaste pavillon qui re(ut les sarcophagea de Salda. 
A aon tour, cet edifico ne auffit plus à loger lea richeaaea qui affluent 
de tona les points de Tempire. Une nouvelle conatruction a'impose. 
Il eat question d'élever, sur une des terrasses du vieux Sérail, un 
monument qui reproduirait les dispositions du tempie d'Hécate à 
Lagina, et où serait insérée, à sa place naturelle, la friae qu'Hamdy- 
Bey a dégagée en fouillant les ruines du sanctuaire». 

(G. Radet, in Reoue des Umversités du Midi, ii, 483). 



O Archeologo Portuoués 315 



Eztrstotos archeologioos 
das cMemorias paroohiaes de 1758» 

2%9. Fornellofl (Beira) 

Crasto 

Freguesia de S, Martinho. — «Da parte do sul està outro monte 
e Ihe serue de coroa bua grande Penha chamada o Monte de Sfto Do- 
mingoB ; e ha tradÌ9&o que no cum^ dele ouuera em tempo preterito 
hua capela com ìnuoca(&o de SSo Domingos, e que dela coneerva o 
nome o dito monte, e nXo ha duvida que inda hoie là se descobrem 
alguns licerces da capela. 

Da parte do Norte e defronte das cazas da rezidencia està outro 
monte chamado Crasto e no roeyo dele està hua penha por modo de 
bum Castolo ; e se dis que ali fora Castello dos Mouros ; e he certo 
que là se descobrem e vem vestigios de cazas digo de ali ter avido 
cazas ; e ao mesmo citio tem repetidas vezes vindo «varias pessoas a 
procurar bum tezouro, mas nSo se sabe que achassem couza algua». 
(Tomo XVI, fl. 774). 

280. Fornos (Beira) 

X Fornof antigo* 

«A Freguezia da Àldea de Fornos, assim intitulada por antiga- 
mente haver no meio della onde se principiou a povoar Fornos de te- 
Iha e tijolo, do que jà nilo ha vestigios alguns, mais que a memoria 
que de huns a outros foi passando, e alguns labradores inda n3o ha 
muintos annos lavrando as terras acharSLo pedras dos Fornos e muinta 
telha e tijolo » (Tomo xvi, fl. 813). 

281. TiUa-NoTa-de-Foi-Coa (Belra) . 

Culello d<M Movros 

cHa nesta freguezia junto ao Ryo Douro bum grande Monte cha- 
mado Monte Alcfto tem duas legoas em circuito que corem da parte 
do Norte e Sul pellas vargens do Ryo Douro e pela parte do Nacente 
com o sìtio chamado Veyga tem buma grande legoa de comprido e 
outra de largo. Na iminencia deste monte estSo os vestigios de bum 
grande castello ao que, cbamSo o Castello Velbo, e nas suas ruinas 
sa divizSo nelle duas portas buma para o nacente e outra para o Sul 

e dizem que foy dos mouros, he abundante de lenhas » (Tomo 

XVI, fl. 874). 



316 O Archeologo Portuqués 



252. Fran^ (Trag-o§-Monte8) 

Minas de ferro 

cNas margens deste rio (Sabor) defronte do povo para a parte do 
Norte cazas ao Sul ha muitas pedreiraa -antigas e muitos buracos a 
modo de minarais antigos e maita parte do termo do dito poao mi- 
nado com vestigios de condutos da agoa para a fabrìca dos minarais 
e conforme se mostra pellos vestigios parecem ser algumas minas de 
ferro : porem hoje nada se fabrìca nem em estes prezentes tempos ha 
quem de noticias destas fabricas»! (Tomo xvi, fi. 951). 

253. Freehas (Tras-os-Montes) 

Fojet fettM pelos Monroe 

cNa Quinta de Val da Janella ha outra serra a que chamam a do 

Caruam ha nesta serra huns grandes fojos e munto fundos que 

ha tradigSo ficaram dos Mouros mas nam se sabe para que cu que 
tirauam daquelcEf fojos t. (Tomo xvi, fl. 998). 

284. Frelxedas (Beira) 

Veftigiof do urna grande eidade 

t Dentro na mesma Freguezia ha hum sitio chamado os Castellos 
que mostra ser area de povoa^&o grande no tempo dos Mouros porque 
ainda se descobrem vestigios de o ser em pedras lavradas, Tijolos e 
ferragens que descobrem os Lavradores, e sinaes de ruas e calsadas, 
e por muitas vezes se tem achado pedras abaladas e fossos altos 
havendo suspeita de huma e outra cousa se faz com o intento de ti- 
rar minas e Thezouros». (Tomo xvi, fl. 142). 

285. Frelxo (Entre-Doaro-e-Minho) 

CIdade dos Mouros. — CaixSes de pedra 

Freguesia de Santa Maria, — «Està a Parochia desta freguezia 

dentro do lugar do Freixo que algum dia foi eidade de Mouros • 

(Tomo XVI, fl. 1104). 

cNSo tem prìuilegios dignos de memoria e antiguamente ffd este 
lugar do Freyxo eidade de Mouros, v&o se acordam os annos, so por 
certeza de que foi habitada de Mouros existe ainda ao fiindo do dito 
lugar parte de huma Mesquita que mostra hauer side caza dos seus 
falsos Deuses pellas ruinas que testificam sua grandeza, e no mesmo 



O Archeologo Portugués 317 

sitio tem apparecido varios trastes dos inouros enterrados em caixSis 
de pedra labrada ; e ainda apparessem destas couaaS; porem de pouco 
Tallor e deterìoradas da terra corno sam loussas e Talhas ; e na cir- 
conferencìa deste lugar apparecem em portas alicerces de inuros com 
qae algum tempo foi murada». (Tomo xvi, fl. il07).. 

286. Gallafara (Entre-Dooro-e-Minho) 

Mlnas de prata 

cNam tem preaillegios nem antiguidades memorandas està fregue* 
zia so do nasente athe o puente em distància de bum coarto de legoa 
se emcontram varios fundos na terra peri imdados a maneira de possos 
que dizem heram de minas de prata e que na hera de 1697 algama 
se tirara e que por canza da guerra desta croa com a de Castella se 
suspenderam». (Tomo xvu, fl. 23). 

237. GallegOB (Entre-Donro-e-Mlnho) 

Castello dos Monros 

cNa parte do norte Ihe fica a freguezia de Santhiago de Lanhozo 
immediata e nella a soberba penha artificio da natureza, em que se 

ve bum castello antigo que dizem ser fabrica dos Mouros v. 

(Tomo xvn, fl. 32). 

288. Gandra (Entre-Doarv-e-Mlnho) 

Mnros feitos pelos Mouros 

«Nam tem previllegioS; antiguidades, semente junto do Rio em 
varios campos comfrontantes ao Lugar de Fam se acham huns altos 
de terra cubertos de matos com seus £0908 os quoaes altos se chamSo 
OS muros de Fam e se dis fora obra fabricada pellos Mouros por tra- 
dÌ9So; e nllo ha outra couza digna de memoria». (Tomo xvii, fl. 81). 

289. GaTlIo (Alemtejo) 

Vestlglos de mlnas de onro 

cAo septimo interrogatorio no termo da villa de Bel ver em bum 
cazal, que chamSo Outeiro que dista desta villa huma Legoa se dis 
ha algum tenue minerai de euro, e jà se tem feito averigua98es que 
dizem ser por ordem de S. Magestade, mas he muito pouco emuli- 
mento dellet . (Tomo xvii, fl. 129). 



318 O Archeologo Pobtugués 



240. Geueos (Entre-Doaro-e-Mlnho) 

Tumiilo de pedra 

S. Miguel. — «He tradi$ao que nacerAo nesta freiguesia dois irma- 
nos Oomeos pegadoa bum ao outro e por isso ainda hoje conserva o 
apellido dos Gemeos e foram sepultados ambos jantos em hum grande 
tumuUo de pedra que estaaa a porta traaessa da jgreya da parte de 
fora e corno se fes a jgreja de nono ja nllo ha uestigio algam, mas 
de prezente algiins uelhos ainda se lembrSo do tumullo». (Tomoxvii, 
fl. 166). 

241. Glnio (Entre-Donro-e-Minbo) 

Cldade de Sanuane, pertencente aos Mooroi 

c entre a Senhora do Bora Despacho e Alheira onde corre 

do norte para o Sul se chama a Penice tem huma cappella de Sam 
Louren90 : mais abaixo entre Roris e Oliveira se dis que babitaram 
08 Mouros onde chamam a Cidade de Sanuane ^, mais abayxo està 
nelle a Cappella da Senhora do Pillar i . (Tomo xvii, fl. 274). 

e se dis por antiguidade que no alto do dito monte Louzado 

tambem babitaram os Mouros na sua cidade Magna, he certo que ahi 
para a parte do nacente està no alto huma piquena fonte ; e se dis 
que tem virtude para augmentar o leite às mulheres que delfe tem 
falta mas nam o tenho por certo». (Tomo xvii, fl. 275). 

242. Godiuha^oB (Entre-Dour<He-Mlnho) 

Torre dos Mouros 

«Ha bua torre em o lugar de S. Mamede cuja està arruinada; e 
dizem ser antiguidade dos Mouros, e que delles manou». (Tomo xvu, 
fl. 308). 

248. Golpelhares (Beira) 

Etymologla popolar 

cA rezam por està freguezia se chamar Oolpilbares consta por 
tradr9So que no tempo dos Mouros se dera neste sitio huma batalha, 
e dos muitos golpes que ouue nella, he que Ihe ficou o nome de Gol- 
pelhares*». (Tomo xvii, fl. 337). 



^ Deve Ber San Oanne ou Sam Johanne < > Sanchu Jokanne», 
2 Bolpeliares ou Volpeliarea era o nome antigo que tinha segundo um docu- 
mento dos Portugaliat Monumenta Htttoricay Dipi, et Chartaty p. 279. NSo é hoje 
freguesia. 



O Abcheologo Pootugués 319 



2éé. Gonzalo (Beira) 

Estrada de Vlrlato.— Campo fortlflcado 

«Ha nesta terra em grande campo que tem na distancia de meya 
legoa humas vallas bastantemente fandas e em partes alguns montes 
de terra leuantados em altura de dois homens pouco mais ou menos, 
isto se presume serem alguns ataques de alguns exercitos. Mas com 
certeza nam se sabe couza alguma. Ha tambem no lemite deste lugar 
huma estrada que chamam de Veriato hoie pouco se uè della pois so 
unicamente na serra que fica ao poente deste lugar se uè bum peda9o 
della que terà de cumprimento trezentos ou quatrocentos pa^os mas 
algum dia se conhecia pella distancia de huma legoa nam he feito de 
calssada o pedalo que hoie se uè mas ainda da parte de sima adonde 
cauaram a terra para fazerem a estrada he quasi da altura de bum 
bomem. Como jà dÌ9e hoie se acha hum pedago della na serra onde 
se nam cui ti va a terra por que a bende se cui ti va com a continuafam 
de se lavrar se tem perdido; està estrada dizem que atrauessa teda 
a serra da Estrella e chegua athe ao pé da villa de Celorico distante 
deste lugar cince legoas. Declaro que està estrada nam he vadiada 
nem nìnguem custuma andar por ella, mas sem embargo disse em 
varias partes da serra ahinda se conbece bem>. (Tomo xvii^ fi. 349). 

245. GondomiP (Entre-Douro-e-Mlnho) 

Torre anilga 

cHa nesta freguesia huma torre antiga sita no mejo della com seo 
muro ao redor hoie despovoada, que por tradì^So se dis foi do Senhor 
de Tenorio; Conde de Crecente em Galiza, e hoie de Dom Jo2o da 
Ponte de Lima ». (Tomo xvii, fl. 423). 

246. Graqja (Tras-os-Montes) 

Caiaa dos Moaroi 

«Nam tem o termo desta Freguesia mais que hum peda90 dela 
(Serra) da parte do Norte chamada Cham do Longo que parte com 
Santa Christina de Cervos, e do nacente com Santo Fedro de Sapiaos 



^ De Gondomiriy genitivo de Gundaminie, Os nomea de povoa^oes terminadoB 
em -mil provém geralmente de 'miri. Os terminados em -t« de -id (Toriz < > 
Theodorìci), os em ufe de -ulfi (Brufe < > Berulfi), os em -onde de -nandi (Bri- 
tiande < > Bretenandi), os em -àes de »anis (Aties < > Atanis), etc 



320 O Abcheolooo Postugués 

e do poente com o Salvador do Eyró e vem acabar onde chamam o 
Outeiro de Cabe90, onde se veem vestigios de Muros que dizem foram 
cazas de Mourost . (Tomo xvii, fl. 571). 

2é7. Goardlo (Beira) 

Torre do« Monros 

«Ha da mesma sorte e por tradìc9&o antiga a noticia de qae no 
sitio de S. Bartholomeu que he bum outeiro de bastante penedia oa- 
vera outra Torre ou fortaleza em que os Mouros habitaaSo cujos ali- 
cerces hoje mal se percebem os seus vestigios e no lugar della se 
acha feita a capella do mesmo Santo > (Tomo xviu, fl. 673.) 

248. Gulf^es^ (Entre-Donro-e-Minho) 

Ponte dea Monros.— Rulnaa 

«A segunda de pedra chamada — a ponte de Quìfoens — pella 
parte do Poente faz sahida para a freguizia de Sam Miguel da Pal- 
mejra : està he de cantaria que dizem os antigos fora feita pellos Mou- 
ros; por se achar aiada sem se acabar com tres olhaes. E janto a 
dita ponte se acha huma bou9a de matto, carvalhos e pynheyros que 
oavando-se na dita bouja se achSo varios peda9os de tijollo, e algu- 
mas pedras lauradas mettidas debayxo da terra, onde se infere fora 
morada antiga de Mouros». (Tomo xviii, fl. 716). 

2é9. Janeiro-de-Balxo (Beira) 

Miaaa dot Monros 

tEste Rio chamado Zezere que por tradi^am dizem se chama Ze- 
zere por nelle ter habitado Sezar quidquid sii nasce na Serra da Es- 
trella, em bum sitio aonde chamam os Cantaros». (Tomo xviii, fl. 16). 

«He certo que estas terras em algum tempo foram habitadas pel- 
los Mouros e ha tradÌ9am que elles tiraram muntas minas ao pé deste 
rio Zezere e traziam a agua pera as ditas Minas daqui duas legoas 
e por muntas penhas e no tempo prczente vem aqui alguns homens 
de fora a tirar pellas anseadas (sic) e praias do mesmo Rio algumss 
fagulhas de curo*». (Tomo xvin, fl. 18 v). 



1 Castro Quifiones no Pori. Man. HiaL 

2 O Parocho de Janeiro-de-Cima trata destes mesmos assomptos quasi com 
pala^Tas identicas. Cf. n.*» 166. 



Archeologo Portugués 321 

250. IdanhA-a-TelhA 

Antlguidadei varias 

«Foy povoayam de mais de legoa de comprido desde a Fedra Fu- 
rada athé Sam Lourenyo de Monsantil, e meya de largo do Val da 
Portella athe junto a San Thiago de Medelim com jardins e cazas de 
parazer (sic) a manejra de Roma por cer colonia e depois munecipio 
do8 Romanos qae a ampleai*am e nobre9eram e pesuhiram athé a en- 
trada dos Godos en cujo dominio mais cregeo a poyoayam que pas- 
sava de vìnte mil vezinhos ao prezente se acha apennas com vinte 
moradores ou fogos » (Tomo xviii, fl. 45). 

cO Emperador Augusto Ihe deu vinte legoas de termo do Rio 
Tejo athé o Rio Coa e se fuy (sic) demenoindo por se repartir pellas 
villas que se forSo criando depois estando Idanha Velha depovoada 
pella praga da formiga sem annos que acabaram no Reynado de El 
Rey Dom Manuel Ihe thomaram a mayor parte desas villas cercumvi- 
zinhas t (Tomo xviii, fl. 46 v). 

cDa cidade de Idanha foy naturai El Rey VVanba ou Bamba, 
comò se tem uisto em moedaz de prata que alnda se acham com a 
tetra Bamba Egitaniense. No anno de 662 foy aclamado em Idanha 
sendo achado Junto ao Bando de GimarSis laurando em huma fazenda 
que hoje he de Jozé Antonio de Aseuedo, chamada o Cham do Freyxo 
que dis a tradÌ9lLo por se ver ainda nelle hum sìlhar de Cantaria a 
roda de hum freyxo porseder oste da aguilhada deVVambacomfirn\ada 
por huma inscrÌ9am que tem porto que dis — V Vamba Egitaniense — 
etc. Permane9em na Idanha e Bayrro de GimarSis as cazas de sua 
vivenda com parede de cantaria gotica e os sobrados sustidos em 
cullunas de pedra. Comfirma a tradigam huma pedra que se achou 
dentro com inscripgam de seu sucessor Eruigio». (Tomo xviii, fl. 53). 

dSeus primeyros muros Ihe fes ElRey Ervigio, de que so existem 
dous pedajos na margem do rio Ponsul heram largos feytos de pis- 
sarra e furtissima argama9a. Os que tem ao prezente sSo feytos pel- 
los tenplarios com muyta largura, altura e fortalleza, todos de canta- 
ria dos pallacioB que demoliram, cheyas de anthequisimas insqueri gSes 
que dariam muyta lus a hystoria do Reyno : seu anbito seri capas de 
trezentos moradores por que os tenplarios comò gente estranha desfi- 
zeram huma cidade para fazer huma fortaleza: tem hum suficiente 
castello com huma grandioza Torre jnteyra por sua forte arquitatura ; 
mas OS recintos dela se vam demolindo t. (Tomo xvni, fl. 55). 

cAo nòrte tem a fonte chamada da Serra obra dos Romanos de 
cupioza Agoa e ademiraveis aqueductos que os rusticos tem demuUido 

«1 



322 O Archeologo Portugués 

em grande parte, asim por està corno pella do Povo. Obra tambem 
antigamente dos Romanos se tem achado muyto ourot . (Tomo x\iii, 
fl. 66). 

«0 Rio Ponsul asim chamado de bum proconsul Romano, qua nelle 
se afogou nasse na Serra de Penna 6ra9Ìa passa pello termo de Mon- 
santo entra no desta Cidade onde nam recebe outro Rio». (Tomo xviii, 
fl. 58). 

«Junto aos muros da Cidade tem ponte de cantaria qu8 fizeram 
08 Romanoz para comonica9am das duas partes da Cidade Orientai e 
Osidental. 

Tem sinco moinhos de moer pam. 

Em suas margens se tem acliado ouro, e em certos tenpos uem 
homeis da Serra de Estrela e o acham. £m huma fonte qnestà pei*to 
desta Cidade a parte do Sul que mostra ser obra dos Romanos por 
seas subterranios aqueductos se tem achado muyto, e della levaram 
bastante hunz pedreyros que a redeficaram ha menos de quaranta 
annos». (Tomo xviii, fl. 59). 

251. I|^reJa-Nova (Extremadora) 

Cidade da Beselga 

«Tem està freguezia de memoria antiquissima na declinalo de 
hum monte que coito sobre a ribeira de Bezelga, pello qual se deride 
oste termo do de Thomar, e nesta mesma Estremadura està huma 
grande fonte coberta de pedra, e junto della està hum nixo por modo 
de hiia torrezinha com suas frestas e dentro deste està huma pedra 
liza de cor branca que terà de altura quatro, thè ciuco palmos a que 
chamam os povos os Sanetos Martyres, e tem sido tal a devo9am, 
nam so no tempo prezente, mas principalmente no pasado, que consta 
se emcheram as arvores que estam de fronte de muletas, e varios 
milagres, e consta que vinha gente de muito longe procurando onde 
eram os Sanetos Mar^jrres sem ali aver nunca senam a dita pedra da 
qual ainda hoie tomam em pò os doentes em agoa da dita fonte e os 
livra de zezSis (sic) e da mesma pedra se ve estar feìta em cortes 
pera se tirarem os ditos pós de que se entehde seria està sobre a 
qual padederiam muitos Martyres porque nam falta quem diga que 
nestes citios ou juncto delles ouve huma cidade que chamavam a ci- 
dade de Bezelga *, donde dizem era naturai Sancta Citta, que consta 



* Basilica. Na Redinha ha uns campos chamados Cidade de Soda onde so 
tem encontrado vasilhas coni moedas, tijollos, etc. 



Archeologo Portuguès 323 

padeceo martirio na mesma declma9am do Monte, x)nde està cituado 
ham convento de Sam Francisco do Orago da mesma Sancta, mas ja 
na freguezia da Villa de Aseyceyra». (Tomo xviii, fl. 89). 

252. IlhaTO (Beira) 

Etymologia popular. — Inaorìp^Ses em Utim e portugnèa. — Mudan9« no rio 

«Adverte-se que o nome — Ilhauo — se deue pronunciar esdrùxolo 
isto he com accento na primeyra, e nSo na penultima comò alguns 
menos advertidos na corte, e outros lugares distantes erradamente 
pronunciam. Quanto & Etymologia do nome Ubavo, pouca atten9fto 
merece a noticia que agora sucintamente daremos. Hum celebre Do- 
mingos da Cruz, sacristSo que foy da Matriz que se gastaua bom 
humor fleumatico, costumaua e a proprio Cérebro, formar, e fingir 
etyraologias dos nomes das terras e chegando a Ilhauo dizia elle que 
a origem e razam de assim se chamar fora; porque sondo a Chouza 
Velha (Lugar vezinho de que em seu lugar trataremos). Pouoa9So 
mais antiga era nesso tempo Ilhauo, Ilha ou terra apafìlada e panta- 
noza (nisto hia coherente e verosimel ; porque o terreno por bayxa, e 
humido assim o inculca) e que na tal Ilha, ou paul criavào muitas 
aves, ou ades, e costumavam os moradores da Chouza Velha ir tirar- 
Ibe OS 0V03. Sucedia poiz que huma velha costumava ir com hum netto 
que tinha à 'mesmo diligencia, e que quando se descuidava o netto 
costumado àquella golozina Ihe lembrava dizendo : Vamos à ilha. Avo, 
e que daqui, corrupto vocabulo, fìcàra Ilhauo^. Fides penes Authorem 
que certamente era apocryfo Dieta, e homem sem letras simples san- 
grador de profissam». (Tomo xviii, fl. 110). 

« da Capella (de Nassa Senhora da Penha de Franga em 

Vista- Alegre) nllo merece ficar em silencio a Inscrip(So Lapidar que 
se acha da parte do Evangeiho centra o MauzoLeo, gravada em mar- 
more branco primorozamente burnido, e na elegancia e Magestade em 
nada cede à Idade de Oiro, e seculo de Augusto prezerverandose da 
critica que o Barbadinho ^ e os seus AUiados e Partidarios seguindo 
ao louvency e Bouhonrs fazem a semelhantes Inscripgoens Lapidares, 
e a seus Autores, Thesauro luglar, L'Abbé e outros ; porque nella se 
nào vem os equivocos, Anthithezes, Paranomasias e outras falsas bri- 



* Ab fórmas antigas sfto: Iliavo, IlUahum e /Zavum.Vid. GamaBarros,^»- 
ioria da AdministraQdo em Portvgal, ii, 333. 
2 Luis Antonio Vemey. 



324 O Archeologo Portugués 

Ihanterias, que os Criticos modernos justamente condemnSo, princi- 
palmente se se uzam sem economia, parcimonia, e juizo prndencial 
com que o mais indulgente e refiexivo criterio as modifica. Para da 
respectiva recommenda92lo exhibimos e transcrevemos a refenda Ins- 
crip9&o Bendo que bastara para a defender de toda a mordacidade 
saber-se que he composiffto do sobredito SebastiSo Pacheco Varella : 



DEO OPTIMO MAXIMO 

DEIPARAE VIRGINI 

DIEI ULTIMAE 

SUPREMO JUDICIO SUPREMUS JUDEX : 

RECTRICI UNIVERSI RECTOR UNIVERSITATIS : 

episcopo ANIMARUM ANIMOSUS EPISCOPUS : 

IN 
MORTIS ASYLUM, VOTI TITULUM, GRATITUDINE, TROPHAEUM, 
HOC TEMPLUM, HANC ARAM, HUNC TUMULUM, 

DIDICAT, SACRAT SIGNAT 

ILLMU8 ET RMU8 DNUS 
D. EMMANUEL DE MOURA MANUEL. 

QUI 
A B. FERDINANDO CASTELLAE REGE PROGENITUS, 
SANCTORUM SOBOLES ELECTUM GENUS EST : 
ARMIS, ET LITERIS ORDINE, ET CURSU MANENS, 

STELLA MICANS, ET DIMICANS FUTT 
AULAE SUPERNAE CUM PONTIPICIBUS ASCRIPTUS, 
SIMILI GLORIA SACERDOS CHRISTI ERIT. 
FAVENTE NATURA, COMITE VIRTUTE, AUXILIANTE GRATlA : 

CUI 
ORTUM DEDERE SER PATER (?) MAXIMI CONJUQES 

LUPUS ALVRES DE MOURA 

COMMENDATOR DE TRANCOSO, 
TRIUM ECCLESIARUM PATRONUS, TRIUM MAIORATUUM DONUS 

ET D. MARIA DE CASTRO, 
EX IMPERIALI EMMANUELIUM STIRPE PARI NOBILITATE 
DECORATA: 

QUEM 
SERENISSIMI PORTUGALLIAE REGES 
DESTINARUNT CADURCO, SELEGERUNT CONSILIO: 






-^' O Archeologo Portugués 325 

SANCTI OFFICIl TRIBUNAL 
JUDICEM HABUIT DEPUTATUM, INQUISITOREM DIGNISSIMUM: 

ACADEMIA CONIMBRICENSIS 
COLLEGAM EDUCAVIT, RECTOREM COLUIT. 

ECCLESIAE LUSITANAE 
CANONICUM NUTRIERUNT ALUMNUM, ET SPONSUM RECEPERUNT 

EPISCOPUM 

TOT GRADUS PROVIDENTlA SUPPONENTE, 
UT MERITIS AUGERETUE, QUOD SANGUINI DEBEBATUR. 

CUJUS 
MAGNITITUDINEM, INTEGRITATEM, SAPIENTIAM, 

MULTIPI>EX FAMA LOQUITUR 

IPSA INVIDIA FATETUR, 
HOC OPUS SALOMONICUM TESTATUR. 

QUO 
ARCA CORONATA SUFFULCIENS PROPITIATORIUM, 
CUSTODIT MIRACULOSUM SIMULACHRUM 
VIRGAE VIRGINES, QUAE RUPIT RUPEM. 



DE CUJUS NATIVITATE, QUAM CELEBRAT GAUDENS, 
SUB CUJUS UMBRA, QUAM DESIDERAT SEDENS, 

LOCULO FECrr LOCUM 
MONUMENTUM CONSTRUXIT MONUMENTO 
HERCULEAS COLUNNAS, VEL POTIUS MACHABAICAS 

. SAXEAS FIXIT, NON TERREAS FINXIT, 
UT VIDERENTUR AB OMNIBUS NAVIGANTIBUS MARE : 

NON PLUS ULTRA. 
HUJUS TANTI VIRI SI EFFIGIEM QUAERIS 

INSPICE UTRUMQUE ANTRUM. 
FRANCI-HISPANICUM SCILICET, ET BETHLEHEMITICUM. 

QUIBUS 
UT SIMON DORMrr ; UT PASTOR VIGILAT; 
IMMO ETIAM VIGILAT CUM DORMIT. 
NAM ILLIC SPIRITÙS INTER VIGILES ASSOCIATUR 

COELESTI MILITIAE, 
DUM HIC CORPUS VIRGINIS PROTECTIONE SECURUM 

REQUIESCIT IN PACE. 
HOC EPITAPHIUM INSCULTUM FUIT ANNO DOMINI 

1697. 

(Tomo XVIII, fi. 122 e seg.) 



326 O Archeologo Portugués 

fEm beneficio dos navegantes, viageiros, commandantes e Ro- 
meyros fez o 111."^ Fundador fabricar por de tràz da Capella para a 
parte do sul, junto do rio huma boa Fonte, cujas virtudes, e qualida- 
des mais fabalozas que verdadeyras erudita e Poeticamente descri- 
ptas se lem em bum romance vulgar, obra do memorado SebastiSLo 
Pacheco Varella com elegantes, e bem talhados caractéres ainda que 
alguna delles jà bastantemente apagados. Està està Fonte Cuberta 
com bum curuchéo tetràgono ou quadrangular, que descan9a em qua- 
tro colunas, sahe a agoa em bastante copia pella bocca de huma Sc- 
rea de pedra entalhada na mesma Lapida aonde se acha a inBcrip9ÌLo 
e elogio da Fonte no cimo da qual tem em letras todas majusculas 
de forma por tituUo em huma so regra: 



HOC ELOGIUM ILL mus aEDIFICATOR FECIT INSCULPI ANNO 1696. 

ESTÀ FONTE, Ó NAVEGANTE, 
CUJA LIQUIDA CORRENTE 
CHRISTAIS PRODIGA DEZATA 
ATTENgOENS VISTOSA PRENDE. 

ESTÀ NIMPHA QUE AO VOUGA, 
SO EM LEGUAS MAIS DE SETE 
ADOgA AS AGOAS SALGADAS 
PEYTA NAYADE A NEREYDE. 

ESTÀ AGOA, QUE BEM COMMUM 
A VARA LIBERAL DEVE 
DE HUM AULICO PASTOR SACRO 
MILITAR, JUIZ, REGENTE. 

ESTÀ VEA, CUJA ORIGEM 
A DO PARAISO EXCEDE ; 
POIS DA CASA DA SENHORA 
MAIS BEM NASCIDA DESCENDE. 

CONTEM TODAS AS VIRTUDES 
DAS FONTES MAIS EXCELLENTES, 
E DÀ REMEDIOS A VIDA, 
DESPOIS DE DAR MORTE A SEDE. 



O Archeologo Portugués 327 

SE A FREQUENTAS POR AGRADO, 
SENDO AOS NARCISOS ENFEYTE, 
HE DAS GRAQAS ACIDALIA, 
E DAS MUSAS HYPPOCRENE. 

HE ARETHUSA DO ALPHEO ; 
MAS POR MODO DIFFERENTE 
POIS DE HUM RIO A OUTRO RIO 
AQUELLE FOGE, ESTÀ SEGUE. 

EGERIA DE MELHOR NUMA, 
QUE MAGNIFICO, E PRUDENTE 
NA ARCA O NUMEN INVOCA ; 
NO TANQUE A PRATA DISPENSE. 

BIBLIS, QUE (SEM CULPA) AO RIO 
(IRMÀO POR PARTE DE THETIS) 
MURMURANDO A ESQUIVAN^A, 
VAI ABRAQAR DOCEMENTE. 

FONTE EMFIM DO SOL, CONTIGUA 
AO TEMPLO DO DEOS DOS DEOSES, 
CONTRA A CALMA FONTE FRIA, 
PARA FRIO FONTE QUENTE. 

SE A BUSCAS POR MEDICINA 
HE QUAL A DE CICE, OU ELIS 
FONTE QUE AS DOENQAS CURA, 
CHRYSTAL QUE A VISTA ESCLARECE. 

IGUALA A FONTE DE MARCYAS 
COM BENEFICA ANTITHÉSI ; 
POIS SE AQUELLA PEDRAS CRIA 
ESTOUTRA PEDRAS DERRETE. 

NAM SE TURBA COM AS VOZES 
ANTES PARA QUE A CELÉBREM, 
SARANDO-AS COMO A DE ZAME 
AS LOUVA COMO A DE ELEUSIS. 

AO QUE ESTUDA ExM SUAS MARGENS 
AVIVA A MEMORIA SEMPRE, 



328 O Abcheolooo Pobtcgués 

COMO A FONTE DE BEOCIA, 
OPPOSTA AO CURSO DO LETHES. 

A QUEM DA FONTE SALMACIS 
BEBEU AS AG0A8 ARDENTES, 
ESTÀ AGUA BANHANDO AS F0NTE8 
LIYRA DO AMOR, QUAL SELEMNE. 

E QUANDO PERDIDO A BRINDES 
ACHES NO VOUGA LYNCESTES, 
ESTÀ QUAL FONTE CLITORIA 
FAZ COM QUE VINHO ABORRECE. 

SE POR DEVOgAO VIZITAS 

SUA AFFLUENCIA PERENNE, 

HE CHORO, COM QUE 08 OLHOS PIOS 

NA CAPELLA A VIRGEM SERVEM. 

HE FONTE DE lERICHÓ 
QUE AS PLANTAS DA ROSA VERTEM 
E QUE OUTRO ELISEO COM MOURA 
FEZ SUA VE, BENTA, E FERTHi. 

HE FONTE PROPHETIZADA 
(SE TANTO PODE DIZER-SE) 
POIS SAHE DO TEMPLO SANTO 
E VAY REGANDO A TORRENTE. 

DO MAR DE GRAgAS MARIA 
RIO 4 E FONTE PROCEDEM 
MAS LA JUNTO A LAPA MANA 
CÀ DA MESMA PENHA DESCE. 

BEBÉ, POIS, BEBÉ k VONTADE 
ACHARÀS QUE HE (MUYTAS VEZES) 
TAM UTIL PARA A SAUDE 
QUANTO PARA A VISTA ALEGRE, 

(Tomo XYiu, fi. 127). 



4 «Allade a ter o Youga orìgem em huma fonte junto a nosaa Benhora da 
Lapa». Nota à margem. 



Archeologo Portugués 329 

«Todo este bra(o he navegavel (desde Aveyro athé o lugar de 
S. RomSo que tSo bem he do termo de AvejrOy e fica vezinho, e 
quazi defronte do de Oaca (por espa(o de largas duas legoaa que tanto 
fazem de Aveyro ao dito lugar de S. Rom&o. Tem pelle meyo hum 
canal (vulgarmente chamado cai) bastantemente fundo, capàz de na- 
vegarem por elle embarca9oens de quilha comò caravellas, e ainda 
mayores, e ha tradÌ9fto que antìgamente naregàram athe defronte. de 
Vagos a carregar de sai no tempo que as prayas de hii e outro lado 
erSo marinhasy nome que ainda algumas dellas conservilo. Porem ao 
prezente seria impraticavel semelhante navega9am por se achar este 
rio no sitio chamado Remelhe, totalmente areado de sorte que se 
passa a vào*. (Tomo xvm, fl. 132). 

Fedro A. de AzeIVedo. 



Òleiria luso-romana 
em S. Bartholomeu de Castro-Marim 

À memoria do Francisco Silvestre de Sousa Rocha 

Por ìnforma^Ses do meu particular amigo, hoje fallecìdo, Francisco 
Silvestre de Sousa Rocha, que era dedicado amador da numismatica, 
soube que ao pé da aldeia de S. Bartholomeu de Castro-Marim, no 
concelho de Villa- Real de Santo Antonio, tinham por vezes apparecido 
amphoras romanas inteiras, o que levava a crer que alli existira uma 
esta92o luso-romana. 

Havendo-me o mesmo Sr. facili tado uma excursfto àquella aldeia, 
onde tinha familia e muitas rela95es, parti para là em fìns de Dezem- 
bro de 1896, e mandei proceder a excava95es no locai, das quaes 
resultou descobrir-se n&o so um depòsito de amphoras, mas um forno 
de cozer barro (em latim fomax). 

locai chama-se Os Olhos, e fica k margem do esteiro da Carras- 
queira, junto da povoa9ao de S. Bartholomeu de Castro-Marim, a uns 
200 ou 300 metros, ao Nascente, da ermida. E terreno accidentado, 
em que ha hortas e pomares ; atravessa-o um caminho pùblico. chao 
està juncado de cacos de amphoras (asas, bocaes, fundos, peda9os de 
bojos) e de cacos.de tegulas; tambem por ahi apparecem tijolds pris- 



* Vid. desenbos de tijolos analogos n-0 Arch. Port., i, 315. 



330 O Archeologo Portugués 

maticoB grossos e outros com base de qaarto de circulo, e peda^os 
de opus Signinum (agglutina9So de cacos, seixìnhos, cai e areia), ìsto é, 
formig&o, bem corno alguns peqaenos fragmentos de vasos finos. 

O forno appareceu enterrado no caminho, e o depòsito janto do 
esteiro, a ans 100 metros de distància do forno, nam taiho de terra per- 
tencente a um camponès de S. Bartholomen de Castro-Marim. 
. Fallare! primeiro do forno, e seg^idamente do deposito. 

1. Forno 

A parede do forno, feita de tijolo, e de espessara mèdia de 0°^,6 
a 0°*,7, constitue um cylinaro, de uns 3" ,44 de diametro, na occasi&o 
completame'nte sotterrado e entulhado com terra e cacos. A construc- 
§ao, depois do respectivo desentulhamento, oflferecia o aspecto de nm 
po$o de tirar àgoa. A altura, no estado actual do forno, é de uns 
3",84, contada desde o fundo até o nivel do caminho. Neste, corno 
noutros fomos romanos que se conhecem fora de Portugal ^, a abo- 
bada, se a teve, ostava completamente destruida. 

Kum dos ladoB do forno tinha-se feito nma parede, que, antes da 
excaya92o, parecia borda de tanque: angulo com os lados tangentes 
à circumferencia, comò se ve na seguinte figura eschematica. 




forno, no momento de explora9So, constava de duas partes : urna 
inferior, a fornalha ; outra superior, o laboratorio, ou camara, em qae 
as vasilhas se coziam. 

Sondo a fig. 1 a pianta do edificio, vemos na fig. 2 (córte vertical) 
a disposÌ9%o das duas partes mencionadas. 

a) Fornalha: 

A fornalha, com a abertura voltada para o Nordeste, comp5e-se 
de um grande canal centrai, C, de 1^,56 de altura e de 0",97 de 
largura, o qual come9a fora do forno numa extensSLo que nSo pude 
medir exactamente, mas que nSo era inferior a 2 metros. 



1 Vid. Dictwnnaire de» antiquités romaines et grecquea, de Darenberg & Ba- 
glio, 8. V. fomax. 



O Archeologo Portugués 331 

Este canal, destinado a receber s lenha, é descoberto na parte 
que fica fora do forno, e ahi mais estreito (0*",69) que dentro do forno ; 
ao penetrar na parede propria do forno, alarga-se successivamente 
(0'",84 até 0™,97), e ahi tinha um arco de entrada, jà destruido (prae- 
fumium); depois estende-se pelo eixo do forno, desembocando no 
espa^o D, e conmiunicando perpendicularmente, corno se ve no córte 
vertical (fig. 3), com quatro canaes secundarios, de uns 0",30 de lar- 
gara, os tres ultimos formados entro quatro paredes de tijolo que no 
centro constituem arcos ogivaes sobre o canal grande *, e o primeiro 
formado entre a primeira d'estas paredes e a parte anterior da parede 
circular do forno. A altura da parte externa do canal era um pouco 
inferior à do arco de entrada. E^te arco achava-se desmoronado, corno 
digo a baixo, em nota, e por esse motivo nSo pude saber qual era 
a sua fórma; todavia, de certo ella era igual à dos outros, tanto 
mais que os tijolos que o constituiam eram iguaes aos tijolos dos 
arcos restantes. 

As paredes dos canaes transversaes, e a parede circular do forno 
sào feitas de barro vermelhe, cai, cacos (de amphoras e de tegulas) 
e de tijolos; os arcos formados pelas paredes transversaes 8%o porém 
feitos so de grossos tijolos (lateres) parallelepipedicos, sobrepostos hori- 
zontalmente, de modo que a largura das paredes dos arcos é igual ao 
comprimente dos tijolos; iste é: a volta do arco é de tijolo, o resto 
da parede é de barro, cacos e outros tijolos. Na construc92o do forno 
nSo entrou pedra. Os tectos dos canaes secundarios sSo formados por 
peda(os de tegulas e ladrilhos, postos perpendicularmente aos canaes, 
e parallelamente ao canal do centro ; o tecto do canal do centro é for- 
mado da mesma maneira e pelas abobadas dos arcos. Na fig. 4 dà-se 
o desenho de um dos tijolos que entravam na construc^So do forno. 
Nos tectos de todos os canaes ha, de espafo a espa^o, respiradouros, 
comò se ve na pianta, e no segundo córte vertical, constituidos por 
outros tantos gargalos de pequenas amphoras inutilizadas, adaptados 
cada um a sua abcrtura. 

O espafo D, onde desemboca o canal centrai, e que é por tanto 
opposto & abertura do forno, tera de flexa uns 0™,74. 

lume pegava-se pelo canal centrai à lenha collocada na fomalha; 
do canal centrai destrìbuia-se aos transversaes, sahindo o fumo pelos 



* ùltimo d'estes arcos estava jà destruido, na occasiao das excavayòes ; 
mas o que resta das paredes nSo deiza diivida que ellas perteuciam a um arco 
corno os mais. 



332 Archeologo Pobtuqués 

respìradouroB ; a labareda principal derivava para o espafo D, que 
era vazio e recebia tambem a cinza. 

Tanto as paredes de todos os canaes, corno os gargalos dos respi- 
radouros, tinham ainda na sua face interna vestigios de lume. Pelo 
meio do forno, nos entulhos, appareciam tambem telhas queimadas e 
escóreas. 

b) Camara da cozedura: 

O ch2o da camara é horizontal, corno se ve nos desenhos dos 
cortes, e consta de duas partes : urna solida, e espessa, formada pelas 
extrenùdades superiores das paredes dos canaes transversaes e dos 
arcos; outra, menos solida, e com os respiradouros, formada pelo 
tecto d'esses canaes. 

Era na camara que se collocavam os objectos d^ barro no estado 
verde, para serem cozidos com o calor que emanava dos canaes sub- 
j acent es. 

2. Depòsito das amptaoras 

Era, comò disse, junto do esteiro que tinham apparecido por 
vezes muitas amphoras. Mandei cavar até à fundura de 1™,5 pouco 
mais ou menos; a està profundidade come9avam a apparecer bocaes 
de amphoras. Logo que os bocaes appareciam, o Sr. Scusa Rocha, 
animado da melhor vontade em me auxiliar, principiava, com dois dos 
homens mais habilidosos que andavam no servÌ90, a desviar a terra 
cuidadosamente, j& por meio de sachos pequenos, jà por meio de facas, 
de modo que as amphoras nSo soffressem nada. Como a terra era um 
pouco humida, e corno as amphoras estavam adherentes umas as outras 
e & terra, a operajSo tornava-se por isso bastante melindrosa. 

Muitas amphoras achavam-se jà completamente quebradas ; outras 
lunda inteiras ou quasi: d'estas consegui extrahir doze, que vieram 
para o Museu. 

numero total das amphoras que aqui houve era porém muito 
superior a este: so bocaes distinctos encontrei & superficie do chao, 
avulsos, trinta e um; outras amphoras haviam side ^.tiradas ao esteiro; 
dono do campo tinha tambem, ha 16 annos para cà, encontrado e 
destruido muitas. Póde calcular-se que o nùmero de todas estas ampho- 
ras nio era inferior a oitenta. 

As que porém estào salvas s&o : as doze que vieram para o Museu 
(inteiras ou consertadas) ; urna possuìda ao tempo pelo Sr. Scusa Ro- 
cha; outra por um parente d'este Sr. ; outra, que se acha no Museu 
Archeolo^co de Faro. 



Archeologo Pobtugués 333 

Observei que as amphoras estavam dispostas, tres a tres, ao alto, 
e em fila, com alguma inclinagao, devida à pressSo da terra : (vid. a 
fig. 5, que dà ideia de tal disposÌ9%o). 

Sobre estas havia outras deitadas, jà partidas. As que estavam a 
pino jazìam enterradas em barro branco, umas até quasi ao meio, 
d'outras so o bico, ou pouco mais. 

Em estampa, sob o n.® 6, dou a figura de urna das amphoras do 
Museu, segundo o desenho do Sr. Henrique Loureiro : altura 0™,95 ; 
largura maxima do bojo 1 metro; diametro do bocal, tornado em cima, 
0™,14; largura do gargalo 0",36. As outras amphoras que estito no 
Museu, e a do Sr. Scusa Rocha slo sensivelmente iguaes a està, 
quanto & fórma; apenas algumas difFerem entre si, em alguns centi- 
metros, nas dimens5es. As asas apresentam um sulco ao meio, em todo 
o comprimente. A estructura d'estas vasilhas é solida. Sic de barro 
avermelhado. 

A par de amphoras grandes, comò a que fica descrita e figurada, 
havia no depòsito outras menores, a julgar pelos gargalos e pelos 
bicos fundeiros que appareceram, e de que eu trouxe exemplares 
para o Museu. Mas as vasilhas grandes consti tuiam a maioria. Na 
estampa figuro, sob os n.°* 7, 8, 9 e 10, alguns bicos avulsos que 
appareceram, e que difFerem entre si na fórma: uns sSlo lisos, outros 
nSo ; uns terminam em penta, outros sSo planos por baixo ; perten- 
cem a amphoras de diversos tamanhos. 

No mesmo campo em que se acharam estes objectos, acharam-se 
dois fragmentos de objectos tambem de barro, que passo a descrever. 
Um fazia parte de um tòro delgado (estampa annexa, fig. 11), de 
uso indeterminado, pois nSo é fragmento de vaso *. outro, comò se 
ve na fig. 12, fez parte de um tubo (altura 0",09; diametro 0",11), 
e parece haver servido de descanso de algum vaso, pois està acabado 
nos dois bordos naturaes; nunca foi gargalo de amphora, comò k 
primeira vista se poderia suppor; este objecto ofTerece na super- 
ficie externa uns sulcos parallelos e transversaes, que o enfeitavam 
singelamente. 

Ao repente póde ficar-se em dùvida se a esta$3Lo de que estou 
fallando era um depòsito de olaria, se uma adega ou dispensa; mas 
nSo ha dùvida que se trata de um depòsito de oleiro: sem trazer à 



^ No Museu EthDologico deposi tou o Sr. Ferreira Braga um tòro tambem 
de barro, mas inteiro e com tampa, que faz lembrar este. Foi achado ao pé de 
Santarem. 



334 Archeologo Portugués 

considerarlo o facto de algumas das amphoras estareni deitadas sobre 
outras, porque isso podia acontecer numa adega oa dispensa com vasos 
vazios, basta notar que todas as amphoras e cacos que vi eram novos, 
comò que sahidos do forno ; alem d'isso, se se tratasse de urna adega 
ou dispensa, deviam apparecer as tampas das amphoras: mas nSo 
encontrei nem urna, entro tantos cacos e vasilhas ! Apenas urna molher 
me disse ter ahi encontrado em tempos umas pequenas «tapadeiras» 
com uma «pègazinha», que até Ihe serviam de testo : estas ctapadeìras» 
sSo provavelmente testos de amphoras; comtndo, que importancia 
tem isto em compara^Xo do nùmero extraordinario de fragmentos de 
amphoras, entro os quaes nXo appareceu testo nenhum, e em com- 
para(&o do facto de eu ter visto sem tampa algumas dezenas de 
amphoras (contando as aproveitaveis e as quebradas) ainda no seu 
primitivo lugar? 

As excavardes puseram a descoberto dois lan^os de paredes do 
edificio que servia de depòsito, lanjos constituidos por tijolos, peda^os 
de tegulas e barro; com oste edificio devem tambem relacionar-se os 
fragmentos de opus Signinnm de que fallei a cima, bem corno muitos 
dos tijolos e tegulas encontrados constantemente pelo chlo, ou na 
terra do campo. 

8. Consldera^Oet gr^raes 

Temos assim, de um lado, o forno em que se coziam as vasilhas 
de barro; do outro, a pequena distancia, o depòsito d'estas vasilhas. 

Com excepgao do fragmento de uma beira de vaso ornamentada, 
fig. 13, e dos outros objectos figurados, tudo estava desprovido de 
enfeitos da arte: nSo se pusera em parte o preceito horaciano utile 
dulci, havia-se so cuidado do utile. Por tanto, podemos dizer que alli 
se fabricava e guardava nfto so barro grosso, mas grosseiro. 

O locai abunda em àgoa dece, que nasce por toda a parte: é o 
ponto da povoafSo onde ha mais : elle seria pois escolhido para olaria 
por causa da àgoa. Alem d'isso, comò o locai fica junto do esteiro, 
tomava-se muito facil o embarque das vasilhas, para irem ser vendidas 
longe. 

Resta agora saber qual o motivo de se terem conservado até os 
nossos dias tantas amphoras. Croio que se poderà explicar o facto 
por alguma inundafio que destruisse e submergisse o edificio do 
depòsito, a ponto de ter sido impossivel durante tempos extrahir de 
là as vasilhas, na totalidade ou em parte ; depois, coin o correr dos 
annos, e a successao dos povos, o depòsito ficou esquecido, e corno, 
pela perda d'estes haveres, nSo havia estimulo para de novo accender 



O Archeologo Portugués 335 

o forno, este continuou apagado, até que a terra o cobriu e m'o 
guardou, para eu o tornar a abrir, passados quasi dois mil annos. 
Depois de exoavado e rebuscado, mandei outra vez aterrar o forno, 
a firn de se conservar no seu estado actual para o futuro, para alguem 
que, em eras de maior amor archeologico que o que existe hoje, 
o deseje restaurar e conservar devidamente resguardado; se eu o 
deixasse a descoberto, desappareceria em breve! 

Infelizmente n2k) encontrei moeda nenhuma que pudesse indicar 
urna data; so soube que urna vez apparecèra urna, cujo paradoiro 
porém se ignora. Em compensa9%o, depois do meu regresso a Lisboa, 
deparou-se-me no extincto Museu do Algarve, hoje encorporado no 
Museu Ethnologico Portugués, um bom pedafo de urna telha (imbrex) 
achada no mesmo sitio dos Olhos na qual se le, pelo lado de fora, 
a inscrip92U) que vae figurada em tamanho naturai na estampa junta, 

n.** 14*, que diz: qui legit, — e que fazia parte provavelmente 

de alguma sentenga sèria ou graciosa, comò outras que ha analogas, 
pertencentes a todos os tempos: cf. Corp. Inscr. Lai., iv, 2360 — , 
e que jà saiu publicada no Corp. Inscr. Lai., n, SuppL, n.° 6255-r. 
A inscripjSo foi lavrada com um ponteiro, quando a telha estava ainda 
fresca. Està é de barro vermelho, e tem de comprimente 0",56 ; de 
largura (maxima) 0",225 e (minima) 0",215; de espessura 0*",024 
(na parte mais larga) e (y",014 (na parte menos larga). Està inscripyEo 
nSo é anterior ao sec. i da Era ChristS, nem talvez posterior ao sec. ili. 
O forno e respectivo depòsito devem ascender à mesma epocha que 
ella. De mais nenhuma inscrip^So sei apparecida no beai. 

As doze amphoras que consegui extrahir, e que, comò disse, trouxe 
para o Museu Ethnologico Portugués, constituem neste urna sec^So 
importante da epocha luso-romana, por serem todas de urna localidade, 
e saidas de uma so officina. Com ellas est&o os outros fragmentos 
ceramicos e tijolos de que fallei a cima. Todos estes objectos podem 
servir de ponto de partida para o estudo de objectos analogos, e 
tambem para o conhecimento de rela^Ses que por ventura houvesse 
naquella epocha entro a esta9Eo industriai de S. Bartholomeu de 
Castro Marim, e varios pontos do pais, sobretudo do Sul. 



* Às gravuras das figs. 1, 2 e 3 scrviram de base um desenho do Sr. Hen- 
rique Loureiro, feitos com indica9oe8 e mcdidas minhas tomadas in loco, A fig. 5 
servia de base um desenho fcito pelo Sr. Gabriel Pereira. A fig. 14 foi tomada 
de um decalque da in8crip9ao. As outras figuras da estampa foram feìtas tambem 
segundo -deseuhos do Sr. Henrique Loureiro, tomados do naturai. 



336 O Archeologo Pobtdguès 



Dedicando este artigo & memoria de Francisco Silvestre de Scusa 
Rocha, cumpro um dever de saudade e de gratidio, nSo so pela intensa 
amizade que nos ligava, corno porque, se nXo fosse elle, ea nSo tinha 
realizado a exploray&o da olaria de S. Bartholomeu, nem enriquecido 
Museu Ethnologico Portugués com t&o boa collecfio de amphoras. 
Alem d'isso, durante a minha estada por essa occasi2o no Algarve, 
fiz ainda outra excava(%o, embora nSlo com tanto fruto corno està, 
visitei vàrias estaySes archeologicas, e recolhi muitos objectos, uns 
antigos, outros modernos. Tudo isto devo à bondade de Scusa Rocha, 
e ao amor que elle consagrava aos assuntos archeologicos : apesar 
de coUeccionador, n2o tinha ciumes nenhuns de que outrem colligisse 
tambem, e pelo contràrio me instigava a isso, e usava de maxima 
liberalidade e franqueza para comigo. Fique indicada aqui està feijSo 
do seu puro caracter. Como neutro artigo, aìnda come9ado em vida 
d'elle, mas que me nSo tem side possivel conduir, fallo outra vez de 
Scusa Rocha e da sua collec9So archeologica, artigo que ha-de tam- 
bem sair n-0 Archeologo Portugués, limito-me por agora a lembrar 
que de vàrias ofFertas suas ao Museu, ou por elle promovidas, se dea 
relafEo na presente revista, na secflo de «AcquisijSes do Museu 
Ethnologico», n.®' 57, 58, 97 e 98, e que à cérca de algumas moedas 
arabes da sua collec9So fallou no voi. i, 97-103, o distincto arabista 
Sr. David Lopes, num artigo especial que consagrou ao assunto. 
Scusa Rocha possuia, alem d'estas, muitas outras moedas arabes de 
prata, algumas das quaes tinha promettido offerecer-me: a morte pre- 
matura e inesperada nSo o deixou realizar o seu desejo ! 

Foi para mim dia de grande tristeza aquellè em que soube do falle- 
cimento de Scusa Rocha. Eu votava-lhe affei(&o verdadeira, porque 
a par dos servÌ90S archeologicos que me havia prestado, e me consti- 
tuiam devedor de continua gratidio, eu tinha reconhecido nelle urna 
das qualidades que mais aprecio num amigo, e que tXo raramente se 
encontram: a sinceridade. Se às pàginas d-0 Archeologo Portuguts 
està destinada alguma publicidade, e alguma dura^So nas estantes 
dos estudiosos, seja nellas lembrado o nome do amigo prestimoso e 
cidadSo excellente que se chamou Francisco Silvestre de Scusa Eo- 
cha. E perpetuando-lhe a memoria, Archeologo Portugués honra-se 
tambem. 

J. L. DE V. 



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O Abcheologo Portugués 337 

A cérca do artigo sobre Damiao de Ooes 

(Cfr. Arch. PorL, 17, 1 e 267) 

Como Sr. Joaquim de Vasooiicellos é coUaborador effectivo, e 
muito distincto, d-0 Archeologo, e existem entre elle e mim, ha 
muitos annos, rela95es amicaes, julguei do meu dever enviar-lhe ais 
provas typographicas da resposta do Sr. Guilhenne Henriques (publi- 
cada a cima p. 257), a firn de elle dizer sobre elias o que entendesse. 
Nisto nSo tive a minima iiiten9ao de ser desagradavel ao Sr. Henri- 
ques, a onjos trabalhos voto loda a estima; apenas desejei seguir a 
pràxe que os redaotores de urna revista comò està costumam seguir, 
em condÌ93es analogas, com os seus collaboradores effectivos, e ao 
mesmo tempo conservar-me fiel & amizade que me liga ao Sr. Vas- 
concellos. 

J. L. DE V. 

Eis a carta que este Sr. me escreveu: 

Meu caro amigo. 

Em poucas linhas respondo aò Sr. Henriques : 

1.® Asseguro a S. S.* que nXo tenho, nem nunca tive, «rancor 
pessoal» centra um cavalheiro que contribuiu efficazmente, por merito 
e fortuna, para esciarecer a biograpfaia de um portugués illustre, que 
veneramos. Bastava està circumstancia para desfazer essa illusSo. 
Sobre a campa de DamiXo de Goes nSo haja, pois, discordia. 

2.° Entende S. S.* que o meu artigo destoa da critica sèria e hai. 

NXo discuto gesto do Sr. Henriques. 

Foderia ser de opiniio que o seu artigo pècca por ser demasiada- 
mente gracioso e modesto, se nSlo receasse influir no animo do leitor, 
que nos julgarà a ambos. N%o o posso acompanhar em gra^a, nem em 
modestia. 

Uma vantagem indiscutivel se colheu jà. O Sr. Henriques, publi- 
cando o fac-nmile dos escudos, habilita a critica imparcial a contra- 
provar as affirma$3es que fiz relativamente aos desenhos do voi. i dos 
Ineditos. 

Creia-me, etc. 

Porto. 

Joaquim de Vasconcellos. 



338 



O Abcheoloqo Pobtugdés 



Dolmen de Esplrito-Santo d'Aroa 
(Beira-Alta) 

Em virtude da amabilìdade do illustre lente da Faculdade de 
Fhilosophia da Universidade de Coimbra, o Sr. Dr. Julio Henriques, 
posso publicar hoje n-0 Archeologo a photographia do dolmen do 
Espirito- Santo d'Arca (no districto de Viseu, Beira-Alta), visto de 
fronte, e um esbofo da pianta do mesmo. 

Na pianta, as pedras que se véem marcadas com -j* ^^ ^ ^l^^ 
snstentam a tampa do dolmen. 

Este tem de comprimente 4™,50 e de largura 3",76; a pedra 
marcada com + + ^^ ^^ altura 2"',65 e de largura 2"*,11. 



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O dolmen està num descampado, coberto de mate, nSo longe de 
uma pequena povoa^&o. A igreja fica a maior distancia. 

Farece que o monumento nfto foi ainda explorado, porque o terreno 
n%o dà indicio de ter side remexido. Eu espero explorà-lo em indo a 
Beira. 

Chama-se vulgarmente a Pedra dos Mouros. 

A denominarlo de «Arca» entra na classe que estudei nas Beli' 
gides da Lusitania, i, 254. 

J. L. DE V, 



O Archeologo Portugués 



339 



II* 




340 Archeologo Portugués 



InsoripQSo romana dos arredores de Lisboa 

A inscrip92o romana pablìcada no Corp. Inscr. Lai., n, 296, 
achada perto de Torres Yedras, fez parte da coUec(2o archeologica 
do Bario de Alcochete, antigo diplomata portugués, residente em 
Paris. Depois da morte d'elle, a coUecfio foi dispersa (por 1884), e 
a ÌQScrip9&o que, se as competentes esta95es officiaes tivessem pres- 
tado ao assumpto a devida attendilo, podia pertencer a um museu 
portugués, acha-se hoje numa collec^Io parìsiense. O Sr. Héron de 
Villefosse deu d'ella a seguinte leitura numa das sess5es da Sociedade 
dos Antiquarios de Fran9a: 

IVLIA C F ToN 
GETA • AW XX 
H S • E • IVLIA L - 
F • AMOENA • ^A 
TER F • C 

Como o Sr. De Viliefosse nota, é pequena a difFeren9a entro este 
texto e do Corpus. Vid. BuUetin de la Soc. Nat. des antìquaires de 
France, 1896, p. 350 *. 

J. L. DE V. 



Vestigios archeologicos de Babe 

N-0 Arch. Port.j III, 223, dissemos que Babe era uma povoa92o 
que ficava a cousa de 12 kilometros a nordeste e a cavalleiro de 
Bragan9a; que, vista d'està cidade, fazia lembrar o acampamento de 
um posto destacado, destinado a vigiar a raia, que corre para norte 
a pouco mais de uma legua; que tinha sido caminho seguido nas 
diversas entradas que se fizeram por este lado durante as guerras 
com o YÌzinho reino ; que a sua situa9So e posÌ9ào domìnantes se pres- 
tavam k obserya9So de um vastissimo horìzonte, dando a este ponto 
condÌ93es excepcìonaes de explora9&o longinqua; e que figurava jàna 
nossa historìa, pelo tratado que nella fez, em 26 de Mar90 de 1397, 
D. Jo%o I com Duque de Alencastro pelo qual este cedia todos os 
direi toB eventuaes que tinha sobre Portugal. 



^ Foi depois publicada pelo Sr. Httbner, in Ephemer. epigraph., VIII-3. 



Archeologo Pobtugués 341 

Foi, Sem dùvìda, ama estafio importante durante o domìnio romano, 
pois assim se deprehende dos vestìgios qua nella se véem e se tem 
encontrado. D'ella o visitante avista, um pouco a sudoeste e a 2:500 
metros, o alto da Sapeira, de 900 metros de altitude, onde ha ainda 
restos de muro de pedra solta de um ampio castro, e onde é tradi$%o 
conhecerem-se em tempo, do lado do norte, uns buracos ou forjocos 
por baixo das enormes fragas que por està parte serviam de muralha. 

Pela sua grandeza e pelo seu aspecto, dà muitas semelhan$as ao 
castro do Fremii, mais conhecido pelo Toural dos Mouros, que d'elle 
se avista para poente, na vertente da serra de Nogueira, a uma distan- 
cia talvez superior a 18 kilometros, pois que, para este lado o hori- 
zonte que se descortina d'este ponto é verdadeiramente admiravel. 



TAK- ■ ■ ., 

xux-CO 



Ainda da povoa9&o, olhando para sudeste e a uma distancia proxima- 
mente a 2:000 metros, vè-se no alto de uma collina outro castro a que 
chamam o Cercado, que domina, para norte, o valle em que existiu 
a igreja de S. Fedro Velho, cujas ruinas ainda ha pouco que desappa- 
receram de todo. Em volta d'està igreja encontraram-se sepulluras e 
outros signaes de habita9&o ; e aqui presumem os de Babe que fosse 
a primitiva povoa9ao e d'onde fossem encontrados o monumento de 
que jà tratàmos no refendo numero d Archeologo e os seguintes 
que eu descobri e fui tambem o primeiro a tornar conhecidos e que 
agora est%o no Museu. 

O primeiro é um marco miliario de granito grosseiro que està 
muito fragmentado e serviu de sepultura. Tem 1°*,70 de alto, 0"',45 
de diametro, e o corpo das lettras regula por 0*",095. 



342 Archeologo Portugués 

Na parte que se ve da inscripjRo lé-se : 

IMQ^eraO DIVI •TRAIA(m) F{aio) DIVI-NE(rv) 

[tribunicia potestate] XIIX, C0{n8uli III ) M{ilta) P((w- 

8um) XX 

Isto é : 

Ao Imperador Trajano Adriano jìlho do Divo Trajano, no 

decimo ottavo anno do seupoder tribunicioj consulpela terceira vez 

Dista tantos mil passos de 

A nossa estampa repesenta urna còpia fiel, reduzida, da inscrip(ào 
que se le no marco. 

Quando o descobrì estava junto da porta lateral da igreja, e, logo 
que publiquei nos jornaes locaes, varios individuos' trataram da 
sua decifra9ao, considerando um problema intrincado a leitura da 5.' 
linha. 

Se se conhecesse a largura da inscrip92lo, e se se tivesse a certeza 
de que o nùmero de passos, que o marco distanciava, era èxactamente 
que nella se vèem indicados, estava o problema resolvido*. 

outro monumento é urna lapide votiva de granito grosseiro e 
tem 0™,90 de alto, 0™,25 de largo e de corpo de lettras 0",05. A sua 
inscripjSo^, que a nossa estampa reproduz fielmente depois de redu- 
zida, é interpretada d'este modo : 

l{ovi) 0{ptimo) ÌIL{aximo) T. D. (ou I?) L. et P. P. 
EX VOTO 

Isto é: 

Tito D. (ou /.). L, e P. P, consagraram por voto este monumento 
a Jupjnter Optimo Maximo. 



* Entre elles o Sr. Albano Bellino nuin folheto, que' obsequìosamente me 
offerecou, intitulado Carlos eobre a Epigraphia Homana, Braga 1898. 

2 [Notarci que os DD da 3.* e 4.' linha nSo sào cortados cto centro, corno o 
Sr. Albano Bellino diz no seu opusculo, p. 16, pois D vale por DE ; as palavras 
onde este nexo entra deve ler*se DEIVI, que é urna fórma, multo conhecida, de 
DIVI. Naa proprias inscripfoes modemas se le E) por DE. — J. L. ds V.J. 

3 Foi tambem publicada no mesmo opusculo do Sr. Albano Bellino onde saiu 
errada por a ter transcrito dos jornaes locaes que a publicaram viciada em raaSo 



Archeologo Portugués 343 

Tem as lettras bem legiveis, e encontrei-a quando o miliario 
mettido na parede do adro da igreja à dìreita de quem entra. 

A lapide tem doas inscrip(3es em duas faces oppostas, o que so 
agora se vìu quando se arrancou da parede. As inscrìpjòes s&o seme- 
Ihantes. Na de urna face, a mais darà, vè>se que a 2.* lettra da 2.^ 
lìnha està assim gravada I>, de maneira que parece um I com um 



IQ/V\ 
T • I) L • 
E T- F p 

EX-VO 
T 



ponto de 8epara9%o d'està fórma ). Mas sera utn D. A outra face tem 
as lettras mais apagadas, e no sitio d'està lettra so se destingue I. 
Sera um I ou a baste do D ? Nesta face o que quiz ver foi um ponto 
entro os PP ou escripto assim : P • P. 



Se a estes vestigios accrescentarmos a tradÌ9So popular de ter por 
ali pa^sado uma grande estrada cbamada das Due^as de que ainda se 
véem signaes nos sitios de S. Pedro Velbo, Porto Caljado, etc., que 
foi, dizem, mandada fazer de proposito para vir por ella a Rainha 
Santa Izabel quando entrou em Portugal, ficamos possuindo sobejas 
provas de que Babe tem uma longa bistoria, realmente importante, 
comò mostram os seus monumentos e as suas tradÌ98eB. 

Braganja, 1898. 

Albino Pereira Lopo. 



do parecer pela inscrip^So qne estava à vista que era um D a 2.* lettra da 2.* 
linha, verificando-se depois, quando se arrancoa da parede, pela in8crip9dlo iden- 
tica, mas mais apagada, que tem na face opposta que era um I. Quer-me parecer 
que està in8erip95o tem rela9So com a das lapide funeraria de CALPVRNIVS 
a que nos referimos, em que os PP querem talyez dizer Praefectué ou Practor 
(capitSo) Praeiorianorum (dos pretórianos). 



344 O Abcheologo PorruGcÉ» 



Ciuzado de D. Joio m 




A gravara representa nm cruzado de D. Joio III, cuja descnpflo 
tei pablicada n-0 Archeologo Portuguts, iv, 63. 



Estudos sobre Troia de Setubal 

8. Edillca^Oefl de Troia 

1. Oetftrias 

Eram tanques prismaticos com base rectaogular, tendo algans que 
medi 4 metros de comprimento, S'^jTO de largara e 2 metros de altura. 
Destinavam-se provavelmente à salga e a depòsito de peixe e mol- 
Inscos marìtimoB, pelo que Ihes dào tambem o nome de scdgaddras. 

Havia bastante cuidado tanto no material comò na fórma de 
eon8truc(2o d'estes tanques, que apresentavam regolaridade perfeita- 
mente geometrica. 

O fundo de cada um d'elles era formado primeiramente por urna 
camada de alvenaria à qual se sobrepunham successivas camadas de 
opus Signinum em que os fragmentos de tijolo eram cada vez menores 
até à superficie, que offerecia estructura bastante fina: parece que 
com fim de tornar os tanques completamente impermeaveis. As 
paredes lateraes tambem eram de alvenaria e forradas interiormente 
da mesma argamassa (opus Signinum) que formava o fundo. Afim 
de fazer desapparecer as arestas dos diedros intemos d'estes tanques 
prismaticos, as faces ìnteriores eram arredondadas nos cantos ; com o 
mesmo destino havia no fundo uma especie de guarda pés formado de 
argamassa signina semelhante ao que se usava nas casas de habìtagSo. 



O Archeologo Portugués 



345 




346 O Archeologo Pobtuoués 

Parece-me que o objectivo que se tinha em vista, fazendo-se 
desapparecer todas as reintrancias mais agudas dos tanques, consistia 
em facilitar a extrac9%o dos objectos qne as cetarìas eram destinadas a 
guardar. Nas paredes d'estes tanques nSo se encontra o menor orificio 
por onde se pudesse fazer o exgoto de qualquer liquido. Junto de alguns 
d'elles véem-se ainda P0908, talvez destinados a fornecer àgoa para 
serem lavados. 

Havia em Troia grandes e numerosos grupos d'estes tanques, corno 
aquelles cujas ruinas se vèem na fig. 1', que s&o contiguos uns aos 
outros, corno as cellas dos favos das abelhas. Tambem apparecem 
isolados e em pequenos grupos de dois a quatro; mas estes ficavam 
no rez-do-chfto de algumas casas e eram talvez destinados a conservar 
alimentos para o consumo dos habitantes d'essas casas. 

Tem-se encontrado dentro das cetarias e junto d'ellas grande 
quantidade de espinhas de peixes e cascas de moUuscos, principal- 
mente de murex brandaris e murex trunculiis de que na antiguidade 
se extraia a purpura. 

Tudo me leva a crer que os grandes grupos d'estes tanques eram 
destinados A conserva em salmoura e depòsito de grande quantidade 
de peixe e moUitscos para exporta9lLo, que devia constituir a prin- 
cipal fonte de riqueza da antiga cidade romana. 

Em vista da grande quantidade de murex brandans e murex truxi- 
culus que se encontra proximo de algumas cetarias, talvez tambem 
a industria da extrac9ao da purpura que se fazia d'aquelles moUuscos 
nSo fosse estranha ao destino das ditas cetarìas. 

K&o é so em Troia que se encontram cetarias. Tambem na margem 
direita do Sado, na quinta da Commenda, junto da foz da ribeira da 
Ajuda, proximo do forte de Mouguellas, a 4 kilometros de Troia, se 
encontram salgadeiras construidas do mesmo modo que as de Troia. 
Nfto muito longe do forte de Mouguellas e proximo da foz da ribeira 
da Rasca tambem em 1891, se descobriram c§tarias na occasilo em 
que se abriu a estrada para OutSo. Estes tanques, cujos vestigios 
ainda se veem no talude da trincheira da dita estrada, estSLo collo- 
cados a cima do nivel do mar uns 12 metros, o que nsLo acontece em 
Troia e na foz da ribeira da Ajuda, onde por effeito da descen9So do 
solo de que adeante fallarci, grande parte das cetarìas se encontram 
abaixo do nivel da preamar. 



' As figs. 1, 2 e 3 foram feitas segundo photographia do Sr. Maximiano 
ApoUinario 



O Archeologo Pobtoocés 



347 




348 O Arch£Olooo Pobtugdéb 



3. P090S 

Juuto de algumas cetarias encontram-se vestìgìos de empedra- 
mentos de P090S. 

A construcySo qiie se ve na fig. 2, e que alguns teem supposto um 
pharol, dìo é mais do que empedrado de um d'esses po$08, que 
affecta hoje a fórma de uma columna tubular; por ter sido desater- 
rada a parte inferior por effeito do embate das àgoas do Sado no 
terreno em que pofo era feito, comò adeante fie vera na fig< 6. So 
uà parte superior d'està columna, destinada a servir de guarda da 
bocca do P090, se nota regularidade na superficie exterior, por ser 
feita para tìcar fora da terra. A superficie inferior é muito irregular, 
porque ficava enterrada. 

3. Hnbita^Òes 

A fig. 3 é còpia de uma photographia e representa a perspectiva das 
ruinas de algumas das muitas habitafSes que bavia na antiga cidade 
romana. Nesta perspectiva ponto de vista é do lado do Sul. As 
figs. 4 e 5, cujos desenhos sao do meu Ex.*"^ amigo e collega Manoel 
José de Aguiar Trigo, representam respectivamente a pianta e al^ado 
da frontaria das mesmas casas vistas do lado do norte. Estas casas 
tinham alem do rez-do-chXo um primeiro andar. O pavimento do pri- 
meiro andar era de argaraassa signina assente em tijolo e este em 
um vigamento. Neste pavimento e junto das paredes lateraes de cada 
compartimento das casas, havia um guarda^ pés feito da dita arga- 
massa e de que ainda se véem vestigios. Apesar de nestas liabita$oes 
apparecer nalguns compartimentos reboco, parece-me que na sua pri- 
mitiva construc92U) nXo eram rebocadas, attendendo aos omatos for- 
mados por series lineares de pequenas pedras semelhantes és que 
serviam para os mosaicos e que, incrustadas na argamassa da alve- 
naria, seguiam as juntas das pedras exteriores cuja superficie ficava 
a vista. 

Xestas casas nSo vejo indicio do lugar do atrium tio vulgar nas 
habitafSes romanas. 

Creio que està casa era das menos sumptuosas, visto que na antiga 
cidade deviam habitar familias ricas, talvez de exportadores de peixe 
e que viviam com certo conforto e luxo, comò provam as thermas, 
columbarium e outros edificios. 

Noutras casas vè-se que pavimento era revestido de mosaico. 

As habita93es formavam quarteirSes separados por meio de estrei- 
tissimas ruas, cuja largura é nalgumas apenas de l'^ySò. 



O Archeologo Poktugués 



349 



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350 O Archeologo Pobtdgués 



Quasi todas as edificagSes de Troia e que, com mais ou menos 
fundamento, se suppòem serem da antiga Cetohriga^ se encontram hoje 
soterradas em muitas camadas de areia e de fragmentos das minas 
da antiga cidade, corno se ve em e, d , c'\ na fig. 6. 

Observando bem essas camadas, ve- se que os elementos que as 
constituem nSo podiam ahi ser levados pela acfSo dos agentes atmos- 
pherìcos; em primeiro lugar povque na sua maior parte tem péso 
incompativel com o movimento que esses agentes Ihes poderiam com- 
municar, e em segundo lugar porque se acham dispostos em camadas 
horizontaes, perfeitamente estratificadas. 

Parece-me nSLo haver dùvida de que so as àgoas do mar, inundando 
toda a antiga cidade, poderiam em epochas successivas ir desman- 
chando as construc98es, fracturando de encontro uns aos outros os 
milhares de objectos de que os antigos habitantes tinham feito uso, 
e emfim, espalhando tudo de mistura com a areia numa.camada sedi- 
mentar perfeitamente horizontal, a que, logo que o mar submergìsse 
mais solo primitivo, se seguia a forma$&o de outra camada com os 
differentes elementos que as ruinas da cidade iam fornecendo. 

Num dos cortes feito no terreno que cobre as ruinas podem obser- 
var-se de baixo para cima as seguintes camadas, com espessoras 
variaveis, sondo nas inferiores de 0"*,1 e nas superiores pouco mais 
ou menos de 0™,4 : 

1.* Formada de fragmentos de lou^a de barro saguntino, de cacos 
de amphoras, potes, tijolos e areia; 

2.* Formada de molluscos da purpura (murex hrandaris e murex 
trunculus); 

3.* Formada de fragmentos de tegulaa, imòrices e areia; 

4.* Por seixos rolados de quartzo e areia; 

5.* Por areia, cinzas e carvio vegetai. 



Pondo de parte a hypothese de que o nivel dos mares subiu de 
mais de 15 metros para tornar a descer, o que nio é admissivel, 
visto que nesse caso devia succeder às outras cidades do littoral o 
mesmo que succedeu a situada em Troia, sou levado a admittir com 
uma probabilidade muito proxima da certeza: primeiramente, que o 
solo da Troia soffreu uma descen9ào, que talvez desse origem ao 
abandono e destruif^k) da cidade que noutros tempos ahi floresceu; 



O Abch£Ologo Pobtugués 351 

em segando lugar, qué depois de a antiga cidade estar largo tempo 
mergulhada no oceano, o solo se elevou outra vez, emergindo de novo 
a cidade do seio do mar, mas, da fórma que se ve, destruida pela 
ac(So das àgoas, e coberta com camadas estratificadas de areia de 
envolta com os proprios destrofos e os de milhares de productos da 
actividade dos sens antigos habitadores. 

De todoB estes movimentos jà dei noticia na Gazeta Setubcdense, 
n.^« 1033 e 1034, de 10 e 17 de Marjo de 1889. Um facto que' se 
deve notar é a ausencia nos sedimentos que cobrem as ruinas de 
ossos humanos, o que me faz julgar que a cidade foi abandonada 
lentamente. Os raros objectos de valor intrinseco ahi encontrados 
nao abonam sufficientemente qualqner hjpothese de destrui^Xo repen- 
tina, pois que sempre se lem achado objectos de valor nas ruinas de 
povoajSes abandonadas. 



Para melhor se comprehenderem as vicissitudes por que tem pas- 
sado terreno de Troia, e a maneira corno essas vicissitudes influiram 
nas edifica95es da antiga cidade, de fórma que produzissem as ruinas 
que ahi se véem, damos o desenho, na fig. 6, de urna secjSo vertical 
feita na direc^So de NE.-SW., sobre as ruinas e através da peninsula 
de Troia. Neste perfil representam: 

A, A', A!\ A'^L — Solo da antiga cidade que esteve largo tempo 
inundado. A parte A, A', A'", d'este solo, acha-se actualmente 
coberto por camadas sedimentares, entro as quaes se encontra a 
msdoria dos destrogos da antiga cidade. A parte A, A' desappareceu 
por ter sido removida por effeito do embate das àgoas do Sado, dando 
origem a que algumas das ruinas, comò as cetarias a, faltando-lhes o 
ponto de apoio dos seus alicerces, decaissem para o solo actual S, S', 
neste ponto de nivel inferior ao primitivo, e que outras se vejam nos 
seus fundamentos corno se observa no P090 p, em que se ve uma 
grande parte do empedrado antes enterrado, no solo A, A'. 

N, N'. — Nivel da preamar antes da immersio do solo A, A!, A\ 
A", e da inunda9&o e destrui$So da antiga cidade. 

a, b, e, d. — Cetarias ou salgadeiras em fórma de tanques, desti- 
nadas a depòsito e salga de peixe e molluscos. Umas d'estas cetarias, 
taes corno b, e, d, estSo ainda no solo primitivo A, A', A"; outras 
taes comò a, b, tem-se desmuronado e caido sobre solo actual S, S', 
por primitivo A, A ser desaggregado pelo embate das àgoas do 
mar. 



352 



O Archeologo Portugués 



jp. — Erapedramento de um po^o (fig. 2) ém parte descoberto 
ter sido o terreno em qne era feito arrastado pelas àgoas do 

h, h!y h", etc. — Paredes de habita93es, columbarios, ther 
ruas, etc, tudo sob camadas de sedimentò perfeitamente estr 
cadas pela ac92o das àgoas na epoeha da inunda9So, quando o1 
A, A, A", A'", por eflfeito da descenfXo a baixo do preamar 

I, T. — Nivel do preamar do tempo da immersfto do solo pr 
A, A', A^ , A" de Troia, e da inunda9So e destruÌ9ao da 
cidade. 

Cy e', e", etc. — Camadas sedimentares e estratificadas for 
por areia, e destro9os de objectos da industria humana. Estas cai 
foram aqui depositadas pelas àgoas do mar a medida que se 
immersSo do solo A, A , A" de Troia, e o nivel do mar ficou 
PO8Ì920 relativa I, T. 

P, P. — Preamar actual. 

B, B. — Baixamar actual. 

S, 8% aS", /S'"'. — Solo actual, formado na parte S, S\ a bai: 
preamar pelo deaatérro devido ao embate das àgoas do Sade no { 
primitivo A, A, e na parte 8\ S*', 8"^ a cima do mar, formado 1 
as camadas sedimentares, pela areia ahi levada pela ac92o do ve 



NSo é so em Troia que se podem estudar os movìment 
ascen92o e descen9fto do solo, movimentos que tSo conhecidos 1 
nas costas da Escandinavia e da Italia. Supponho que, pelo me 
sul da peninsula da Arrabida tem participado d'esses movimed 
de cujos effeitos se encontram vestigios, ainda que menos claroi 
que em Troia, na maneira comò foram soterradas as cetarias da 
da ribeira da Ajuda, na Commenda, e tambem comò foram 
pelas àgoas do mar algumas grutas que se encontram no litt 
desde Outfto até Cezimbra, designadamente a bem conhecida 
nome de Santa Margarida, na Arrabida. 



Com estas indica93es julgo satisfazer em parte ao convite 
pelos Srs. Paul Choffat e J. Leite de Vasconcellos no n.® 12, 
voi. II, d-0 Archeòlogo Portaguès, p. 301. 



A. J. Marques da Costa. 



INDICE 



ACQUISI^OES do Musen Etimologico Portugaés : 241. 

ANTIOUIDADES LOCAES: 

I. — Por ordem chronologica 
A) Prehigtorieas: 

Dois xnacbados de bronze : 88 (com gravura), 241. 

£8ta9So de Alcalar : 97. 

Antas do Alemtejo : 157. 

Antae do concelho de Alijó (com estampa) : 180. 

Antas de Alcacer do Sai : 106. 

Antas doB arredores de Evora: 127. 

Anta da Boa-Viagem: 275. 

Anta do Espirito-Santo d*Arca (com estampa) : 338. 

C) Lnso-romaiiA: 

Contrìbuicòes para a historia da pesca em Portugal (com gravura): 53. 

Vaso romano de Lagos (com gravura) : 96. 

RestOB romanos do Alemtejo : 158. 

Thermas de Milreu (-com estampa) : 158. 

Restos romanos de SinfEes : 254. 

Restos romanos de Alcacer do Sai : 106. 

Restos romanos dos arredores das Alcà90vas: 119. 

Necrdjpole de Montemór-o-Velho: 275. 

Autigualhas do Algarve (com estampa) : 280. 

Objectos do Alemtejo (com estampa) : 288. 

01 aria luso-romana de S. Bartholomeu de Castro Marim : 329. 

Estudos sobre Troia de Setubal (com estampa) : 344. 

23 



354 Archeologo Pobtcqués 

F) PortayueMB propriamente ditast 

Atalaia da Candaira (com gravura) : 76. 

O cemiterìo da Igreja Yelha (Alvaiàzere) : 81. 

Fabrica de lou9a do Rato : 161. 

O territorio de Aneja : 193. 

A freira das m2o8 cortadas : 226. 

A igreja de Cette : 254. 

Casa onde nasceu Bocage : 329. 

6) De diverMB epocluui e de epochas IndetermiiiAdABi 

Estudos sobre Troia de Setubal: 18 e 223. 

EzcursSo archeologica ao Sul de Portugal (com gravuras e estampas) : 

103. 
YestigioB arcbeologicos dos arredores de Pombal : 238. 
Antigualbas dos arredores de Alcacer: 111. 
Antigualbas dos arredores do TorrSo: 114. 
Antigualhas dos arredores de Evora : 126, 130 e 134. 
Sepultura de Pombeiro : 277. 
Insculpturas em rocha: 289. ' 

Vide Cabtros. 



II. — Por ordem geognfaphica 

A) Alemtejot 

Alca9oyas: 117. 

Beja: 288. 

Elvas (in8crìp9fto) : 137. 

Evora e arredores: 121 e 149. 

Evora- Monte: 150. 

Extremoz (vària) : 147. 

Freixo (Evora) : 127. 

Gavifto («minas») : 317. 

QemeoB : 318. 

Godinba90s : 318. 

Guizo : 318. 

Torrio: 114. 

Tourega; 130. 

B) Algarvet 

Alcalar : 97. 

Alcoutim: 56,281. 

Estoi: 145 (ruinas), 158 (themas). 

Estombar (ruinas) : 146. 

Faro: 245. 

Marim (moedas romanas): 102. 

S. Bartbolomeu de Castro Marim : 329. 

Salir: 280. . 

Tavira: 56. 



Archeologo Pobtugués 355 



C) Beirat 

Anegia: 193. 

Boa-Viagem: 274. 

Coimbra: 156 (museu), 226 (a fìreira das mSos cortadas). 

Conimbriga: 151, 304. 

Donas (igreja): 135. 

EscalhSo (vana) : 142. 

Eflcamarào (pedra lavrada) : 142. 

Esmoriz (mudan9a de confignra9lo da praia) : 143. 

Espichel (in8crip9So) : 144. 

Espirito-Santo d'Arca: 338. 

Ester («Mouros») : 145. 

Facundo (S.) (iii8crìp9So) : 150. 

Fafl («Mouros») : 152. 

Feira (m8crip93o) : 246. 

Ferreira de Ares («cidade») : 248. 

Ferreiròs (vAria) : 249. 

Fornellos (castro) : 315. 

Fomos (forno antigo) : 233. 

Fozcda («castello») : 315. 

Freixedas : 316. 

Golpelbares : 318. 

6on9alo : 319. 

Gondomil : 319. 

Gnardao: 320. 

Fiaes («Mouros») : 219. 

Figaeira da Foz : 93. 

Folhadosa: 252. 

Fontello (v&ria) : 253. 

Idanha: 79 (moedas romanas), 279 (inscrip^fto), 321 (vària). 

Ubavo (vària) : 323. 

Janeiro de fiaixo : 320. 

Lamego (fabrìco de moeda) : 49. 

Montemór-o-Yelbo: 275. 

Serra do Cabo Mondego (prebistoria) : 255. 

SinfSes (restos romanos) : 254. 

Viseu (vària) : 238. 

D) Entre-Donro-e-Minho : 

Adaufe: 100. 
AnegU: 193. 

Arcos-de-Val-de-Vez: 289. 
Cette (igreja) : 254. 
Donim (citania): 135. 
Domellas («Mouros»): 136. 
Dume (vària) : 136. 
Eira- Vedrà (penedo) : 137. 
Eiriz (citania): 137. 



356 O Archeologo Poetugués 

Eflcariz («Mouros») : 143. 

Escoural (covas) : 143. 

Esposende (mudan^a de configura92LO da praia) : 144. 

Esqueiros (a castello») : 144. 

EsturSes («castello») : 148. 

FSo: 245. 

Favoes : 246 

Ferreiros (vària) : 249. 

Ferven9a («castello») : 250. 

Fiaens-do-Rio (minas) : 250. 

Figueiredo (vària): 251. 

Ferrcira (cìtania) : 251. 

Folhada (vària) : 252. 

Fonte-Arcada (fojas) : 253. 

Freixo («cidade») : 316. 

Gali afura (mÌDas) : 317. 

GallegoB («castello») : 317. 

Gandra (muros) : 317. 

Guifoes: 270,320. 

Pombeiro : 277. 

Ponte-da-Barca : 241. 

S. Miguel-o-Anjo : 231. 

Tavora de Arcos-de-Val-de-Vez (com gravura) : 89. 

E) Extremadara: 

Alcacer-do-Sal e arredores: 103. 

Alemquer (Damilo de Goes) : 1. 

Alvaiàzere: 81. 

Cadaval:242, 243e244. 

Enxara-do-Bispo (vària): 141. 

Erra (inscrip^ilo) : 142. 

Faraalicilo («castello»): 153. 

Igreja-Nova («cidade») : 322. 

JuDcal : 242. 

Lisboa 161 : (fabrica do Rato), 309 (antiguidades romanas), 310 (iden))i 

311 (idem), 340 (inscripyào). 
Porto-de-Mós: 242. 
Montejunto: 308. 
Setubal : 276. 
Troia de Setubal : 18 (vària), 223 (inBcrip96eB), 344 (cetarias). 

F) Tras-os-Montes : 

Atalaia da Candaira : 76. 
Babe (epigraphe) : 340. 
Bragan9a (muscu) : 153 e 253. 
Cimo de Villa da Castanheira : 312. 
Domellas (crasto) : 135. 
Ermello (minas) : 142. 
Espinhosella (marco) : 144. 



Archeologo Portugdés 357 

Estevaes («Mouros») ; 145. 

Folgueiras (minas): 248. 

Figueira («Mouros»») : 251. 

Fiolhoso («castello»): 251. 

Franca: 316. 

Frechas : 316. 

Granja : 319. 

Parafila de Alijó (anta) : 180. 

Rabal de Bragaii9a (castro) : 87. 

Sacoias de Bragan9a (castro, com ostampa) : 47. 

6) Ilhas-Adjaeentes : 

A9ore8 : 49 (fabrico de moeda), 282 (uioedas estrangeiras). 

BIBLIOGRAPHIÀ: 

Bevue Belge de Numismatigue: 155 e 206. 
Beirigfa de Guimaràes: 239. 
In Northern Spain, 266. 

BIOGBAPHiAS: 

CoUecciouadores de objectos antigos : 
Valerio Finto de Sa (breve noticia) : 101. 
Antonio José de Mello (breve noticia) : 102. 

CASTROS: 

De Sacoias (com um mappa) : 47. 

De Rabal : 87. 

De S. Miguel-o-Anjo (com gravura) : 231. 

De Gaifues : 270. 

CIRCULARES sobre archeologia: 

Do Rev.''" Bispo de Bragan9a : 58. 

Da Associacao dos Architcctos e Archeologos: 84. 

DAMliO DE GOES : 1, 257 e 337. 

EPiGRAPHIA: 
A) Komana: 

1. Lapxdabes: 

Inscrip9ào de um Pacense : 157. 
Inscrìp^So de Troia : 224. 
Jnscrip9Òes de Alcacer: 105 e 106, 
Inscrip9ao da Serra das Alca^ovas: 119. 
Inscrip9ào dos an-edores de Lisboa ; 340. 
Inscrip9£o de Babe : 340. 

2. Mabcas fioulimas : 

De Alcacer: 106. 



358 O Abcheologo Portugués 

B) spoeta ambe: 

De Alcacer do Sai : 110. 

C) Inscripfio latina da epoeha poriafvasa: 

De Coimbra: 229. 
De Evora: 124. 
DeMelga9o: 264. 

D) Portafaesa: 

Arredores de Evora : 130. 

ERBATAS: 117, 256 e 288. 
EXTRACTOS: 

A) Notfeias archeolo^cas: 

Das «Memorìas Parochiaes de 1758*: 135 e 245. 

B) Maxlmas e reflazòet: 

De Fr. Manoel do Cenacalo: 180. 
De Fr. Loaren9o do Valle: 276. 

HISTOBIA DA ARCHEOLOOIl PORTUGUESA: 

A) Blbllorraphla; 

B) Blographias; 

C) Soeledadee; 

D) Clrealaret sobre archeolof la, 

MUSEU9: 

Ethnologico Portagués : 

De SèvrcB (faian^as portuguesas) : 45. 

De Alcacer : 105. 

De Evora : 121. 

Municipal de Bragan9a : 153 e 253. 

Do Insti tato de Coimbra: 156. 

De Artilharia: 157. 

De Cenacalo em Beja (sec. xviii) : 283. 

HOTtCIAS YlRUS: 

De Ceata e Tanger : 46. 

Notas de archeologia artistica : 64. 

Madan9a de nivel do oceano : 62, 143 e 144. 

Objectos de arte : 98. 

Archeologia do secalo passado : 100. 

Urna funeraria : 156. 

Monnmentos nacionaes : 156. 

Descobrimento archeologico : 255. 

Excarsfto & Serra do Cabo Mondego : 255. 



O Archeologo Postugués 359 



NUMISMATICA: 

A) BomaiiA: 

Moedas acbadas na Idanha : 79. 

B) Wl8i90thieat 

Achado de moedas : 277. 

C) Portornesa: 

Fabrico da moeda e estatistica monetaria do sec. xti : 49. 

Casa da moeda (proposta) em Angra : 51. 

Casa da moeda em Lamego : 52. 

Moeda cunhada em Lisboa no sec. xyi : 53. 

Cruzado de D. JoSo III : 63 e 344. 

Coup d*ODÌl sur la Numismatique en Portugal : 65. 

Meio-tostSo de D. SebastiSo : 78. 

Um numisma da 1.* dinastia: 178. 

Um problema numismatico : 225. 

Um ensaio monetario : 273. 

Moedas estrangeiras nos A9ores : 282. 

D) Factos dif ersos : 

Museu de Alcacer: 110. 
Collec9des de Evora: 125 e 126. 

PROTECCÌO DADA PELOS tìOTEBNOS, CORPORA^'OES OFFICIAES E 
INSTITUTOS SCIENTIFICO» 1 ARCHEOLOGIA: 

9. Acquisiyoes do Museu de Madrid : 95. 

10. Monetario da Bibliotbeca Nacional de Paris : 95. 

11. Antiguidades de Malhorca: 222. 

12. Museu Nacional de Atadrid : 222. 

13. Ruinas de Italica: 222. 

Compara9ào com o qne succede em Portugal : 222. 

14. Museu de Constantinopola : 314. 

SOCIEDADES: 

Arcbeologica da Figueira: 93, 255, 267 e 274. 



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EXPEDIENTE 



Archeologo Portugues publicar-se-ha mensalmente. Cada nùmero 
sera sempre ou quasi sempre illnstrado, e n2U> conterà menos de 16 
pagìnas ìn-8.^, podendo, quando a affluencia dos assumptos o exigir, 
conter 32 paginas, sem que por isso o prego augmente. 

PREQO DA ASSIGNATURA 

(Pagamento adeantado) 

Anno 1^5500 réis. 

Semestre 750 » 

Numero avulso IGO » 

Estabelecendo este modico prego, julgamos facilitar a propaganda 
das sciencias archeologìcas entro nós. 



Toda a correspondencia à cérca da parte litteraria d'està revista 
deverà ser dirigìda a J. Lette de Yasoonoellos, para a Biblio- 
theca Nacional de Lisboa. 

Toda a correspondencia respectiva a compras e assignaturas 
deverà, acompanhada da importancia em carta registada ou em vales 
de correio, ser dirìgida a J. A. Dia43 CoelllO, para a Imprensa 
Nacional de Lisboa. 



A venda nas principaes livrarias de Lisboa, Porto e Coimbra. 



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Nov 11 vòn 



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